 SIDNEY SHELDON
E TILLY BAGSHAWE
DEPOIS DA
ESCURIDO
Traduo de
MICHELE GERHARDT MACCULLOCH
EDITORA RECORD
2010
Para Kerstin e Louis Sparr.
Com amor.
A cobia, por falta de palavra melhor,  boa.
Ter cobia  certo.
A cobia funciona.
A cobia esclarece, penetra e captura a essncia do esprito
evolutivo.
A cobia, em todas as suas formas  cobia de vida, de
dinheiro, de amor, de conhecimento , marcou o
surgimento da humanidade.
GORDON GEKKO, EM WALL STREET, PODER E COBIA, 1987
PRLOGO
NOVA YORK, 15 DE DEZEMBRO DE 2009
O DIA DO ACERTO de contas tinha chegado.
Os deuses haviam exigido um sacrifcio. Um sacrifcio
humano. No tempo da Roma Antiga, quando a cidade estava
em guerra, lderes inimigos capturados eram estrangulados
em rituais no campo de batalha em frente  esttua de
Marte, o deus da guerra. Hordas de soldados comemoravam
e gritavam no por justia, mas por vingana. Por sangue.
Aqui no era a Roma Antiga. Era a Nova York atual, o
corao pulsante da Amrica civilizada. Mas Nova York
tambm era uma cidade em guerra. Era uma cidade cheia de
sofrimento, de pessoas furiosas que precisavam de algum
para culpar por sua dor. Hoje, o sacrifcio humano
aconteceria no Tribunal de Justia Criminal de Manhattan.
Mas no seria menos sangrento por isso.
Normalmente, as equipes de TV e hordas de espectadores
abominveis apareciam apenas para assistir aos julgamentos
de assassinos. Hoje, a r, Grace Brookstein, no tinha
matado ningum. No diretamente. Ainda assim, havia
muitos nova-iorquinos que adorariam ver Grace Brookstein
ser condenada  cadeira eltrica. O filho da puta do marido
dela tinha enganado todos eles. Pior, ele tinha trado a
justia. Lenny Brookstein  que apodrea no inferno 
tinha debochado dos deuses. Bem, agora os deuses
precisavam ser satisfeitos.
O homem responsvel por satisfaz-los  promotor Angelo
Michele, representante do povo  olhou para o outro lado
do tribunal, para sua vtima. A mulher sentada  mesa dos
rus, as mos calmamente cruzadas  sua frente, no parecia
uma criminosa. Loura e frgil, com 20 e poucos anos, Grace
Brookstein tinha as feies doces e angelicais de uma
criana. Uma ginasta premiada em sua adolescncia, ela
ainda tinha o porte de uma bailarina, a coluna ereta como
uma vara, mos que gesticulavam com leveza e fluidez.
Grace Brookstein era frgil. Delicada. Linda. Era o tipo de
mulher que os homens instintivamente queriam proteger.
Ou seria se no tivesse roubado 75 bilhes de dlares, na
maior e mais catastrfica fraude da histria dos Estados
Unidos.
O colapso do Quorum, um fundo de hedge iniciado por
Lenny Brookstein, do qual sua jovem esposa era scia, fora
um golpe mortal na j abalada economia do pas. Juntos, os
Brookstein arruinaram famlias, destruram indstrias
inteiras e deixaram o ento poderoso centro financeiro de
Nova York de joelhos. Eles roubaram mais do que Madoff,
mas no era isso o que mais doa. Diferentemente de
Madoff, os Brookstein no roubaram dos ricos, mas dos
pobres. Suas vtimas eram pessoas comuns: idosos, pequenas
instituies de caridade, trabalhadores, famlias de operrios
que lutavam para sobreviver. Pelo menos um jovem pai de
famlia que ficou desempregado por causa do Quorum se
matou, incapaz de suportar a vergonha de ver seus filhos
jogados nas ruas. Em nenhum momento Grace Brookstein
demonstrou o menor remorso.
 claro que havia aqueles que diziam que Grace Brookstein
no era culpada dos crimes que a levaram ao tribunal. Que
foi Lenny Brookstein, e no sua esposa, quem planejou a
fraude do Quorum. O promotor Angelo Michele abominava
essas pessoas. Liberais de corao mole. Ela sabia de tudo.
Tolos! Vocs acham que a esposa no sabia do que estava
acontecendo? Ela sabia de tudo. Mas no se importava. Ela
gastou os seus fundos de penso, as economias que vocs
fizeram durante toda a vida, o dinheiro da faculdade de seus
filhos... Olhem para ela agora! Est vestida como uma
mulher que no d a mnima para o fato de vocs terem
perdido suas casas.
Durante o julgamento, a imprensa dera uma cobertura
especial para as roupas de Grace Brookstein no tribunal.
Hoje, para escutar o veredicto, ela escolhera um vestido
branco Chanel (7.600 dlares), casaco de buel combinando
(5.200 dlares), sapatos de salto alto (1.200 dlares) e bolsa
(18.600 dlares), ambos Louis Vuitton, e um lindo
sobretudo de vison, feito  mo especialmente para ela em
Paris, um presente de aniversrio de casamento do marido.
A primeira edio do dia do New York Post j estava nas
bancas. Acima de uma fotografia de corpo inteiro de Grace
Brookstein chegando ao tribunal, a manchete da primeira
pgina dizia: QUE APROVEITEM ENQUANTO PODEM!
O promotor Angelo Michele pretendia acabar com os dias
de luxo de Grace Brookstein. Curta o seu casaco de pele,
madame. Esta vai ser a ltima vez que vai usar um desses.
Angelo Michele era um homem alto e magro de 40 e poucos
anos. Usava um terno simples da Brooks Brothers e o cabelo
escuro e grosso esticado para trs at brilhar no alto da
cabea como um capacete preto e reluzente. Angelo
Michele era um homem ambicioso e um chefe temido 
todos os promotores juniores morriam de medo dele , mas
era um bom filho. Seus pais eram donos de uma pizzaria no
Brooklyn. Ou tinham sido donos at que Lenny Brookstein
"perdera" as economias deles e os forara a decretar falncia.
Graas a Deus, Angelo ganhava bem. Sem sua renda, os
Michele estariam sem teto na velhice, sem nada, como
tantos outros trabalhadores americanos. Na opinio de
Angelo Michele, priso era muito pouco para Grace
Brookstein. Mas era um comeo. E ele seria o homem que a
colocaria l.
Sentado ao lado de Grace na mesa do ru estava o homem
que tinha a obrigao profissional de impedi-lo. Francis
Hammond III, ou "Big Frank", como era conhecido pela
comunidade jurdica de Nova York, era o homem mais
baixo do tribunal. Com 1,60m, ele era pouco mais alto do
que sua pequena cliente. Mas a inteligncia de Frank
Hammond era muito maior que a de seus oponentes, era a
de um gigante. Um advogado de defesa brilhante com a
mente de um mestre do xadrez e a moral de um lutador
srdido, Frank Hammond era a grande esperana de Grace
Brookstein. A especialidade dele era jogar com os jurados 
revelando medos, desejos e preconceitos que nem eles
prprios sabiam que tinham  e tirar vantagem disso em
prol de seus clientes. Apenas no ano anterior, Frank
Hammond fora responsvel pela absolvio de dois chefes
da mfia assassinos e um ator molestador de menores. Todos
os seus casos eram famosos, e sempre, no incio do
julgamento, acreditava-se que seus clientes seriam
condenados. No incio, Grace Brookstein contratara outro
advogado para represent-la, mas seu amigo e confidente
John Merrivale insistira que ela o dispensasse e contratasse
Big Frank:
        Voc  inocente, Grace. Ns sabemos disso. Mas o res-
tante do mundo no. A m-mdia quer v-la enforcada e
esquartejada. Frank Hammond  o nico que pode virar esse
jogo. Ele  um gnio.
Ningum conseguia entender por que Big Frank permitia
que Grace Brookstein aparecesse todo dia no tribunal com
roupas to escandalosas. As roupas dela pareciam feitas para
enfurecer ainda mais a imprensa, sem mencionar o jri.
Certamente um erro titnico?
Mas Frank Hammond no cometia erros. Angelo Michele
sabia disso melhor do que ningum.
A loucura dele tem uma lgica. Tem que ter. Eu s gostaria
de saber qual .
Ainda assim, isso no importava. Era o ltimo dia do
julgamento e Angelo Michele tinha certeza de que
construra um caso incontestvel. Grace Brookstein cairia.
Primeiro na cadeia. Depois no inferno.
GRACE BROOKSTEIN ACORDARA naquela manh no quarto de
hspedes da casa dos Merrivale sentindo-se em paz. Sonhara
com Lenny. Estavam na propriedade que tinham em
Nantucket, que sempre fora a casa preferida de Grace dentre
suas tantas manses multimilionrias. Eles estavam
caminhando pelo jardim de roseiras. Lenny segurava sua
mo. Grace podia sentir o calor de sua pele, a aspereza
familiar de suas mos.
        Vai ficar tudo bem, minha querida. Tenha f, Gracie.
Tudo vai dar certo.
Ao entrar no tribunal naquela manh, de braos dados com
seu advogado, Grace sentira o dio da multido, centenas de
pares de olhos perfurando suas costas. Escutara os
xingamentos. Piranha. Mentirosa. Ladra. Mas agarrou-se 
paz interior,  voz de Lenny dentro de sua cabea.
Vai ficar tudo bem.
Tenha f.
John Merrivale dissera a mesma coisa ao telefone na noite
anterior. Graas a Deus, ela tinha John! Sem ele, Grace
estaria completamente perdida. Todas as outras pessoas
tinham-na abandonado na hora em que mais precisara, seus
amigos, at as prprias irms. Ratos em um navio afundando.
Foi John Merrivale quem forou Grace a contratar Frank
Hammond. E agora Frank Hammond a salvaria.
Grace assistiu com ateno s concluses finais daquele
pequeno homem impetuoso, andando de um lado para o
outro na frente do jri como um galo em uma fazenda. Ela
entendia apenas fragmentos do que Hammond estava
dizendo. Os argumentos legais estavam acima de sua
compreenso. Mas ela tinha certeza de que seu advogado
conseguiria absolv-la. Ento, e s ento, o trabalho dela
comearia de verdade.
Sair livre do tribunal  s o comeo. Ainda tenho que
limpar o meu nome. Eo de Lenny. Deus, como sinto
saudades dele. Por que Deus o tirou de mim? Por que isso
tudo tinha que acontecer?
Frank Hammond acabou de falar. Agora era a vez de Angelo
Michele.
 Senhoras e senhores do jri. Nos ltimos cinco dias,
vocs escutaram muitos argumentos legais complexos,
alguns deles de mim, outros do Sr. Frank Hammond.
Infelizmente, tinha de ser assim. O tamanho da fraude no
Quorum: 75 bilhes de dlares...
Angelo Michele fez uma pausa para deixar a grandeza do
nmero ser absorvida. Mesmo depois de tantos meses de
repetio, o tamanho do roubo dos Brookstein no deixava
de chocar.
        ... mostra que, pela sua prpria natureza, este caso 
complicado. E o fato de grande parte desse dinheiro ainda
estar desaparecido o torna ainda mais complicado. Lenny
Brookstein era um homem perverso. Mas no era burro.
Nem sua esposa, Grace Brookstein,  uma mulher burra. O
rastro que deixaram no Quorum  to complexo, to
impenetrvel, que a verdade  que talvez ns nunca
recuperemos esse dinheiro. Ou o que sobrou dele.
Angelo Michele olhou para Grace com puro dio. Pelo me-
nos duas juradas fizeram a mesma coisa.
        Mas, deixem-me dizer o que no  complicado neste
caso. Cobia.
Outra pausa.
        Arrogncia.
E outra.
        Lenny e Grace Brookstein acreditavam que estavam
acima da lei. Como muitos outros da classe deles, os
banqueiros ricos de Wall Street que saquearam este nosso
grande pas, que pegaram o dinheiro dos contribuintes, o
dinheiro de vocs, e o desperdiaram sem a menor
vergonha, os Brookstein acreditavam que as regras do reles
povo no se aplicavam a eles. Olhem para a Sra. Brookstein,
senhoras e senhores. Vocs veem uma mulher que
compreende o que as pessoas simples deste pas esto
sofrendo? Vem uma mulher que se importa? Porque eu no
vejo. Eu vejo uma mulher que nasceu na riqueza, se casou
com a riqueza, uma mulher que considera riqueza, riqueza
obscena, um direito divino seu.
Sentado no tribunal, John Merrivale sussurrou para sua
esposa:
        Este no  um argumento le-legal.  uma caa s
bruxas.
O promotor continuou:
        Grace Brookstein era scia do Quorum. Com partes
iguais. Ela no era apenas responsvel pelas aes do fundo.
Era moralmente responsvel por elas. No se deixem
enganar. Grace Brookstein sabia o que seu marido estava
fazendo. E ela o apoiou e encorajou durante todo o
processo.
"No deixem que a complexidade deste caso os engane,
senhoras e senhores. Por trs dos jarges e da papelada, de
todas as contas em outros pases e transaes de derivativos,
o que aconteceu aqui foi muito simples. Grace Brookstein
roubou. Ela roubou porque foi gananciosa. Roubou porque
achou que poderia se livrar."
Ele olhou para Grace uma ltima vez.
        Ela ainda acha que pode se livrar. Cabe a vocs provar
que ela est errada.
Grace Brookstein observou o promotor Angelo Michele se
sentar. Fora uma performance e tanto, muito mais eloquente
do que a de Frank Hammond. Parecia que o jri queria
aplaudi-lo.
Se ele no quisesse me destruir, eu sentiria pena dele.
Coitado, se esforou tanto. E com tanta paixo! Talvez, se
tivssemos nos conhecido em outras circunstncias, nos
tornssemos amigos.
O consenso da mdia era de que o jri levaria pelo menos
um dia para deliberar. A montanha de provas do caso era to
grande que no dava para imaginar que eles fossem mais
rpidos. Mas eles voltaram para o tribunal em menos de uma
hora. Exatamente como Frank Hammond dissera que
fariam.
O juiz falou de forma solene:
        Chegaram a um veredicto?
O primeiro jurado, um homem negro de uns 50 anos,
assentiu.
        Chegamos sim, meritssimo.
        E vocs consideram a r inocente ou culpada?
O porta-voz do jri olhou diretamente para Grace
Brookstein. E sorriu.
LIVRO UM
Captulo 1
NOVA YORK, SEIS MESES ANTES
- O QUE VOC ACHA, GRACIE? O preto ou o azul?
Lenny Brookstein estava segurando dois ternos. Era vspera
do Baile de Caridade do Quorum, o mais glamoroso baile de
arrecadao de fundos de Nova York, e ele e Grace estavam
se preparando para dormir.
 O preto  respondeu Grace, sem nem olhar.   mais
clssico.
Ela estava sentada em sua inestimvel penteadeira de
castanheira estilo Luis XVI, penteando seu longo cabelo
louro. O robe de seda champanhe La Perla que Lenny
comprara para ela na semana anterior se ajustava com
perfeio ao seu corpo de ginasta, favorecendo cada curva.
Lenny Brookstein pensou: SOM um homem de sorte.
Depois, riu alto. Sorte  pouco.
LENNY BROOKSTEIN ERA, SEM a menor dvida, o rei de Wall
Street. Mas no nascera na nobreza. Hoje, todos os Estados
Unidos reconheciam o homem troncudo de 58 anos: o
cabelo grisalho, o nariz quebrado em uma briga de infncia
 que ele nunca mandou consertar (por que deveria? Ele
venceu.) , os olhos cor de mbar brilhantes e inteligentes.
Essas caractersticas formavam um rosto to familiar para os
americanos quanto o do Tio Sam ou do Ronald McDonald.
De vrias formas, Lenny Brookstein era os Estados Unidos.
Ambicioso. Trabalhador. Generoso. Bondoso. Em nenhum
outro lugar ele era mais amado do que ali, em Nova York,
onde nascera. Nem sempre fora assim.
Nascido Leonard Alvin Brookstein, quinto filho e segundo
menino de Jacob e Rachel Brookstein, Lenny teve uma
infncia terrvel. Mesmo depois de adulto, uma das poucas
coisas que conseguia despertar a raiva raramente vista em
Lenny Brookstein eram os livros e filmes que romantizavam
a pobreza. Memrias da Misria, era como ele os chamava.
Como esses caras se deliciam com isso? Lenny Brookstein
crescera na pobreza  pobreza esmagadora, destruidora da
alma  e no havia nada de romntico ou nobre nisso. No
foi romntico quando seu pai chegou em casa bbado e
bateu na sua me at ela ficar inconsciente, na frente dele e
dos irmos. Ou quando sua amada irm mais velha, Rosa, se
jogou embaixo de um vago de metr depois que trs
rapazes da gangue do bairro imundo onde os Brookstein
moravam estupraram-na quando ela voltava da escola uma
noite. No foi nobre quando Lenny e seus irmos foram
atacados na escola por comerem comida judaica "fedorenta".
Ou quando a me de Lenny morreu de cncer na cervical
aos 34 anos porque no podia sair do trabalho para ir ao
mdico tratar suas dores estomacais. A pobreza no uniu a
famlia de Lenny Brookstein. Ela os separou. E depois, um
por um, ela acabou com cada um deles. Todos, exceto
Lenny.
Lenny largou a escola aos 16 anos e saiu de casa no mesmo
ano. Nunca olhou para trs. Foi trabalhar em uma loja de
penhores no Queens, emprego que lhe deu ainda mais
provas, embora ele nem precisasse, de que os pobres no se
"unem" nos momentos difceis. Eles pulam uns no pescoo
dos outros. Era difcil ver senhoras entregando objetos de
grande valor sentimental  relgio de um marido morto, a
colher de prata do batizado da filha  em troca de algumas
notas imundas. O Sr. Grady, dono da loja de penhores, fizera
uma cirurgia de ponte de safena um ano antes de Lenny ir
trabalhar para ele. Era evidente que a cirurgia tirara toda a
compaixo de seu corao.
Ele costumava dizer para Lenny:
 Valor no  o quanto uma coisa custa, rapaz. Isso  lenda.
Valor  quanto algum est disposto a pagar. Ou ser pago.
Lenny Brookstein no sentia o menor respeito pelo Sr.
Grady, nem como pessoa nem como homem de negcios.
Mas nunca se esqueceu da verdade dessas palavras. Depois,
muito depois, elas se tornaram a base da fortuna de Lenny
Brookstein e do sucesso sensacional do Quorum. Lenny
Brookstein compreendia o que as pessoas simples e pobres
estavam dispostas a aceitar. Compreendia que o conceito de
"valor" de uma pessoa era diferente do de outra, e que o do
mercado podia ser ainda outro.
Devo isso quele velho cretino.
A ascenso de Lenny Brookstein de ajudante de uma loja de
penhores a um bilionrio respeitado no mundo inteiro se
tornara uma lenda, parte do folclore do pas. George
Washington no contava mentiras. Lenny Brookstein no
fazia um investimento ruim. Aps uma bem-sucedida srie
de apostas em corridas de cavalos no final de sua
adolescncia (Jacob Brookstein, pai de Lenny, era um
apostador inveterado), Lenny decidiu tentar a sorte no
mercado de aes. Na Saratoga e Monticello, Lenny
aprendeu a importncia de desenvolver um sistema e
mant-lo. Em Wall Street, as pessoas chamam um sistema de
"modelo", mas era a mesma coisa. Ao contrrio de seu pai,
Lenny tambm tinha disciplina para reduzir as perdas e
seguir em frente quando precisava. No filme Wall Street:
poder e cobia, o personagem Gordon Gekko, de Michael
Douglas, faz uma declarao polmica: "A cobia  boa."
Lenny Brookstein discordava totalmente da afirmao. A
cobia no era boa. Pelo contrrio, era a runa de quase todo
investidor malsucedido. A disciplina era boa. Encontrar o
modelo certo e mant-lo, embaixo de chuva e de sol. Esse
era o segredo.
Lenny Brookstein j era multimilionrio quando conheceu
John Merrivale. Os dois no podiam ter menos em comum.
Lenny fizera a prpria riqueza, era autoconfiante, um
exemplo de energia e alegria de viver. Nunca falava do seu
passado porque nunca pensava nele. Seus brilhantes olhos
mbar estavam sempre fixos no futuro, no prximo negcio,
na prxima oportunidade. John Merrivale vinha de uma
classe mais alta, era tmido, racional e depressivo. Um jovem
ruivo e magro, seu apelido era "Palito de Fsforo" na
Harvard Business School, onde ele se formou como
primeiro da turma, assim como seu pai e seu av. Todo
mundo, incluindo o prprio John Merrivale, esperava que
ele fosse trabalhar em uma das melhores firmas de Wall
Street, Gordon ou Morgan, e comear sua lenta mas
previsvel ascenso para o topo. Mas, ento, Lenny
Brookstein entrou na vida de John Merrivale como um
meteoro e tudo mudou.
 Estou comeando um fundo de hedge  disse Lenny
para John na noite em que se conheceram, em uma festa
oferecida por um amigo em comum.  Eu vou tomar as
decises sobre investimentos. Mas preciso de um scio,
algum com um passado respeitado para me ajudar a trazer
capital de fora. Algum como voc.
John Merrivale ficou lisonjeado. Ningum nunca acreditara
nele antes.
        Obrigado. Mas no sou de marketing. Co-confie em
mim. Sou um pensador, no um ve-vendedor.  Ele corou.
Maldito gaguejo. Por que diabos no consigo me livrar disso?
Lenny Brookstein pensou: e ele tambm  gago. Eu no
poderia inventar um cara como este. Ele  perfeito. Lenny
disse para John:
        Escute. Vendedores se encontra em qualquer lugar. O
que eu preciso  de algum comedido e confivel. Algum
capaz de fazer com que um banqueiro suo de 85 anos
confie a ele a poupana de sua me. Eu no sou capaz disso.
Eu sou muito...  Ele procurou a palavra certa. 
Extravagante. Preciso de algum que faa um gestor de
fundos de penso com averso ao risco pensar: "Sabe de uma
coisa? Este cara  honesto. E ele sabe o que est fazendo.
Gosto mais dele do que daquele garoto arrogante da Morgan
Stanley." Estou dizendo, John.  voc.
Essa conversa acontecera 15 anos antes. Desde ento, o
Quorum crescera e se tornara o maior e mais lucrativo fundo
de hedge de todos os tempos, seus tentculos atingindo cada
pedacinho da vida americana: imveis, hipotecas, fbricas,
servios, tecnologia. Um entre seis nova-iorquinos  um
em seis  trabalhava em uma empresa cujo balano
dependia do desempenho do Quorum. E o desempenho do
Quorum era seguro. Mesmo agora, na pior crise econmica
desde a dcada de 1930, com gigantes como o Lehman
Brothers e Bear Stears quebrando, e o governo injetando
bilhes em firmas que um dia foram intocveis, como a
AIG, o Quorum continuava gerando lucros modestos e
consistentes. O mundo estava pegando fogo, Wall Street
estava de joelhos. Mas Lenny Brookstein seguia com seu
sistema, como sempre fizera. E os bons tempos
continuavam.
DURANTE ANOS, Lenny Brookstein acreditou que tinha tudo
o que queria. Comprara casas em todo o mundo, mas
raramente deixava os Estados Unidos, dividindo seu tempo
entre a manso em Palm Beach, o apartamento na Quinta
Avenida e a propriedade idlica em frente  praia, na ilha de
Nantucket. Ele dava festas s quais todo mundo ia. Doava
milhes de dlares para suas causas preferidas e sentia um
entusiasmo interior. Comprou um iate de 30 ps, decorado
por Terence Disdale, e um jatinho particular A340, no qual
s viajara duas vezes. s vezes, quando queria sexo, dormia
com uma das modelos que estavam sempre  sua volta. Mas
nunca tinha "namoradas". Estava sempre cercado de pessoas,
muitas das quais gostava, mas no tinha "amigos" no sentido
tradicional da palavra. Lenny Brookstein era amado por
todos que o conheciam. Mas ele no gostava de
"intimidade". Todo mundo sabia disso.
At conhecer Grace Knowles.
MAIS DE TRINTA ANOS mais nova que Lenny Brookstein,
Grace Knowles era a mais jovem das famosas irms
Knowles, socialites nova-iorquinas, filhas do falecido Cooper
Knowles, que trabalhava no setor imobilirio e, em seus
tempos ureos, chegou a valer centenas de milhes de
dlares. Embora nunca tenha sido to rico quanto "o
Donald", as pessoas gostavam muito mais de Cooper. Mesmo
seus rivais nos negcios invariavelmente o descreviam como
"sedutor", "um cavalheiro  moda antiga". Assim como suas
irms mais velhas, Constance e Honor, Grace adorava o pai.
Ela tinha 11 anos quando ele morreu, e sua morte deixou
um vazio na vida dela que nada conseguia preencher.
A me de Grace se casou de novo  trs vezes no total  e
se mudou de vez para East Hampton, onde a vida das
meninas continuou, da mesma forma que antes. Colgio,
compras, festas, frias, mais compras. Connie e Honor eram
bonitas, e vrios dos melhores solteires de Nova York
corriam atrs delas. Entretanto, todos sabiam que Grace era a
mais bonita das irms Knowles. Quando comeou a
competir como ginasta, aos 13 anos, em uma tentativa de se
distrair do sofrimento contnuo deixado pela morte do pai,
suas irms mais velhas ficaram secretamente aliviadas.
Ginstica olmpica significava muito treino e muitas viagens
para fora do estado. Quando elas estivessem casadas, em
segurana, Grace poderia frequentar festas com elas
novamente. Mas at l, Connie e Honor encorajaram com
todas as suas foras o romance da irm mais nova com as
barras paralelas.
Aos 18 anos, os dias de ginasta de Grace acabaram. Mas no
linha mais problema. Nessa poca, Connie j estava casada
com um lindo banqueiro de investimento chamado Michael
Gray, que estava em ascenso no Lehman Brothers. E
Honor tinha tirado a sorte grande ao se casar com Jack
Warner, deputado republicano pelo vigsimo distrito de
Nova York. J havia especulaes de que Jack se candidataria
ao Senado e, talvez, um dia at  presidncia. O casamento
dos Warner apareceu nas colunas sociais de todos os jornais,
e fotos da lua de mel foram publicadas em vrios tablides.
Como a nova Caroline Kennedy, Honor podia se dar ao luxo
de ser boazinha com a irm mais nova. Foi Honor quem
convidou Grace para a festa em que a caula conheceu
Lenny Brookstein.
Mais tarde, tanto Lenny quanto Grace descreveriam seu
primeiro encontro como a famosa fasca. Grace tinha 18
anos, uma criana, sem nenhuma experincia fora do
mundo cheio de mimos e pompa de sua existncia em East
Hampton. At suas amigas ginastas eram ricas. Mesmo
assim, havia algo de extraordinariamente no mimado nela.
Lenny Brookstein tinha se acostumado ao que sua me
chamava de mulheres "objetivas". Todas as garotas com
quem Lenny j dormira queriam alguma coisa dele. Jias,
dinheiro... alguma coisa. Grace Knowles era o oposto. Ela
tinha uma qualidade que o prprio Lenny nunca tivera e
desejava muito. Algo to precioso e elusivo que ele quase
desistira de acreditar que existia: inocncia. Lenny
Brookstein queria prender Grace Knowles. Proteger essa
inocncia com as prprias mos. Possuir essa inocncia.
Para Grace, a atrao era ainda mais simples. Ela precisava de
um pai. Algum que a protegesse e a amasse pelo que ela
era, da mesma forma que Cooper Knowles a amara quando
ela era apenas uma menininha. A verdade era que Grace
Knowles queria voltar a ser uma menininha. Voltar  poca
em que era total e completamente feliz. Lenny Brookstein
lhe oferecia essa chance. Grace a agarrou com as duas mos.
Eles se casaram em Nantucket seis semanas depois, na
presena dos seiscentos amigos mais prximos de Lenny.
John Merrivale foi o padrinho; e sua esposa, Caroline, e as
irms de Grace foram as damas de honra. Na lua de mel em
Mustique, uma noite Lenny virou-se para Grace, cheio de
receio, e perguntou:
        E filhos? Nunca falamos sobre isso. Imagino que voc
vai querer ser me em algum momento.
Grace fitou pensativamente o oceano. A suave e prateada luz
da lua brincava nas ondas. Finalmente, ela respondeu:
        No muito. Claro, se voc quiser filhos, ficarei feliz em
lhe dar. Mas estou to feliz como estamos! No h nada fal-
tando, Lenny. Voc me entende?
Lenny Brookstein entendia.
Era um dos momentos mais felizes de sua vida.
- VOC J SABE O que vai vestir?  Lenny tirou alguns
papis de sua pasta e colocou os culos de leitura antes de se
deitar na cama.
        J  disse Grace.  Mas  segredo. Quero lhe fazer
uma surpresa.
Naquela tarde, Grace passara trs horas felizes ao lado de sua
irm Honor no ateli de Valentino. Honor sempre tivera um
senso de estilo sensacional, e as irms adoravam fazer
compras juntas. O gerente fechara a loja especialmente para
que elas pudessem experimentar os vestidos em paz.
        Estou me sentindo quase uma rebelde.  Grace riu. 
Deixar uma coisa dessas para o ltimo minuto.
        Eu sei! Completamente desleixada, Gracie.
O Baile do Quorum era o evento social da temporada. Sem-
pre acontecia no incio de junho e marcava o incio do
vero para a elite privilegiada de Manhattan, que se mudava
em massa para East Hampton na semana seguinte. A maioria
das mulheres que iria ao baile na noite seguinte no Plaza
provavelmente comeara a planejar seus vestidos meses
antes, como generais antes de uma campanha militar,
encomendando seda de Paris, diamantes de Israel, morrendo
de fome durante semanas para secar a barriga.
 claro que naquele ano alguns gastos seriam cortados, todo
mundo estava falando sobre a economia e como as coisas
andavam mal. Parecia que em Detroit o povo estava se
agitando. Na Califrnia, milhares de sem-teto montaram
barracas nas margens do rio American. As manchetes eram
terrveis. Mas para Grace Brookstein e suas amigas, nada se
comparava ao choque que sentiram no dia em que souberam
que o Lehman Brothers tinha falido. A quebra do Lehman
era uma tragdia bem mais prxima de casa. O prprio
cunhado de Grace, Michael Gray, vira seu patrimnio
lquido se dizimar da noite para o dia. Pobre Connie. Era
realmente horrvel. Lenny disse para Grace:
        Precisamos ter uma postura diferente este ano, Gracie. O
Baile do Quorum deve acontecer pois as pessoas precisam do
dinheiro que arrecadamos mais do que nunca.
        Eu sei, querido.
        Mas no podemos ostentar muito, isso  importante.
Compaixo. Compaixo e comedimento. Essas devem ser as
palavras de ordem.
Com a ajuda de Honor, Grace escolhera um vestido de seda
preta, um Valentino muito comedido, praticamente sem
nenhum bordado. E seus sapatos de salto Louboutin? A
prpria simplicidade. Ela mal podia esperar para Lenny v-
la.
Deitando-se na cama ao lado do marido, Grace apagou o
abajur da mesinha de cabeceira.
        S um segundo, doura.  Lenny se esticou e acendeu
a luz de novo.  Preciso que assine uns documentos para
mim. Cad?  Ele procurou nos papis que cobriam o seu
lado da cama.  Ah, aqui esto.
Ele entregou um documento a Grace. Ela pegou a caneta
dele e estava prestes a assinar.
        Espere a!  Lenny riu.  Voc no vai ler primeiro?
        No. Por que eu faria isso?
        Porque voc no sabe o que est assinando, Gracie. Por
isso. Seu pai nunca lhe disse para no assinar nada antes de
ler?
Grace se inclinou e beijou-o.
        Disse sim. Mas voc leu, no leu? Confio minha vida a
voc, Lenny, voc sabe disso.
Lenny Brookstein sorriu. Grace estava certa. Ele sabia. E
agradecia a Deus todos os dias por isso.
NA ESQUINA DA Quinta Avenida com a parte sul do Central
Park, um exrcito de reprteres estava reunido na frente da
fachada do Plaza, considerado um cone da arquitetura
beaux-arts. Lenny Brookstein estava dando uma festa  a
festa  e, como sempre, as estrelas tinham sado de casa.
Bilionrios e prncipes, supermodelos e polticos, atores,
astros do rock, filantropos; todos os convidados para o baile
daquela noite tinham uma caracterstica crucial em comum,
e no era uma vontade esmagadora de ajudar os
necessitados. Todos eram vencedores.
O senador Jack Warner e sua esposa, Honor, estavam entre
os primeiros a chegar.
        D uma volta no quarteiro  foi a ordem do senador
ao motorista.  Por que diabos voc nos trouxe para c to
cedo?
O motorista pensou: Dez minutos atrs, voc estava no meu
p para dirigir mais rpido. Decida-se, seu idiota.
        Sim, senador Warner. Desculpe, senador Warner.
Honor Warner analisou o rosto furioso do marido enquanto
entravam na West Fifty-Seventh Street. Ele est assim o dia
todo, desde que voltou da reunio com Lenny. Espero que
no estrague a nossa noite.
Honor Warner tentava ser uma esposa compreensiva. Sabia
que a poltica era uma profisso estressante. J era ruim o
bastante quando Jack era deputado, mas desde que se tornara
senador (com a notvel idade de 36 anos), as coisas
pioraram. O mundo conhecia Jack Warner como um
messias republicano: um John Kennedy para o novo
milnio. Alto e louro, com um rosto bem delineado, maxilar
forte e olhos azuis que fitavam com firmeza, o senador
Warner era adorado por seus eleitores, principalmente as
mulheres. Ele defendia a decncia, os valores familiares
tradicionais, um pas forte e orgulhoso que muitos temiam
estar ruindo diariamente sob seus ps. Uma simples cena no
noticirio do senador Warner de mos dadas com sua linda
esposa e as duas filhas louras pulando em volta deles bastava
para restaurar a f do povo no Sonho Americano.
Honor Warner pensou: Se eles soubessem...
Mas como poderiam? Ningum sabia.
Provocativa, ela se virou para o marido:
        Gostou do meu vestido, Jack?
O senador Jack Warner olhou para a esposa e tentou se
lembrar da ltima vez que a achara sexualmente atraente.
No que haja alguma coisa errada com ela. Ela  bonitinha,
acho. No  gorda.
Honor Warner, na verdade, era muito mais do que boniti-
nha. Com seus grandes olhos verdes, cachos louros e ma
do rosto acentuada, ela era considerada uma mulher
belssima. Mas no to bela quanto a irm Grace, mas ainda
assim era bonita. Naquela noite, Honor usava um Valentino
tomara que caia da cor de seus olhos, bem justo ao corpo.
Era um vestido de parar o trnsito. Para qualquer observador
imparcial, Honor estava muito sensual.
Jack disse de forma brusca:
        Est legal. Quanto custou?
Honor mordeu o lbio inferior com fora. No posso chorar.
Meu rmel vai borrar.
         um emprstimo. Assim como as esmeraldas. Grace
mexeu alguns pauzinhos.
O senador Jack riu com amargura.
        Como ela  generosa.
        Por favor, Jack.
Honor colocou a mo na perna dele de forma conciliadora,
mas ele afastou a mo da esposa. Batendo na janela de vidro
que os separava do motorista, ele disse:
        Pode virar aqui. Vamos acabar logo com esta noite.
POR VOLTA DAS 21 horas, o Grande Salo de Baile creme e
dourado do Plaza estava lotado. Dos dois lados do salo,
embaixo dos magnficos arcos restaurados, mesas brilhavam
com suas p ratarias polidas. A luz dos candelabros reluzia
nos diamantes das mulheres enquanto estas se misturavam
no meio do salo, admirando os vestidos de alta-costura das
outras e contando historias terrveis das ltimas desgraas
financeiras de seus maridos.
        No podemos pagar a viagem para Saint-Tropez este ano.
No vai dar para ir.
        Harry vai vender o iate. Acreditam? Ele amava aquela
coisa. Ele venderia os filhos primeiro se achasse que algum
iria querer compr-los.
        Ficaram sabendo dos Jonas? Eles acabaram de anunciar a
casa na cidade. Lucy quer 23 milhes, mas neste mercado?
Carl acha que ela vai ter sorte se conseguir vender por
metade disso.
Exatamente s 21h30, o jantar foi servido. Todos os olhares
estavam fixos na mesa mais alta. Cercados pelos puxa-sacos
mais prximos do Quorum, Lenny e Grace Brookstein
estavam sentados com todo o esplendor, e s tinham olhos
um para o outro. Outros anfitries poderiam ter escolhido os
mais famosos para se sentar  sua mesa. O prncipe Albert,
de Mnaco, estava l. Assim como Angelina e Brad, e Bono
e a esposa, Ali. Mas os Brookstein se mantinham prximos 
famlia e aos amigos mais chegados: John e Caroline
Merrivale, o vice-presidente e a segunda-dama do Quorum;
Andrew Preston, outro alto executivo do Quorum, e sua
voluptuosa esposa Maria; senador Warner e sua esposa,
Honor, irm de Grace Brookstein; e a mais velha das irms
Knowles, Constance, com seu marido, Michael.
Lenny Brookstein props um brinde:
        Ao Quorum! E a todos que navegam com ele.
        Ao Quorum!
Andrew Preston, um homem bonito e forte com 40 e pou-
cos anos e sorriso gentil e auto-depreciativo, observou sua
esposa se levantar com a taa de champanhe na mo e
pensou: Outro vestido novo. Como vou conseguir pagar?
No que ela no estivesse maravilhosa nele. Maria sempre
estava maravilhosa. Ex-atriz e estrela de pera, Maria
Preston era uma fora da natureza. Sua cabeleira castanha e
seus seios que desafiavam a gravidade faziam-na linda. Mas
era a sua postura, o brilho dos olhos, a vibrao profunda e
rouca de sua gargalhada, o rebolar provocante de seus
quadris que faziam com que todos os homens se jogassem
aos seus ps. Ningum nunca entendera o que fizera uma
pessoa dinmica como Maria Carmine se casar com um
executivo padro como Andrew Preston. Nem o prprio
Andrew entendia.
Ela poderia ter escolhido qualquer um. Um astro do cinema.
Ou um bilionrio como Lenny. Talvez tivesse sido melhor
se ela tivesse escolhido outro.
Andrew Preston amava a esposa com todas as suas foras.
Era por causa desse amor e de seu profundo senso de falta de
valor que ele perdoava tanto. Os romances. As mentiras. Os
gastos descontrolados. Andrew ganhava bem no Quorum.
Uma pequena fortuna para o padro da maioria das pessoas.
Mas quanto mais ele ganhava, mais Maria gastava. Era uma
doena dela, um vcio. Ms aps ms, ela gastava centenas
de milhares de dlares no Amex. Roupas, carros, flores,
diamantes, sutes de hotel de 8 mil dlares a noite, onde
dormia s Deus sabe com quem... No importava. Maria
gastava pelo prazer de gastar.
        Quer que eu parea uma indigente, Andy? Quer que eu
me sente ao lado daquela esnobe da Grace Brookstein
vestida em algum trapo monstruoso?
Maria tinha inveja de Grace. Na verdade, ela tinha inveja de
qualquer mulher. Fazia parte de sua natureza italiana, algo
c|uc Andrew Preston amava nela. Ele tentou tranquiliz-la:
        Querida, voc  duas vezes mais mulher do que Grace.
Voc poderia vestir um saco de batatas e mesmo assim
chamaria mais ateno do que ela.
        Agora voc quer que eu use um saco de batatas?
        No,  claro que no. Mas, Maria, a nossa hipoteca...
Talvez um de seus outros vestidos, querida? S este ano.
Voc tem tantos...
Foi um erro dizer aquilo, claro. Agora Maria o punira no
apenas comprando um vestido novo, mas o vestido mais
caro que conseguiu encontrar, uma miscelnea de pedras,
plumas e renda. Ao olhar o vestido, Andrew sentiu um
aperto no peito. As dvidas estavam se tornando srias.
Terei de falar com Lenny de novo. Mas o velho j foi to
generoso. Quanto ainda posso pressionar antes que ele
reclame?
Andrew Preston colocou a mo no bolso interno de seu
smoking. Quando ningum estava olhando, jogou trs
calmantes na boca e tomou tudo com um gole de
champanhe.
Voc sempre soube que seria difcil segurar Maria. D um
jeito, Andrew. D um jeito.
        Voc est bem, Andrew?  Caroline Merrivale, esposa de
John Merrivale, notou o rosto plido de Andrew Preston. 
Parece que est carregando o peso do mundo nos ombros.
        No, imagina! Andrew se forou a sorrir.  Voc est
estonteante hoje, Carol, como sempre.
        Obrigada. Eu e John nos esforamos para ser comedidos.
Voc sabe, dada a atual situao econmica.
Foi uma agulhada proposital em Maria. Andrew deixou
passar, mas pensou de novo em como detestava Caroline
Merrivale. Coitado do John, ser dominado pela mulher, uma
megera como essa, por toda a vida. No era de se espantar o
fato de ele estar sempre to para baixo.
Era bvio para qualquer um que no fosse cego que o
casamento dos Merrivale no era feliz. Para qualquer um,
menos para Lenny e Grace Brookstein. Esses estavam to
apaixonados, que achavam que todo mundo tinha a mesma
sorte que eles. Fcil manter o amor vivo quando se tem
bilhes de dlares para investir nele. Mas talvez Andrew
estivesse sendo injusto. A jovem Sra. Brookstein no estava
atrs de dinheiro. Ela era ingnua, s isso, e claramente
acreditava que Caroline Merrivale era sua amiga. Grace no
via o olhar de inveja da suposta amiga mais velha sempre
que ela virava as costas. Mas Andrew Preston via. Caroline
Merrivale era uma vadia.
Caroline sempre ressentira a posio de Grace como
primeira-dama do Quorum. Ela teria sido to mais adequada
para o papel. Com uma beleza masculina, traos inteligentes
e fortes e cabelo preto e curto, Caroline j tivera uma
brilhante carreira como advogada de tribunais. Claro, isso j
fazia anos. Graas a Lenny Brookstein, seu marido, John, se
tornara um homem bem-sucedido e muito rico. Seus dias de
trabalho ficaram para trs. Mas sua ambio estava longe de
acabar.
Por outro lado, John Merrivale nunca fora ambicioso.
Trabalhava duro no Quorum, aceitava o que Lenny
Brookstein resolvia lhe dar e se sentia grato. Caroline o
insultava:
        Voc  como um cachorrinho, John. Enroscado no p
do seu dono, abanando o rabinho lealmente. No  de se
espantar que Lenny no o respeite.
        Lenny me re-respeita.  voc quem no me re-
respeita.
        No, e por que eu respeitaria? Eu quero um homem,
no um cachorrinho. Voc deveria exigir uma participao
acionria maior. Imponha-se.
Andrew Preston olhou para John Merrivale sentado do
outro lado da mesa. Lenny estava no meio de uma piada,
com John devorando cada palavra sua. Andrew pensou: Ele
 brilhante, mas  fraco. S h lugar para um rei no Quorum.
Caroline Merrivale podia desejar que fosse diferente, mas
continuaria apenas desejando. Estavam todos pendurados no
saco de Lenny Brookstein. E eles tinham sorte. O pobre
Michael Gray, que eslava sentado do lado direito de Maria,
tambm escutava a histria de Lenny. Os Gray eram como
um lembrete ambulante. Em um minuto, estavam em todas
as festas de Manhattan, morando em sua linda casa em
Greenwich Village, passando os veres no sul da Frana e os
invernos em seu chal recm-reformado em Aspen. No
minuto seguinte  puf  tudo desapareceu. O boato na
cidade era que cada centavo que Michael Cray tinha estava
investido em aes da Lehman. Os filhos deles, Cade e
Cooper, continuavam estudando em uma escola particular
porque Grace Brookstein, irm de Connie Gray, insistira em
pagar.
Maria sussurrou no ouvido de Andrew:
        O leilo vai comear daqui a pouco, Andy. Estou de
olho em um relgio Cartier vintage. Voc vai arrematar para
mim, ou devo entrar no leilo?
GRACE BROOKSTEIN sorriu e bateu palmas durante o leilo,
mas ficou secretamente aliviada quando terminou e chegou
a hora de danar.
        Odeio essas coisas  sussurrou ela no ouvido de Lenny
enquanto ele a conduzia pela pista de dana.  Todos
aqueles frgeis egos masculinos tentando gastar cada um
mais que o outro.  uma insolncia.
        Eu sei.  A mo de Lenny acariciava as costas dela. 
Mas esses insolentes acabaram de levantar 15 milhes para a
nossa fundao. Com a economia em que est,  um feito e
tanto.
        Vocs se importam se eu interromper? Mal falei com meu
cunhado preferido a noite toda.
Connie, irm mais velha de Grace, passou o brao pela cin-
tura de Lenny. O casal sorriu.
        Cunhado preferido, hein?  implicou Grace.  No
deixe Jack escutar isso.
        Ah, Jack.  Connie balanou a mo com desdm.  Ele
est com um mau humor terrvel hoje. Eu achei que ser
senador fosse divertido. Qualquer um acharia que foi ele
quem acabou de perder a casa. E o emprego. E as economias
da vida toda. Vamos, Lenny! Alegre esta triste moa, sim?
Grace observou o marido danar com sua irm, segurando-a
bem perto de si e oferecendo palavras de conforto. Eu amo
tanto os dois, pensou ela. E os admiro tanto. A forma como
Connie consegue fazer piadas e rir de si mesma enquanto ela
e Michael esto passando por um inferno. E a incrvel e
infinita compaixo de Lenny. As pessoas sempre
comentavam como Grace tinha "sorte" de ser casada com
Lenny. Ela concordava. Mas no era o dinheiro de Lenny
que a tornava abenoada. E sim sua generosidade.
 claro, tinha o lado ruim de ser casada com o cara mais
legal do mundo. Tantas pessoas amavam Lenny e contavam
com ele que Grace quase nunca conseguia ter o marido s
para si. Na semana seguinte, eles iriam para Nantucket, o
lugar que Grace mais amava no mundo, para duas semanas
de frias. Mas,  claro, sendo o anfitrio que era, Lenny j
convidara todo mundo que estava  mesa naquela noite.
        Prometa que teremos pelo menos uma noite sozinhos
 implorou Grace quando eles finalmente se deitaram,
naquela noite. O baile tinha sido divertido, mas exaustivo. A
idia de ainda mais socializao apavorava Grace.
 No se preocupe. Nem todos vo. E mesmo se forem,
teremos mais de uma noite sozinhos, prometo. A casa 
grande o suficiente para sairmos de fininho.
Grace pensou:  verdade. A casa  enorme. Quase to gran-
de quanto seu corao, querido.
Captulo 2
ERA A MANH SEGUINTE ao Baile do Quorum, um sbado.
John Merrivale estava na cama com a esposa.
        Por favor, Ca-Caroline. Eu no quero.
        Eu no me importo com o que voc quer, seu verme
pattico. Faa!
John Merrivale fechou os olhos e foi para baixo dos lenis
at estar na altura dos pelos pretos e bem aparados de sua
esposa.
Caroline o insultava:
        Se o seu pau no estivesse mole, eu no precisaria que
voc fizesse isso. Mas como voc no conseguiu levant-lo
de novo,  o mnimo que pode fazer.
John Merrivale comeou a fazer o que ela tinha mandado.
Odiava sexo oral. Era nojento e errado. Mas j fazia muito
tempo que no podia seguir os prprios desejos. Sua vida
sexual se transformara em uma srie de humilhaes
noturnas. Nos finais de semana era ainda pior. Caroline
esperava um desempenho matinal nos sbados e s vezes
uma sesso vespertina aos domingos. John no conseguia
compreender como uma mulher que evidentemente o
desprezava ainda podia ter um apetite sexual to voraz. Mas
Caroline parecia adorar degrad-lo, obrig-lo a ceder aos seus
caprichos.
Sentindo-a se contorcer de prazer ao toque de sua lngua,
John se esforou para no ter nsia de vmito. s vezes,
tinha fantasias sobre fugir. Eu poderia ir para o escritrio um
dia e nunca mais voltar para casa. Eu poderia drog-la e
estrangul-la enquanto dorme. Mas ele sabia que nunca teria
coragem para isso. Essa era a pior parte do seu casamento
infeliz. Sua esposa tinha razo sobre ele: ele era fraco. Era
um covarde.
No comeo, quando se conheceram, John tivera esperanas
de que poderia absorver fora da personalidade dominante
de Caroline. Que a autoconfiana e a ambio dela pudessem
compensar a timidez dele. Durante alguns abenoados
meses, isso aconteceu. Mas no demorou muito para a
verdadeira natureza de sua esposa aparecer. A ambio de
Caroline no era uma fora positiva, como a de Lenny
Brookstein. Era um buraco negro, um furaco alimentado de
inveja que sugava a vida de todo ser humano que se
aproximava. Quando John Merrivale percebeu o monstro
com quem tinha se casado, j era tarde demais. Se ele se
divorciasse dela, ela o exporia ao mundo como invlido
sexual. Isso seria mais humilhao do que John poderia
suportar.
Felizmente, Caroline s precisou de dois minutos para
alcanar o orgasmo. Assim que conseguiu o seu prazer, ela
se levantou e foi para o chuveiro, deixando John trocando os
lenis da cama por outros limpos. No havia a menor
necessidade de ele fazer tal tarefa. Os Merrivale tinham um
pequeno exrcito de empregados  disposio em sua
manso na cidade. Mas Caroline insistia que ele fizesse. Uma
vez, quando ela achou que os cantos no estavam perfeitos,
quebrou um vidro de perfume na cara dele. John precisou
levar 16 pontos e ainda tinha a cicatriz na bochecha
esquerda. Ele disse para Lenny que tinha sido agredido por
um ladro, o que, do seu ponto de vista, no estava longe da
verdade.
Se no fosse por Lenny Brookstein, John Merrivale j teria
se matado havia anos. A amizade de Lenny, seu jeito
carinhoso e tranquilo, sua prontido em fazer piadas, mesmo
quando os negcios estavam indo mal, era a coisa mais
importante na vida de John Merrivale. Ele vivia para o
escritrio e seu trabalho no Quorum, no pelo dinheiro nem
pelo poder, mas porque queria deixar Lenny orgulhoso.
Lenny Brookstein era a nica pessoa que acreditara em John
Merrivale. Esquisito e sem atrativos fsicos, plido, ruivo e
com braos e pernas desengonados, John no era popular
na escola. No tinha irmos nem irms com quem
compartilhar seus problemas ou comemorar suas pequenas
vitrias enquanto crescia. At para seus pais ele era uma
decepo.  claro que eles nunca disseram nada. Mas no
precisavam. John podia sentir s de entrar na sala.
No dia de seu casamento com Caroline, ele escutou sua me
falar para uma de suas tias:
  claro que Fred e eu estamos felicssimos. Nunca acha-
mos que John fosse se casar com uma mulher to atraente e
inteligente. Para ser honesta, ns j at tnhamos perdido a
esperana de que ele se casasse. Afinal, sejamos francas, ele
 um amor de garoto, mas no  nenhum Cary Grant!
O fato de sua prpria esposa o desprezar fazia John sofrer,
mas no o surpreendia. As pessoas o desprezaram a vida
inteira. A amizade de Lenny Brookstein, a enorme
confiana que depositou nele, essa foi a grande surpresa da
vida de John. Devia tudo a Lenny Brookstein.
 claro que Caroline no via as coisas assim. A inveja que ela
sentia de Lenny e Grace Brookstein aumentara com o passar
dos anos ao ponto de agora ela precisar se esforar para
esconder isso em pblico. Em particular, John se acostumara
a escut-la se referir a Lenny como o "velho" e a Grace
como "aquela vadia". Mas recentemente, a averso de
Caroline estava estampada no rosto. Para John, isso tornava
eventos como o Baile do Quorum, da noite anterior, uma
experincia aterrorizante. Seu amor por Lenny Brookstein
era enorme. Mas o medo que tinha da esposa era ainda
maior. E Caroline Merrivale sabia disso.
No CAF DA MANH, John tentou conversar sobre
frivolidades.
        Ontem, conseguimos arrecadar uma soma s-
significativa, acho, levando tudo em considerao.
Caroline deu um gole em seu caf e no disse nada.
        Sei que Le-Lenny ficou satisfeito.
        Quinze milhes?  Caroline riu com desdm.  Isso no
 nada para aquele velho. Ele poderia ter feito um cheque e
acabado com tudo logo. Mas  claro que assim ele no teria
toda a adulao. Todas aquelas pessoas famosas e importantes
dizendo o quanto ele  um bom filantropo. E no podamos
perder a oportunidade de ter umas 6 mil fotos tiradas da nos-
sa querida Grace, podamos? Deus me livre!
John espalhou uma fina camada de manteiga em sua torrada,
evitando o olhar da esposa. Ele sabia por experincia prpria
que a fria de Caroline podia mudar de direo em um
segundo. Uma palavra errada e poderia ser toda jogada em
cima dele. Mais uma vez, se amaldioou por sua covardia.
Por que tenho tanto medo dela?
Desejando cair nas graas da esposa novamente, ele disse:
        A propsito, Lenny nos convidou para ir a Nantucket na
semana que vem. Mas no se preocupe. Eu disse que no.
        Por que diabos voc fez isso?
        Eu... bem, eu... achei que voc...
        Voc achou?  Os olhos de Caroline brilhavam de raiva.
 Como voc ousa achar alguma coisa!  Por um mo-
mento, John achou que ela ia bater nele. E como se no
estivesse envergonhado o suficiente, deixou cair a xcara de
caf, que fez barulho ao bater no pires.  Quem mais foi
convidado?
        Todo mundo, a-a-acho. Os Preston. As irms de Gr-
Grace. No tenho certeza.
        E voc vai deixar Andrew Preston passar uma semana
puxando o saco de Lenny, tentando passar a sua frente no
Quorum, enquanto voc espera e no faz nada? Meu Deus,
John! Como voc pode ser to burro?
John abriu a boca para protestar, mas fechou de novo. Os
negcios no funcionavam assim. Andrew Preston nunca
poderia sonhar em usurpar o lugar de John e nem tentaria.
Ele no ousaria. Mas no adiantava tentar explicar isso para
Caroline.
        Ento voc quer ir?
        Eu no quero ir, John. Francamente, no consigo
imaginar nada pior do que ficar trancada com aquela
mulherzinha ftil do Lenny durante uma semana em uma
ilha isolada do mundo. Mas eu vou. E voc tambm.  Ela
saiu da sala batendo os ps.
S ento John se permitiu um pequeno sorriso.
Eu consegui. Ns vamos. Ns vamos mesmo!
A psicologia reversa tinha funcionado como um feitio. S
precisou de um pouco de coragem. Talvez eu devesse tentar
isso mais vezes.
Captulo 3
O SENADOR JACK WARNER acordou no sbado de manh com
uma ressaca terrvel. Honor sara cedo para a aula de ioga. L
embaixo, na sala de brinquedos da idlica casa de campo
deles no condado de Westchester, Jack Warner podia
escutar as filhas, Bobby e Rose, gritando a plenos pulmes
uma com a outra.
Que diabos Ilse est fazendo?
A nova bab holandesa pagava um boquete como ningum,
mas sua habilidade no trabalho deixava muito a desejar. At
agora, Jack resistira aos pedidos de Honor para demitir Ilse.
Mas naquela manh ele mudou de idia. Uma manh de
sbado ininterrupta na cama valia muito mais do que um
bom boquete. No mundo do senador Jack Warner, era fcil
conseguir bons boquetes. Por outro lado, paz e tranquilidade
eram inestimveis.
Jack Warner sabia que queria ser presidente dos Estados
Unidos desde os 3 anos. Era agosto de 1974. Seus pais
estavam assistindo  renncia de Richard Nixon na televiso.
 O que este homem est fazendo, mame?  perguntou o
pequeno Jack. Foi o pai quem respondeu:
        Ele est largando o melhor emprego do mundo, filho.
 um mentiroso e um idiota.
Jack pensou a respeito por um minuto.
        Se ele  um idiota, como conseguiu o melhor emprego
do mundo?
Seu pai riu.
         uma boa pergunta!
        Quem vai fazer o trabalho dele agora?
        Por que voc est perguntando, Jack?  O pai o puxou
para seu colo e acariciou seu cabelo.  Quer o emprego
dele?
Sim, pensou Jack. Se  o melhor emprego do mundo, eu
acho que quero.
At agora, o caminho de Jack Warner para a Casa Branca
tinha sido perfeito. Primeiro da classe em Andover? Sim.
Ficha extensa em trabalho voluntrio e servios 
comunidade? Sim. Graduao em Yale, ps-graduao em
Direito em Harvard, scio de uma firma de prestgio em
Nova York? Sim, sim, sim. Aps dois breves estgios em
campanhas no senado, Jack concorreu ao Congresso,
conseguindo a cadeira do 20 Distrito Congressional em uma
vitria esmagadora com apenas 29 anos. Jack Warner nunca
fez um amigo, aceitou um emprego, foi a uma festa ou
dormiu com algum sem antes pensar: Como isso pode
afetar meu histrico? Nas raras ocasies em que dormia com
uma garota menos do que adequada, ele se certificava de que
acontecesse em algum lugar bem longe dos olhos atentos
dos eleitores. Mas esses deslizes eram raros. O objetivo de
Jack era estar no lugar certo, na hora certa com as pessoas
certas. Ele sabia que o seu maior encanto era a boa aparncia
tipicamente americana, o ar de autoconfiana e bondade que
ele parecia transmitir sem nenhum esforo.
Como todas as outras coisas na vida de Jack, seu casamento
com Honor Knowles foi uma deciso poltica cuidadosa-
mente coreografada.
Fred Farrel, o coordenador de campanha de Jack, sentou-se
para conversar com ele.
        Nossas pesquisas indicam que voc ainda  visto como
muito jovem para concorrer ao Senado. Precisamos
"amadurecer" sua imagem.
Jack ficou frustrado.
        Como? Devo deixar a barba crescer? Usar colete?
        Na verdade, a barba no  m ideia. Mas o que voc
realmente precisa fazer  casar. Uns dois filhos tambm no
fariam mal. Todas as mulheres solteiras amam voc, mas
voc precisa conquistar o voto das famlias.
        Tudo bem. Vou pedir Karen em casamento no fim de
semana.
Karen Connelly era namorada de Jack havia dez meses e o
primeiro caso de amor srio da vida dele. Filha nica de uma
respeitada famlia de polticos  o pai de Karen, Mitch,
chegara a ser chefe de gabinete da Casa Branca , Karen
tambm era bonita, inteligente e generosa. Ela adorava Jack
incondicionalmente. De vez em quando, os dois falavam em
comear uma famlia um dia, quando Karen se formasse e a
agenda de Jack no Congresso estivesse menos pesada. Era
evidente que o "um dia" havia chegado.
Fred Farrel franziu a testa.
        No tenho tanta certeza de que Karen seja a melhor
escolha. Ela  uma menina boa e tudo mais. Mas para sua
esposa...
Jack ficou com raiva.
        O que h de errado com ela?
        No tem nada de errado com ela. No leve para o lado
pessoal, Jack. S estou dizendo que no mundo ideal eu iria
preferir algum que causasse um pouco de sensao. No
bonita demais, claro, seria decepcionante para seu principal
eleitorado.
        Mas mais bonita que Karen?
        Mais conhecida que Karen. E no seria ruim tambm se
ela fosse rica.
        Por qu?
        Para o futuro, garoto.  Fred Farrel balanou a cabea. 
Suponho que suas ambies polticas no terminem no
Senado?
        Claro que no.
        Bom. Ento, comece a pensar de forma prtica. Voc faz
ideia de quanto custa uma campanha presidencial hoje em
dia?
Jack fazia idia. Muitos homens ricos tinham perdido tudo
ao correr atrs de suas fantasias com a Casa Branca. Mesmo
assim, casar por dinheiro parecia repugnante.
        Olhe, eu tenho uma garota em mente. V conhec-la,
veja o que acha. Sem presso.
Trs meses depois, o deputado Jack Warner superou sua
repugnncia e se casou com a herdeira socialite Honor
Knowles, sob os flashes da imprensa. No dia em que saram
para a lua de mel, Karen Connelly cometeu suicdio,
cortando os pulsos em uma banheira. Por respeito ao pai de
Karen, a imprensa no divulgou a histria.
Para Honor Knowles, o romance relmpago com o deputado
mais cobiado e bonito do pas era, de longe, a coisa mais
excitante que j acontecera em sua vida. Desde que era uma
menininha, Honor sentia que no recebia ateno. Sua irm
mais velha, Constance, era o crebro da famlia e claramente
a preferida da me. Grace, a irm mais nova, era linda
demais e foi o colrio dos olhos do pai enquanto ele viveu.
Isso tudo deixava Honor sem um lugar. O fato de ela
tambm ser inteligente e atraente do seu jeito parecia no
importar a ningum.
Eu sou o estepe. A backing vocal que ningum percebe. S
sou popular porque me associam a ela.
O fato de um homem lindo escolh-la (e no qualquer
homem bonito, mas Jack Warner, um possvel futuro
presidente!) era to emocionante, to deliciosamente
inesperado, que nunca passou pela cabea de Honor
questionar os motivos de Jack. Ou a velocidade com que ele
a levou para o altar. Ela logo percebeu que Jack fazia tudo
em alta velocidade. Mal a convidara para sair, j a pedira em
casamento. Assim que ela aceitou, ele reservou a igreja. Mal
voltaram de lua de mel, ele j insistia para que ela
engravidasse.
        Por que a pressa?  Honor riu, acariciando o cabelo
louro dele na cama uma noite. Ela s vezes ainda precisava
se beliscar quando acordava ao lado dele. Jack era to
perfeito. No apenas tinha a aparncia perfeita, era perfeito
por dentro tambm. Nobre, corajoso, visionrio. Ele queria
tantas coisas boas para os Estados Unidos.  S estamos
casados h cinco minutos. No podemos primeiro curtir um
ao outro um pouco?
Mas Jack insistiu. Ele queria uma famlia e queria agora.
Durante a lua de mel no Taiti, Honor ficara preocupada. Na
primeira manh em que estavam no resort, Jack recebeu
uma ligao de casa que claramente o perturbou. Ele
cancelou o mergulho que fariam ("Pode ir. Preciso
trabalhar.") e mal falou com Honor o resto do dia. Naquela
noite, enquanto dormia, ele chamava "Karen!". Na manh
seguinte, quando Honor o questionou, ele ficou na
defensiva.
        Meu Deus, Honor. Agora voc vai tomar conta dos
meus sonhos tambm?
Depois disso, ele passou a semana toda rabugento e afastado,
se recusando a falar sobre o que o estava perturbando e
evitando todas as tentativas de Honor de se aproximar
demais. Ele no queria nem fazer amor. Mas quando
voltaram para Nova York, para imenso alvio de Honor, o
mau humor foi embora. De repente, ele estava atrs dela de
novo.
Ele no ia querer comear uma famlia se no me amasse,
pensava ela. Esta  a forma dele de se desculpar pelo Taiti. E
sinceramente, por que devemos esperar? O que poderia ser
mais lindo do que ter um mini-Jack correndo pela casa?
A primeira filha deles, Roberta, nasceu nove meses depois,
seguida aps um ano pela irm, Rose. Como as gestaes
foram seguidas, Honor ainda estava com alguns quilos a mais
da gravidez de Roberta quando engravidou de Rose. Como
resultado, quando Jack a levou para jantar para comemorar o
segundo aniversrio de casamento, Honor estava com 20
quilos a mais que no dia do casamento.
 Por que voc no comea a correr de novo?  sugeriu
Jack bruscamente enquanto comiam seus escalopes.  Voc
poderia ir com sua irm e o personal trainer dela. Grace est
com o corpo timo no momento. O cara deve saber o que
est fazendo.
Era como se ele tivesse enfiado uma agulha no olho de
Honor. Grace. Por que tudo sempre voltava para Grace?
Quando Honor se casou com Jack Warner, ela se sentiu a
estrela do show pela primeira vez na vida. Enquanto
cresciam, Grace sempre roubava a cena. E o pior  que fazia
isso sem nem mesmo tentar. S de entrar em um lugar,
Grace j atraa todos os olhares, brilhando com uma luz to
ofuscante que apagava totalmente a presena da irm. Honor
tentava sufocar a inveja e o ressentimento que sentia por
Grace. Sabia que Grace a amava e a considerava sua melhor
amiga. Mesmo assim, havia vezes em que Honor Knowles
fantasiava que sua irm sofria um "acidente". Via Grace
caindo das barras, seu pequeno e perfeito corpo de boneca
contorcido e quebrado no cho do ginsio. Ou um acidente
de carro no qual os lindos traos de modelo de Grace eram
destrudos pelas chamas. As chamas do meu dio. As
fantasias eram uma vergonha, mas faziam com que se
sentisse bem.
Quando Honor se casou com Jack, pensou: Tudo isso ficou
para trs. Agora sou feliz e famosa, agora que uma pessoa
maravilhosa me ama, posso ser a irm mais velha que Grace
sempre sonhou.
As coisas no saram bem assim. Ironicamente, foi Honor
quem apresentou Grace a Lenny Brookstein, em um dos
jantares de Jack para angariar fundos. Duas semanas depois,
Grace anunciou que eles estavam apaixonados.
No incio, Honor achou que ela estivesse brincando. Quan-
do percebeu que estava enganada, sentiu-se enjoada.
        Mas, Grace, voc tem 18 anos. Ele tem idade para ser seu
av.
        Eu sei.  loucura!  Grace riu, aquela gargalhada doce
que fazia todos os homens derreterem como manteiga no
forno.  Nunca achei que eu poderia me sentir assim por
algum como Lenny, mas... estou to feliz, Honor. De
verdade. E Lenny tambm. No pode ficar feliz por ns?
        Querida, eu estou feliz. Se  isso o que voc realmente
quer.
Mas Honor no estava feliz. Estava furiosa.
Para Grace no era suficiente se casar com algum investidor
rico normal, como Connie fizera. Ah, no. A madame tem
que fisgar o maior bilionrio de Nova York. Os breves cinco
minutos de fama de Honor Knowles j estavam terminando.
Enquanto ficava presa dentro de casa, gorda e exausta como
uma galinha me, Grace era mais uma vez o assunto da
cidade. E agora aqui estava Jack, seu prprio marido,
comparando-a desfavoravelmente com sua irmzinha
porque ela ganhara alguns quilos para dar  luz as filhas dele!
Isso era insuportvel.
Mesmo assim, Honor suportava, estoicamente e em silncio.
Da mesma maneira que ela suportava a forma como Jack a
negligenciava e s filhas, o egosmo dele, sua ambio
crescente e, mais recentemente, as infidelidades. Ela
emagreceu todos os quilos que ganhara. Para o pblico, o
senador Jack Warner e sua esposa tinham um casamento de
conto de fadas. Honor no tinha a inteno de desiludi-los.
O faz de conta era tudo que lhe restava, e ela o mantinha,
sorrindo para Jack lealmente durante seus discursos, dando
entrevistas a revistas sobre suas dicas de dona de casa e sobre
o talento de Jack como pai "de mo cheia".  claro que
Honor sabia que a nica coisa em que Jack colocava as mos
ultimamente era nos seios da bab, mas preferia morrer a
admitir isso.
O mesmo se aplicava ao dio que sentia pela irm. Por fora,
Honor se mantinha prxima das irms, mas principalmente
de Grace. As duas almoavam juntas duas vezes por semana,
alm das viagens de compras regulares e frias em famlia.
Mas por baixo da fachada de irm carinhosa, o
ressentimento de Honor fervia como magma.
Jack encorajava a esposa a estreitar os laos com os
Brookstein.
 Todo mundo ganha, querida. Voc precisa passar mais
tempo com Grace. Sei o quanto voc a ama. E assim, ganho
tempo com Lenny tambm. Se Lenny Brookstein apoiar
minha candidatura  Casa Branca daqui a quatro anos,
ningum vai me segurar.
Honor pensou a respeito. Se Jack concorrer  presidncia,
vai ter que parar de sair com outras mulheres.  arriscado
demais. Alm disso, se ele se tornar presidente, com o
dinheiro de Lenny Brookstein, eu serei a primeira-dama.
Nem Grace poder superar isso.
Recentemente, porm, o fervor de Jack pelos cunhados
bilionrios havia esfriado. Comeou com comentrios
maliciosos sobre as roupas de Grace e sobre a pana cada vez
maior de Lenny. Nos dias que antecederam o Baile do
Quorum, se transformou em algo mais aberto. Jack estava
bebendo muito. Em casa, quando estava bbado, ele falava
com Honor sobre a "deslealdade" e a "arrogncia" de Lenny
Brookstein.
        Canalha, com quem ele acha que est falando? Com um
de seus empregados?  divagava ele.  Se Lenny quer que
lambam o cho que ele pisa, deve pedir para John Merrivale
ou para aquele puxa-saco do Preston. Eu sou um senador dos
Estados Unidos, diabos!
Honor no fazia ideia do que Jack estava falando. Queria
perguntar, mas tinha medo. Apesar de tudo, Honor Warner
ainda amava o marido. Bem no fundo, tinha certeza de que
se ajudasse na carreira de Jack  se dissesse as coisas certas,
se usasse o vestido certo, se organizasse as festas certas ,
ele acabaria se apaixonando por ela de novo.
Ela no sabia que Jack Warner nunca fora apaixonado por
ela.
JACK DESCEU AS ESCADAS de roupo, procurando algum
remdio para azia. Roberta, a quem seus pais chamavam de
Bobby, pulou nos braos dele.
        Papai!  Loura e gorducha como um querubim
renascentista, Bobby sempre fora uma criana muito
carinhosa.  Use disse que, se no formos boazinhas, no
vamos para In-tucket. Isso no  verdade, ?
Jack colocou a filha no cho.
        No perturbe seu pai, Roberta  disse Use.
        Mas ns gostamos de In-tucket. At Rose gosta, no
gosta, Rosie?
Rose, de 4 anos, tirou um batom Dior da bolsa de maquia-
gem da me, quebrou-o ao meio e comeou a esfregar
aquela cera cor-de-rosa por todo o cho de madeira. Use
estava ocupada demais olhando para o patro para notar.
        Posso ajud-lo, senador Warner?
        No  respondeu Jack. Nantucket. Eu tinha esquecido.
Aquele cretino do Brookstein nos convidou para ir  casa
dele ontem  noite. Como se fssemos muito bons amigos.
Jack precisara engolir seu orgulho para pedir ajuda a Lenny
Brookstein. Nunca teria feito isso se no estivesse
desesperado. Mas ele estava desesperado, e Lenny sabia
disso. Comeara como uma forma de aliviar o estresse.
Algumas apostas inocentes aqui e ali em corridas de cavalos
ou nas mesas de blackjack. Mas quanto mais Jack perdia,
mais suas dvidas aumentavam. O jogo tinha despertado um
lado impulsivo de Jack Warner que nem ele sabia ter. Era
excitante, divertido e viciava. Recentemente esse vcio
comeara a custar caro em termos financeiros. Mas o maior
risco era poltico. Jack construra toda sua carreira sobre sua
reputao como um conservador ntegro e cristo. Podia
no ser ilegal jogar compulsivamente, mas faria com que
perdesse os votos das famlias em um piscar de olhos.
Fred Farrel foi direto.
        Voc tem que parar com isso, Jack. Agora mesmo. Pa-
gue tudo o que deve e limpe a sua ficha.
Como se fosse fcil assim! Pagar todas as minhas dvidas?
Com o qu? Toda a herana de Honor tinha sido usada na
casa e na educao das meninas. Como senador, Jack
ganhava 140 mil dlares por ano, uma frao do que
ganhava como advogado, e uma frao muito menor do que
devia agora  e em alguns casos para uns figures nada
amigveis.
No havia como sair dessa. Teria de pedir ajuda ao cunhado.
Seria constrangedor, certamente. Mas quando explicasse a
situao, Lenny o ajudaria. Lenny pensa no longo prazo.
Quando eu me tornar presidente, vou pagar mil vezes mais.
Ele sabe disso.
Mas aconteceu que Lenny no sabia. Em vez de fazer um
cheque, ele lhe dera um sermo.
        Sinto muito por voc, Jack. Mas no posso ajudar. Meu
pai jogava. Fez a minha me viver um inferno. Se no
fossem os amigos que emprestavam dinheiro para ele uma
vez aps a outra, o pesadelo poderia ter acabado muito antes.
E alm de tudo, ele perdeu dinheiro que podia ter usado para
pagar o tratamento mdico da minha me.
Jack tentou manter-se calmo.
        Com o devido respeito, Lenny. Acho que eu no tenho
muito em comum com seu pai. Sou um senador dos Estados
Unidos. Eu mereo esse dinheiro, voc sabe disso.  s um
pequeno problema de fluxo de caixa.
Lenny abriu um sorriso amvel.
        Nesse caso, tenho certeza de que conseguir resolver
sozinho. Mais alguma coisa?
Canalha arrogante! No foi apenas uma recusa. Foi uma
rejeio, Jack no se esqueceria dessa desfeita enquanto
vivesse. Na noite anterior, seu ltimo pensamento fora
mandar Lenny Brookstein enfiar o convite para Nantucket
onde "o sol no brilha". Mas refletindo bem, isso seria um
erro. A verdade era que ele ainda precisava urgentemente de
uma significativa injeo de dinheiro. Honor e Grace, eram
amigas. Talvez se Honor tentasse com a irm, Grace poderia
convencer seu amado marido a ser racional?  claro que,
para seguir esse caminho, Jack teria de abrir o jogo com
Honor sobre suas dvidas de jogo. No era uma ideia
atraente. Mas no fim das contas, o que ela faria? Me deixaria?
Acho que no.
Virando-se para Ilse, ele disse:
        Partiremos para Nantucket segunda-feira bem cedinho.
Por favor, providencie tudo para que as meninas estejam
prontas e com as malas arrumadas.
Bobby lanou um olhar de puro triunfo para a bab.
        Viu? Eu disse que ns amos.
        Sim senhor. Tem mais alguma coisa... especial... que o
senhor queira que eu providencie?
Ilse piscou de forma sensual para ele. Suas intenes no
podiam ser mais claras. Nem as de Jack.
        No. Voc no vai conosco. A partir de segunda-feira,
voc est despedida.
Pegou um remdio para indigesto no armrio da cozinha,
subiu as escadas e voltou para a cama.
Captulo 4
CONNIE GRAY ESTAVA no parquinho, vendo seus filhos
brincarem.
Olhe para eles. To inocentes. No fazem idia que o mundo
deles est desmoronando.
Cade tinha 6 anos e era a imagem do pai, Michael. Com
Cabelo escuro e pele levemente bronzeada, ele tinha o
mesmo rosto feliz, sincero de Mike. Cooper tinha mais de
Connie. Ele era mais claro, os traos mais femininos. E era
uma criana muito mais complexa. Sensvel. Ansioso.
Ambos eram muito inteligentes. Com pais como Connie e
Mike, como poderiam no ser? Mas Cooper, de 4 anos, era
um pensador.
O que ser que ele pensaria se soubesse o que a sua me
planejava? Talvez um dia, quando fosse mais velho, ele
entendesse? Como momentos desesperadores exigem
medidas desesperadas?
A MAIS VELHA DAS IRMS Knowles, Connie, fora a primeira
aluna da classe desde o primeiro ano. O orgulho e a alegria
da me, Connie precisava lutar pelo respeito e a afeio do
pai.
O corao de Cooper Knowles j tinha dona. Ele pertencia 
filha mais nova, Grace.
Assim como Honor, Connie percebeu cedo que o beb da
famlia era "especial", uma criana singularmente cativante e
encantadora. Diferente de Honor, porm, Connie no tinha
a menor inteno de ser coadjuvante de Grace ou de abrir
mo de sua notoriedade. Ela desempenhava seu papel de
crebro da famlia com louvor, formando-se como primeira
da turma no ensino mdio e sendo aceita em todas as
melhores universidades do pas. Embora no se interessasse
muito por beleza e moda, Connie sabia que era atraente,
embora de maneira forte, masculina. Ela fazia todo o
possvel para manter sua pele de cetim e o corpo magro com
pernas compridas que os homens tanto admiravam. Ela
podia no estar  altura de Grace em termos de beleza, mas,
sendo oito anos mais velha, no precisava.
Quando Grace tiver idade para ser apresentada  sociedade,
eu j estarei muito bem casada. A, ela ser problema de
Honor.
E claro, ela estava. Como todas as irms Knowles, Connie se
casou por amor. Michael Gray era lindo naquela poca. Ele
ainda era bonito, mas quando se conheceram, ele ainda
tinha o fsico de jogador de futebol e os traos esculpidos
dos modelos da Armani que faziam todas as secretrias do
Lehman Brothers suspirarem.
Connie continuou trabalhando como advogada at Cade
nascer. Depois disso, no via por qu. Michael era scio na
Lehman, e ganhava milhes de dlares por ano em bnus.
Claro, a maior parte disso vinha na forma de aes. Mas,
naquela poca, quem se importava com isso? As aes dos
bancos s seguiam uma direo: para cima. Se os Gray
gastavam vrias vezes o salrio base anual de Mike, s
estavam fazendo o que todo mundo fazia. Se voc queria
algo caro, como uma casa de praia nos Hamptons ou um
Bentley ou um colar de 100 mil dlares para dar de
aniversrio de casamento para sua esposa, 80 precisava pegar
emprestado de suas aes. Era um sistema simples e
tributariamente eficiente, e ningum questionava. Ento, a
Bear Stearns quebrou.
Em retrospectiva, a falncia da venervel instituio de
Nova York em maro de 2008 foi o comeo do fim para
Michael e Connie Gray, e para outros milhares como eles.
Mas, claro,  fcil olhar para trs. Connie se lembrava que na
poca era como se algo terrvel, ssmico, inimaginvel
estivesse acontecendo com outra pessoa. Essas eram as
melhores tragdias. Aquelas que acontecem perto o
suficiente para fazer com que voc sinta o frisson do terror e
da excitao, sem afetar realmente a sua vida.
Fazia nove meses desde aquele dia terrvel de setembro,
quando o mundo de Connie desabou. Ela ainda acordava
algumas manhs se sentindo feliz e contente por alguns
breves segundos... at que se lembrava.
O Lehman Brothers pediu concordata no dia 16 de setembro
de 2008. Da noite para o dia, os Gray viram o valor do seu
patrimnio lquido cair de algo em torno de 20 milhes de
dlares para, mais ou menos, um milho  o equivalente 
pesada hipoteca da casa em Nova York. Depois, o mercado
imobilirio despencou e esse milho de dlares se
transformou em 500 mil. No Natal, eles j tinham vendido
tudo que tinham menos as jias de Connie e tirado as
crianas do colgio. Mas o verdadeiro problema no era
tanto a catstrofe em si, mas as reaes opostas de Connie e
Mike  situao.
Michael Gray era um homem bom. Um cara confivel. E um
homem bom no fica para baixo por muito tempo.
 Pense nos milhes de pessoas que esto em uma situao
pior do que a nossa  dizia ele constantemente para
Connie.  Temos sorte. Temos um ao outro, dois filhos
maravilhosos, bons amigos e algumas economias. Alm
disso, ns dois somos jovens o suficiente para voltar a
trabalhar e comear a ganhar dinheiro de novo. Connie
dizia:
        Claro que somos, querido.  E lhe dava um beijo.
Por dentro, ela pensava: Sorte? Voc perdeu o juzo?
Connie Gray no queria voltar a trabalhar e comear a
ganhar dinheiro novamente. Ela no queria colocar as mos
na massa e tentar de novo. No queria guardar os problemas
em sua velha mochila e sorrir, sorrir, sorrir; e se Mike
abrisse a boca para falar mais uma insensatez dessas, ela o
estrangularia com a nica gravata de seda Hermes que
sobrara.
Connie no tinha o menor interesse em se tornar uma das
destemidas e esticas sobreviventes do colapso. O sonho
americano no era sobreviver. Era vencer. Connie Gray
queria ser uma vencedora. Tinha se casado com um
vencedor e ele a decepcionara. Agora precisava encontrar
um novo protetor, algum que pudesse proporcionar uma
vida decente para ela e para os filhos.
O caso com Lenny Brookstein no tinha sido planejado.
Caso! A quem estou querendo enganar? Foram s duas ve-
zes. Lenny deixou isso bem claro na noite passada.
Connie sempre se dera bem com o ilustre marido de Grace.
Em pocas mais felizes, ela e Mike jantavam regularmente
com os Brookstein. Inevitavelmente, era sempre Connie e
Lenny que terminavam a noite se acabando de rir de alguma
piada que s os dois entendiam. Grace sempre dizia a
Connie:
        Sabe,  engraado. Voc e Lenny so to parecidos.
Parecem feitos do mesmo material. Quando ele fala comigo
do Quorum, eu no fao a menor ideia do que est falando.
Voc sabe tudo!  como se voc realmente se interessasse.
E Connie sempre se perguntava: Como esses dois puderam
se casar?
Lenny Brookstein era brilhante e cativante, inflexvel e
ambicioso, e vivo, a pessoa mais viva que Connie j
conhecera. (race era... doce. Para Connie no fazia o menor
sentido. Mas no ficava pensando muito a respeito. Naquela
poca, ela e Michael eram felizes e ricos, mas de uma forma
mais modesta.
Naquela poca...
A primeira vez que aconteceu foi no escritrio de Lenny,
tarde da noite. Connie fora conversar em particular com o
cunhado sobre um emprstimo-ponte e sobre a possibilidade
de ajudar Michael a encontrar um novo emprego. Os
diretores do Lehman Unham se tornado os leprosos de Wall
Street, infectados pela falncia, intocveis. Michael era um
bom banqueiro, mas ningum estava disposto a lhe dar uma
segunda chance.
Connie comeara a chorar. Lenny a abraou. Antes que
percebessem, eles estavam no cho, um nos braos do
outro, e Lenny estava fazendo amor apaixonadamente com
ela. Depois, Connie sussurrou:
        Ns somos to parecidos, eu e voc. Ns dois somos
determinados. Michael e Grace no so assim.
        Eu sei  disse Lenny.   por isso que precisamos
proteg-los. Eu e voc sabemos nos proteger.
No era a resposta que Connie esperara. Mas no saiu
decepcionada naquela noite do Quorum. Pelo contrrio,
uma nova e interessante porta acabara de se abrir. Ao deitar
na cama ao lado de Michael naquela mesma noite, ela se
perguntou, animada, aonde essa porta poderia lev-la.
NO LEVOU a lugar nenhum.
Duas semanas depois, Connie dormiu com Lenny de novo,
desta vez em um hotel barato em Nova Jersey. Lenny estava
se corroendo de culpa.
        No consigo acreditar que fizemos isso. Que eu fiz isso -
corrigiu-se ele.  A culpa no  sua, Connie. Voc e
Michael esto passando por um momento muito estressante.
Mas eu no tenho desculpa.
Connie sussurrou com a voz rouca:
        Voc no precisa de desculpa, Lenny. Voc no  feliz
com Grace. Compreendo isso. Ela nunca foi a mulher certa
para voc.
Lenny arregalou os olhos. Olhou para Connie genuinamente
incrdulo.
        No  a mulher certa para mim? Grace? Meu Deus. Ela
 tudo para mim. Eu a amo tanto, eu...  Ele no terminou
a frase, sentia-se sufocado. Um pouco depois, disse:  Ela
nunca poder saber disso. Nunca. E isso nunca mais pode
voltar a acontecer. Vamos chamar de um momento de
loucura e seguir em frente, est bem?
        Claro  disse Connie.  Se  o que voc quer.
Enquanto dirigia de volta para casa e para Michael, ela mal
conseguia conter sua raiva. Seguir em frente? SEGUIR EM
FRENTE? Para o qu? Para uma vida de penria com meu
no mais bem-sucedido marido, vivendo das migalhas da
mesa da minha irmzinha? Vai se foder, Lenny Brookstein.
Voc me deve. E agora pode me pagar. Acha que eu vou
deix-lo voltar para os braos de Grace impunemente?
        MAME, olhe para mim!
Cade estava no balano. Movimentando as pernas finas para
a frente e para trs tentando ganhar altura, depois pulou no
ar, com um som surdo na areia ao aterrissar.
        Viu como eu fui alto, me?
        Vi, sim, meu amor. Foi incrvel.  Connie puxou seu
fino xale de vero para cima dos ombros. Cashmere, da
Esccia, fora um presente de aniversrio de Grace. Logo
tudo o que temos ser presente de Grace. A comida em
nossa mesa, as camisas em nosso corpo.
A idia de passar a semana seguinte com Lenny e Grace na
magnfica manso de praia deles era suficiente para deixar
Connie nauseada. Principalmente depois da ltima conversa
em particular com Lenny na pista de dana do Baile do
Quorum na noite anterior. O cretino teve a audcia de ficar
com raiva dela. Dela! Como se tivesse sido ela quem correra
atrs dele. Ele lhe dera esperanas e depois a jogara fora
como lixo, correndo de volta para sua irmzinha e para a
vida perfeita deles, e agora Connie devia ficar grata por ele
pagar a passagem area para que ela ficasse na manso de 60
milhes de dlares e assistisse aos dois dando beijinhos?
Foi Michael quem insistiu:
        Eu gostaria de ir. Foi generoso da parte de Lenny nos
convidar, e para mim seria bom me afastar um pouco de Nova
York. Velejar um pouco, respirar o ar da praia.
Michael sempre gostara de Lenny. Mas era Michael. Ele
gostava de todo mundo. Quando Lenny fez o convite no
dia anterior,  noite, Michael quase lambeu a mo dele.
Se ele soubesse onde as mos de Lenny Brookstein
estiveram - nos meus seios, na minha bunda, entre as
minhas coxas , no lamberia to rpido.
Mas Michael Gray no sabia.
Contanto que Lenny fizesse o que era decente e desse a
Connie o que ela queria, ele nunca precisaria saber.
Captulo 5
A PROPRIEDADE DE Grace e Lenny Brookstein em Nantucket
era uma enorme manso idlica com telhas cinza que ficava
na Cliff Road, ao norte da ilha. A casa principal ostentava
dez sutes, uma piscina coberta e um spa, uma sala de
cinema com o que havia de mais moderno, uma cozinha de
restaurante e um espaoso terrao com telhado triangular
(conhecido em Nantucket como "porto das vivas", porque
no passado as esposas dos marinheiros costumavam subir at
o telhado de suas casas para ficar olhando para o mar, na
esperana de ver os barcos de seus maridos, havia muito
desaparecidos, voltando para casa). Jardins formais, com
lavandas, rosas e cercas vivas em estilo europeu desciam
colina abaixo at uma das mais tranquilas e famosas praias da
ilha. Ao p dos jardins, ficavam quatro chals para hspedes
cercados de glicnias, charmosas casas de boneca de madeira
branca, cada uma com seu pequeno quintal e cerca branca.
Em qualquer outro lugar, esses chals seriam nauseantes.
Mas ali, naquela ilha mgica congelada em uma era antiga e
mais simples, eles funcionavam.
Pelo menos era o que Grace Brookstein achava. Ela os
construra e projetara, at o ltimo travesseiro Ralph Lauren
e banheira vitoriana.
Grace adorava Nantucket. Foi ali que ela e Lenny se casa-
ram, sem a menor dvida o dia mais feliz da vida de Grace.
Mas era mais do que isso. Havia uma simplicidade na ilha
que no existia em nenhum outro lugar.  claro que existia
dinheiro em Nantucket. Muito dinheiro. Pequenos chals de
pescadores com trs quartos mudavam de mos por mais de
2 milhes de dlares. Durante o vero, restaurantes cinco
estrelas como o 21 Federal e o Summerhouse cobravam
mais por sua lagosta do que o George V em Paris. Butiques
das mais famosas grifes nas ruas Union e Orange exibiam
cardigs de mil dlares em suas vitrines. Galerias de arte
representando artistas locais vendiam peas por seis dgitos,
s vezes at sete, para os moradores mais ricos da ilha. Ainda
assim, de alguma forma, Nantucket permanecia um lugar
simples. Em todos os anos em que vinha para a ilha, Grace
nunca vira carros esportivos. Bilionrios e suas esposas
andavam pela ilha usando short de brim e camisetas de
algodo branco da Gap. At os iates no porto eram
conservadores, muito menos chamativos do que os de East
Hampton, Saint-Tropez ou Palm Beach. Lenny s atracava
em Nantucket um modesto barco de 47 ps. Ele teria
morrido de vergonha se aparecesse ali com seu Quorum
Queen de 300 ps, embora, na Sardenha, Grace mal
conseguisse tir-lo dali de dentro.
Nantucket era um lugar onde pessoas ricas fingiam ser po-
bres. Ou, pelo menos, mais pobres. Fazia com que Grace se
sentisse nostlgica, lembrando-se da infncia, de uma poca
mais simples em sua vida, uma poca de prazeres inocentes.
Ela ficava muito feliz com o fato de Lenny gostar tanto da
ilha quanto ela. Alm de Le Cocon, o retiro que eles tinham
em Madagascar, no havia nenhum outro lugar na terra em
que Grace se sentisse to relaxada. Os Brookstein eram
felizes em qualquer lugar, mas aquela casa era onde eram
mais felizes.
Grace e Lenny chegaram trs dias antes de seus convidados.
Lenny ainda tinha trabalho para colocar em dia (como
sempre!) e Grace precisava de tempo para conversar com os
empregados e se certificar de que tudo estivesse perfeito
para seus hspedes.
-        Deixem Honor e Connie com os maiores chals porque
elas tm filhos. Andrew e Maria podem ficar com aquele
mais perto da areia, e os Merrivale podem ficar com o
menor. Caroline j        esteve aqui, ento tenho certeza de
que no vai se incomodar.
Havia tanto o que fazer! Planejar cardpios, encomendar
flores, ver se todas as bicicletas e varas de pescar estavam
prontas para seus sobrinhos e sobrinhas. Para Grace, parecia
que ela nunca via Lenny.
Na noite anterior  chegada da horda, os dois tiveram um
jantar romntico no Chanticleer, um lindo restaurante
reservado na aldeia de pescadores de Siasconset. Bem, teria
sido romntico se Lenny no tivesse passado a noite toda
grudado ao seu BlackBerry.
-        Est tudo bem, amor? Voc parece to estressado.
Grace estendeu o brao por cima da mesa e apertou a mo
dele.
-        Desculpe, meu bem. Est tudo bem. S estou um pouco...
Tem muita coisa acontecendo neste momento. Mas nada
com o que precise se preocupar, meu anjo.
Grace tentou no se preocupar, mas era difcil. Lenny nunca
trazia os problemas do trabalho para casa. Nunca. Naquela
manh, um mendigo inofensivo pedira um trocado para
Lenny, que lhe passou um sermo de dez minutos sobre
alcoolismo e assumir responsabilidades. Mais tarde, Grace
estava colhendo framboesas no jardim quando entreouviu
gritos pela janela do quarto deles. Ele estava falando ao
telefone com John Merrivale. Grace no conseguiu entender
tudo o que ele dizia. Mas uma frase ficou martelando em sua
cabea:
 Todos querem um pedao de mim, John. Os cretinos es-
to me sugando. Se voc estiver certo sobre Preston, depois
de tudo o que fiz por ele... Vou cortar a mo dele fora.
O que ele queria dizer com "me sugando"? E quem eram os
cretinos? Certamente no Andrew Preston. Ele trabalhava
com Lenny desde o primeiro ano. Ele e Maria eram
praticamente da famlia, assim como os Merrivale.
O nico conforto de Grace era que, pelo menos, Lenny es-
tava falando com John. Ela sabia o quanto o marido confiava
nele e o respeitava como um irmo. Independentemente do
problema, Grace tinha certeza de que John saberia o que
fazer. No dia seguinte, ele estaria ali. Ento, quem sabe,
Lenny se sentiria mais relaxado.
As FRIAS COMEARAM tranquilamente. Assim que os
hspedes chegaram, Lenny ficou mais relaxado, quase o
Lenny de sempre. Com exceo de Jack Warner, que ainda
parecia de mau humor, todos pareciam felizes por estar ali e
determinados a se divertir.
Michael Gray se designou o animador das quatro crianas e
levou as sobrinhas, Bobby e Rose, para pescar caranguejos
com os primos, e deu a todos sorvetes no Jetties Beach.
Grace ficou encantada. Tinha pena de Mike e Connie por
tudo o que tinham passado no ltimo ano. Dava para ver que
as frias estavam fazendo bem a Mike. Quanto a Cooper e o
pequeno Cade, eles estavam no stimo cu, andando de
bicicleta o dia todo ou cobertos de areia at o pescoo.
Durante o dia, os outros homens  John, Andrew, Jack e
Lenny  velejavam ou jogavam golfe enquanto suas esposas
faziam compras como terapia. Grace adorava dar pequenos
presentes para as irms. Nada lhe proporcionava mais prazer
do que gastar seu dinheiro com outros, principalmente
Connie e Honor. Faria o mesmo por Caroline e Maria, mas
achava que nenhuma das duas permitiria.
Elas provavelmente no se sentem  vontade porque sou
muito mais nova do que elas. Pensam em mim como uma
filha. Ainda assim, Caroline sempre tinha sido to atenciosa
com ela. Grace estava determinada a encontrar uma forma
de mostrar sua gratido.
        Eu estava pensando em oferecer um jantar especial
amanh  Grace contou para Lenny no escritrio. Ela
estava transbordando animao.  Vou perguntar a John
todos os pratos preferidos de Caroline e pedirei para Felcia
preparar. O que voc acha?
Lenny a fitou com carinho.
        Acho uma tima idia, Grace.
Grace virou-se para sair, mas ele estendeu o brao e segurou
a mo dela.
        Eu amo voc. Sabia disso?
Ela riu e o abraou.
        Claro que sei. Francamente, Lenny! Que coisa estranha
para se dizer.
- Eu NO VOU me sentar ao lado dela. Nem de Lenny. E no
espere que eu bata palmas como uma foca amestrada e nem
demonstre gratido. Vou deixar isso por sua conta, John.
Caroline Merrivale estava com o humor pssimo. Embora
tivesse insistido para que aceitassem o convite de Lenny
para Nantucket, agora culpava John por tudo. Os passeios
chatos, a companhia montona, o fato de terem sido
relegados ao pior e menor chal para hspedes. Ela se
recusava a ver o "jantar especial" de Grace como outra coisa
a no ser um ato de arrogncia.
        S n-no faa uma cena, Carol, certo?  s o que lhe
peo.
         s o que me pede? Que direito voc tem de me pedir
alguma coisa? J falou com Lenny? Sobre o aumento?
John pareceu aflito.
        Ainda no. No  to si-simples quanto voc parece achar.
        Muito pelo contrrio, John.  muito simples. Ou voc fala
com ele ou eu falo.
        No! Voc no po-pode! Por favor, deixe Le-Lenny
comigo.
        Certo. Mas ento  melhor criar coragem e falar com ele
antes que estas frias acabem. Se eu tiver de escutar mais
uma vez a esposinha ftil dele me dizer o quanto  grata pela
minha incrvel amizade, no me responsabilizo pelos meus
atos.
John Merrivale pensou com tristeza: Grace  grata pela sua
amizade. Coitada.
Lenny era um homem de sorte. Esposas como Grace eram
uma em um milho.
 POR FAVOR, no faam cerimnia. Podem se servir!
Grace estava inexplicavelmente nervosa. O jantar parecia
fabuloso. Felicia tinha se superado como sempre. A sopa de
lagosta estava com um cheiro delicioso e tinha o tom cor-
de-rosa perfeito, o cordeiro assado dava gua na boca de to
suculento em cima das verduras orgnicas e a Pavlova de
framboesa parecia mais uma escultura do que uma
sobremesa, uma torre triunfante de merengue branco como
a neve e frutas vermelhas como sangue. Caroline no
poderia no ficar satisfeita.
Mesmo assim, Grace no conseguia curtir seu triunfo. Mais
cedo, naquele mesmo dia, ela escutara Connie conversando
acaloradamente com Lenny na praia, depois se afastando
com lgrimas nos olhos. Quando Grace alcanou a irm e
perguntou qual era o problema, Connie a dispensara.
-         Michael  explicou Lenny.  Ele est deprimido. Eles
esto passando por um momento de muito estresse, meu
bem. No leve para o lado pessoal.
Mas Grace levou para o lado pessoal. Menos de quatro horas
antes, Honor tambm fora grosseira com ela. Grace s tinha
perguntado se ela queria ir ao spa.
-        Nem tudo na vida pode ser resolvido com uma merda de
massagem, Grace, sabia? Deus, essa  a resposta para tudo?
Gastar mais dinheiro mimando a si mesma?
Grace ficou profundamente magoada. No era uma pessoa
materialista. Honor, mais do que qualquer outro, deveria
saber disso. Para ser justa, Honor pedira desculpas depois.
-         o Jack. Ele est com tanta coisa na cabea. Acho que o
estresse dele est me afetando.  Grace a perdoou e elas
fizeram as pazes. Mas, ainda assim, a ansiedade continuava.
Talvez estivesse imaginando, mas, para Grace, havia uma
tenso quase palpvel ao redor da mesa naquela noite.
Todos esto infelizes. At Lenny. Quero faz-los felizes, mas
no consigo.
- A sopa est divina, Grace. Bom trabalho.  Michael Gray
sorriu para sua cunhada.
-        Obrigada.  Ela retribuiu o sorriso. Ele no me parece
deprimido.
Maria Preston disse com uma expresso de desprezo:
-         verdade, devemos parabenizar o chef. Ele deve ter
trabalhado como um escravo o dia todo para preparar este
banquete.
Andrew Preston corou. Nem mesmo Grace Brookstein era
burra o suficiente para no perceber uma agulhada como
aquela. Gostaria que Maria se segurasse, mas, aps umas taas
de vinho, ela era letal. J era ruim o bastante ela ter insistido
para vir jantar com um luxuoso vestido de noite Roberto
Cavalli, com uma fenda at a coxa e muito inapropriado para
a ocasio.
        Maria, cara. Todo mundo vai estar vestindo jeans ou
vestidos simples de vero. Voc est deslumbrante, meu
anjo, como sempre. Mas no poderia...
        No, Andy. No poderia. Eu no sou todo mundo. Ainda
no entendeu isso?
Grace era educada demais para morder a isca de Maria.
Lenny no tinha tais escrpulos.
        Na verdade  "uma" chef. Felicia.  O tom de voz dele
era comedido.  E ela trabalha duro, mas eu no a chamaria
de escrava. No ano passado, paguei a ela bem mais do que
paguei ao seu marido, Maria.
Andrew corou ainda mais. Maria o fitou com uma fria
silenciosa.
Grace desejou que o cho se abrisse e a engolisse. Detestava
confrontos. Lenny, por outro lado, estava cansado de pisar
em ovos.
        Senador Warner  disse ele, alegremente.  Est
terrivelmente quieto esta noite. Qual  o problema, Jack?
No est com esprito de festa?
Se um olhar pudesse matar, Lenny Brookstein teria cado
morto sobre a mesa.
        No, Lenny, no estou. Os nveis de desemprego no
meu distrito eleitoral chegam a dez por cento. Enquanto
estamos aqui sentados em volta da sua mesa, comendo boa
comida e tomando bom vinho, as pessoas que votaram em
mim esto perdendo suas casas, seus empregos, seus planos
de sade, sua esperana. E eles contam comigo para tentar
consertar as coisas pra eles. Ento, no, no estou com esp-
rito de festa. Se me der licena.
Honor assistiu horrorizada enquanto Jack se levantava da
mesa e deixava a sala. Ele finalmente tinha aberto o jogo
sobre suas dvidas de jogo na noite anterior. Honor no
pregara o olho a noite toda. Foi a exausto que fez com que
perdesse a cabea com Grace mais cedo, algo pelo qual
sentiu remorso o dia todo. No porque se importasse com os
sentimentos de Grace. Mas porque o objetivo daquela
viagem era tentar se aproximar mais de Grace para que ela
influenciasse Lenny a ajudar Jack.
Na noite anterior, Jack tinha dito aos gritos:
        Eu preciso de Lenny Brookstein! Sem o dinheiro dele,
estou acabado, entendeu? Ns estamos acabados.
Honor entendeu. Mas ali estava Jack, saindo da mesa como
uma criana mimada, constrangendo os dois na frente de
todo mundo.
         melhor eu ir atrs dele  disse ela, resignada. 
Desculpe, Grace. Lenny.
O jantar se arrastou. Depois da sada dos Warner, todo
mundo se esforou para parecer contente, mas as cadeiras
vazias de Honor e Jack pareciam dois fantasmas no
banquete. John Merrivale fez um brinde, agradecendo a
Grace pelo jantar, mas a gagueira dele ficou to ruim que
Caroline precisou terminar. Connie saiu antes da sobremesa,
alegando dor de cabea. Quando a empregada trouxe o caf,
os sorrisos forados dos hspedes estavam comeando a
sumir.
Mais tarde, na cama com Lenny, Grace se debulhou em
lgrimas.
        Foi um desastre, no foi? Por que tudo gira em torno dessa
estpida economia o tempo todo? Connie e Michael
perdendo a casa, Jack preocupado com o desemprego.
        Acho que esse no  o nico motivo do estresse dele,
meu bem.
        At Caroline e Maria enquanto faziam o cabelo hoje
estavam reclamando sobre como Andrew e John esto
ganhando menos este ano. Odeio isso.
Lenny ficou furioso.
        Maria e Caroline estavam reclamando com voc? Est
brincando comigo? Elas tm sorte porque o marido delas
ainda tem emprego. A Comisso de Valores Mobilirios est
nos rondando feito urubus.
Grace engasgou.
        Esto investigando voc?
        No se preocupe, meu bem, no  nada. Uma tempestade
em copo d'gua. Eles esto investigando todos os grandes
fundos de hedge no momento. A questo  que so tempos
difceis, e o Quorum sobreviveu por minha causa. Ou seja,
os maridos daquelas vadias ingratas sobreviveram por minha
causa.
        Por favor, querido  soluou Grace.  No fique furioso.
Eu no devia ter dito nada. No aguento mais brigas esta
noite. Srio, no posso suportar.
Lenny a pegou nos braos.
        Desculpe  sussurrou ele.  Eu estou parecendo um
estraga-prazeres nesta viagem, no estou?
Grace se aninhou no corpo dele. Sempre se sentia feliz e
segura quando estava junto a ele.
        Vou lhe dizer uma coisa. Amanh de manh, vou acor-
dar cedo e sair de barco sozinho. Velejar sempre me ajuda a
clarear as idias. Quando eu voltar para casa, estarei to
relaxado que voc nem vai me reconhecer.
        Parece timo.  Grace comeou a pegar no sono.
Depois, ela tentaria se lembrar das palavras exatas que Lenny
dissera em seguida. Era to difcil diferenciar o sonho da
realidade. O que ela achou que ouviu foi:
        Independentemente do que acontecer, Gracie, eu amo
voc.  Mas talvez ela tenha sonhado. A nica coisa que
sabia  que tinha dormido feliz naquele dia.
Pela ltima vez.
Captulo 6
JOHN MERRIVALE APERTOU O cinto de segurana e fechou os
olhos enquanto o bimotor de seis lugares subia atravs das
nuvens. Sempre com medo de voar, John tinha terror a
esses pequenos avies. Era como confiar sua vida a um
cortador de grama.
 No se preocupe.  A mulher ao lado dele sorriu de
forma amvel.   sempre turbulento de manh cedo, antes
de o sol atravessar as nuvens.
John Merrivale pensou: O sol consegue atravessar as
nuvens? Depois sorriu para si mesmo por estar to filosfico
logo naquele dia.
Se o cortador de grama no os decepcionasse, eles aterris-
sariam em Boston em 25 minutos. Eram 6h15.
s 8H15, ANDREW PRESTON tomou seu lugar em um avio
diferente. O Fokker 100 para cem passageiros estava com
apenas dois teros de sua lotao. Acho que poucas pessoas
viajam de Nantucket para Nova York em uma manh de
tera-feira. Todo mundo foi embora ontem.
Ele ficou confuso na noite anterior quando recebeu um
telefonema j bem tarde solicitando urgentemente sua
presena no escritrio. Peter Finch, o chefe da equipe de
investigao da Comisso de Valores Mobilirios que estava
examinando as contas do Quorum, queria v-lo
pessoalmente. Andrew estava aterrorizado com a reunio.
Podia pensar em algumas razes para Finch t-lo chamado
de volta para Nova York, e muitas ruins. Por outro lado,
estar longe do escritrio fazia com que se sentisse fora do
controle. Acreditava ter coberto seus rastros, mas esses
cretinos da Comisso eram como ces de caa.
De qualquer forma, ele precisava sair de Nantucket. Aquele
chal de hspedes estava comeando a parecer uma priso.
Aps sua humilhao pblica na noite anterior, Maria ficara
histrica e furiosa, xingando Andrew, gritando com ele e at
atacando-o fisicamente. Ao arregaar a manga da camisa, ele
ainda podia ver os arranhes vermelhos deixados pelas
unhas dela.
        Como voc ousa permitir que Lenny Brookstein nos
trate daquela forma! Ele me ridicularizou, e voc ficou l
sentado e no fez nada.
Andrew resistiu  vontade de dizer a Maria que foi ela quem
comeara ao tentar ridicularizar Grace. Em vez disso, ele
disse:
        O que voc queria que eu fizesse? Ele  meu chefe. Ele
paga as nossas contas.
        Muito mal! Ele paga menos para voc do que para a mal-
dita cozinheira. Voc no ouviu quando ele disse isso? Isso
no o incomoda?
Andrew tinha escutado. E isso o perturbara. Tinha quase
certeza de que Lenny estava brincando. Se a cozinheira
estava ganhando mais do que ele, ela certamente estava com
um salrio muito alto. Mas no era raro escutar sobre a
generosidade de Lenny ao tomar algumas decises
peculiares. Tentou racionalizar. Por que eu deveria me
importar com o quanto Lenny paga a algum? Afinal, o
dinheiro  dele. Ele pode fazer o que bem entender. Mas
ainda doa. Talvez, em algum nvel subconsciente, isso
justificasse o que Andrew tinha feito.
Maria dormia profundamente quando ele saiu naquela
manh, exausta da fria e da bebedeira da noite anterior.
Quando acordasse, estaria com uma tremenda ressaca.
Andrew no queria estar nem a 100 quilmetros de
distncia quando isso acontecesse. Agora no precisaria
estar.
        Tripulao, por favor, tome seus assentos para a de-
colagem.
Fechando os olhos, Andrew Preston tentou relaxar.
GRACE SE ENCONTROU com as irms para almoarem no
Cliffside Beach Club.
Aps o estranho encontro delas no dia anterior, Connie
estava solcita como nunca com Grace, at a presenteou
com uma linda concha cor-de-rosa que encontrara na praia
naquela manh.
        Sei que no  muito, mas achei que ficaria bonito na
sua penteadeira.
Grace ficou emocionada. Sabia como era difcil para Connie
se desculpar. A concha valia mais do que mil palavras.
Honor perguntou:
        Maria e Caroline vo conosco?
Usando um leve vestido creme J. Crew que a deixava
desinteressante, e com o cabelo preso em um rabo de
cavalo, Honor parecia exausta. Grace se perguntou se ela e
Jack haviam brigado na noite anterior, depois de ele se
retirar da sala de jantar, mas era educada demais para puxar o
assunto.
        Acho que no. Caroline foi  cidade comprar um qua-
dro. E Maria ainda est dormindo. Acho.
As irms se entreolharam.
        Fico imaginando o que ela usa para dormir.  Connie
riu.  Pijama Versace bordado a ouro?
Foi um momento agradvel, gostoso. Grace finalmente
comeou a relaxar.
A garonete veio e anotou os pedidos. Elas estavam sentadas
a uma mesa do lado de fora, bem na beira da praia, mas
quando a entrada chegou, nuvens escuras cobriam o cu.
O gerente apareceu.
        Gostaria de passar para uma mesa l dentro, Sra.
Brookstein? Tenho uma tima mesa perto da janela para
oferecer s damas.  Naquele instante, um trovo soou e
fez todo mundo pular. Segundos depois, pingos grossos de
chuva comearam a cair sobre a mesa.
        Quero sim, por favor  disse Grace, rindo. Pensou em
Lenny no barco. Espero que ele esteja bem e protegido da
chuva na cabine, e no no deque pegando uma gripe.
J ERAM QUASE 16 horas quando as irms chegaram em casa
e a tempestade j estava com fora total. Michael Gray as
encontrou na porta da frente.
        Graas a Deus vocs voltaram  disse ele, abraando
Connie com fora.
        S fomos almoar no clube, amor.  Ela riu.  Por que
voc est em pnico?
        Eu no sabia onde vocs estavam, s isso. Achei que
podiam ter sado para velejar com Jack. As condies no
esto nada boas no mar.
        Jack foi velejar?  O rosto branco de Honor ficou ainda
mais branco.  As meninas esto com ele?
        No  disse Michael.  No se preocupe. Bobby e Rose
esto brincando com os meninos na cozinha. Esto um
pouco entediadas, mas s isso.
        E Jack? Algum teve notcia dele?
        O rdio dele est quebrado.
Os joelhos de Honor comearam a tremer, Jack era um
excelente velejador desde a adolescncia, mas uma
tempestade como aquela testa as habilidades de qualquer
um, at as dele.
        Tudo bem  disse Michael.  A guarda costeira acha que
o localizou. Logo teremos mais notcias. Est uma loucura l,
vocs podem imaginar, mas eles esto tentando trazer todo
mundo de volta para o porto. Entrem, saiam da chuva.
        E Lenny?
Connie e Honor tinham entrado, mas Grace estava conge-
lada na entrada. Chuva pingava de seu cabelo e da ponta de
seu nariz. Parecia ter 12 anos.
Michael Gray franziu a testa.
        Lenny? Achei que ele estivesse no clube de golfe. Foi o
que ele disse aos empregados quando saiu esta manh.
Porque ele queria ficar sozinho. No queria que voc ou
Jack se convidassem para ir com ele.
        No.  Grace estava tremendo.  Ele est no barco.
        Algum foi com ele?
        No. Acho que no.
Michael tentou esconder sua preocupao.
        Tem alguma ideia de aonde ele ia, Grace? Quais eram os
planos dele?
Grace balanou a cabea.
        Tudo bem, querida. No se preocupe. Ns o
encontraremos. Entre, vou ligar para a guarda costeira. Eles
so os melhores. Logo ele estar em casa, voc vai ver.
JACK WARNER CHEGOU em casa s 18 horas, encharcado e
muito abalado.
        Nunca vi uma tempestade se aproximar to depressa.
Nunca.  Honor o abraou. Sem pensar, Jack retribuiu o
abrao.
Connie e Michael estavam no andar de cima, colocando as
crianas para dormir. Grace, Honor, Caroline e Maria
estavam sentadas na cozinha esperando alguma notcia. O
barco de Lenny ainda estava desaparecido.
John Merrivale tinha voltado de sua viagem de trabalho uma
hora antes. Aproximando-se de Grace, ele a abraou,
ignorando os olhares furiosos de Caroline.
        Tente no se p-p-preocupar. Lenny  um velejador
experiente.
Grace mal registrou o que ele tinha falado. Estava ocupada
demais rezando.
Perdi um pai, Deus. Por favor, no me deixe perder outro.
EXATAMENTE S 20H17, O telefone tocou. Grace pulou para
atender.
        Al?
Dez segundos depois, ela desligou. Os dentes tremendo.
        Grace?  Caroline Merrivale se aproximou dela.  O que
? O que eles disseram?
        Encontraram o barco.
Um coro de "graas a Deus" e "eu disse" ecoou. Quando
todos pararam de se abraar, Grace disse baixinho:
        Lenny no estava dentro.
Ento, ela desmaiou.
Captulo 7
Mais tarde, as lembranas de Grace do perodo aps o
desaparecimento de Lenny eram como um borro, um
longo e Ininterrupto pesadelo. Horas se transformavam em
dias, dias em semanas, mas nada parecia real. Ela estava
vivendo em um transe, uma medonha meia-vida da qual s
uma pessoa poderia resgat-la. E essa pessoa no estava mais
ali.
Aps trs dias, a guarda costeira encerrou as buscas. Em todo
o mundo, as manchetes anunciavam:
LEONARD BROOKSTEIN DESAPARECIDO, PROVAVELMENTE
MORTO
GNIO DOS FUNDOS DE HEDGE PERDIDO NO MAR
HOMEM MAIS RICO DE NOVA YORK PODE TER MORRIDO
AFOGADO
Grace nunca lera nada to terrvel em sua vida. Se, naquela
poca, algum lhe dissesse que o pior ainda estava por vir,
ela no teria acreditado. Como alguma coisa podia ser pior
do que a vida sem Lenny?
Foi John Merrivale quem a levou para casa em Nova York.
As irms dela e os outros j tinham voltado quando a busca
foi encerrada, mas Grace no tinha foras para sair de
Nantucket.
        Voc no pode ficar enterrada nesta ilha para sempre,
Gracie. Todos os seus amigos esto na cidade. Sua fa-famlia.
Voc precisa de apoio.
        Mas no posso deixar Lenny, John.  como se eu o esti-
vesse abandonando.
        Grace querida, eu sei que  difcil. Te-terrivelmente di-
fcil. Mas Lenny se foi. Voc precisa aceitar isso. Ningum
conseguiria sobreviver nem um dia naquelas -guas.
Racionalmente, Grace sabia que John estava certo. O difcil
era convencer seu corao. Lenny no estava morto. No
podia estar. At que visse o corpo dele com seus prprios
olhos, no perderia as esperanas.
Milagres acontecem. Acontecem o tempo todo. Talvez ele
tenha sido resgatado por um barco pesqueiro. Talvez um
barco estrangeiro, com pessoas simples que no saibam
quem ele . Talvez ele tenha perdido a memria. Ou
encontrado uma ilha em algum lugar.
Era ridculo, claro. Vozes em sua cabea. Mas naqueles
primeiros dias, Grace se agarrava a essas vozes como quem
se agarra  prpria vida. Eram tudo que tinha lhe restado de
Lenny e no estava preparada para abrir mo delas. Ainda
no.
Quando voltou para o apartamento deles na Park Avenue,
Grace encontrou centenas de buqus de flores esperando
por ela. Havia tantos cartes de condolncias que poderia
empilhar at o teto.
        Viu?  disse John.Todo mundo ama vo-voc,
Grace. Todo mundo quer ajudar.
Mas os cartes e as flores no ajudavam. Eles eram
indesejados, lembranas tangveis de que, para o mundo,
Lenny estava morto.
A 5 QUILMETROS DALI, no escritrio do FBI dc Nova York,
na Federal Plaza, nmero 26, trs homens estavam sentados
em volta de uma mesa.
Peter Finch, da Comisso de Valores Mobilirios, era um
homem baixo e agradvel, completamente careca, a no ser
por uma coroa de cabelo ruivo que fazia com que parecesse
um monge. Normalmente, Finch era conhecido por seu
bom humor. No hoje.
        O que estamos vendo aqui  a ponta do iceberg  disse
ele, de forma implacvel.
        Um enorme e maldito iceberg.  Harry Bain, diretor
assistente do FBI em Nova York, balanou a cabea sem
acreditar. Aos 42 anos, Bain tinha um dos cargos mais altos
do FBI. Bonito, charmoso e formado em Harvard, com
cabelo muito preto e penetrantes olhos verdes, Harry Bain
tinha evitado dois dos maiores atentados terroristas j
planejados em solo americano. Foram dois casos enormes.
Mas se o que Peter Finch estava dizendo era verdade, aquele
caso seria ainda maior.
        De quanto estamos falando exatamente?  Gavin
Williams, outro agente do FBI que se reportava a Bain, falou
sem levantar o olhar. Ex-funcionrio da Comisso, Williams
deixara a agncia enojado depois do fiasco de Bernie Madoff.
Um matemtico brilhante com os mais altos diplomas em
modelagem financeira, estatstica, programao e anlise de
dados, quando jovem, ele sonhara em se tornar um
banqueiro de investimentos, chegando a entrar no programa
de treinamento do J.P. Morgan assim que saiu de Wharton.
Mas Gavin Williams no conseguiu. Ele no tinha o instinto
comercial competitivo necessrio para chegar ao topo, nem
as habilidades polticas e sociais que ajudaram seus colegas
de turma menos inteligentes a formar fortunas de dezenas
de milhes. Alto e vigoroso, com cabelo grisalho e postura
militar, Williams era um homem solitrio, to austero e frio
quanto uma esttua. Podia at ser brilhante. Mas no mundo
fechado de Wall Street, ningum queria fazer negcio com
ele.
Profundamente amargurado por causa dessa rejeio, Gavin
Williams decidiu dedicar o resto de sua vida  perseguio
daqueles que chegaram ao topo, catalogando suas
contravenes com um zelo manaco. No incio, trabalhar
na Comisso lhe deu um propsito. Mas isso tudo mudou
depois de Madoff. Os fracassos da agncia nesse caso foram
catastrficos. Gavin no trabalhou no caso, mas se sentia
infectado pelo constrangimento coletivo. Enganados por um
simples esquema Ponzi! S de pensar nisso, Gavin Williams
tinha noites insones, mesmo agora no seu novo emprego
dos sonhos como chefe do departamento de fraudes
financeiras.
Peter Finch disse:
        Ainda no est claro. Superficialmente, as contas parecem
limpas. Mas depois que Brookstein desapareceu, todos os
investidores do Quorum quiseram seu dinheiro de volta ao
mesmo tempo. Foram esses resgates que revelaram o buraco
negro. E est crescendo a cada dia.
        Mas esto faltando bilhes de dlares aqui.  Harry Bain
coou a cabea.  Como tanto dinheiro pode simplesmente
evaporar?
        No pode. Talvez tenha sido gasto. Ou perdido, desviado
para negcios privados especulativos que no davam lucro e
eram controlados por Leonard Brookstein e seus comparsas.
 mais provvel que Brookstein o tenha escondido em
algum lugar.  isso que temos de descobrir.
        Certo.  A mente rpida de Harry Bain estava
funcionando.  Quanto tempo at tudo chegar  imprensa?
Finch deu de ombros.
-        No muito. Alguns dias, uma semana no mximo. Assim
que os investidores comearem a falar, ser publicado. Nem
preciso dizer as implicaes que isso poder ter na economia
De uma forma geral. O Quorum  maior do que a GM, quase
to grande quanto a AIG. Quase todos os pequenos negcios
de Nova York esto expostos. Pensionistas, famlias.
Bain entendeu a mensagem.
-        Vou formar uma fora-tarefa com nossos melhores
homens para trabalhar nisso hoje. No instante em que
chegar alguma informao nova, vocs devem passar para
Gavin. Gavin, voc se reporta diretamente a mim. Nada do
que foi dito hoje deve sair desta sala. Entendido? Quero
manter a mdia longe o mximo possvel. A polcia de Nova
York tambm. A ltima
coisa de que precisamos  daqueles idiotas nos rondando,
sabotando nosso caso.
Peter Finch assentiu. Gavin Williams estava sentado imvel,
o rosto impassvel, inescrutvel. Harry Bain pensou: Sinto-
me como Jim Kirk trabalhando com Spock. Sentiu a
conhecida onda de adrenalina ao pensar em liderar aquela
operao vital. Se eu conseguir rastrear esse dinheiro, serei
um heri. Talvez at tenha uma chance na diretoria. Harry
pensou em sua esposa, Lisa, e em como ela ficaria orgulhosa.
Mas  claro, se eu fracassar...
Mas Harry Bain no fracassaria.
Nunca tinha fracassado na vida.
- HAVER UMA REUNIO com os curadores dos bens de
Lenny no ms que vem, Grace, no dia 26. Acho importante
que voc v. Se voc conseguir su-suportar.
Fazia duas semanas que Grace tinha voltado para Manhattan,
e John e Caroline Merrivale tinham-na convidado para
jantar.
Quando ela recusou o convite, Caroline foi at o
apartamento dela e a obrigou a entrar em um txi que estava
esperando. Grace parecia aflita.
        Voc no pode resolver isso, John? De qualquer forma,
no vou entender uma palavra do que diro. Lenny sempre
cuidou das coisas legais.
        Voc deve ir, Grace  disse Caroline.  John vai estar l
com voc. Mas voc  a nica beneficiria do legado de
Lenny. Algumas coisas voc vai precisar aprovar.
        Sou? A nica beneficiria?
Caroline soltou uma risada curta de escrnio.
        Claro que , querida. Voc era esposa dele.
Grace pensou: Ainda sou esposa dele. No sabemos se ele
est morto. No com certeza. Mas no tinha fora para
brigar. Grace no pde deixar de notar que Caroline estava
muito mandona desde que Lenny... desde o acidente.
Sempre que John falava com Grace, ele era firme mas
respeitoso. "Eu realmente acho isso e aquilo. Se voc puder,
deveria tentar isso e aquilo." Caroline era muito mais
autocrtica. "Faa isso. Diga aquilo."
Bem, talvez seja disso que eu preciso neste momento? Deus
sabe que no pareo capaz de tomar nenhuma deciso
sozinha.
Grace concordou em encontrar com os acionistas.
ERA DIFCIL APONTAR quando a mudana comeou. Como
todas as coisas, comeou de forma quase imperceptvel.
Primeiramente, as flores pararam de chegar. Depois, os
telefonemas. Convites para almoos e jantares comearam a
escassear. No dia em que Grace fez um esforo e se arrastou
para fora do apartamento  foi para o clube tomar caf 
percebeu que muitas de suas antigas amigas a evitavam.
Tammy Rees praticamente saiu corfendo quando deu de cara
com Grace no vestirio, sussurrando um rpido "como vai?"
antes de sair apressada.
Grace tentou falar sobre isso com as irms, mas tanto Honor
quanto Connie estavam distradas, quase distantes.
Nenhuma delas tinha tempo para conversar. Grace at ligou
para a me, um sinal de verdadeiro desespero.
Foi um erro.
        Voc provavelmente est imaginando coisas, querida.
Por que no faz um cruzeiro para algum lugar? Afaste-se
dessas coisas. Conheci Roberto em um cruzeiro, voc sabe.
Nunca se sabe quando o cupido vai atacar.
Um cruzeiro? Nunca mais vou colocar os ps em um barco
na minha vida.
No dia seguinte, o carto de crdito Amex Platinum de
Grace foi rejeitado na Bergdorf Goodman. Grace sentiu o
rosto ruborizar enquanto as mulheres que estavam atrs dela
na fila a fitavam.
        Acho que deve haver um engano  disse ela,
docilmente.  Meu crdito  ilimitado.
A vendedora foi gentil:
        Tenho certeza de que isso  apenas um engano, Sra.
Brookstein. Mas  melhor resolver com a American Express.
Ficarei feliz em guardar a sacola com o que a senhora
escolheu.
No quero a maldita sacola! S vim aqui para me distrair por
cinco minutos. Para esquecer Lenny. Como se algum dia eu
fosse conseguir isso!
        Obrigada, no tem problema. Eu... eu vou para casa
resolver isso.
Grace ligou para a Amex. Um atendente qualquer lhe disse
que a conta de Lenny tinha sido "encerrada".
        Como assim "encerrada"? Quem encerrou? Eu no en-
cerrei conta nenhuma.
        Sinto muito, madame, mas no posso ajud-la. A conta
do seu marido foi encerrada.
O pior ainda estava por vir. Contas por servios no pagos
comearam a chegar. Um homem grosseiro ligou para o
apartamento e informou Grace que os pagamentos da
hipoteca estavam cinco meses atrasados.
        Sinto muito, senhor, mas acho que deve estar me
confundindo com outra pessoa. Ns no temos hipoteca.
        Sra. Brookstein.  com a Sra. Brookstein que estou fa-
lando, certo?
        Sim.
        O saldo em aberto de sua hipoteca  de 16 milhes,
762 mil dlares e 14 centavos. Est no nome da senhora e
do seu marido. Gostaria que lhe mandasse os
demonstrativos?
Foi somente quando Conchita, empregada fiel de Grace,
pediu demisso por causa de salrios atrasados, "Sinto muito,
Sra. Brookstein, mas meu marido no quer mais me deixar
vir trabalhar. S se a senhora me pagar", que Grace superou
o constrangimento e confessou suas preocupaes
financeiras para John Merrivale.
         loucura  disse ela, soluando ao telefone.  Lenny
vale bilhes, mas de repente estou recebendo todas essas
contas. Ningum aceita os meus cartes. No consigo
entender.
Houve um longo silncio do outro lado da linha.
        John? Voc est a?
        Estou aqui, Gracie. Talvez seja melhor voc vir me
encontrar.
JOHN MERRIVALE ESTAVA nervoso. Muito mais nervoso do
que de costume. Grace notou a forma como ele ficava
coando o pescoo, e seus olhos quase no fitavam os dela.
Sentaram-se frente a frente no sof do escritorio dele,
conforme John comeava a explicar.
        Esto correndo boatos j h algum te-tempo, Grace.
Boatos em Wall Street e entre os nossos investidores. Depois
que Lenny... depois do que aconteceu, o FBI se envolveu.
Grace arregalou os olhos.
        O FBI? Por qu? Que tipo de boatos?
        Lenny era um homem br-brilhante. Um investidor sagaz
e discreto. Uma das razes do sucesso do Quorum  que ele
nunca divulgou sua es-estratgia. Como acontece com a
maioria dos melhores administradores de fundos de hedge, o
modelo dele era mu-muito bem guardado.
Grace assentiu.
        Ele me disse que era como herdar a receita do molho de
espaguete da sua av. Todo mundo que come tenta
adivinhar 0 ingrediente secreto, mas voc nunca pode
contar.
        Exatamente.  John Merrivale sorriu. Ela  realmente
uma criana.  Meu trabalho era levantar fu-fundos para o
Quorum. Com o desempenho de Lenny, isso era fcil.
Estvamos re-recusando dinheiro. O trabalho de Lenny era
investir esses fundos. Ningum, ne-nem mesmo eu, sabia
exatamente onde ele colocava o dinheiro. At ele
desaparecer, isso parecia no importar.
        Mas depois?
        Apesar de seu tamanho e tremendo sucesso, o Quorum
ainda era fu-fundamentalmente dependente de um homem
s. Quando Lenny desapareceu, as pessoas qui-quiseram
resgatar seu capital. Muita gente. Todos ao me-mesmo
tempo.
        E isso foi um problema?
John Merrivale suspirou.
        Foi. Muito dinheiro est... bem, no sabemos
exatamente onde est. No est registrado.  complicado.
        Entendo.  Grace pensou a respeito por alguns mo-
mentos.   por isso, ento, que o FBI est envolvido? Para
tentar resolver essa confuso?
John passou a coar o pescoo com ainda mais fora.
        Em um aspecto, sim. Mas, in-infelizmente, tem outros
aspectos desagradveis. Como a quantia de dinheiro envol-
vida  to alta: dezenas de bilhes de do-dlares, no
mnimo, a polcia acredita que Lenny pode ter de-
deliberadamente roubado.
        Isso  ridculo! Lenny nunca roubaria. Alm disso, por
que ele roubaria o prprio fundo?
        Eu na-no acredito que ele tenha feito isso, Grace. Que-
quero que saiba disso.  John pegou a mo dela.  Mas
outras pessoas, os investigadores do FBI, os jo-jornais, esto
tirando concluses. Eles dizem que quando a Comisso de
Valores Mobilirios comeou a investigar, Lenny sabia que o
Quorum iria quebrar e que ele ficaria exposto. Gr-Grace, eles
esto dizendo que Lenny pode ter co-cometido suicdio.
Grace se sentiu enjoada.
Suicdio? Lenny? No. Nunca. Mesmo se ele tivesse roubado
algum dinheiro, ele nunca me deixaria. Nunca tiraria a
prpria vida.
Ela se esforou para manter a voz firme.
        O que quer que tenha acontecido naquele barco, John, foi
um acidente. Lenny estava feliz quando me deixou aquela
manh. Por que o FBI ainda no falou comigo? Eu teria dito
isso a eles!
        Te-tenho certeza de que eles vo querer falar com voc a
qualquer momento. Assim que tiverem um a-atestado de
bito, provavelmente vo comear uma investigao. Neste
momento, a pri-principal preocupao  em localizar o di-
dinheiro desaparecido. At que isso acontea, todos os
ativos do Quorum foram congelados, assim como as suas co-
contas pessoais.
Grace parecia to pequena e perdida, sentada na pontinha do
sof. Se John Merrivale fosse um homem com mais tato,
teria se aproximado e a abraado. Mas ele apenas disse:
        Tente no se preocupar. Sei que  difcil. Mas eu e vo-
voc sabemos que Lenny no era um ladro. A verdade vai
acabar aparecendo. Tudo vai ficar bem.
No, no vai. No sem Lenny. As coisas nunca vo ficar
bem de novo.
Foi NA MANH SEGUINTE que a tempestade comeou.
Investidores furiosos invadiram os escritrios do Quorum,
exigindo seu dinheiro de volta. A CNN exibiu imagens do
que parecia uma revoluo, com a polcia tentando afastar os
manifestantes. Em poucas horas, a provvel escala do que
agora estava sendo chamada de a Fraude do Quorum era
manchete nos jornais de todo o mundo.
Grace assistiu a tudo pela televiso, chocada. "Leonard
Brookstein, que j foi um dos filantropos mais amados de
Nova York e um cone norte-americano, hoje est sendo
exposto como talvez o maior ladro da histria dos Estados
Unidos. Do lado de fora dos escritrios do Fundo de Hedge
Quorum, de Brookstein, investidores furiosos queimaram
imagens de Leonard Brookstein, de 58 anos, dado como
morto em um acidente de barco no ms passado."
O telefone tocou. Era John. Grace desmoronou.
        Ah, John! Voc viu o que esto falando de Lenny? As
notcias... No consigo nem assistir.
        Grace, es-escute. Voc no est segura. Vo-vou at a
peg-la.
        Mas isso  loucura. Por que algum ia querer me fazer
mal? - As pessoas perderam a cabea, Grace. Lenny n-
no est
aqui. Voc  a prxima da fila.
        Mas, John...
        Na-nada de mas. Voc deve ficar conosco. Faa as ma-
las. Estarei a em d-dez minutos.
Dez minutos depois, Grace estava no banco traseiro de um
carro blindado. Ao sair do prdio, um pequeno grupo de
reprteres inoportunos j estava reunido do lado de fora.
Zombaram dela.
        Onde est o dinheiro, Grace?
        Onde Lenny o escondeu?
        Os 70 bilhes esto na sua mala ou voc est apenas
contente de nos ver?
Quando John conseguiu coloc-la dentro do carro, Grace j
estava ofegante.
Ela nunca mais colocou os ps em seu apartamento.
 NO. NO VOU vender. No posso.
Grace estava na sala de reunies da firma de advogados
Carter Hochstein. Em volta da mesa, havia seis homens de
aparncia ameaadora, usando ternos escuros. John
Merrivale os apresentou como os curadores de Lenny, os
homens responsveis por administrar os bens dele.
        Infelizmente, Sra. Brookstein, no tem outra escolha.
Em outras palavras, a senhora no tem dinheiro para
continuar pagando a hipoteca do apartamento. Teremos de
colocar todos os seus ativos no mercado. Historicamente,
seu marido fez a vida pegando emprstimos de grandes
quantias e dando como garantia o valor da participao dele
no Quorum. Agora, esto exigindo o pagamento desses
emprstimos, e a senhora no tem nenhum meio imediato
de pag-los.
Grace virou-se para John Merrivale, confusa.
        Mas como pode ser? Eu no posso vender algumas
aes de alguma coisa?
John parecia aflito.
        O caso  o seguinte, Grace, at que toda esta confuso no
Quorum se resolva, voc n-no tem nenhuma ao para
vender.
        Sra. Brookstein.  Kenneth Greville, o scio mais velho,
foi direto ao ponto:A senhora precisa entender. Enormes
quantias de dinheiro esto desaparecidas no Quorum.
Centenas de milhares de investidores do seu marido foram
arruinados. Eles perderam tudo.
Grace pensou: E eu no perdi?
        At que seu marido seja considerado legalmente morto
e a investigao criminal termine, no podemos tirar
nenhuma concluso. Mas est parecendo cada vez mais que
o Sr. Brookstein estava envolvido, pelo menos em algum
nvel, em atividade fraudulenta de natureza muito sria. As
quantias roubadas...
 No.  Grace se levantou.  Sinto muito, mas no vou
licar sentada, escutando isso. Meu marido nunca roubou
nada. Lenny no  um ladro! Ele  um homem bom e
construiu o Quorum do nada. Diga a eles, John.
Kenneth Greville pensou: Ela ainda se refere a ele no
presente. A pobre menina est delirando.
        Sua lealdade  admirvel, Sra. Brookstein. Mas  meu
dever, por mais desagradvel que seja, inform-la sobre sua
situao financeira atual e, provavelmente, futura. A senhora
no poder mais continuar morando no apartamento da Park
Avenue. Sinto muito.
Lgrimas escorreram pelo rosto de Grace. Ela se sentiu como
se estivesse algemada a um trem descarrilado. Sua vida
estava desmoronando  sua volta, e ela no tinha o menor
poder para evitar que isso acontecesse.
No JANTAR DAQUELA noite, Caroline Merrivale observou
Grace fitar, com o olhar perdido, a parede da sala de jantar.
Ela mal tocara na sopa, e parecia magra e exausta.
        Coma, Grace. Nesta casa, a nossa regra  nunca desper-
diar comida boa, no , John?
John viu o brilho de crueldade nos olhos da esposa. Ela est
amando cada minuto disto. Finalmente, virando o jogo
contra Grace. Parece um gato brincando com um rato antes
de mat-lo.
        Caroline est certa, Grace. Voc precisa te-tentar se
manter forte.
Grace levou uma colher de sopa at a boca. Estava fria.
Esforou-se para no ter nsia.
        Sinto muito, eu realmente no estou me sentindo mui-
to bem. Se no se importam, eu gostaria de ir para a cama.
Quanto antes o dia de hoje terminasse, melhor. Depois da
reunio com os advogados, ela se sentiu ainda pior do que
no dia em que a guarda costeira lhe deu aquela terrvel
notcia. O mundo todo estava falando desse dinheiro
estpido. Como se me importasse com o dinheiro! A nica
coisa que eu quero  que Lenny entre por aquela porta!
Uma empregada apareceu na porta.
        Desculpe interromper, Sra. Merrivale. Mas tem um
policial aqui. Ele disse que precisa tratar de um assunto
urgente com a Sra. Brookstein.
Instintivamente, Grace entrou em pnico.
        No! Diga a ele para ir embora. Est tarde. Diga a ele
para voltar amanh.
Caroline riu.
        No seja boba, Grace.  a polcia, e no uma visita
social. Voc tem que ir falar com ele.
        No, por favor, Caroline. No posso.
Caroline no ficou comovida.
        Melissa, deixe o policial entrar. Diga a ele que a Sra.
Brookstein vai encontr-lo em um minuto.
Alguns minutos depois, se sentindo muito nervosa, Grace
entrou no vestbulo. Esperava encontrar ali um agente do
FBI agressivo para interrog-la. Em vez disso, um jovem
tmido vestindo um uniforme a cumprimentou. Assim que
ele viu Grace, tirou o quepe em sinal de educao. Grace
sentiu a tenso em seus ombros comear a aliviar.
        Boa-noite, policial. Queria me ver?
        Sim, Sra. Brookstein. Eu, hum... tenho uma notcia para
lhe dar.  sobre seu marido. Talvez seja melhor se sentar.
Irracionalmente, o corao de Grace se encheu de
esperanas.
Ele est vivo! Lenny est vivo! Eles o encontraram! Ah, gra-
as a Deus. Lenny vai voltar e tudo vai ser como era antes.
Teremos nossas casas e nosso dinheiro de volta, ningum
mais vai nos odiar...
        Sra. Brookstein?
        Ah, estou bem, obrigada. Passei o dia todo sentada. Voc
disse que tem uma notcia para me dar?
        Sim, senhora.  O jovem fitou os sapatos.  Sinto muito
por ter que lhe dar esta notcia. Mas, esta tarde, a guarda
costeira de Massachusetts encontrou um corpo.
Acreditamos que seja o de seu marido. Leonard Brookstein.
Captulo 8
DONNA SANCHEZ GOSTAVA de seu trabalho no necrotrio da
cidade. Seus amigos e sua famlia no conseguiam entender.
 Todas aquelas pessoas mortas. Voc no tem arrepios?
A reao deles fazia Donna sorrir. Uma mulher porto-
riquenha forte, com dedos gordos e redondos como
salsichas e rosto pastoso, Donna crescera em uma famlia
grande e barulhenta antes de comear sua prpria famlia
grande e barulhenta. Fora do trabalho, a trilha sonora da vida
de Donna Sanchez eram gritos de crianas, louas
quebrando, buzinas de carros, aparelhos de televiso ligados.
Donna gostava dos mortos porque eles eram silenciosos. O
necrotrio da cidade na Clarkson Avenue, no Brooklyn, era
branco, limpo e organizado. Fazia com que Donna se
sentisse em paz.
Claro, havia dias ruins. Mesmo depois de oito anos, ver o
corpo de crianas pequenas ainda fazia Donna ficar com os
olhos cheios de lgrimas. Algumas vtimas de acidentes
eram um tanto horripilantes. E os suicidas. A primeira vez
que Donna viu um "saltador", teve pesadelos com o corpo
desfigurado durante semanas: ossos atravessando a pele,
crnio amassado como um melo podre. Normalmente, as
vtimas de afogamento estavam entre as mais fceis de se
trabalhar. A imerso na gua fria fazia com que a
decomposio atrasasse. Donna tambm percebia que
muitos dos mortos na gua tinham uma expresso feliz,
quase de xtase.
Mas o corpo de hoje no tinha. O brutamontes de cera
deitado na maca no tinha rosto. Os peixes tinham se
encarregado disso. S o que restava embaixo do toco
dilacerado do pescoo era um tronco enorme e inchado. O
brao e a mo esquerdos estavam miraculosamente intactos,
mas o resto dos membros no estava mais ali, arrancados
como garras de caranguejos. Como os amigos de Donna
diriam, era horripilante.
        Eles realmente vo trazer a pobre da esposa at aqui?
 Como todas as outras pessoas do necrotrio, Donna sabia
que os policiais acreditavam que o corpo era de Lenny
Brookstein. Por isso foi trazido para Nova York, a mais de 3
mil quilmetros de distncia de onde fora encontrado na
costa de Massachusetts.  Ningum deveria ser obrigado a
ver seus amados assim.
Duane Tyler, o tcnico, zombou. Um garoto negro bonito,
recm-sado do colgio, Duane tinha nascido cnico.
        Guarde a sua compaixo, Donna. Se tem um adjetivo que
no est na lista de Grace Brookstein  pobre. Sabe o que
esto dizendo? O filho da puta roubou milhares de pessoas.
Pessoas simples.
        Eu sei que  isso que esto dizendo. Mas no significa que
seja verdade. Alm disso, e se ele fez mesmo? No  culpa
da esposa.
Duane Tyler balanou a cabea, com pena.
        No acredite nisso, menina. Voc acha que as esposas
no sabem? Aquelas vadias brancas e ricas? Elas sabem.
Todas sabem.
HARRY BAIN E GAVTN WILLIAMS estavam no gabinete do
promotor.
Todo mundo sabia que os pais de Angelo Michele eram dois
entre os tantos nova-iorquinos arruinados por causa de
Lenny Brookstein. Angelo tinha o melhor crebro jurdico
da cidade de Nova York, mas Harry Bain se perguntou se,
naquele caso, o julgamento dele poderia ser influenciado. As
primeiras palavras do promotor no o tranquilizaram.
        Bem, eu queria a cabea de Brookstein em uma bandeja.
Parece que consegui a segunda melhor opo. O tronco em
uma maca.
        Talvez no seja ele  disse Harry Bain.A esposa est a
caminho para identificar o corpo. Ou o que sobrou dele.
Depois, poderemos fazer a necropsia.
        timo.
Era dever da fora-tarefa do FBI encontrar o dinheiro
desaparecido do Quorum. Mas era dever de Angelo Michele
processar os responsveis pelo roubo. Parte dele estava
satisfeito por terem encontrado um corpo. A possibilidade,
embora remota, de Lenny Brookstein ter fugido de alguma
forma e estar vivendo luxuosamente em uma ilha particular
no Pacfico Sul no deixava Angelo dormir havia semanas.
Mas outra parte dele se sentia roubada. Se Lenny Brookstein
estivesse morto, no poderia ser punido. Algum precisava
ser punido.
        Conseguiram mais alguma coisa com Merrivale ou
Preston?
        No.  Harry Bain franziu a testa.  Ainda no.  Ele
tinha interrogado pessoalmente seis vezes os dois executivos
seniores do Quorum, mas no estava nem um pouco mais
perto de desvendar o mistrio de como Lenny Brookstein
tinha conseguido fazer desaparecer uma quantia to alta de
dinheiro. O instinto lhe dizia que os dois homens sabiam
mais do que estavam dizendo. Porm, at agora, no podia
provar.  Mas o agente Williams descobriu algo
interessante.
Angelo Michele fitou Gavin Williams. O homem lhe dava
arrepios. Ele parecia mais um rob do que um ser humano.
Quando falava era de forma montona, intencionalmente
evitando contato visual.
        Parece que na semana antes de sua morte, Lenny
Brookstein mudou a estrutura corporativa do Quorum.
Essencialmente, tirou John Merrivale, de modo arbitrrio, da
condio de scio.
        Droga.  Angelo Michele balanou a cabea. Harry Bain
virou a cabea de lado.
        Isso  ruim?
        Claro. Se Lenny Brookstein era o nico scio legal, vai ser
quase impossvel indiciar, muito menos processar, os outros
envolvidos. A no ser que os 70 bilhes apaream costu-
rados nos bolsos de Merrivale. Estamos ferrados.
        Ele no era o nico scio.
        Mas eu achei que voc tivesse dito...
Gavin Williams suspirou, como um professor primrio
explicando algo exageradamente simples para uma criana
de 7 anos.
        Eu disse que Lenny tirou as aes de John Merrivale.
Eu no disse que ele era o nico scio. Ele no ficou com
essas aes para ele. Ele as transferiu.
O corao de Angelo Michele estava acelerado.
        Para quem, pelo amor de Deus?
        Para a esposa.
DONNA SANCHEZ disse de forma gentil:
        Tem certeza de que est pronta, Sra. Brookstein? Grace
assentiu. No importa. Isso tudo  um sonho, um pesadelo.
Quando ela puxar o lenol, eu acordo.
        Ser tudo bem rpido. Tente se concentrar na mo. S
precisamos que voc reconhea a aliana de casamento.
Donna puxou o lenol.
Grace jogou a cabea para trs e gritou.
JOHN MERRIVALE fitou os documentos  sua frente, esfregan-
do os olhos, exausto.
        Deve haver algum e-erro.
Harry Bain acendeu outro cigarro. A fumaa deixou John
enjoado.
        No tem erro nenhum, John. Esta  a assinatura de
Lenny. E esta a de Grace. Voc acha que no mandamos
examinar?
Os documentos eram instrues legais, mudando a estrutura
acionria do Quorum. Eles transferiam todas as aes de
John no fundo para Grace. A data era de 8 de junho, a
vspera do baile do Quorum. Lenny e Grace assinaram.
        Encare a verdade, John. Os Brookstein o enganaram. Eles
estavam planejando pegar o que restava do dinheiro e fugir.
        No. Lenny no fa-faria isso. N-no comigo.
        Leia, John! Est tudo a, preto no branco. Ele fez. Eles
fizeram, juntos. Voc no acha que est na hora de parar de
proteg-los?
John fechou os olhos com fora. Era to difcil pensar. H
quanto tempo estou nesta sala? Trs horas? Quatro? Pensou
em Grace, sozinha no necrotrio. A polcia no permitira
que ele a acompanhasse. A coitadinha devia estar
aterrorizada.
        Lenny tinha o direito le-legal de reestruturar a
companhia da forma que bem entendesse. O Quorum era
dele.
Harry Bain o fitou, incrdulo.
        Voc est dizendo que no se importa que Lenny
Brookstein o tenha roubado?
        Eu estou dizendo que ele no me roubou.
        Mas ele roubou. Est aqui, preto no branco.
        Ele de-deve ter tido suas razes. Lenny est morto. No
est aqui para se explicar, para de-defender seu bom nome.
        Seu bom nome?  Harry Bain riu alto.  Lenny
Brookstein? O cara era um safado, John. A mulher dele
tambm. Mas disso ns sabemos. A pergunta  o que ns
no sabemos? O que voc est escondendo de ns?
        N-no estou escondendo nada.
        Por que voc o est protegendo?
        Ele era meu amigo.  Meu nico amigo.
        Ele no era seu amigo. Ele usou voc, John. E fez isso
desde o comeo. Por que voc acha que um cara brilhante
como Lenny precisava de um cara como voc na equipe
dele, hein? Nunca se fez essa pergunta?
O tempo todo.
        Porque voc lhe dava legitimidade. Por isso. Porque
voc o idolatrava e era cegamente leal. Como um cachorro.
John levantou o olhar. Era o rosto de Harry Bain que
zombava dele, mas a voz era de Caroline. Voc  um
cachorrinho, John. Voc  pattico! Cresa e aparea!
        No, eu no era o ca-cachorro de Lenny. No era assim.
        No? Ento, o que voc era? Porque, do meu ponto de
vista, ou voc  um idiota que no viu o que estava
acontecendo bem embaixo do seu nariz, ou voc sabia.
        No. Eu no sa-sabia de nada.
        No acredito em voc, John. Onde est o dinheiro?
        No sei.
        Onde vocs esconderam o dinheiro, hein? Voc e seu
bom amigo Lenny Brookstein. O cara que confiava tanto em
voc. Que dependia dos seus conselhos. Onde vocs
colocaram o dinheiro?
        J disse. Eu n-no...
        Talvez devssemos falar com Andrew Preston. Era em
Preston que Lenny realmente confiava?
        Claro que no. Lenny sempre foi muito mais meu a-amigo
do que de Andrew.
        To amigo que deu suas aes para Grace?
Um apito estava soando cada vez mais alto na cabea de
John. Como uma chaleira com gua fervendo.
        Onde est, John? Se voc no era o cachorrinho de
Lenny, prove.
O apito estava to alto que John achou que seus tmpanos
fossem estourar.
        ONDE EST A PORRA DO DINHEIRO, JOHN?
        NO SEI!  Cado sobre a mesa, John Merrivale come-
ou a soluar.  Pelo amor de De-Deus, qual  o problema
de vocs? Eu no sei.
Do outro lado do espelho, Angelo Michele virou-se para o
psiclogo.
        O que voc acha?
        Acho que ele est falando a verdade. Ele no sabe de
nada. Ver o documento do scio acabou com ele.
Angelo Michele assentiu. Eu concordo.
Ser que aquele rob do Williams est tendo mais sucesso
com Grace?
 ONDE VOC ESTAVA quando assinou esses documentos?
Grace tentou se concentrar. Ainda se recuperando do cho-
que de ver o corpo de Lenny, era difcil se lembrar de onde
ela estava. O grosseiro homem grisalho sentado  sua frente
era do FBI. Ele a prendera quando estava saindo do
necrotrio e a levara para algum lugar, ela no conseguia se
lembrar para onde ou quanto tempo durou a viagem. Agora
ela estava em uma sala branca, sem janelas. Imagens do
corpo mutilado de Lenny apareciam em sua mente como
um filme de terror. O homem continuava falando.
        A data  8 de junho.
A pele de Lenny, como cera branca, como aquela coisa que
cobre a pele dos recm-nascidos.
        Sra. Brookstein, esses documentos provam que a
senhora intencionalmente se tornou scia do Quorum
International LLC, com o objetivo de lucrar ilicitamente
com negcios ilegais realizados entre 2004 e 2009.
O dedo inchado de Lenny, a pele estourando em volta da
aliana de casamento.
        O que voc sabe sobre o paradeiro dos lucros das
seguintes transaes: 2005, Gesto de Inovao de um fundo
de seis anos, executado nas Ilhas Cayman?
        No sei de nada.  A voz dela era um fraco sussurro.
Gavin Williams se inclinou sobre a mesa at seu rosto ficar a
milmetros do dela. Grace sentiu o hlito azedo dele.
        No minta para mim, Sra. Brookstein. A senhora vai se
arrepender.
Grace levantou o olhar e fitou os olhos vazios e sem
compaixo dele. Uma pontada fria de medo tomou conta
dela.
        No estou mentindo.
        A senhora era scia do fundo do seu marido.
        Scia? No. O senhor est errado. Nunca fui scia. No
sei nada sobre negcios. Tudo ficava nas mos de Lenny e
John.
        A senhora nega que esta seja a sua assinatura?
Furioso, Gavin Williams empurrou um papel at o outro
lado da mesa. Grace reconheceu sua prpria caligrafia. Mas
no conseguia se lembrar de forma alguma que documento
era aquele, quando o assinara ou por qu. Lenny cuidava de
tudo.
        Eu no nego nada. Eu... eu estou confusa.
Gavin Williams estava gritando.
        2005, Inovao, Ilhas Cayman.
-        Quero meu advogado.  Grace ficou chocada ao escutar
as palavras sarem de sua prpria boca. Parece um episdio
ruim de Law & Order.
        O qu?
-        Eu... eu disse que preciso de um advogado.
Gavin Williams estava fervendo de frustrao. Esperava que,
ao pegar Grace em um momento to vulnervel, conseguiria
for-la a confessar, faria com que desmoronasse. Mas se ela
queria um advogado, ele no podia negar. Vadia.
        Interrogatrio encerrado. Desligando o gravador.
Com um olhar de nojo, Gavin Williams saiu da sala.
NA MANH SEGUINTE, todos os jornais tinham manchetes
sobre a priso de Grace Brookstein e sobre o corpo de
Lenny Brookstein ter sido encontrado.
        Eles encontraram o corpo de Lenny.  Honor Warner
tremia ao ler a matria.
-        Sim, eu sei  disse Jack, sem expresso.  Eu sei ler.
-        Como voc pode ficar to calmo? O FBI prendeu Grace.
Voc viu a lista de acusaes? As coisas de que esto
acusando minha irm: fraude, lavagem de dinheiro... Grace
mal consegue somar dois e dois! O que ns vamos fazer?
Jack sorriu.
        Fazer? Ns no vamos fazer nada.
        Mas, Jack...
        Mas Jack, o qu? Ns vamos lavar as nossas mos e
pronto. Honor parecia horrorizada. Jack riu dela.
        Ah, por favor. No tente fingir que voc se importa
com Grace.  um pouco tarde para isso, querida. Voc acha
que eu nunca consegui ver o que voc sentia durante todos
esses anos?
        O que voc est querendo dizer?
        Voc acha que eu no sei o quanto voc odeia a sua
irm? O quanto voc sempre a odiou?
Honor desviou o olhar, envergonhada.  verdade. Eu a
odeio. Mas deix-la ir para a cadeia? Tentou outra
abordagem.
        Tudo bem. Vamos esquecer Grace. E ns, Jack? Se
Grace for a julgamento, haver perguntas. Perguntas sobre
os negcios de Lenny, sobre os colaboradores dele, o que
aconteceu no dia em que ele desapareceu. E se a polcia
descobrir?
        Eles no vo descobrir.
        Mas e se eles descobrirem?
Jack a fitou com frieza.
        Voc quer ser a primeira-dama, Honor?
Honor queria. Mais do que qualquer outra coisa.
        Voc quer me ver na Casa Branca?
        Claro. Voc sabe que sim.
        Ento no entre em pnico. Mantenha a boca fechada
e a cabea baixa. Lenny est morto. Ele no pode mais nos
prejudicar. Mas Grace pode. S Deus sabe o quanto o velho
contou a ela.
Honor estremeceu. No tinha pensado nisso.
        Sua irm ir para a cadeia pode ser a melhor coisa para
ns. Agora, me passe o caf, por favor? Est esfriando.
MICHAEL GRAY FICOU horrorizado quando soube das
notcias. Instintivamente, abraou Connie.
        Sinto muito, querida. Tem alguma coisa que eu possa
fazer?
Connie balanou a cabea.
        O que qualquer pessoa pode fazer, Mike? Est bvio
que Lenny e Grace no eram quem ns achvamos que
eram.
Michael Gray parecia surpreso.
        Voc no acha realmente que Grace seja culpada dessas
acusaes, acha?
Connie deu de ombros.
        No sei mais o que pensar. O mundo est uma loucura.
        Eu sei, mas lavagem de dinheiro? Grace?
        No sei por que isso seria to impossvel. Afinal de
contas, olhe para Lenny. Todos o amvamos e
respeitvamos. Mas acabamos descobrindo que ele no
passava de um ladro e um covarde.
Havia uma maldade na voz de Connie que Michael nunca
escutara antes e aquilo o assustou.
        Todos sabemos que Grace era obcecada por Lenny.
Quem Sabe o que ela pode ter feito para proteg-lo ou ajud-
lo?
MARIA PRESTON TRATOU a priso de Grace como um episdio
emocionante de uma de suas novelas.
        A polcia est dizendo que Grace roubou as aes de
John Merrivale. Que ela e Lenny estavam planejando tirar
tudo dele e dos outros investidores e fugir com todo o
dinheiro! "Grace Brookstein  a nica scia viva dos Fundos
Quorum"  o que esto dizendo aqui. "Isso a torna
legalmente responsvel por todos os prejuzos do Quorum."
Acredita nisso?
Andrew no conseguia acreditar. No conseguia acreditar
em nada disso. Desde aquela maldita viagem para Nantucket,
ele mal tinha dormido.
Tive sorte at agora. O FBI tem peixes maiores para fisgar.
Mas eles vo acabar batendo na minha porta. Sei que vo.
No era da exposio que Andrew linha medo, nem da pri-
so. Era de perder Maria. Tudo o que fizera, fizera por ela. E
ela acha que tudo  um jogo!
        Acho que vou usar meu Dior novo no julgamento.
Aquele fcsia.
        Ns no vamos ao julgamento.
        No vamos? Mas, Andy, todo mundo vai estar l.
        Jesus, Maria, isso no  um maldito espetculo da
Broadway!  Era to raro Andrew perder a calma que Maria
apenas o fitou. At que ela gostava desse novo Andrew,
mais msculo.  Milhes de dlares esto desaparecidos. Os
agentes federais esto em cima de ns. Todo mundo no
Quorum est sob suspeita.
        Bem, no esto mais  disse Maria, contente, cortando
mais uma fatia de panetone.  Parece que o FBI j
encontrou o cordeiro para sacrificar. A pobre e meiga
manteiga-derretida da Grace vai para a cadeia.
Andrew pensou: "espero que v", depois percebeu que
pensamento terrvel tivera.
Quando se tornara to insensvel, to duro?
No me reconheo mais. Ah, Maria! O que voc fez
comigo?
 VOC NO VAI PARA a cadeia, Grace. Vamos fazer as coisas
certas desde o incio. Voc  inocente e vai alegar
inocncia. Certo?
Grace assentiu, fraca. Era tudo to confuso.
Frank Hammond parecia to otimista. No como seu pri-
meiro advogado, Kevin McGuire. Kevin era um velho amigo
de seus pais de East Hampton. Grace ligou para ele no dia
em que foi presa. Queria que ele a salvasse do agente
grosseiro com olhos sem expresso, e ele a salvou. Mas assim
que ficaram sozinhos, ele foi direto ao assunto.
        Como nica scia do Quorum, voc  legalmente
responsvel pelas aes de Lenny, independentemente de
voc ter tomado alguma deciso ou no  disse Kevin. 
Voc tem que se declarar culpada.
        Mas eu nem sabia que era scia.
Kevin McGuire foi solidrio, mas firme. Ignorncia podia ser
uma defesa moral, mas no legal.
        Voc assinou o contrato, Grace. Se voc no assumir a
responsabilidade, o juiz poder ser ainda mais severo na
sentena.  Ele foi firme sobre a fiana tambm.  Meu
conselho  no pedir fiana.
Grace no podia acreditar.
        Voc quer dizer... quer que eu fique na cadeia? Mas pode
levar meses at o caso chegar ao tribunal.
        Vai levar meses. E eu sei que  difcil. Mas acredite em
mim, Grace, voc est mais segura presa. Acho que voc
no tem noo exata da raiva que as pessoas esto sentindo
de voc e de Lenny.
Ele estava certo. Grace no tinha noo. Alm da pequena
aglomerao que a cercara quando deixara seu apartamento
para ficar com os Merrivale, ela tivera pouco ou nenhum
contato com o mundo exterior desde que voltara para Nova
York. John se recusava a deix-la assistir aos noticirios na
TV e no permitia nenhum jornal na casa. No dia seguinte 
declarao oficial do mdico-legista atestando que a morte
de Lenny fora um suicdio, Kevin McGuire mostrara
algumas das manchetes das quais ela estava sendo protegida.
BROOKSTEIN ESCOLHE O CAMINHO DA COVARDIA
VIGARISTA COMETE SUICDIO E ENGANA A JUSTIA
BROOKSTEIN: O CASAL MAIS ODIADO DOS ESTADOS UNIDOS
Uma semana antes, as manchetes teriam-na chocado. Agora,
depois de passar pelo horror de identificar o corpo de
Lenny,
Grace duvidava que alguma coisa mais teria o poder de
choc-la de novo. Em vez disso, ela se sentia entorpecida.
Desorientada.
Eles esto falando de Lenny? De mim? Como as pessoas
podem nos odiar? No fizemos nada de errado.
Quanto  ideia de Lenny cometer suicdio, bem, isso era
ridculo. Qualquer um que conhecesse Lenny sabia que ele
amava a vida. Ele se agarraria  vida at o final,
independentemente de qualquer coisa. Foi um acidente,
uma tempestade terrvel. Ningum poderia prever o que
aconteceu naquele dia.
Kevin McGuire continuava tentando fazer com que Grace se
concentrasse no presente, que aceitasse o fato de que pode-
ria ser presa. Mas Kevin no compreendia. A priso no
assustava Grace. Ela no se importava com o que aconteceria
com ela. Sem Lenny, nada mais importava. O mundo no
tinha mais a menor graa para Grace, no lhe trazia
nenhuma esperana. Eles podem me prender. Minha vida j
acabou mesmo.
Mais uma vez, foi John Merrivale quem a salvou e fez com
que visse as coisas claramente. O mundo todo estava acusan-
do Grace de tra-lo, de conspirar com Lenny para "roubar"
as aes dele do Quorum, mas a lealdade de John
permanecia inabalvel.
         um erro, Grace, certo? Um erro. No sei por que Lenny
fe-fez isso, mas ele deve ter tido suas razes.
        Voc sabe que ele nunca tentaria enganar voc, John.
Nenhum de ns tentaria.
        Cl-claro que sei, querida. Claro que sei.
Quando John ficou sabendo do conselho que Kevin
McGuire estava dando para Grace, obrigou-a a despedi-lo na
hora.
        Mas Kevin  um velho amigo  protestou ela.
        Acredito que seja. Mas ele est falando besteiras. De-
declarar-se culpada! Isso  loucura. Precisamos que Frank
Hammond a defenda. Ele  o melhor.
John estava certo, como sempre. Frank Hammond entrou
na vida de Grace como um ciclone. No momento em que o
conheceu, ela sentiu a esperana renascer. Comeou a ver
uma luz no fim do tnel. Finalmente, aqui estava seu
defensor, um homem forte, um advogado, algum que
acreditava nela e que lutaria por ela. Apenas estar na
presena de Frank Hammond fazia Grace se sentir melhor.
Ela perguntou, tmida:
        E fiana? Voc acha que existe a chance...?
        J entrei com o pedido. A audincia  amanh. Vou
tir-la daqui.
-        No sei se voc sabe... mas no tenho dinheiro. No posso
pag-lo.
Grace estava constrangida, mas Frank Hammond continuou
inabalvel:
        Esquea isso. J est resolvido. Agora, quero que me
escute. Pode fazer isso?
Grace assentiu.
        Esquea as acusaes contra voc. Esquea o
julgamento, esquea o que as pessoas esto dizendo.  meu
trabalho consertar tudo isso. Entendeu?
-        Entendi.  Ele me passa tanta tranquilidade.  como se
estivesse falando com Lenny.
-        O seu trabalho  se agarrar  verdade. Voc no roubou
dinheiro algum. Lenny no roubou dinheiro algum. O fato
de que tanto dinheiro tenha sumido significa que algum
deve ter roubado. Quem quer que seja essa pessoa, ela est
tentando incriminar voc e seu marido. Esse  o nosso caso.
 Mas quem faria isso?
Frank Hammond sorriu, revelando os dentes amarelados de
um homem velho. Era bvio que ele no gastava muito de
seus honorrios astronmicos no consultrio de um
dentista.
        Quem roubaria 70 bilhes de dlares? Noventa por cento
dos americanos, se achassem que poderiam sair livres.
        Tudo bem, ento. Quem roubou?
        No fao idia. No importa. S precisamos estabelecer a
dvida razovel. O promotor tem que provar que voc e seu
marido foram responsveis.
Grace ficou em silncio. Aps alguns momentos, perguntou:
        Sr. Hammond, o senhor acredita que meu marido se
matou?
Frank Hammond fitou sua cliente bem nos olhos.
        No, Sra. Brookstein, no acredito.
A partir daquele momento, Grace soube que podia confiar
totalmente em Frank Hammond. Ele vai ganhar a causa. Ele
vai me libertar. E quando ele fizer isso, eu vou descobrir
quem roubou aquele dinheiro e limpar o nome de Lenny.
Captulo 9
GRACE BROOKSTEIN ESTAVA brincando com os botes do
seu casaco de bucl Chanel enquanto o jri voltava para o
Tribunal 14. Ela estava nervosa, mas no por causa do
veredicto. Sabia que seria considerada inocente. Frank
Hammond lhe dissera isso.
        Apenas faa o que eu disser, Grace, deixe o resto por
minha conta. O jri vai absolv-la.
Quando Frank falava, era como escutar a voz de um profeta.
Grace seguira as instrues dele ao p da letra, at mesmo
sobre o que vestir no tribunal.
        Voc no deve parecer arrependida.  inocente. Quero
que entre naquele tribunal com orgulho, de cabea em p.
Lembre-se: voc est representando Lenny, e no apenas
voc mesma.
Lenny. Querido Lenny. Voc est assistindo, meu amor?
Est orgulhoso de mim?
No, Grace no estava nervosa por causa do veredicto. E sim
pelo que aconteceria quando o caso acabasse. Como vou
descobrir quem incriminou Lenny? At ento, o FBI
evidentemente fracassara em rastrear mais do que alguns
milhes do dinheiro desaparecido do Quorum. Se eles no
conseguem encontrar dinheiro, que chance tenho eu? Mas
ela precisava fazer isso. Precisava limpar o nome de Lenny.
J fazia seis meses que ele no estava mais aqui. J estavam
em dezembro, quase Natal. Meu primeiro Natal como viva.
Apesar de ser judeu, Lenny sempre adorou o Natal, a troca
de presentes, as festas. Ele tinha um esprito to generoso.
A voz do juiz soou distante, irreal. Dirigiu-se para o primeiro
jurado.
        Chegaram a um veredicto?
Acho que vou passar o Natal com os Merrivale.
Natal era uma data para se passar com a famlia, mas as duas
irms de Grace tinham-na decepcionado. Nenhuma delas
ligou para ela ou a visitou desde que fora presa. Grace teve
esperanas de v-los na galeria pblica quando o julgamento
comeasse, mas Honor e Connie deixaram clara sua
ausncia.
Quando eu for inocentada, tenho certeza de que elas vo me
procurar. E quando fizerem isso, eu vou lhes perdoar. Vou
precisar do apoio delas se quiser consertar as coisas. Se
quiser encontrar quem realmente roubou aquele dinheiro.
Quem incriminou meu amado Lenny.
O primeiro jurado olhou para Grace e sorriu. Ela retribuiu o
sorriso. Ele parecia um bom homem.
        E vocs consideram a r inocente ou culpada da acusa-
o de fraude de ttulos de crdito?
        Culpada.
O promotor Angelo Michele deu um soco no ar. Ento no
tinha estratgia nenhuma! "Big Frank" Hammond arruinou
esse caso. Afinal, ele no  to invencvel assim.
Grace comeou a sentir as primeiras pontadas de pnico.
Olhou para Frank Hammond, mas os olhos dele estavam fi-
xos no juiz.
        E da acusao de lavagem de dinheiro?
        Culpada.
No! Eu no sou culpada. Isso  um erro! Eu fiz tudo o que
Frank me mandou fazer.
        Da acusao de perjrio... Fraude de transferncias
eletrnicas... Fraude de correspondncia...
As palavras cortavam Grace como lminas afiadas.
        Culpada... Culpada... Culpada.
        Isso est errado! Por favor, Meritssimo. Isso  tudo um
erro. Eu sou inocente e meu marido tambm! Algum nos
incriminou!
As vaias e os xingamentos vindos da galeria eram to
ensurdecedores que Grace mal conseguia escutar as prprias
palavras. Levou um minuto para o juiz restabelecer a ordem.
Quando ele conseguiu, virou-se para Grace com raiva.
        Grace Brookstein. A senhora e seu marido roubaram de
investidores uma quantia quase inimaginvel de dinheiro. O
sofrimento humano causado pelos seus atos foi enorme.
Mesmo assim, em nenhum momento a senhora demonstrou
o menor remorso. A impresso que fica  que, por causa de
sua posio social privilegiada, a senhora achava que as leis
desse grandioso pas no se aplicavam  senhora. Mas elas se
aplicam.
A galeria aplaudiu e gritou em aprovao. Grace podia
escutar a comemorao abafada da multido do lado de fora,
que assistia ao julgamento em telas especialmente colocadas
para isso.
        Sua deciso de no se declarar culpada neste tribunal,
conhecendo as enormes evidncias contra a senhora, j ,
por si s, um crime vil. Por causa desse completo
desrespeito  lei, assim como pelo sofrimento de suas
vtimas, que eu lhe informo a minha deciso sobre a sua
sentena. E no tenho a menor dvida de que a sua
afirmao em no saber sobre nenhuma ao de seu marido
relacionada aos negcios  uma mentira, uma mentira que a
senhora, sem a menor vergonha, repetiu tanto neste tribunal
como para as autoridades que esto se esforando para
devolver o dinheiro s vtimas de seu marido. Por isso, a
minha sentena  que a senhora passar o resto de sua vida
privada de liberdade.
O juiz ainda estava falando, dando sua sentena, mas Grace
no o escutava mais. O que aconteceu? O que deu errado?
Frank Hammond estava sentado ao seu lado, curvado sobre
a mesa, a cabea apoiada nas mos.
Quando sentiu a mo do meirinho em seu brao, Grace
procurou John Merrivale com o olhar. Ele disse apenas com
os lbios:
        No se preocupe.  Mas o rosto abatido dele dizia
tudo. At Caroline, que fora fria e no lhe dera nenhum
apoio durante o julgamento, parecia chocada.
Grace sentiu-se enjoada, no por si, mas por Lenny.
Eu fracassei. Eu o decepcionei.
Como vou poder provar a inocncia dele agora?
NA ESCADARIA em frente ao tribunal, Angelo Michele estava
cercado. Uma multido de pessoas se espremia para apertar
sua mo e dar um tapinha em suas costas. Ele os vingara,
vingara Nova York, vingara os pobres, os despojados, os
sem-teto, vingara todas as vtimas da cobia e da avareza dos
Brookstein. Uma reprter puxou Harry Bain para um lado.
        Olhe para Michele. Eles o amam.  como se ele fosse
Joe DiMaggio voltando do mundo dos mortos ou coisa
parecida. O cara  um astro do rock.
 Ele  mais do que isso  disse Harry Bain.  Ele  um
heri.
Para Angelo Michele, o show tinha acabado. Mas para Harry
Bain e Gavin Williams, mal tinha comeado. Eles ainda
tinham de encontrar o dinheiro.
Captulo 10
A CONDENAO E SENTENA de priso perptua  a pena
cumulativa por todas as cinco acusaes dava mais de cem
anos na priso  de Grace Brookstein foi o assunto mais
importante nos jornais e noticirios de todo o mundo. Grace
no era mais uma mulher, um indivduo com pensamentos,
esperanas e arrependimentos. Ela era um emblema, um
smbolo de tudo que era corrupto e podre nos Estados
Unidos, das foras do mal que levaram a economia do pas 
beira de um colapso e que causaram tanto sofrimento e
angstia. Quando Grace foi tirada do tribunal para esperar
sua transferncia para a Penitenciria Feminina Bedford
Hills, uma multido sedenta de sangue a cercou, a xingou e
zombou dela. Uma mulher conseguiu arranhar seu rosto, sua
unha de acrlico cortando a pele de Grace. Imagens de Grace
Brookstein segurando o rosto ensanguentado enquanto era
levada para o camburo da polcia foram publicadas por todo
o pas. Os poderosos tinham cado.
Aps uma terrvel noite sozinha na cela, Grace teve permis-
so para dar um telefonema s 5 da manh. Instintivamente,
ela procurou a famlia.
        Gracie?  A voz de Honor parecia grogue de sono. 
 voc?
Graas a Deus. Ela est em casa. Grace poderia ter chorado
de alvio.
        Sim, sou eu. Ah, Honor,  horrvel. Eu no sei o que
aconteceu. Meu advogado me disse que tudo ia acabar bem,
mas...
        Onde voc est agora?
        Na cadeia. Ainda estou em Nova York, eu... no sei onde
exatamente.  horrvel. Eles vo me transferir amanh. Para
algum lugar a perto de voc. Bedford, acho? Deve ser
melhor. Mas, Honor, voc tem que me ajudar.
Houve um longo silncio. Honor acabou dizendo:
        No sei como eu poderia, Gracie. Voc foi considerada
culpada em um tribunal de justia.
        Eu sei, mas...
        E voc no se ajudou durante o julgamento. Suas roupas.
O que voc estava pensando?
        Frank Hammond me disse para me vestir daquela forma!
        Est vendo? L vem voc de novo. Connie estava certa.
        Como assim?  Grace estava quase chorando.  Connie
estava certa sobre o qu?
        Sobre voc. Escute o que est dizendo, Grace: "Lenny me
disse. Meu advogado me disse. John me disse." Quando voc
vai comear a se responsabilizar pelos seus atos? Pela sua
vida? Voc no  mais a princesinha do papai, Gracie. No
pode esperar que eu e Connie consertemos tudo para voc.
Grace mordeu o lbio at sangrar. Precisava to
desesperadamente do apoio da irm, mas tudo que Honor
queria fazer era lhe dar um sermo. Era bvio que Connie
pensava o mesmo.
        Por favor, Honor! No sei para quem pedir apoio. Voc
no pode pedir ao Jack? Ele  senador, deve ter alguma
influncia. Tudo isso  um terrvel engano. Eu nao roubei
dinheiro nenhum. E Lenny nunca...
        Sinto muito, Grace. Jack no pode se envolver nisso. Um
escndalo como esse poderia nos arruinar.
        Arruinar vocs? Honor, vou ficar presa o resto da vida.
Lenny est morto. Acusado de um crime que voc sabe que
ele no cometeu.
        No sei de nada disso, Grace. Pelo amor de Deus, acorde!
Aquele dinheiro no sumiu simplesmente.  claro que
Lenny pegou. Ele pegou e deixou voc segurando a bolsa.
As palavras eram como uma faca no corao de Grace. J era
ruim o suficiente que estranhos considerassem Lenny um
ladro. Mas Honor o conhecia. Ela o conhecia. Como podia
acreditar?
Honor falou as palavras seguintes com uma objetividade
assustadora:
        Voc fez sua cama, Gracie. Sinto muito.  Ela
desligou. Voc sente muito?
Eu tambm.
Adeus, Honor.
A VIAGEM NO CAMBURO para Bedford Hills foi longa e
desconfortvel. O veculo era gelado e fedorento, e as
mulheres ali dentro se aninhavam em busca de calor. Grace
olhou para os rostos delas. Essas mulheres no tinham nada
em comum com lia. Algumas estavam assustadas. Algumas,
desafiadoras. Outras, desesperadas. Mas todas carregavam as
linhas da pobreza e da exausto em seus rostos. Elas olhavam
para Grace com um puro dio assassino.
Grace fechou os olhos. Tinha 9 anos, estava em East
Hamplon com seu pai. Era vspera de Natal e Cooper
Knowles estava levantando-a pelo ombro para colocar a
estrela no topo da rvore.
        Voc consegue, Grace.  s se esticar mais um
pouquinho!
Ela estava no pdio, com 15 anos, cercada por seus amigos
ginastas. Os jurados estavam colocando uma medalha de
ouro em seu pescoo. Grace procurou na multido o rosto
de sua me, mas ela no estava l. O treinador disse:
        Esquea isso, Grace. Se voc quer ser uma vencedora,
tem de ganhar por voc mesma e no pelos outros.
Era a noite de seu casamento. Lenny estava fazendo amor
com ela, com carinho, delicadeza.
        Vou cuidar de voc, Grace. Voc nunca mais precisar
se preocupar com nada.
E Grace respondeu:
        Eu amo voc, Lenny. Estou to feliz.
        Saia!
A policial agarrou com fora o brao de Grace, que nem
tinha percebido que o camburo tinha parado. Momentos
depois, ela estava tremendo em um ptio deserto com as
outras detentas. J era final da tarde, estava escuro, e havia
neve no cho. A sua frente, havia um deprimente prdio de
pedra cinza. Atrs dela, e  direita e  esquerda, havia cercas
e mais cercas de arame farpado, contrastando violentamente
contra o cu prpura da noite. Grace ficou com vergonha ao
perceber que estava chorando.
        Bem-vindas a Bedford Hills. Aproveitem a estada.
TRS HORAS DEPOIS, Grace chegou  cela que dividiria com
outras duas mulheres. quela altura, ela j sabia que no
sobreviveria a uma semana em Bedford Hills, muito menos
o resto de sua vida.
Preciso sair daqui! Preciso falar com John Merrivale. John
vai me tirar daqui.
O exame fsico foi a pior parte. Uma experincia brutal e
degradante que fora planejada para tirar toda a dignidade das
detentas. Funcionou. Grace foi forada a ficar nua em uma
sala com vrias pessoas. Um mdico penitencirio inseriu
um espculo em sua vagina, fazendo um exame
ginecolgico. Depois, Grace teve de se inclinar enquanto
um dedo coberto por luva de borracha examinava seu nus,
provavelmente procurando drogas escondidas. Seus pelos
pubianos foram puxados com fora  procura de piolhos.
Durante todo o procedimento, guardas de ambos os sexos
riam e faziam comentrios jocosos e nojentos. Grace sentia
como se tivesse sido estuprada.
Depois disso, conduziram-na feito um animal para um
chuveiro tpido e mandaram que se lavasse com um
sabonete antissptico que queimava sua pele. Depois, ainda
nua, ela ficou em uma fila para cortarem seu longo cabelo
at o comprimento do corte de um garoto. O corte levou 15
segundos, mas foi um procedimento angustiante, roubando
de Grace sua feminilidade, toda a sua identidade como
mulher. Grace nunca mais viu suas roupas. Elas sumiram,
junto com qualquer outro vestgio da pessoa que ela tinha
sido do lado de fora. Tiraram at sua aliana de casamento,
arrancando-a dolorosamente de seu dedo. No lugar de suas
roupas antigas, Grace recebeu trs calcinhas, um suti que
no servia e um uniforme laranja dois tamanhos maiores
que o dela.
 Aqui.
Uma agente penitenciria forte abriu a porta da cela e
empurrou Grace para dentro. Duas mulheres latinas estavam
deitadas em beliches na caixa sombria de 3 por 2 metros.
Elas murmuraram alguma coisa uma para a outra em
espanhol quando Grace entrou, hesitante, mas a ignoraram.
Reunindo toda a sua coragem, Grace virou-se para a agente.
        Houve algum erro. Gostaria de falar com o diretor, por
favor. Acho que fui transferida para a penitenciria errada.
         mesmo?
        Sim. Esta  uma penitenciria de segurana mxima.
Fui condenada por fraude, no por assassinato. Aqui no  o
meu lugar.
As mulheres latinas arregalaram os olhos. Mas se a guarda
ficou chocada, no demonstrou.
        Poder ver o diretor de manh. Agora, durma.  A
porta da cela se fechou.
Grace deitou em seu beliche. No conseguiu dormir. Sua
mente estava a mil.
De manh, vou falar com o diretor. Serei transferida para
uma priso melhor. Ento, vou ligar para John Merrivale e
comear a minha apelao.
Deveria ter ligado para John quando tivera a chance. No
sabia que impulso estpido e infantil fizera com que ligasse
para Honor. Era difcil admitir que no podia confiar na
prpria famlia, mas essa era a realidade. Grace precisava
encarar isso.
Lenny considerava John um irmo. John  a minha famlia
agora. Ele  tudo que tenho.
Estava claro que contratar Frank Hammond fora um enorme
erro. Mas Grace no podia culpar John por isso. O impor-
tante agora era seguir em frente.
Amanh. As coisas vo melhorar amanh.
FRANK HAMMOND ESTAVA sentado sozinho em seu carro em
um estacionamento deserto. Observou a imagem familiar de
seu cliente se aproximar pelas sombras. De poucos em
poucos segundos, o homem olhava por cima dos ombros,
nervoso, com medo de estar sendo observado.
Big Frank pensou: Ele  to pattico. To fraco. Como um
cervo iluminado por um farol. Ningum desconfiaria que
um homem como este faria algo to audacioso. Acho que 
por isso que ele vai escapar impune.
O homem entrou no carro e enfiou um pedao de papel nas
mos de Frank.
        O que  isso?
-         um recibo. A transferncia bancria foi feita uma hora
atrs.
        Para a minha conta no exterior?
        Claro. Conforme combinamos.
        Obrigado.
Vinte e cinco bilhes de dlares. Era muito dinheiro. Mas
era suficiente? Depois de publicamente arruinar a defesa de
Grace Brookstein, a reputao de Frank Hammond estava
em farrapos. Talvez nunca mais fosse contratado de novo.
Mas agora era tarde para arrependimentos.
-        Acredito que tenha ficado feliz com o trabalho.
O cliente sorriu.
-        Muito feliz. Ela confiava totalmente em voc.
        Ento, nossos negcios chegaram ao fim.
Frank Hammond ligou o carro. O cliente colocou a mo em
seu brao.
-        No existem fundamentos para um recurso, no ?
-        No. A no ser, claro, que o FBI encontre o dinheiro
desaparecido. Mas isso no vai acontecer, vai, John?
-        No, no vai. N-no nesta vida.
John Merrivale permitiu-se sorrir. Ento, saiu do carro e
tranqilamente desapareceu nas sombras.
O DIRETOR JAMES MCINTOSH estava intrigado. Como todo
mundo no pas, ele sabia quem era Grace Brookstein. Ela era
a mulher que ajudara o marido a desviar bilhes de dlares e
depois, inexplicavelmente, aparecera no tribunal bancando a
Maria Antonieta e despertando ainda mais o esprito de
vingana dos americanos.
O diretor McIntosh era um homem cansado, desiludido,
com 50 e poucos anos, poucos fios de cabelo grisalho na
cabea e um bigode fino. Ele era inteligente e no era
desprovido de compaixo, embora Grace Brookstein fizesse
pouco para inspirar esse sentimento. A maioria das mulheres
que acabavam em Bedford Hills tinha vidas tiradas de livros
de Dickens. Estupradas pelos pais, espancadas pelos maridos,
foradas  prostituio e ao uso de drogas ainda na
adolescncia, muitas delas nunca tiveram a oportunidade de
ter uma vida normal, civilizada.
Grace Brookstein era diferente. Grace Brookstein tivera
tudo, mas, ainda assim, queria mais. O diretor McIntosh no
tinha tempo para esse tipo escancarado de cobia.
James McIntosh entrou para o sistema penitencirio porque
genuinamente acreditava que podia ajudar. Que poderia
fazer a diferena. Que piada! Aps oito anos em Bedford
Hills, seus objetivos eram mais modestos: se aposentar com
a sanidade e a penso, intactas.
James McIntosh no queria Grace Brookstein em Bedford
Hills. Discutira com seus superiores sobre isso.
 Vamos l, Bill, d um tempo. Ela  colarinho-branco.
Alm disso,  uma ameaa, pois vai incitar revoltas. Metade
das minhas detentas tem familiares que perderam seus
empregos depois do colapso do Quorum. E a outra metade a
odeia por ser branca e rica e por ter usado um casaco de
vison no julgamento.
Mas no adiantou. Era exatamente porque Grace era to
odiada que ela seria enviada para Bedford Hills. Em nenhum
outro lugar ela teria proteo.
Agora, menos de um dia depois de sua sentena, ela j estava
incitando problemas, exigindo v-lo como se ali fosse algum
tipo de hotel e ele fosse o gerente. Qual  o problema, Sra.
Brookstein? Os lenis no so macios o suficiente? O
champanhe no est bem gelado?
Ele fez um gesto para que Grace se sentasse.
        Pediu para falar comigo?
        Sim.  Grace expirou, tentando tirar o estresse de seu
corpo. Era bom estar sentada em um gabinete, conversando
com um homem educado e civilizado. O diretor tinha
fotografias de sua famlia na mesa. Era como uma dose
mnima de realidade.  Obrigada por me receber, diretor
McIntosh. Acho que houve algum engano.
O diretor levantou uma sobrancelha.
        Houve?
        Bem... sim. Esta  uma penitenciria de segurana
mxima.
         mesmo? Eu no tinha notado.
Grace engoliu. De repente, estava nervosa. Ele estava rindo
para ela ou dela?
Esta  a minha chance de explicar. No posso arruin-la.
        Meu crime... o crime pelo qual fui condenada... no 
violento  comeou ela.  Quer dizer, sou inocente,
diretor. Eu no fiz o que eles disseram que eu fiz. Mas no 
por isso que estou aqui.
O diretor McIntosh pensou: Se eu ganhasse um dlar por
cada detenta que j sentou na minha frente alegando
inocncia, j teria me aposentado em Malibu Beach anos
atrs. Grace ainda estava falando:
        O que quero dizer  o seguinte: mesmo se eu tivesse feito
isso, no acho... o que estou tentando dizer  que meu lugar
no  aqui.
        Concordo com voc.
O corao de Grace disparou. Graas a Deus! Ele  um
homem sensato. Ele vai resolver as coisas e me tirar desta
fazenda de gado.
        Infelizmente, meus superiores pensam de modo dife-
rente. Eles acham que  dever do Estado no permitir que
voc seja linchada. Eles tm medo de que as outras detentas
possam querer... como posso dizer... bater em voc com um
p de cabra at morrer. Ou estrangul-la com um lenol.
Jogar cido em seu rosto enquanto voc dorme, talvez? Algo
dessa natureza.
Grace ficou branca. Sentiu-se derretendo por dentro de
medo. O diretor McIntosh continuou:
        Por alguma razo, meus superiores acreditam que as
chances de voc ser agredida fisicamente em Bedford Hills
so menores do que em qualquer outro lugar. Um equvoco,
na minha opinio. Mas me diga, Grace, o que sugere que eu
faa?
Grace no conseguia falar.
        Talvez se alguma coisa lhe acontecer aqui, eles
reconsiderem a deciso? Voc acha que isso seria possvel?
O diretor McIntosh fitou Grace bem nos olhos. Foi quando
ela teve certeza.
Elas vo tentar me matar. E ele no d a mnima. Ele me
odeia tanto quanto elas.
        Vou transferi-la para uma outra ala. Depois, me diga se a
nova cela  mais de seu agrado. Agora, se me d licena.
A agente levou Grace embora.
As novas companheiras de cela de Grace eram uma
traficante de cocana negra que pesava uns 90 quilos
chamada Cora Budds e uma morena magra e bonita de 30 e
poucos anos. O nome da morena era Karen Willis.
O agente contara a Grace que Karen dera um tiro e matara o
namorado da irm.
        As duas pegaram perptua. Que nem voc. Tero tempo
mais do que suficiente para se conhecerem.  O agente
sorriu, como se soubesse bem do que estava falando. Grace
se perguntou se ele estava fazendo alguma insinuao sexual,
mas teve medo de perguntar. No posso ficar brigando com
sombras. Tenho certeza de que  um mito que todas as
presidirias so lsbicas.
Grace olhou para Karen e Cora com cuidado, subindo para
seu beliche em silncio.
O diretor McIntosh me mandou para c como forma de
punio.  provvel que elas tentem me machucar. Preciso
ficar atenta.
Cora Budds levantou seu pesado corpo do beliche e se sen-
tou ao lado de Grace.
        Qual  seu nome, doura?  Ela fedia a mau hlito e
suor. Grace recuou instintivamente.
        Grace. Meu nome  Grace.
Por alguma razo Cora Budds pareceu achar isso engraado.
        Grace. Amazing Grace. Ela riu.  Por que que c t aqui,
Amazing Grace?
        Hum... fraude  sussurrou Grace. Ainda era estranho e
constrangedor falar essa palavra.  Mas  um engano. Eu
sou inocente.
Cora riu ainda mais.
        Fraude, ? Ouviu isso, Karen? Tem uma golpista inocente
com a gente. Tamo ficando importante!  De repente o
sorriso nos lbios de Cora sumiu.  Ei, s um minuto. Qual
seu nome mermo?
        Grace.
        Grace de qu?
Por um minuto, Grace hesitou. Grace de qu? Boa pergunta.
Esta situao era toda to irreal, era como se no tivesse mais
identidade. Quem eu sou? No sei mais. Finalmente, ela
disse:
        Brookstein. Meu nome  Grace Brookstein. Eu...
Grace nem teve tempo para se esquivar. O punho de Cora
atingiu seu rosto com tanta fora que ela escutou seu nariz
quebrar.
        Vadia!  gritou Cora. Ela bateu em Grace de novo. San-
gue jorrava de todo lado. Karen Willis continuava a ler seu
livro como se nada tivesse acontecido.
        Tu  a vadia que roubou todo aquele dinheiro!
        No!  disse Grace.  Eu no...
        Meu irmo perdeu o emprego por sua causa. Meus velhos
camaradas, tudo na rua, e c e seu velho comendo caviar.
Devia ter vergonha. Vou fazer c se arrepender de ter
nascido, Grace Brookstein.
Grace segurou seu nariz. Chorando, disse:
        Por favor, eu no roubei aquele dinheiro.
Cora Budds a agarrou pela camisa laranja do uniforme e
colocou-a de p. Com uma das mos, bateu com as costas de
Grace contra a parede, levantando-a com tanta facilidade
como se ela fosse uma boneca de pano.
        No fala nada! No fala comigo, sua vadia branca nojenta.
 A cada palavra, Cora batia com a cabea de Grace na
parede. Sangue quente escorria pelo cabelo recm-cortado
de Grace. Ela comeou a perder a conscincia.
Karen Willis disse com a voz entediada:
        Calma, Cora. Denny vai escutar.
        Tu acha que eu ligo?
Claro, alguns segundos depois, a porta da cela foi aberta.
Hannah Denzel, conhecida pelas presidirias como "Denny"
(entre outras coisas), era a agente mais antiga da ala A. Uma
mulher branca, gorda e baixa com sobrancelhas grossas e um
bigode eminente, ela se aproveitava de sua autoridade e
gostava de tornar a vida das detentas o mais miservel e
degradante possvel. Avaliou a cena  sua frente. Grace
Brookstein estava deitada no cho com uma poa de sangue
 sua volta. Cora Budds estava de p como um King Kong
com Fay Wray, s que sem a ternura do macaco. Grace mal
estava consciente, murmurando coisas incoerentes.
Denny disse:
        Quero essa cela limpa.
Cora Budds deu de ombros.
        Diz isso pra ela. Num  meu sangue.
        Certo. Mas faa com que ela limpe. Volto em uma hora.
Naquela noite, Grace ficou deitada na cama, acordada,
morrendo de medo, esperando Cora Budds pegar no sono.
Mais cedo, limpara o prprio sangue, esfregando o cho de
joelhos enquanto Cora observava e Karen lia seu livro. De-
pois de uma hora, Denny voltou, assentiu, aprovando, e
deixou Grace  sua prpria sorte. Ela agachou-se no beliche,
esperando Cora atac-la de novo, mas nada aconteceu. De
uma certa forma, ela gostaria que tivesse acontecido. Nada
era pior do que esperar, o medo por antecipao que corri
por dentro. Finalmente, vinte minutos antes de as luzes se
apagarem, a porta da cela se abriu e Grace foi levada para o
mdico da penitenciria. Aps uma limpeza superficial, ela
levou seis pontos na cabea e colocaram um Band-Aid
ineficaz para ajudar a consertar o nariz, depois mandaram-na
de volta para Cora.
Grace puxou o cobertor at a cabea. Fazia muito tempo que
no rezava, mas fechou os olhos e abriu seu corao para os
cus.
Por favor, me ajude, Senhor! Por favor, me ajude. Estou
cercada por inimigos. No  s Cora. Todas as detentas me
odeiam, os guardas, o diretor McIntosh, aquelas pessoas do
lado de fora do tribunal. At a minha famlia me abandonou.
No peo por mim, Senhor. No me importo mais com o
que vai me acontecer. Mas se eu morrer, quem vai limpar o
nome de Lenny? Quem vai descobrir a verdade?
Grace tentou entender aquilo tudo. Mas cada vez que
encontrava uma pea do quebra-cabea, as outras
desapareciam.
A voz de Frank Hammond. "Algum incriminou Lenny."
Mas quem, e por qu?
Por que Lenny me tornou scia do Quorum e tirou John?
Onde esto os bilhes do Quorum agora?
A dor que o punho de Cora lhe infligira no era nada
comparada  dor da angstia que Grace sentia por dentro.
Estar ali, naquele lugar horrvel, era como um pesadelo. Mas
no era. Era a realidade.
Talvez a minha vida de antes fosse um sonho. Eu e Lenny,
nossa felicidade, nossos amigos, nossa vida. Era tudo uma
miragem? Tudo foi construdo em cima de mentiras?
Aquela era a maior ironia de todas. Grace havia sido rotulada
de fraudadora e mentirosa. Mas no fora Grace quem
mentira. Foram todas as outras pessoas: suas irms, seus ami-
gos, todas as pessoas que comeram na mesa dela e de Lenny,
que davam tapinhas em suas costas nos tempos bons, aper-
tavam suas mos, que competiam uns com os outros para
homenagearem o rei. O carinho deles, a lealdade, isso era
mentira. Onde estavam essas pessoas agora?
Sumiram, todas. Foram levadas pelo vento. Desapareceram,
assim como os bilhes do Quorum.
Todos, menos John Merrivale.
Querido John.
Grace acordou gritando. Karen Willis colocou a mo sobre a
sua boca.
        Shhh. Vai acordar a Cora.
Grace estava tremendo. Seus lenis estavam encharcados
de suor. Estava tendo um pesadelo. Comeou como um
lindo sonho. Ela estava a caminho do altar em Nantucket, de
brao dado com Michael Gray. Lenny estava esperando de
costas para ela. John Merrivale estava l, com um sorriso
nervoso. Havia rosas brancas em todos os lugares. O coral
estava cantando "Panus Angelicus". Conforme se
aproximava do altar, Grace percebia um cheiro estranho.
Algo qumico como... formol. Lenny se virou. De repente, o
rosto dele comeou a se desfazer, derretendo como a cabea
de uma boneca no forno. Seu tronco comeou a inchar at
quase explodir pela camisa, a pele fantasmagricamente
branca. Ento, um membro de cada vez do corpo horrendo
caiu. Grace abriu a boca para gritar mas estava cheia de gua.
Enormes ondas de gua salgada tinham enchido a igreja,
levando embora os convidados, destruindo tudo no
caminho, entrando nos pulmes de Grace, sufocando-a. Ela
estava se afogando! No conseguia respirar!
        Voc vai acordar a Cora!
Levou alguns segundos para Grace perceber que Karen era
real.
        Ela fica louca da vida quando algum atrapalha o sono
dela. Voc no ia gostar nada de ver Cora quando ela est
nervosa.
Depois do que tinha acontecido mais cedo, a frase de Karen
era to ridcula que Grace riu. Ento, a risada se transformou
em choro. Logo, Grace estava soluando nos braos de
Karen, todas as perdas, todo o terror e o sofrimento dos
ltimos seis meses vindo  tona como o pus de um
furnculo.
Finalmente, Grace perguntou:
        Por que voc no fez nada hoje de tarde?
        No fiz nada? Sobre o qu?
        Sobre o ataque! Quando Cora tentou me matar.
        Doura, aquilo no foi nada. Se Cora tivesse tentado matar
voc, voc estaria morta.
        Mas voc nem se mexeu. Ficou ali sentada e deixou que
ela me espancasse.
Karen suspirou.
        Deixe-me perguntar uma coisa para voc, Grace. Quer
sobreviver aqui dentro?
Grace pensou. No tinha certeza. No final, assentiu. Preci-
sava sobreviver. Por Lenny.
        Nesse caso, voc tem que entender uma coisa. Ningum
vai salvar voc. Nem eu, nem as guardas, nem seu advogado
de recurso, nem a sua me. Ningum. Voc est sozinha
aqui, Grace. Tem que aprender a contar s com voc
mesma.
Grace se lembrou do telefonema para Honor.
Quando voc vai comear a se responsabilizar pelos seus
atos? Pela sua vida? Voc no  mais a princesinha do papai,
Grade. No pode esperar que eu e Connie consertemos tudo
para voc.
Ento, ela se lembrou de Lenny.
Vou cuidar de voc, Grace. Voc nunca mais precisar se
preocupar com nada.
        Conselho  de graa  disse Karen, voltando para seu
beliche.  Mas quando voc se lembrar onde escondeu
todo aquele dinheiro, talvez queira me mandar uma gorjeta
de agradecimento.
Grace j ia protestar que era inocente, mas mudou de idia.
Para qu? Se nem sua famlia acreditava, por que outra
pessoa acreditaria?
        Claro, Karen. Farei isso.
Grace seguiu o conselho da companheira de cela. Nas duas
semanas seguintes, ficou com a cabea baixa e guardou seus
pensamentos e medos para si. Ningum vai me ajudar. Estou
sozinha. Tenho que descobrir como funciona a vida aqui.
Grace descobriu que Bedford Hills era admirada em todo o
pas como um modelo por causa de seus programas para
ajudar mes detentas. Das 850 presidirias, mais de setenta
por cento eram mes por volta dos 30 anos. Grace ficou
surpresa ao saber que Cora Budds estava entre elas.
        Cora  me?
        Por que voc ficou to chocada?  perguntou Karen. 
Cora tem trs filhos. A mais nova, Anna-May, nasceu aqui
mesmo. A nenm veio duas semanas antes do esperado. A
irm Bernadette fez o parto no cho do centro pr-natal.
Uma vez, Grace tinha lido sobre bebs que nasciam na pri-
so. Ou escutara na televiso? De qualquer forma, se
lembrava de ficar estarrecida e morrendo de pena dos filhos
dessas mes criminosas e egostas. Mas isso tinha sido em
outra vida, em outra era. Nesta vida, Grace no achava o
centro infantil de Bedford Hills nem um pouco estarrecedor.
Pelo contrrio, sendo cuidado por presidirias e freiras
catlicas, era o nico lugar de esperana no regime
incansavelmente sombrio da priso. Grace adoraria
conseguir trabalhar l, mas no tinha a menor chance.
Karen disse para ela:
        Sangue novo sempre pega os piores trabalhos.
Grace foi colocada para trabalhar nos campos.
O trabalho em si era rduo, cortar madeira na floresta para
construir novos galinheiros, limpando clareiras cobertas de
hera para abrir espao para casas das aves. Mas eram as horas
que matavam Grace. O "dia" de Bedford Hills no tinha a
menor relao com claro e escuro, ou com o ritmo do
mundo exterior. Aps as luzes se apagarem s 22h30, as
presidirias s tinham quatro horas de sono ininterrupto
antes de luzes fracas se acenderem, s 2h30. Isso era para
que as detentas que trabalhavam no campo pudessem tomar
caf da manh e sair para a madrugada fria s 4 horas. "O
almoo" era servido no salo comunitrio s 9h30. O jantar
era s 14 horas, oito horas e meia longas e maantes antes de
as luzes se apagarem. Grace sentia como se tivesse viajado
para o outro lado do mundo, ficando permanentemente
exausta mas sem conseguir dormir.
        Voc vai acabar se acostumando  dizia Karen. Grace
no tinha tanta certeza. O pior de tudo era a solido. Era co-
mum Grace passar dias inteiros sem falar com nenhuma
outra alma a no ser Karen. Outras detentas tinham amigas.
Grace via as mulheres com quem trabalhava se apoiarem
umas nas outras. Durante os intervalos, elas conversavam
sobre filhos, maridos, recursos. Mas ningum falava com
Grace.
        Voc  uma intrusa  explicou Karen.  Voc no 
uma de ns. Alm disso, elas acham que voc e seu marido
roubaram de gente como a gente. Isso gera muita raiva. Mas
vai passar.
        Mas voc no tem raiva  comentou Grace.
Karen deu de ombros.
        Gastei toda a minha raiva h muito tempo. Alm disso,
quem sabe? Talvez voc realmente seja inocente. Sem
querer ofender, mas voc no me parece nenhum mestre do
crime.
Os olhos de Grace se encheram de lgrimas. Ela acredita em
mim. Algum acredita em mim.
Ela se agarrou s palavras de Karen como a um salva-vidas.
 Brookstein. Voc tem visita.
        Eu?  Grace estava voltando do seu sero no galinheiro.
O Natal fora dois dias antes e nevara muito  noite. As mos
de Grace estavam vermelhas e queimadas de frio e sua
respirao soltava fumaa como de uma chaleira com gua
fervente.
        No estou vendo nenhuma outra Brookstein. O horrio
de visita est quase acabando, ento  melhor entrar ou no
vai conseguir v-la.
V-la? Grace se perguntou quem poderia ser. Honor. Ou
Connie, talvez. Elas perceberam que foram muito duras
comigo. Vo me ajudar a entrar com um recurso.
O guarda a levou para a sala de visita. L, sentada em uma
pequena mesa de madeira, estava Caroline Merrivale.
Usando um sobretudo de pele de raposa, os dedos brilhando
com diamantes como se fosse Cruela de Vil, ela parecia to
fora de lugar que chegava a ser engraado, uma visitante de
outro planeta. Grace sentou-se em frente a ela.
        Caroline. Que surpresa.
Durante o julgamento, quando ela estava hospedada na casa
dos Merrivale, Grace sentira uma hostilidade cada vez maior
da parte de Caroline. John, o querido John, se mantivera
firme ao seu lado do incio ao fim. Mas Caroline, que um dia
Grace considerara uma amiga to querida, quase uma
segunda me, ficara longe, sendo at cruel s vezes, como se
estivesse gostando de ver o sofrimento de Grace. Ela no
escondera sua irritao sobre a ateno indesejada que a
presena de Grace despertara na imprensa.
         intolervel, como viver em uma jaula no zoolgico.
Quando isso tudo vai acabar?  A deferncia que um dia ela
demonstrara a Grace como esposa de Lenny fora substituda
por uma frieza arrogante. Grace tentava no se ressentir.
Afinal, se no fosse Caroline e John, ela teria ficado na rua.
No teria tido o grande Frank Hammond para defend-la.
No teria tido nada. Mas a amargura de Caroline ainda doa.
Ela era a ltima pessoa que Grace esperava ver em Bedford
Hills.
Caroline olhou em volta, como uma pessoa com medo de
avio procurando a sada de emergncia mais prxima.
        No posso ficar muito tempo.
        Tudo bem. Foi legal de sua parte ter vindo. John recebeu
a minha carta?
Grace escrevera uma carta para John uma semana antes,
perguntando a ele sobre os passos seguintes. O que ela
deveria fazer a respeito de um recurso, deveria contratar um
novo advogado, quanto tempo ele achava que levaria para
que concordassem em rever seu caso etc. Ele ainda no
havia respondido.
        Ele recebeu sim.
Silncio.
        Ele anda muito ocupado, Grace. O FBI ainda est
procurando o dinheiro desaparecido. John tem ajudado da
melhor forma que pode.
Grace assentiu de forma submissa.
         claro, eu entendo.  Ela esperou que Caroline falasse
alguma coisa, perguntasse como ela estava aguentando,
talvez, ou se precisava de alguma coisa. Mas ela no fez nada
disso. Desesperada para prolongar seu encontro, o primeiro
com o mundo externo em semanas, Grace comeou a
tagarelar:
        No  to ruim aqui. Quer dizer,  claro que  ruim, mas a
gente tenta se acostumar. A pior parte  como os dias so
cansativos. Fica difcil se concentrar em qualquer coisa. Fico
pensando em Lenny. Como tudo isso pode ter acontecido.
Quer dizer, algum nos incriminou, isso  bvio. Mas depois
disso, as coisas ficam complicadas. Se Deus quiser, quando
John entrar com o meu recurso, vai haver uma luz no fim
do tnel. Mas, no momento, est to escuro. Eu me sinto
perdida.
        Grace, no vai haver recurso.
Grace piscou.
        Como?
A voz de Caroline se tornou cruel.
        Eu disse que no vai haver recurso. Pelo menos, no com
a nossa ajuda nem com o nosso dinheiro. Olhe, John ficou
do seu lado enquanto pde. Mas ele tem que enfrentar a
verdade agora. Todos temos.
        A verdade? Como assim? Que verdade?  Grace estava
tremendo.
        Pode parar com a sua cena de Garotinha Perdida 
disparou Caroline.  Comigo no cola. Lenny roubou de
seus investidores e scios. Ele traiu o coitado do John. Vocs
dois traram.
        Isso no  verdade! Caroline, voc precisa acreditar em
mim. Sei que Lenny mudou a estrutura societria, e 
verdade que no sei por qu. Mas eu sei que ele nunca faria
nada para magoar John intencionalmente.
        Ah, Grace, at parece. Voc acha que todo mundo 
burro? Por que voc no joga limpo e conta ao FBI onde est
o dinheiro?
Isso era um pesadelo. Uma piada de mau gosto.
        Eu no sei onde o dinheiro est. John sabe disso. John
acredita em mim!
        No  disse Caroline, sendo grosseira.  Ele no acre-
dita. Ele no quer saber mais de voc. Vim aqui hoje para
pedir que voc pare de procur-lo. Depois de tudo que voc
e Lenny fizeram a ele, a todos ns, voc nos deve pelo
menos isso.
Ela se levantou para sair. Grace se conteve para no se jogar
nos braos dela e implorar perdo. Por dentro, sua garganta
estava rouca de tanto gritar: No me deixe aqui! No afaste
John de mim. Ele  minha nica esperana. Por favor! Por
fora, ela manteve a boca bem fechada, com medo de que, se
abrisse, os gritos nunca mais parassem.
 Aqui.  Caroline colocou um pequeno embrulho
envolvido em papel de seda na mo de Grace enquanto o
agente estava virado.  John me pediu para lhe dar isso. Ele
 um fraco, um sentimental mesmo. Eu disse a ele que isso
no teria a menor utilidade para voc apodrecendo aqui
neste lugar!  Ela soltou uma gargalhada cruel.  Mas
como isso  horrendo e no tem nenhuma utilidade para
mim, acho que pode ficar com voc.  Ela se virou e
desapareceu.
Entorpecida, Grace seguiu o agente at sua cela. Escondera o
embrulho dentro da manga e o mantivera ali at estar segura
em seu beliche. Suas mos tremiam ao abrir,
cuidadosamente retirando o papel de seda. John Merrivale
fora o ltimo amigo verdadeiro de Grace. Meu nico amigo.
O que quer que esteja dentro desse embrulho, ele queria que
fosse dela.
Era um broche. Um broche de borboleta, com pedras de
todas as cores. Os olhos de Grace se encheram de lgrimas.
Lenny comprara para ela no ltimo Natal em um brech em
Key West. Quando a polcia congelou os bens do Quorum,
eles pegaram todos os objetos pessoais de Lenny incluindo
as jias de Grace. O broche devia ter escapulido do pente
fino. Talvez porque no tivesse valor. Mas, para Grace, no
poderia valer mais se fosse feito de diamantes.
Era um ltimo pedacinho de Lenny. Um ltimo smbolo de
felicidade, de esperana, de tudo que ela perdera para sem-
pre. Era seu passaporte para a liberdade.
Liberdade eterna.
Gentil e carinhosamente, ela soltou o pino do broche de seu
gancho e comeou a cortar os pulsos.
Captulo 11
Ela estava cercada por luzes brancas brilhantes. Mas no do
tipo que traz tranquilidade. E sim daquele tipo que faz os
olhos arderem, penetrando nos cantos mais obscuros de sua
memria, deixando-a sem nenhum lugar para se esconder.
Ela escutou vozes.
Frank Hammond: "Algum incriminou Lenny e armou para
voc levar a culpa. Algum com informaes de dentro do
Quorum.
John Merrivale: "Confie no Frank. Fa-faa tudo o que ele lhe
disser e voc vai ficar bem. No se p-preocupe com o FBI.
Eu cuido deles."
A luz se apagou.
O diretor McINTOSH sentiu gotas de suor escorrerem por
suas costas enquanto fitava a linha verde reta no monitor
cardaco.
Por favor, Senhor, faa com que ela viva.
Se Grace Brookstein conseguisse se matar sob a sua vigiln-
cia, sua carreira estaria acabada. Daria adeus para sua
aposentadoria, seu descanso, para tudo pelo que trabalhara
tanto nesses ltimos oito anos. Nenhuma de suas conquistas,
de suas boas intenes contaria. Naquele momento, James
McIntosh odiava Grace Brookstein mais do que j odiara
qualquer outro ser humano.
Os mdicos deram choques no corao de Grace. O
minsculo corpo dela saltando da cama. A linha verde se
mexeu, ento ganhou vida, batendo em um ritmo lento, mas
estvel.
 Ela voltou.
O chefe do Departamento Penitencirio do Estado de Nova
York recebeu a ligao no clube de golfe.
        Eu deveria demiti-lo, James. Sem perguntas. Voc sabe
disso?
        Sim, senhor.
        Se o boato se espalhar de que ns permitimos que Grace
Brookstein tivesse acesso a um objeto cortante na prpria
cela...
        Eu sei, senhor. Isso no vai acontecer de novo.
        Claro que no vai! E o que ela estava fazendo na Ala A,
em primeiro lugar? Ns a mandamos para Bedford Hills para
que ficasse segura.
O diretor McIntosh lutou contra a prpria irritao. Grace
Brookstein no merecia ser protegida. Mesmo agora que
estava na cadeia, recebia tratamento especial. Isso lhe
deixava enojado.
        Quando ela estiver bem, quero que fique sob vigilncia
contra suicdio 24 horas por dia. Quero que tenha
acompanhamento psicolgico, comida decente. Onde ela
est trabalhando?
O diretor McIntosh se preparou.
        Ela est no campo, senhor. No primeiro turno.
        Ela o qu? Voc perdeu a cabea, James? Quero que ela
fique no centro infantil, com as freiras, assim que melhorar.
Capisce? No quero nem saber o que voc pensa dela, daqui
em diante, voc vai pisar em ovos com Lady Brookstein. Fui
claro?
        Sim, senhor. Claro como cristal.
Grace acordou para um mundo de dor. Vinha em ondas.
A primeira onda foi fsica: as pontadas nos pulsos, a secura
na garganta, a dor nos braos e pernas. Quem quer que
tivesse inserido a agulha no seu brao certamente o fizera
com pressa. Para qualquer lado que Grace se virasse, sentia
uma pontada na veia. Toda a regio em volta estava roxa.
A segunda onda foi emocional: ela tentara se matar e no
conseguira. No estava no cu com seu querido Lenny.
Ainda estava aqui, em Bedford Hills, vivendo um pesadelo.
A depresso tomou conta dela.
Mas foi a terceira onda  a angstia mental  que fez com
que Grace se sentasse na cama e arrancasse os cabelos at
que os mdicos viessem sed-la. Em algum lugar do seu
inconsciente, bem no fundo, entre a morte e a vida,
escurido e luz, a verdade saltara e a agarrara pela garganta.
Em sua mente, ela escutava a voz de Caroline Merrivale,
arrogante e maligna. No vai haver recurso. John no quer
mais saber de voc.
Na hora, Grace pensara: John no.  voc.  voc quem no
quer mais saber de mim. Voc o envenenou. Mas agora,
finalmente, ela percebia. Caroline era apenas a mensageira.
Foi John. Foi John o tempo todo!
Fora John quem trara Lenny. Ele trara os dois. Quanto
mais Grace pensava, mais bvio ficava. John era a nica
pessoa ntima o suficiente de Lenny para ter conseguido
roubar aquele dinheiro. Quando a Comisso de Valores
Mobilirios comeou a investigar o Quorum, ele deve ter
entrado em pnico. De alguma forma, convenceu Lenny a
mudar a estrutura societria do fundo para que ele, John, no
pudesse levar a culpa quando descobrissem que o dinheiro
estava desaparecido. Claro, a morte repentina de Lenny
deve ter aumentado o risco. A exposio era sempre uma
possibilidade, mas depois da morte de Lenny se tornou uma
certeza. Os investidores do Quorum comearam a pedir seu
dinheiro de volta e a fraude foi revelada. Mas quela altura,
j estava fcil para John jogar a culpa em Grace. Ela era scia
de Lenny agora, no ele. Ainda melhor, Grace confiava
nele. Ele se certificara disso. Quando todo mundo virou as
costas para ela, John Merrivale ficou por perto. No porque
ele gostasse de mim, mas porque ele queria orquestrar a
coisa toda! A investigao do FBI. Meu julgamento. Foi John
quem lidou com a polcia, "protegendo" Grace das perguntas
deles. Foi John quem insistiu que ela demitisse Kevin
McGuire e contratasse Frank Hammond, o advogado que a
arruinara no tribunal. Agora que ela estava segura atrs das
grades, John lavara as mos. Nem foi homem o suficiente
para ir ele mesmo. Mandou Caroline para fazer o trabalho
sujo.
Olhando para trs, Grace ficou impressionada com a prpria
ingenuidade. A forma como implorara para John acreditar
nela com relao  sociedade, para acreditar que ela no
sabia de nada sobre Lenny t-lo cortado e transferido as
aes dele para ela. Como eu pude ser to estpida? Era
interesse dele no ser scio! Se John fosse scio, ele seria
legalmente responsvel pelo que aconteceu no Quorum. Ele
estaria na cadeia agora, no eu.
Grace no fazia idia de como John tinha feito isso. Como
conseguira convencer Lenny a mudar a estrutura societria,
muito menos como tinha roubado e escondido todo aquele
dinheiro. Mas ela sabia que ele tinha feito isso de alguma
forma. Mesmo se levasse o resto da sua vida, Grace
Brookstein descobriria como.
Vou descobrir a verdade e nada alm da verdade. E quando
eu fizer isso, vou contar para o mundo. Vou limpar o nome
de Lenny e o meu. Vou sair do inferno.
Grace dormiu.
Gavin Williams se sentia sujo.
S de estar ali, dentro da priso, cercado por depravadas, era
suficiente para lhe dar arrepios.  claro que o fato de os
malfeitores serem mulheres tornava tudo ainda mais
nojento. No era natural. Mulheres deveriam ser castas,
limpas e subservientes. Deveriam ser boas e amveis, como
sua me. A me de Gavin Williams o adorava. Como voc 
lindo, Gavin, ela costumava dizer. Como  inteligente. Voc
pode ser qualquer coisa que quiser.
Gavin entrou no banheiro masculino e lavou as mos pela
terceira vez, escaldando-as embaixo da torneira at que sua
pele estivesse em carne viva.
As mulheres deveriam ser como sua me. Mas no eram. No
mundo real, as mulheres eram gananciosas, vadias imundas,
prostitutas que s queriam fazer sexo com os ricos e
poderosos. Caras dos fundos de hedge, bilionrios como
Lenny Brookstein, passavam suas vidas se afogando em
boceta. Como Gavin Williams odiava esses homens, com
seus carros chamativos e suas namoradas-trofu, com suas
casas de praia e seus jatos particulares. Ele, Gavin Williams,
era melhor do que os Lenny Brookstein deste mundo. Era
um patriota incorruptvel, um Robespierre da atualidade. Era
um revolucionrio, trazendo justia para os Estados Unidos.
Eu sou a espada da lei.
O Senhor Todo-Poderoso diz: "Eu vou puni-los. Os jovens
morrero, seus filhos e filhas vo morrer de fome. Nenhum
desses conspiradores sobreviver, pois eu levarei desgraa
para as suas vidas..."
 Sr. Williams?
Gavin ficou de p no corredor da enfermaria de Bedford
Hills. Uma enfermeira bem jovem o fitou de forma estranha.
        Sim? O que ?
        A Sra. Brookstein est acordada. Pode falar com ela
agora.
Gavin Williams tinha certeza de que Grace Brookstein era a
chave para encontrarem o dinheiro desaparecido. O resto da
fora-tarefa do FBI no a via mais como uma testemunha em
potencial. Harry Bain dissera a ele:
        Esquea Grace, Gavin. No vai dar em nada. Se ela fosse
contar alguma coisa, j teria feito isso.
Mas Gavin no conseguia esquecer Grace. Seu rosto imundo
de prostituta assombrava seus sonhos durante a noite. Sua
voz zombava dele durante os longos dias passados sobre a
complexa trilha de papis que Lenny deixara para trs: Eu
sei, provocava ela. Eu sei onde est o dinheiro, voc no
sabe.
A imprensa continuava a comparar a fraude do Quorum
com o caso Madoff, mas os dois no podiam ser mais
diferentes. As manobras de Madoff eram to ridiculamente
consistentes. Era claro para qualquer um que tivesse crebro
que ele era uma fraude. Ou tinha informaes privilegiadas
ou havia montado um esquema Ponzi. Essas eram as duas
nicas possibilidades lgicas. Dado o fato de que ningum
fazia negcios com Madoff, nenhum dos maiores bancos,
nenhuma corretora, ningum, tinha de ser Ponzi.
O Quorum era diferente. Todo mundo fazia negcios com
Lenny Brookstein. No havia uma firma em Wall Street que
houvesse desconfiado, que tivesse previsto o escndalo
prestes a envolver ele e seu fundo de forma to espetacular.
Os bilhes desaparecidos do Quorum no eram apenas a
imaginao de algum contador criativo. Eles eram reais, mas
Brookstein guardava to bem o segredo de seus negcios, at
mesmo mandando papis com seus registros para Cayman
ou Bermudas para serem queimados, que era virtualmente
impossvel seguir qualquer negociao at o fim. A no ser
que voc estivesse l dentro. A no ser que voc soubesse.
Quando Gavin Williams recebeu a notcia da tentativa de
suicdio de Grace Brookstein, soube na mesma hora que no
podia perder essa oportunidade. Como da ltima vez em que
a interrogara no necrotrio, ela estaria fragilizada. Mas agora,
no haveria advogados para proteg-la, nenhum telefonema,
nenhuma escapatria. Agora, Gavin Williams a pressionaria
at que ela no conseguisse mais respirar. Tiraria a verdade
de Grace Brookstein mesmo se tivesse de faz-la vomitar
essa verdade.
Para o interrogatrio daquele dia, Gavin estava vestido da
mesma forma de sempre: terno escuro e gravata, o cabelo
curto e grisalho repartido cuidadosamente, sapatos pretos to
polidos que era possvel ver a prpria imagem refletida no
couro. Disciplina, essa era a chave. Disciplina e autoridade.
Gavin Williams faria Grace Brookstein respeit-lo. Faria a
depravada curvar-se sobre a sua vontade e desmascararia
Harry Bain, seu chefe, pelo tolo sem viso que era.
Quando Grace viu Gavin Williams, suas pupilas dilataram de
medo.
Gavin Williams sorriu. O terror o excitava.
        Ol de novo, minha querida.
Ela parecia fraca. Menor com a camisola branca da priso,
ainda plida por causa da perda de sangue, parecia to pouco
substancial quanto um fantasma ou fumaa.
        O que voc quer?
        Estou aqui para fazer um acordo com voc.
        Um acordo?
Isso mesmo, um acordo, sua vadia gananciosa. No finja que
no entende o conceito. Voc  corrupta como o diabo e
ainda vai apodrecer no inferno pelos seus pecados.
        Um acordo que voc no vai poder recusar. O
procedimento  simples. Voc me d o nmero de trs
contas. Todas referentes a fundos mantidos na Sua. Voc
conhece todos eles.
Grace balanou a cabea. No sabia o nmero de nenhuma
conta. J no tinham feito isso da ltima vez?
        Em troca, providencio para que seja transferida para uma
instituio mental.
        Instituio mental? Mas eu no sou louca.
        Posso lhe garantir, as condies nos sanatrios penais so
consideravelmente superiores s das cadeias como esta aqui.
O nmero das contas, por favor.  Ele entregou a Grace um
pedao de papel com cabealho de um banco suo. Grace
fitou o papel e suspirou, fechando os olhos. Os remdios a
deixavam sonolenta. Por mais medo que tivesse desse
homem, era difcil se manter acordada.
        John Merrivale  murmurou ela.  Foi John Merrivale.
Ele ficou com o dinheiro. Ele sabe onde est. Pergunte a ele.
Gavin Williams estreitou os olhos. Tpico de uma mulher!
Tentar jogar a culpa em outra pessoa, como Eva culpou a
serpente quando poluiu o mundo com seu pecado. Grace
achava que ele era burro? Achava que o FBI no tinha
investigado John Merrivale e todos os outros do Quorum?
        No brinque comigo, Sra. Brookstein. Quero os nmeros
dessas contas.
Grace estava prestes a discutir com ele, mas ento pensou:
Para qu? Ele no vai me escutar. Ele  maluco. Se algum
aqui precisa de um sanatrio,  esse cara, e no eu.
        Sei o que voc est fazendo. Est tentando conseguir
mais.  Gavin Williams a fitou com raiva.  Bem, voc
no vai conseguir, entendeu? No vai conseguir!
Grace olhou em volta, procurando uma enfermeira, mas no
havia nenhuma. Estou sozinha com este doido!
        No vai haver apelao. Nada de condicional.  o sana-
trio ou voc vai morrer neste lugar. Morrer! Escreva os n-
meros das contas!
        J disse! Eu. No. Sei.  Exausta, Grace deitou no
travesseiro. Estava perdendo a batalha para sua conscincia.
O sono tomou conta dela.
Gavin Williams observou seus olhos piscarem e fecharem.
O pescoo dela  to pequeno. To frgil. Como o galho de
um salgueiro. Eu poderia estender meus braos e quebr-lo.
Assim. Colocar minhas mos em volta do pescoo dela e
apertar at expulsar o demnio que vive ali dentro.
No havia outros pacientes. Ningum da equipe mdica. Ele
e Grace estavam sozinhos.
Ningum saberia. Eu poderia fazer isso em uma frao de
segundo. Matar o mau, purgar o pecador.
Em um transe, Gavin Williams esticou as mos, abrindo e
fechando seus dedos longos e finos. Imaginou a traquia de
Grace se quebrando sob seus dedos e sentiu sua excitao
aumentar.
        Sei no que o senhor est pensando.
A voz da enfermeira fez com que ele pulasse da cadeira,
literalmente.
        Seus dedos. Sei no que est pensando.
Gavin estava em silncio.
        O senhor  fumante, no ? Foi a mesma coisa comigo
quando larguei o cigarro. No conseguimos pensar em outra
coisa, no ? Nem por um segundo.
Levou um momento para Gavin compreender o que ela es-
tava dizendo. Ela acha que eu quero um cigarro. Como se
ele, Gavin Williams, algum dia tivesse sido to fraco a ponto
de sucumbir a um vcio. Em voz alta, ele sorriu e disse:
        No, no conseguimos.
        Acredite em mim, eu entendo  comentou a enfermei-
ra.   como uma coceira que no alcanamos. Tem um p-
tio l embaixo se o senhor estiver desesperado.
Gavin Williams pegou o papel do banco suo das mos
adormecidas de Grace e o colocou de volta em sua pasta.
        Obrigado. No estou desesperado.
Mas ele estava.
Aps duas semanas, Grace voltou para a sua cela na Ala A. O
diretor McIntosh a quisera transferir para sua cela original
com as latinas na menos austera Ala C, mas Grace ficou to
agitada que os psiquiatras recomendaram que as coisas
fossem feitas como a detenta queria. O diretor ficou
desconcertado.
        Mas Cora Budds deu uma surra nela. Ela  uma das nossas
presidirias mais violentas. No entendo. Por que Grace ia
querer voltar para l?
A psiquiatra deu de ombros.
        Familiaridade?
No era a primeira vez que James McIntosh refletia sobre o
quo pouco entendia a mente feminina.
As detentas viram a situao de forma mais cruel.
        No  de se espantar que Cora e Karen estejam to
animadas. Ficou sabendo? Grace est voltando para a Ala A.
Parece que a temporada de caa s ostras reabriu, meninas!
De fato, quando o momento chegou, Cora Budds
cumprimentou Grace friamente. Alguma coisa tinha
mudado em Grace. O velho medo e a exausto no estavam
mais l. No lugar deles, havia uma calma, uma confiana que
deixaram Cora desconfortvel.
        Ento, voc sobreviveu, hein?
        Sobrevivi.
Karen Willis foi mais afetuosa, abrindo os braos e dando
um abrao bem apertado em Grace.
        Por que voc no falou comigo se as coisas estavam to
ruins? Devia ter falado comigo. Eu podia ter ajudado.
Karen Willis no sabia o que a atraa em Grace Brookstein.
Parte disso ela creditava  sua natureza teimosa. Grace era a
oprimida em Bedford Hills, a pria, odiada tanto pelos
opressores quanto pelas detentas. Karen Willis no
acreditava em seguir a mar. Alm disso, Karen sabia como
era se sentir um peixe fora d'gua, trada pelos prprios
amigos e familiares. Quando ela atirou no namorado
violento de sua irm Lisa, um estuprador que aterrorizara
Lisa por seis terrveis anos, Karen esperou que sua famlia a
apoiasse. Em vez disso, eles lhe viraram as costas como um
bando de hienas. Lisa bancou a viva sofredora: "Ns
tnhamos os nossos problemas, mas eu amava Billy." Ela at
testemunhou contra Karen no tribunal, dizendo que a irm
era uma pessoa violenta e furiosa que queria se vingar dos
homens, deixando implcito que no agira por amor
fraternal, mas por rejeio sexual."Karen sempre quis Bill. Eu
via. Mas Billy no estava interessado." O promotor mudou a
acusao de Karen de homicdio culposo para homicdio do-
loso. Karen nunca mais falou com ningum de sua famlia.
Mas o afeto que Karen Willis sentia por Grace Brookstein
era mais profundo do que o sentimento de abandono que
compartilhavam. Lisa acertara em uma coisa. Karen nunca
fora f de homens. Estupradores baixinhos e com cara de
fuinha nunca foram seu tipo. Por outro lado, louras frgeis e
inocentes como Grace Brookstein, com enormes olhos e
pernas esbeltas e flexveis de ginasta, pele macia e sardas no
nariz, eram um assunto completamente diferente. Karen
Willis era bem diferente do esteretipo de presidiria lsbica
predatria. Brincadeiras como "caa s ostras" a deixavam
enojada. No tinha a menor inteno de forar a barra com
Grace. Era claro que a garota era heterossexual e estava
sofrendo. Infelizmente, nenhuma dessas duas coisas mudava
o fato de que Karen Willis estava apaixonada por ela.
Quando ficou sabendo que Grace tinha tentado se matar,
Karen desmaiou. Quando lhe contaram que Grace ia
sobreviver, que o pior j tinha passado, ela chorou de alvio.
Grace abraou sua amiga.
        Voc no poderia ajudar, Karen. No naquela poca. Mas
talvez possa me ajudar agora.
        Como?  s me dizer o que precisa, Grace. Estou aqui pra
te ajudar.
        Sei quem incriminou a mim e ao meu marido. S no sei
como ele fez isso. Preciso de provas. E no sei nem por
onde comear.
Um sorriso iluminou o rosto de Karen. Afinal, talvez pu-
desse ajudar Grace.
        Tenho uma idia.
Davey Buccola olhou para o relgio e bateu o p no cho
gelado. Devo estar maluco de vir neste lugar maldito atender
um pedido de Karen.
Davey Buccola era alto, moreno, se no bonito, pelo menos
tinha a aparncia bem melhor do que a maioria de seus
colegas de profisso. Tinha pele um pouco morena, com
algumas marcas de acne da adolescncia, olhos castanho-
claros inteligentes e traos fortes e masculinos em que
dominava um nariz aquilino, o que lhe dava um ar
predatrio, como uma guia. Davey atraa as mulheres. Pelo
menos at lev-las para seu apartamento barato de dois
quartos em Tuckahoe, onde morava com a me, ou as
buscasse em casa com seu carro que j tinha 12 anos, o
mesmo que dirigia desde que terminara o ensino mdio. O
trabalho de detetive particular era interessante, perigoso e
desafiador. Mas no deixava ningum rico. No era como
Magnum.
Davey Buccola tinha uma queda por Karen Willis desde que
eram crianas. Sentiu-se mal quando a prenderam e sua
famlia lhe virou as costas. O canalha que Karen matou
merecia. Mas Davey no estava ali para ajudar Karen. Estava
ali para ajudar a si mesmo. Precisava de dinheiro, pura e
simplesmente. E Grace Brookstein tinha dinheiro.
Finalmente, os portes da penitenciria se abriram e os
visitantes foram levados para dentro pelos agentes. Davey
Buccola j visitara vrias penitencirias, ento conhecia a
rotina. Tirar o casaco, os sapatos, as jias, passar pelos raios
X, detector de metais, cachorros. Como se fosse pegar um
avio, s que sem as malas e as lojas do Duty-Free. Mas era
mais interessante de assistir. Era possvel distinguir as mes
na mesma hora, os ombros cados e cansados, a resignao
em seus rostos, envelhecidas pelos anos de sacrifcio e
sofrimento. Havia alguns maridos, a maioria vagabundos,
acima do peso, com cabelos compridos, sinais de uso
abusivo de drogas. Mas, de uma forma geral, havia poucos
homens na fila de visitantes. Eram mulheres e crianas
enfrentando a depressiva jornada para Bedford Hills na
esperana de manter suas famlias unidas.
Davey pensou: As mulheres so muito menos egostas do
que os homens.
Ento, pensou: Tambm so muito mais coniventes.
Homens mentem quando precisam. Mulheres, quando  de
seu interesse.
Escutaria o que Grace Brookstein tinha a dizer. Mas no
acreditaria em nada que ela falasse.
Davey entrou na sala de visitantes e sentou-se a uma mesa
de madeira. Uma menininha magra sentou-se na sua frente.
        Acho que voc se sentou no lugar errado. Vim falar com
Grace Brookstein.
A menina sorriu.
        Eu sou Grace Brookstein. Muito prazer, Sr. Davey
Buccola.
Davey apertou sua mo e tentou no parecer chocado. Jesus!
O que aconteceu com ela? Ela s est aqui h um ms.
A Grace Brookstein que esperava encontrar era a mulher
com casaco de pele do tribunal, glamorosa, produzida, cheia
de diamantes e desprezo. A menina na sua frente parecia ter
uns 14 anos, com cabelo muito curto e pele plida. O nariz
estava quebrado e havia sombras escuras embaixo de seus
olhos. Parecia que no comia havia semanas. O uniforme
laranja que ela usava engolia seu corpo minsculo. Quando
Davey apertou sua mo, percebeu que a pele estava quase
transparente.
        Karen disse que a senhora precisa de ajuda.
Grace dispensou o papo furado.
        Quero que me ajude a provar que John Merrivale
incriminou a mim e ao meu marido.
Karen no falara nada disso. "Ela precisa que voc faa umas
investigaes" tinham sido as palavras exatas. Nada sobre a
Grace Brookstein ser uma luntica que se convencera de que
o marido tinha sido incriminado. Jesus. Todo mundo sabia
que Lenny Brookstein era to falso quanto uma nota de 2
dlares.
        John Merrivale. Ele no era o nmero 2 no Quorum? O
cara que est ajudando o FBI?
Lendo os pensamentos dele, Grace disse:
        Entendo seu ceticismo. No espero que acredite em
mim. S estou pedindo para investigar. Estou pesquisando o
mximo que posso da biblioteca daqui, mas voc deve saber
que meus recursos so limitados.
        Olhe, Sra. Brookstein.
        Grace.
        Olhe, Grace, eu gostaria de ajud-la. Mas tenho de ser
honesto. O FBI passou o pente fino nas finanas do
Quorum. Se tivesse alguma prova de que John Merrivale
incriminou seu marido, qualquer prova, a senhora no acha
que eles j teriam encontrado?
        No necessariamente. No se confiarem nele. John est
trabalhando com o FBI, Sr. Buccola. Ele faz parte da equipe
de investigao. Ele os convenceu que  um deles. Acredite
em mim, John Merrivale sabe ser muito convincente.
        Convincente  uma coisa. Roubar 70 bilhes e esconder
onde ningum consegue achar, nem mesmo a Comisso de
Valores Mobilirios, nem as mentes mais brilhantes do FBI,
ningum... podemos dizer que isso  impossvel.
Grace sorriu.
        Acho que foi isso que o meu advogado disse para o jri.
Mesmo assim, estou aqui.
Davey Buccola retribuiu o sorriso. Touch.
        Eu nunca nem tirei um extrato bancrio, Sr. Buccola.
John Merrivale  um mago das finanas. Se eu poderia fazer
isso, ele no poderia?
Davey Buccola pensou: eu a subestimei. Ela no  nenhuma
luntica. Desorientada, talvez. Mas no  boba.
        Tudo bem, Sra. Brookstein. Vou investigar. Mas j vou
avisando, no tire concluses precipitadas. Elas so contra a
minha religio.
        Entendo.
        Se vou pegar o caso, farei isso com a mente aberta. Vou
correr atrs da verdade. A senhora talvez no goste do que
eu vou encontrar.
        Assumo o risco.
        Mais uma coisa que a senhora deve saber: nada acontece
rpido. Este  um caso complicado. Muitas informaes so
confidenciais. Tenho fontes no FBI, na polcia e na
Comisso que podem me falar alguma coisa, mas  um
trabalho lento.
Grace olhou para as quatro paredes  sua volta.
        Tempo  a nica coisa que me restou, Sr. Buccola. No
tenho lugar nenhum para ir.
Davey Buccola apertou a mo dela.
        Nesse caso, Sra. Brookstein, sou a pessoa que est
procurando.
 Aonde voc vai, benzinho? Volte para a cama.
Harry Bain olhou para o voluptuoso corpo nu da esposa
esparramado sobre o lenol. Depois olhou para o relgio.
Seis da manh. Maldito Quorum.
        No posso. Temos uma reunio s 7 horas.
        No pode dizer que est doente?
        No. Eu convoquei a reunio.
Todos os Estados Unidos odiavam Lenny Brookstein. Mas,
naquele momento, ningum o odiava mais do que Harry
Bain.
Sou mais esperto do que Lenny Brookstein, pensara Bain ao
assumir o caso. No estamos procurando um par de
abotoaduras. Setenta e cinco bilhes de dlares esto
desaparecidos.  como tentar esconder um pas. "Com
licena, algum viu a Guatemala? Um judeu morto do
Queens a extraviou em junho do ano passado"
 claro que encontraria o dinheiro. Como no?
Mesmo assim, aqui estava ele, um ano depois, sem nada.
Harry Bain, Gavin Williams e suas equipes tinham ocupado
a antiga sede do Quorum como base para a investigao.
Com a ajuda de John Merrivale, a fora-tarefa gastara
milhes, correndo atrs de pistas por todo o mundo, de
Nova York s Ilhas Cayman, Paris e Cingapura. Entre eles,
Harry Bain, Gavin Williams e John Merrivale tinham
acumulado mais milhas areas do que aves migratrias,
produziram papel suficiente para acabar com uma floresta
tropical inteira, fizeram milhares de interrogatrios e
analisaram incontveis registros bancrios. O FBI sabia de
tudo que Lenny Brookstein fizera de janeiro de 2001 a
junho de 2009. Ainda assim, nem sombra do maldito
dinheiro.
O fracasso deles no era devido  falta de esforo. Gavin
Williams podia ser um sujeito esquisito, mas ningum podia
acus-lo de falta de comprometimento. Pelo que Harry Bain
sabia, Williams no tinha amigos nem famlia, nenhuma
vida pessoal. Ele vivia e respirava Quorum, seguindo a
impenetrvel e tortuosa trilha de documentos que Lenny
Brookstein deixara para trs com a sede de sangue de uma
raposa faminta. Havia ainda John Merrivale, a pessoa de
dentro que se tornara da polcia. John tambm era
excntrico. To tmido que chegava a parecer autista, o cara
ainda tremia sempre que se tocava no nome de Lenny
Brookstein. No comeo, Harry Bain se perguntara se John
Merrivale no estava envolvido na fraude. Mas quanto mais
sabia sobre as prticas que Lenny Brookstein usava nos
negcios, menos suspeitava de John Merrivale ou de
Andrew Preston, ou de qualquer outro empregado.
Brookstein tinha tantos segredos que fazia a CIA parecer
indiscreta. Cercado por pessoas, um animal social ao
extremo, no final das contas, Lenny no confiava em
ningum. Ningum alm de sua esposa.
Os boatos na equipe diziam que John Merrivale era infeliz
em casa. Harry Bain encontrara Caroline Merrivale uma vez
e acreditava bem nisso. Aquela vadia provavelmente usava
salto alto e chicote na cama. Ou um uniforme da Gestapo.
No era de se admirar que John ficasse feliz em trabalhar
longas horas na fora-tarefa. Eu tambm ficaria se fosse
casado com Madame Sad.
 Muito bem, pessoal. O que temos?
O grupo de elite de agentes do FBI que formavam a fora-
tarefa do Quorum fitou o chefe de forma desanimadora.
Uma piada surgiu.
        Gavin est pensando em ir a Bedford Hills de novo, cer-
to, Gav? Ele vai usar seu lendrio charme com as damas para
fazer a Sra. B. cantar como um passarinho.
O resto do grupo riu em silncio. A obsesso de Gavin
Williams em fazer Grace Brookstein falar se tornara uma
piada comum entre eles. Ou Grace no sabia onde Lenny
tinha escondido o dinheiro, ou sabia e no contava de jeito
nenhum. De qualquer forma, Williams estava chutando um
cachorro morto, e todo mundo conseguia ver isso menos
ele.
Gavin no riu junto com os outros.
        No tenho nenhuma inteno de voltar a Bedford Hills,
Stephen. Sua informao est incorreta.
O brincalho murmurou para seu parceiro:
        Sua informao est incorreta. Ele  humano? Parece a
porra do R2-D2.
        No brinca  respondeu o parceiro mais alto.  Obi-
Wan Brookstein, me ajuda. Voc  a minha nica esperana!
Mais gargalhadas.
Gavin Williams olhou em volta da mesa para seus ditos
colegas. Se pudesse, arrancaria o corao de cada um deles
com as prprias mos e enfiaria pela garganta do arrogante
do Harry Bain at ele sufocar. Do que estavam rindo? Todos
eles faziam parte da maior e mais vergonhosa operao da
histria do FBI. Se ele, Gavin, estivesse comandando o
show, as coisas seriam diferentes. Harry Bain disse:
 Tudo bem, ento, nossas fichas esto todas na viagem
para Genebra.
John Merrivale passara as ltimas trs semanas pesquisando
uma enorme transao de 2006. As pistas s levavam at o
nmero de uma conta bancria na Sua, depois esfriavam.
        Gavin, eu quero que voc e John viajem juntos desta
vez.
Duas cabeas pensam melhor do que uma.
John Merrivale no conseguiu esconder sua surpresa. Ele e
Gavin Williams costumavam trabalhar de forma
independente, Seguindo pistas separadas. Aquela era a
primeira vez que Bain pedira para que viajassem juntos.
        Eu co-consigo resolver os problemas em Genebra sozi-
nho, Harry.
        Sei que consegue, mas gostaria que vocs dois trabalhas-
sem juntos desta vez.
O relacionamento de John Merrivale com Harry Bain tri-
lhara um longo caminho desde o interrogatrio em que
Harry bancara o policial mau antes do julgamento de Grace.
John levara meses para convencer no apenas Bain, mas
toda a fora-tarefa, de que estava do mesmo lado que eles,
que era to vtima de Lenny Brookstein quanto qualquer
outro. Mas aos poucos, com a pacincia firme e tranquila na
qual construra toda sua carreira, John Merrivale conquistou
a confiana de todos. Harry Bain no o amedrontava mais.
Mas, ao mesmo tempo, no queria ir contra ele. John ainda
detestava confrontos. Por mais que a presena monossilbica
e austera de Gavin Williams fosse arruinar a viagem para a
Sua, John no queria discutir o assunto.
Harry Bain disse:
        Precisamos construir um esprito de equipe. Aproveitar
mais as idias uns dos outros. De alguma forma, temos de
encontrar uma sada para esse impasse.
John Merrivale tentou imaginar o cenrio no qual algum
aproveitaria uma idia de Gavin Williams. Bain deve estar
ficando desesperado mesmo.
O vo de Nova York foi turbulento e desagradvel. John
Merrivale sentia seu estmago se contorcer de nervosismo.
Tentou conversar com sua companhia de viagem.
        Claro, legalmente no podemos forar os suos a
cooperarem conosco. Mas eu conheo bem o pe-pessoal no
Banque de Genve. Acredito que eu v co-conseguir
convenc-los a ajudar.
Silncio. Era como conversar com um cadver.
Gavin Williams fechou os olhos. "Convenc-los?" "Ajudar?"
Eles so criminosos que lavaram o dinheiro sujo de
Brookstein. Eles deveriam ser torturados at que seus gritos
fossem escutados da Esttua da Liberdade.
        J fo-foi a Genebra alguma vez, Gavin?
        No.
         uma cidade linda. As mo-montanhas, o lago. Eu e
Lenny adorvamos vir para c.
Gavin Williams colocou sua mscara para dormir.
        Boa-noite.
O avio sacudiu.
John Merrivale tinha uma reserva no Les Amures, um
exclusivo hotel cinco estrelas na parte antiga de Genebra.
Nos velhos tempos, ele e Lenny apreciaram muitas timas
refeies no famoso restaurante do Les Amures, que fora
construdo no sculo XIII e decorado com lindos afrescos,
fachadas pintadas e tesouros da arte. Lenny costumava dizer
que era como comer na Capela Sistina.
Gavin Williams se recusou a ficar com ele, preferindo o mais
modesto hotel Eden. Ficava bem  beira do lago, mas Gavin
escolheu, propositalmente, um quarto sem vista que ficava
mais perto da academia e do centro de negcios.
        No estamos aqui pra nos divertir  disse ele para John,
friamente.
Deus me perdoe.
John pensou de novo em como Lenny teria detestado Gavin
Williams. Sua falta de alegria. Andando sozinho pelas ruas
geladas e medievais de Genebra, ele pensou em como a
viagem SERIA muito mais divertida se Lenny estivesse com
ele.
 Como assim eu no vou?
Gavin Williams parecia pronto para ser amarrado. Ele e John
estavam tomando caf da manh no hotel de Gavin antes da
reunio com o pessoal do Banque de Gneve.
        Eu tenho um re-relacionamento com esses banqueiros. 
mais provvel que eles confiem em mim se eu for sozinho.
        Confiar em voc?  Gavin Williams enrolou o
guardanapo em sua mo.
        Isso. O sistema bancrio, principalmente na Sua, diz
respeito  confiana.
Gavin Williams pensou, furioso: Voc era o brao direito do
maior ladro de todos os tempos e tem coragem de falar
sobre confiana? Mesmo agora, mesmo depois da desgraa
do Quorum, ainda  um clube fechado, no ? Voc ainda 
um deles  um banqueiro  e eu no sou. Em voz alta, ele
respondeu:
        No me subestime, John. J escrevi livros sobre o sistema
bancrio suo.
        timo. Ento, voc sabe do que estou falando.
        Essas pessoas com quem voc diz ter um relacionamento
fazem lavagem de dinheiro. Eles so a escria, e a confiana
deles no vale nada. Eu vou  reunio, gostem eles ou no.
John Merrivale no resistiu a um sorriso de triunfo.
        Infelizmente voc no vai, Gavin. J pedi permisso a
Harry Bain. Eu vo-vou sozinho. Voc vai trabalhar com as
informaes que eu conseguir tirar deles. Converse com
Harry se no gostou.
        Como posso conversar com Harry?  estourou Gavin. 
So 3 da manh em Nova York.
        So?  John sorriu de novo.  Que pena.
Trs dias depois, eles voltaram para os Estados Unidos.
John Merrivale se reportou a Harry Bain: todo dinheiro que
Lenny colocou em Genebra j tinha tomado outro rumo
havia muito tempo. Uma parte foi usada para o pagamento
de retorno de investimentos aos investidores. O resto foi
desviado para negcios imobilirios na Amrica do Sul.
Gavin Williams iria para Bogot no dia seguinte para ver o
que conseguia descobrir.
Harry Bain apoiou a cabea nas mos. Bogot. E l vai
novamente.
        Si-sinto muito sobre Genebra, senhor. Eu realmente
achei que isso nos levaria a algum lugar.
Harry Bain detestava a forma como John Merrivale insistia
em cham-lo de "senhor". Ningum mais o chamava assim.
Dissera para John parar com aquilo meses atrs, mas era
como um cacoete verbal do cara. A subservincia era a
segunda natureza dele. No era a primeira vez que Harry se
perguntara o que atrara um homem classe A como Lenny
Brookstein a esse devorador de nmeros fraco e covarde.
No fazia o menor sentido.
        Tudo bem, John. Voc fez o que pde. O FBI agradece
seus esforos.
        O-obrigado, senhor. Vou continuar tentando.
Isso. Estamos todos tentando, mas no tem nenhum prmio
por esforo. No aqui.
        John, voc se importa se eu lhe fizer uma pergunta
pessoal? Momentaneamente, John pareceu surpreso.
        Isso no te incomoda?
        O que me incomoda?
        Voc deve ter perdido milhes por causa de Lenny
Brookstein, certo? Dezenas de milhes.
John assentiu.
        Ver sua vida profissional inteira destruda, seu nome
arrastado para a lama. Isso no... sei l... testa sua f na
humanidade?
John Merrivale sorriu.
        Acho que eu nunca tive muita f-f na humanidade.
        Tudo bem, ento. Na amizade.
Em um instante, o sorriso desapareceu.
        Deixe-me falar uma coisa sobre amizade, Sr. Bain.
Amizade  tudo. Tudo.  a nica coisa que realmente i-
importa neste mundo. As pessoas podem dizer o que
quiserem sobre mim. Mas eu lhe digo isto: sou um amigo
leal.
Ele se virou e saiu. Harry Bain o observou saindo. Sentiu-se
inquieto, mas no fazia a menor idia do porqu.
EM um banheiro em Bogot, Gavin Williams estava embaixo
de um chuveiro gelado, esfregando o corpo com sabo. Era
to difcil permanecer limpo neste mundo imundo. A
Colmbia era a maior pocilga de todas. Todos os aspectos da
vida aqui estavam doentes, contaminados pela ambio,
infectados pela corrupo. Isso deixava Gavin enojado.
Enquanto se esfregava, enxaguando o corpo maculado, os
pensamentos de Gavin Williams estavam em John
Merrivale. John o humilhara na Sua. Sem dvida, ele
estava achando que rira por ltimo. Mas Gavin Williams no
ia deixar passar.
John Merrivale subestimara o homem errado.
Um dia ele se arrependeria.
Captulo 12
O primeiro ano de Grace em Bedford Hills passou rpido.
A maioria das detentas sentenciadas a longas penas via o
primeiro ano como o pior. Karen descreveu isso para Grace
como "deixar de usar drogas de repente, s que em vez da
droga, o que no se tinha era liberdade". Era uma boa
analogia, mas Grace no se sentia assim. Para ela, o primeiro
ano na priso foi como acordar de uma vida inteira de sono.
Pela primeira vez, estava vendo a vida como realmente era.
Estava cercada por mulheres com passados comuns,
passados pobres. Mulheres que cresceram a menos de 30
quilmetros de onde Grace cresceu, mas que viveram em
um mundo to estranho e desconhecido para ela quanto os
campos de arroz na China ou os desertos da Arbia.
Era maravilhoso.
Em sua antiga vida, Grace agora via, as amizades eram como
miragens: alianas frgeis e ocas baseadas apenas no dinheiro
e no status social. Em Bedford Hills, ela pde observar um
tipo diferente de amizade entre mulheres, uma amizade
nascida da adversidade e fortalecida pelo sofrimento. Se uma
pessoa dizia uma palavra gentil para voc ali, estava sendo
sincera. Devagar, com cuidado, Grace comeou a criar laos
com Karen, com algumas das garotas que trabalhavam com
ela no centro infantil, at com Cora Budds.
Cora era um poo de contradies. Violenta, mal-humorada
e mal-educada, ela certamente podia ser ameaadora, como
Grace aprendera na sua segunda noite em Bedford Hills. Mas
Cora Budds tambm era uma amiga fiel e me devotada.
Depois da tentativa de suicdio de Grace, o lado maternal de
Cora assumiu o controle. Foi Cora, at mais do que Karen
Willis, que liderou a campanha para mudar a idia que as
outras detentas faziam de Grace Brookstein. Quando um
grupo de mulheres no centro deu um gelo em Grace, se
recusando a falar com ela ou mesmo comer na mesma sala,
foi Cora quem as confrontou:
        Vamo d uma chance pra vadia. Ela num roubou nada.
T brincando comigo, ela nem ia saber como.
        Ela  rica, Cora.
        Ela nem  me. Como conseguiu ir pro centro infantil? O
diretor t fazendo favores pra ela.
        Deixa eu falar uma coisa pra vocs. O diretor queria que
ela morresse. Por isso mandou ela pra minha cela. Mas t
dizendo pra vocs, Grace  legal. Ela num  do jeito que
fizeram ela parecer na televiso e no tribunal. Vamu d uma
chance pra ela.
Devagar e com m vontade, as mulheres comearam a in-
cluir Grace em suas conversas. Conquistar a aceitao delas,
e depois o afeto, significava mais do que Grace podia
expressar. A sociedade rotulava as detentas de Bedford Hills
como criminosas, prias. Agora, pela primeira vez, Grace se
perguntava se talvez a sociedade no fosse criminosa por
exclu-las. Grace vivera o Sonho Americano durante toda a
sua vida. A fantasia de riqueza, liberdade e a busca pela
felicidade haviam sido sua realidade desde o dia em que
nasceu. Ali, em Bedford Hills, ela testemunhou o outro lado
daquela moeda de ouro: a pobreza desesperada, o ciclo
interminvel de famlias partidas, pouca educao, drogas e
crime, o punho de ferro da cultura das GANGUES.
Tudo  uma grande loteria. A priso era o destino dessas
mulheres, da mesma maneira que a riqueza e o luxo eram o
meu.
At que algum roubou isso de mim.
Grace tinha mais sorte do que a maioria das presidirias. Ela
tinha algo raro, inestimvel, uma coisa que outras garotas em
Bedford Hills dariam um olho para ter: um objetivo. Ali, na
cadeia, Grace finalmente tinha algo para fazer, alm de
comprar roupas de estilistas famosos ou planejar a prxima
festa. Ela tinha de descobrir o que realmente acontecera no
Quorum. No dizia respeito  liberdade. E sim  justia. A
verdade.
Se Grace tivesse de escolher uma palavra para descrevee
como seu primeiro ano na priso fez com que se sentisse,
seria livre. Essa, talvez, fosse a maior ironia de todas.
Das 9 s 15 horas, todo dia, Grace trabalhava no centro
infantil. O trabalho era recompensador e divertido. Crianas
vinham diariamente passar um tempo com suas mes, e
embora o lao entre mes e filhos geralmente seja bvio,
ambos os lados se esforavam para encher as horas em um
ambiente to aetificial. O trabalho de Grace era facilitar isso,
lhes oferecendo alguma estrutura: histrias, aulas de leitura,
de artes, qualquer coisa que mes e filhos pudessem fazer
juntos sem precisar pensar muito em onde estavam e por
qu. O centro infantil era o nico lugar em Bedford Hills
onde as detentas podiam usar roupas "comuns", que as Irms
de Caridade lhes davam. A irm Theresa, que dirigia o lugar,
foi convincente com o diretor McIntosh.
 As crianas ficam com medo dos uniformes. J  difcil o
bastante reconstruir o relacionamento maternal sem fazer a
me parecer uma estranha.
Grace adorava sentir o toque do algodo comum em sua
pele. Adorava a rotina alegre do trabalho: planejar
atividades, preparar as mesas com potes de tinta, pincis e
papel, fazer brincadeiras com as crianas que a lembravam
de sua infncia. Melhor de tudo, amava as crianas. Quando
Lenny estava vivo, nunca sentiu vontade de ser me. Mas
agora que ele se fora, era como se a ficha tivesse cado. Todo
seu instinto maternal estava aflorando.
Trabalhando no centro, Grace sentia uma paz interior, como
um zumbido de contentamento que a seguia onde quer que
fosse. Era o nico lugar onde conseguia no pensar em
Lenny, John Merrivale e em como ele os traiu. Usando uma
blusa simples de algodo e saia longa de l, era difcil
distinguir Grace das freiras que dirigiam o centro. Ocorreu-
lhe que a vida na priso no era muito diferente da vida em
um convento: enclausuradas, cumprindo ordens, os dias
consistiam na mesma srie de tarefas simples e satisfatrias.
No centro infantil, Grace sentia a mesma paz interior que
uma freira ao encontrar sua vocao. Exceto que ela no
encontrara Deus. Sua misso era de outro tipo.
O nico lado negativo do trabalho de Grace no centro vinha
na forma de Lisa Halliday. Outra habitante da Ala A, Lisa
fora mandada para Bedford Hills depois de um assalto a mo
armada em uma loja em que o balconista ficou
permanentemente paralisado. Uma sapato violenta com
cabelo louro bem curto e uma cicatriz no queixo, Lisa
Halliday era vista como a lder das presidirias brancas, uma
minoria que tinha voz ativa. As lderes das presidirias
desempenhavam um papel importante na administrao de
qualquer priso. E isso era algo que o diretor
McIntosh entendia muito bem. Ele dera a Lisa Halliday um
trabalho agradvel no centro infantil que a deixou calma por
um tempo. At Grace Brookstein aparecer. Lisa Halliday no
escondia de ningum seu dio por Grace, que considerava o
"bichinho de estimao" de Cora Budd e uma traidora das
mulheres BRANCAS de Bedford. Sem mencionar uma vadia
que tinha o diretor na palma da mo. Lisa no perdia uma
oportunidade de implicar com Grace ou tentar met-la em
alguma confuso.
O trabalho de verdade de Grace comeava depois das 15
horas, quando ela tinha permisso para passar duas horas na
biblioteca da priso. Davey Buccola prometera ajud-la, mas
Grace no tinha nenhuma notcia dele h meses. Impaciente
PARA fazer algum progresso, ela dedicava todas as suas horas
livres  pesquisa sobre o Quorum. Havia muito o que
aprender. Seguindo o conselho de Davey, comeara pelo
comeo. Leu sobre o mercado de capitais, o que era e como
funcionava. Descobriu pela primeira vez o que um fundo de
hedge realmente fazia  nunca lhe ocorreu perguntar a
Lenny. Pesquisou incontveis artigos de economia. No
passado, escutava termos como arrocho de crdito e socorro
financeiro o tempo todo. Mas no fazia ideia do que
realmente significavam. Agora seu dever era saber. Queria
entender por que empresas como a Lehman Brothers
faliram. Por que tantas pessoas perderam seus empregos e
suas casas por causa do Quorum. Os primeiros meses foram
como pintar o fundo de uma enorme tela. S quando
terminasse o cu e o mar agitado, Grace poderia comear a
trabalhar no navio: a fraude que a colocara aqui. Isso, claro,
era a parte mais difcil e complicada do quadro.
Grace descobriu que o maior problema com fundos de
hedge era que eles funcionavam por trs de um vu de
segredos. Executivos como Lenny nunca contavam suas
estratgias de investimento, muito menos detalhes
especficos sobre transaes individuais. E isso era
perfeitamente legal.
Karen Willis perguntou:
        Ento, como as pessoas sabiam o que estavam compran-
do? Se era um segredo to grande?
        No sabiam  respondeu Grace.  Elas olhavam o
desempenho passado e apostavam no futuro.
        Quer dizer como apostar em um cavalo?
        Acho que sim.
        Um risco e tanto, no acha?
        Isso depende do quanto voc confia em quem vai cuidar
do seu dinheiro.
As pessoas confiaram em Lenny. Confiaram no Quorum.
Mas alguma coisa dera terrivelmente errado. Quanto mais
ela estudava as matrias que tinham sado em jornais e
revistas, mais Grace entendia por que o FBI fracassara de
forma to singular em rastrear o dinheiro desaparecido. Com
tantos segredos e fundos passando por diversas contas
diferentes, no pas, fora dele, por todo o mundo, era como
passar um pente fino na praia para encontrar um
determinado gro de areia. Aes eram vendidas antes
mesmo de terem sido compradas, criando lucros
"fantasmas", que depois eram alavancados, multiplicados por
trs, quatro, dez vezes antes de serem reinvestidos em
estruturas derivativas to complicadas que deixavam os olhos
de Grace cheios de gua.
Davey Buccola finalmente foi visit-la. Pela expresso do
rosto dele, Grace podia perceber que ele tinha novidades.
Ela mal conseguia conter sua animao.
        Foi John Merrivale, no foi? Ele roubou o dinheiro. Eu
sabia.
        Eu no sei quem roubou o dinheiro.
A animao de Grace sumiu.
        Ah.
        Minha investigao tomou um rumo diferente.
A expresso de Davey era sbria, os lbios pressionados
formando uma linha cruel. Grace sentiu um aperto no
estmago.
        Como assim? Que tipo de rumo?
Davey pensou: quando eu entrei aqui, ela parecia to feliz.
Estou prestes a fazer o mundo dela desabar. E se eu estiver
errado? Ento, ele pensou: Eu no estou errado. Ele se
debruou sobre a mesa e pegou a mo de Grace.
        Sra. Brookstein.
        Grace.
        Grace. Sinto muito por ter de lhe dizer isso. Mas acredito
que seu marido foi assassinado.
        Como?  A sala comeou a girar. Grace segurou a mesa
PARA no cair.
        Lenny no se matou.
        Eu sei disso. Foi um acidente. A tempestade...  As
palavras se calaram, deixando um silncio.
        No foi um acidente. Passei meses investigando as
atividades de John Merrivale no Quorum  disse Davey, 
mas percebi que estava correndo atrs do meu prprio rabo.
Ento decidi investigar seu marido. Retrocedi at o
desaparecimento dele, a investigao, o que aconteceu em
Nantucket no dia daquela tempestade. Finalmente, vi a
necrpsia.
Grace engoliu em seco.
        Continue.
        Uma vergonha. Parecia uma piada. Eles assumiram que a
morte foi por afogamento porque o corpo estava molhado e
havia gua nos pulmes. Quando toda a merda do Quorum
veio  tona, eles declararam suicdio porque viram que havia
um motivo. Mas gua nos pulmes nao significa
necessariamente que a pessoa morreu afogada.
        No?
        O corpo estava na gua havia mais de um ms.  claro que
o pulmo estava cheio de gua. A primeira pergunta que
temos que nos fazer em uma morte assim  como a pessoa
foi parar na gua e se estava viva ou morta quando isso
aconteceu.
        Ento voc acha...
        Acho que seu marido j estava morto quando foi parar na
gua. No havia sangue nos pulmes dele. Quando uma
pessoa se afoga no mar, em uma tempestade como aquela... a
presso de tanta gua entrando nos pulmes de forma to
repentina quase com certeza provocaria uma hemorragia.
        Quase com certeza?
        No foram apenas os pulmes. Havia outros sinais, os
machucados no torso. Arranhes nos dedos e parte superior
dos braos que podem ser um indcio de luta. E a forma
como a cabea estava machucada. Vi as fotos. E as vrtebras.
Aquilo no foi peixe. S se o peixe tivesse uma guilhotina.
Ou uma faca de aougueiro.
Grace colocou a mo na boca, enjoada.
        Ah, droga, desculpe. Minha inteno no era ser to
explcito. Voc est bem?
Grace balanou a cabea. Nunca mais ficaria bem. Respirou
fundo, se esforando para controlar suas emoes.
        Por que nada disso veio  tona durante as investigaes?
        Alguma coisa veio. Os machucados foram mencionados,
mas esquecidos. Ningum queria ver a verdade. No naquele
momento. Voc deve se lembrar, seu marido era o homem
mais odiado do pas. Talvez tenha sido simplesmente mais
fcil achar que ele tinha se suicidado, como um covarde, em
vez de v-lo como uma vtima.
        Mais fcil?  A cabea de Grace estava girando. Era muita
coisa para absorver.
        Eu queria lhe dizer isso primeiro  disse Davey.  Sei
que  um choque e tanto, mas, na verdade,  uma notcia
boa. Acho que temos o suficiente aqui para reabrir a
investigao, Grace. Seria o primeiro passo para uma
investigao de assassinato.
Grace ficou em silncio por um bom tempo. Finalmente,
disse:
        No. No quero a polcia envolvida.
        Mas, Grace.
        No.
Algum tinha matado Lenny como se mata um animal e o
jogado no mar. De que adiantaria a polcia ou os tribunais,
ou o sistema de justia corrupto e nojento? Que justia h
para Lenny ou para mim? O pas nos amaldioou
simplesmente porque era "mais fcil". Eles deixaram o
assassino de Lenny escapar impune e me jogaram aqui para
apodrecer. Bem, que se dane o pas. O tempo de justia
acabou.
Davey estava confuso.
        O que voc quer que eu faa?
        Quero que descubra quem fez isso. Se foi John Merrivale
ou qualquer outra pessoa. Quero saber quem matou meu
marido. Quero saber como fez isso. Quero saber tudo e
quero ter certeza. No estou interessada em dvida razovel.
Davey disse:
        Tudo bem. E depois?
        E depois pensaremos nos prximos passos.
E depois vou mat-lo.
Depois que as luzes se apagaram, Grace ficou deitada na
cama acordada, sua mente a mil por hora.
Quem quer que tenha matado Lenny tinha de estar em
Nantucket no dia da tempestade. Pode ter sido um estranho.
Mas ela sabia que era pouco provvel. Foi algum prximo
de ns. S pode. Algum prximo do Quorum. Do dinheiro
desaparecido.
Pensou nas frias, nos convidados.
Connie e Michael.
Honor e Jack.
Maria e Andrew.
Caroline e John.
A famlia Quorum. Exceto que eles no eram famlia. No
eram amigos. Todos abandonaram Grace na hora em que ela
mais precisara.
Um deles matara Lenny.
Grace no queria mais justia. Queria vingana. Teria
vingana.
Naquela noite, Grace Brookstein comeou a planejar sua
fuga.
Captulo 13
Karen Willis esfregou os olhos. Eram 2 horas e Grace
Brookstein estava subindo na sua cama.
        Grace? O que houve? Est doente?
Grace balanou a cabea. Embaixo do cobertor, as duas se
aninharam em busca de calor. Karen sentiu a maciez dos
seios de Grace nas suas costas. O cheiro de sua pele, o
carinho suave de sua respirao. Instintivamente, colocou a
mo por baixo da camisola de Grace, procurando a umidade
sedosa entre suas coxas.
- Eu amo voc.  Karen se virou e pressionou os lbios nos
de Grace. Por alguns gloriosos momentos, Grace
correspondeu ao seu beijo. Ento, se afastou.
        Desculpe, eu... eu no posso.
Grace ficou dividida. Parte dela queria aceitar o conforto
que Karen estava oferecendo. Afinal, Lenny estava morto.
E Grace amava Karen tambm, de uma forma. Mas sabia
que no era certo. No amava Karen daquela forma. No
realmente. Mesmo se amasse, seria errado dar esperanas a
ela. Principalmente levando em considerao o que estava
prestes a lhe dizer.
Karen pareceu angustiada. Como podia ser to estpida?
Interpretara errado os sinais dela.
        Ah, meu Deus. Est com raiva de mim?
        No, de forma alguma. Por que eu estaria?
        Eu nunca tentaria nada se no tivesse achado... Quer
dizer, voc veio para a minha cama.
        Eu sei. Desculpe. Foi culpa minha  disse Grace.  Eu
precisava conversar com voc. Preciso do seu conselho.
        Meu conselho?
        . Vou fugir.
Era a quebra na tenso de que Karen precisava. Riu tanto
que quase acordou Cora.
Grace no entendeu.
        O que  to engraado?
        Ah, Grace! Voc no pode estar falando srio!
        Nunca falei to srio em toda a minha vida.
        Querida,  impossvel. Nunca ningum fugiu de Bedford
Hills.
Grace deu de ombros.
        Para tudo tem uma primeira vez, no  mesmo?
        No para isso.  Karen no estava mais rindo. Voc
est falando srio mesmo, no est? Voc perdeu a cabea,
Grace. J olhou para fora ultimamente? Tem nove cercas de
arame farpado entre ns e a liberdade, todas elas
eletrificadas. Tem guardas, ces, cmera e armas para todos
os lados.
        Sei de tudo isso.
        Ento voc no est pensando direito. Olhe, mesmo se
voc encontrasse uma forma de fugir, o que no vai porque
 impossvel, voc tem um dos rostos mais conhecidos do
pas. At onde voc acha que vai chegar?
Grace passou a mo pelo nariz quebrado.
        No  mais to fcil me reconhecer. No sou mais como
eu era antes. Alm disso, posso me disfarar.
        Quando te pegarem, vo te matar. No vo querer saber
de nada.
        Tambm sei disso.  um risco que estou disposta a
assumir.
Karen acariciou o rosto de Grace na escurido. Isso era
loucura. Ningum nunca fugira de Bedford Hills. Se Grace
tentasse, ela certamente seria morta. Mesmo se, por algum
milagre, ela fosse capturada viva, isso significava que Karen
nunca mais a veria. Grace seria transferida para a solitria.
Mandada para fora do estado. Trancada em alguma priso da
CIA para ningum mais ouvir falar dela.
        No faa isso, Grace. Por favor. No quero perder voc.
Grace viu os olhos de Karen se encherem de lgrimas.
Inclinando-se, ela lhe deu um beijo na boca. Foi um beijo
apaixonado, demorado. Um beijo para se lembrar. Um beijo
de adeus.
        Tenho que fazer isso, Karen.
        No, no tem. Por qu?
        Porque Lenny foi assassinado.
Karen se sentou.
        O qu? Quem disse isso?
        Davey Buccola. Ele encontrou provas, coisas que no
apareceram na investigao.
Ento, Davey Buccola colocou isso na cabea dela. Vou
mat-lo.
        Preciso descobrir quem matou meu marido.
        Mas, Grace...
        Vou encontrar quem fez isso. E, ento, vou matar essa
pessoa.
Grace esperou a raiva, o choque, mas eles no apareceram.
Em vez disso, Karen lhe deu um abrao apertado. Karen
lembrou-se de Billy, o namorado de sua irm. Como pareceu
certo quando aquela bala entrou entre os olhos dele. Apesar
de tudo o que aconteceu desde ento, nunca se arrependera
do que fizera. No queria perder Grace. Mas compreendia.
        Imagino que voc tenha um plano.
        Na verdade, era sobre isso que eu queria falar com voc.
A irm Agnes observou enquanto Grace Brookstein arruma-
va um quebra-cabea e rezou silenciosamente:
Obrigada, Senhor, por me entregar esta alma perdida.
Obrigada por me permitir ser o instrumento de sua
redeno.
A irm Agnes era freira havia apenas cinco anos. Antes
disso, ela era Tracey Grainger, uma adolescente nada popular
e solitria de Frenchtown, Nova Jersey. Tracey Grainger se
apaixonara por um garoto chamado Gordon Hicks. Gordon
lhe dissera que a amava e Tracey acreditara. Quando Gordon
a engravidou e a abandonou logo em seguida, Tracey foi para
casa e tomou todos os comprimidos que encontrou. O beb
no sobreviveu.
Nem Tracey Grainger.
A garota que acordou da overdose em uma cama horrvel de
hospital, segurando a barriga e chorando de culpa, no era a
mesma em que Gordon Hicks dera o fora. No era mais a
aluna medocre que desapontava os pais desde o dia em que
nasceu. No era mais a aluna antissocial e indesejada que
ningum convidou para o baile. Esta garota era uma pessoa
totalmente nova. Uma pessoa amada por Deus. Uma pessoa
de valor. Uma pessoa cujos pecados foram perdoados por
Deus, que um dia se uniria a Jesus sob a mo direita do Pai.
Se algum acreditava na fora da redeno, essa pessoa era
Irm Agnes. Deus a redimira. Ele salvara sua vida. Agora em
seu infinito amor e misericrdia, Ele redimira Grace
Brookstein tambm. E Ele permitira que ela, irm Agnes,
desempenhasse um pequeno papel nesse milagre.
Naquela mesma manh, Grace lhe dissera:
        Sinto-me to completa aqui, irm. Trabalhando com es-
sas crianas. Com a senhora.  como se eu recebesse uma
segunda chance na minha vida.
Que satisfao essas palavras trouxeram ao seu corao! A
irm Agnes esperava no ser culpada do pecado mortal do
orgulho. Precisava se lembrar que fora Deus quem
transformara Grace, no ela. Mesmo assim, Irm Agnes no
podia deixar de achar que sua amizade contribura para
algumas das mudanas em Grace.
Grace tambm mudara a irm Agnes. A vida de uma freira
podia ser solitria. A maioria das Irms de Misericrdia tinha
idade suficiente para ser sua me, se no av. Nos ltimos
meses, passara a valorizar a amizade fcil que parecia ter
crescido entre ela e Grace Brookstein. Os olhares. Os
sorrisos. A confiana.
Grace guardou as peas do quebra-cabea na caixa, depois
colocou-a de volta na prateleira. Irm Agnes sorriu.
        Obrigada, Grace. J terminamos por hoje. Sei que quer ir
para a biblioteca.
        Tudo bem  disse Grace, satisfeita.  Fico feliz em
ajudar. Ah, a propsito, sabe aquela argila que recebemos na
semana passada? Precisamos devolver.
        Precisamos? Por qu?
        Abri seis ou sete caixas esta manh e todas estavam secas
por dentro. Tentei molhar com gua, mas ficam lamacentas.
Vamos ter que devolver.
Que pena, pensou a irm Agnes. Ela passara boa parte do dia
arrumando aquelas caixas no almoxarifado com irm
Theresa. Agora teria de tirar tudo de novo.
        Mandei um e-mail para a empresa de entrega  disse
Grace.  Eles vm buscar na tera-feira s 16 horas.
        Tera-feira?  Irm Agnes pareceu aflita.  Ah, Grace,
foi tanta gentileza sua providenciar tudo. Mas no posso
supervisionar a entrega na tera. Infelizmente. Uma
delegao do departamento penitencirio estar aqui para
uma inspeo. Depois, eu e Irm Theresa teremos a nossa
reunio sobre o oramento para o trimestre. Ficaremos a
tarde toda fora.
        Ah.  Grace parecia decepcionada. Ento, de repente, se
iluminou.  Talvez eu possa fazer isso pela senhora?
Detentas da Ala A no podiam ajudar em entregas e
carregamentos. O diretor considerava um risco em potencial
 segurana. Mas Grace estava indo to bem em sua
reabilitao. Irm Agnes detestaria passar a impresso de que
no confiava nela.
Grace disse:
        As crianas j esperaram semanas.  uma pena atrasar isso
ainda mais.
        Aquelas caixas so pesadas, Grace  disse a irm Agnes,
sem jeito.  Precisa de duas pessoas para fazer o trabalho.
        Cora pode me ajudar.
        Cora Budds?  Essa idia estava indo de mal a pior.
        Ela trabalha na cozinha s teras-feiras, mas costuma
acabar por volta das 15 horas.
Grace parecia to esperanosa, to ansiosa para ajudar. Irm
Agnes hesitou. Que mal pode haver? S desta vez.
        Bem, acho que... se voc tem certeza e Cora pode aju-
dar...
Grace sorriu.
        Carregar um caminho? Sim, irm Agnes. Podemos fazer
isso sozinhas, sim.
Seu corao estava batendo to alto que ficou surpresa de
Irm Agnes no escutar. Ela era uma mulher doce e
generosa e Grace se sentia mal por engan-la. Mas no tinha
outro jeito.
Estava comeando.
O        plano de tentativa de fuga de Grace logo se tornou o
segredo mais mal guardado de Bedford Hills. A idia era
simples: o caminho de entrega chegaria ao centro infantil.
Grace e Cora Budds comeariam a carregar as caixas de
argila. Enquanto Cora distraa o motorista, Grace voltaria
para o almoxarifado, esvaziaria uma das caixas e entraria ali
dentro. Cora terminaria o trabalho sozinha, certificando-se
de que a tampa da caixa de Grace no estivesse totalmente
fechada, para deixar entrar um pouco de ar e de forma a
ficar bem escondida entre as outras.
A fase seguinte do plano era uma incgnita. Tudo
dependeria da revista de segurana. Caminhes entravam e
saam de Bedford Hills todos os dias, entregando tudo, de
papel higinico a detergente e comida. A priso estava
equipada com os sistemas de segurana mais sofisticados que
existiam. Alm de buscas manuais, os guardas usavam ces
farejadores e at escner infravermelho para inspecionar os
caminhes, alm de cmeras que se espalhavam por todos os
cantos de Bedford Hills. Geralmente, as buscas mais
completas aconteciam nos caminhes entrando na priso.
Havia menos nfase no que eslava saindo. Mas todas as
buscas ficavam a critrio dos guardas. Se eles no gostassem
da cara do motorista ou da aparncia de um veculo, ou se
simplesmente estivessem com vontade, podiam segurar as
pessoas por horas, passando os raios X em cada centmetro
quadrado do veculo e da pessoa. Grace esperava que, em
uma noite fria de janeiro, os guardas no estivessem com a
menor disposio para inspecionar caixas e mais caixas de
argila do centro infantil. Mas no poderia saber at que
chegasse a hora.
Uma vez que o caminho fosse liberado, se fosse liberado, e
eles se afastassem de Bedford Hills, Grace sairia da caixa e se
aproximaria das portas traseiras. Assim que o motorista
parasse em um cruzamento, ela abriria a porta do caminho
e pularia para a liberdade.
Fcil.
 No vai funcionar.
Karen se debruou em cima da mesa e se serviu do aguado
pur de batatas de Grace. Estavam almoando, poucos dias
antes da tentativa de fuga.
        Obrigada pelo voto de confiana.
        Voc j pensou no que vai fazer se conseguir sair daqui?
Grace pensara em pouca coisa alm disso. Quando fantasiava
a fuga, se imaginava como uma caadora, desmascarando o
assassino de Lenny, conseguindo sua vingana. Mas a
realidade era que ela tambm seria caada. Para sobreviver,
precisaria de comida, abrigo, dinheiro e um disfarce. No
fazia ideia de como conseguir nada disso.
        E amigos do lado de fora? Tem algum em quem possa
confiar? Qualquer pessoa que possa acobert-la?
Grace balanou a cabea.
        No. Ningum.
Havia apenas uma pessoa em quem confiava. Davey
Buccola. Davey estava trabalhando para conseguir mais
informaes, verificando os libis de todos que estavam com
Grace e Lenny em Nantucket no dia em que ele morreu. Se
Grace fosse procurar algum do lado de fora, seria ele. Mas
no queria contar isso para Karen.
- Nesse caso, precisamos providenciar um kit de
sobrevivncia para voc daqui.
        Um kit de sobrevivncia?
-        Claro. Voc vai precisar de uma nova identidade. Na
verdade, algumas novas identidades, para poder seguir em
frente. Carteiras de motorista, cartes de crdito, dinheiro.
Voc no vai muito longe como Grace Brookstein.
-        Onde vou arranjar uma carteira de motorista, Karen? Ou
um carto de crdito?  impossvel.
-        E falou a mulher que acha que vai fugir de Bedford Hills!
No se preocupe com esses detalhes, Grace. Deixe comigo.
Karen avisara Grace que precisaria contar para "algumas
meninas" sobre seu plano de fuga para conseguir o que
precisavam em to pouco tempo. Para horror de Grace,
"algumas meninas" se tornou quase toda detenta de Bedford
Hills. Falsificar uma carteira de motorista e um carto de
crdito no seria uma tarefa fcil. Karen foi forada a pedir
ajuda por toda a priso. Internas que trabalhavam no
escritrio do diretor, na biblioteca e na sala de computadores
digitaram, fizeram ajustes no Photoshop e plastificaram
durante dias, todas arriscando suas condicionais e seus
futuros por uma chance de ajudar Grace e participar da
Grande Fuga. As nicas pessoas que no sabiam sobre o
plano eram os guardas e Lisa Halliday.
Era discutvel se Lisa entregaria Grace; internas fortes
podiam bater em suas rivais e sair impunes, mas dedurar
outra presidiria era considerado tabu. Mesmo assim, Karen
no estava disposta a arriscar.
Grace era grata pela ajuda de todo mundo, mas estava
nervosa.
        Pessoas demais esto sabendo.
        No so "pessoas"  disse Karen.  So suas amigas.
Pode confiar nelas.
Confiana. Era uma palavra de outra vida, de outro planeta.
A tera-feira amanheceu cinza e fria. Grace mal conseguira
dormir. Durante toda a noite vozes a perseguiram:
Lenny: Independentemente do que acontecer, Grace, eu
amo voc.
John Merrivale: No se preocupe, Grace. Apenas faa o que
Frank Hammond mandar e voc vai ficar bem.
Karen: Quando te pegarem, vo te matar. No vo querer
saber de nada.
Grace no tocou no seu mingau de aveia no caf da manh.
        Voc precisa de fora  disse Cora Budds.  Come
alguma coisa.
        No consigo. Vou vomitar.
A negra enorme estreitou os olhos.
        No t pedindo, Grace. T mandando.  melhor se
controlar, menina. Vou colocar meu traseiro na reta por
voc, hoje. Todas ns. Agora come.
Grace comeu.
 Tem certeza de que est bem, Grace? Talvez deva ir se
deitar um pouco.
Era meio-dia e Grace estava no centro infantil. A delegao
deveria chegar s 12h30. Tinha passado a manh arrumando
e limpando os brinquedos, as mesas, pendurando
trabalhinhos para que o centro ficasse com a melhor
aparncia possvel. Se a delegao ficasse impressionada,
podia aumentar o oramento. Ou, pelo menos, no
diminuir. Grace trabalhara de forma incansvel como
sempre, mas Irm Agnes estava preocupada com ela. A pele
dela estava verde quando chegou naquela manh. Agora
estava terrivelmente plida. Poucos minutos antes, ao tentar
alcanar uma prateleira mais alta, ficara tonta e quase
desmaiara.
        Estou bem, Irm.
 No acho que esteja bem. Voc deve ir  enfermaria para
darem uma olhada em voc.
        No!  Grace sentiu sua garganta ficar seca de pnico. A
tenhora no pode me mandar para a enfermaria. No hoje. E
se eles me segurarem l a tarde toda? Lembrou-se do que
Cora dissera no caf da manh. Precisava se controlar.  S
estou um pouco desidratada, s isso. Talvez um copo d'gua?
A irm Agnes foi buscar a gua. Quando ela saiu, Grace
BELISCOU as bochechas e respirou fundo algumas vezes, para
se ACALMAR. Quando a freira voltou, ela parecia um
pouquinho MELHOR.
Do canto da sala, Lisa Halliday assistia  cena, desconfiada.
        O que est acontecendo com a Sra. Brookstein? 
perguntou ela para uma das mes, uma jovem negra que
estava h pouco tempo em Bedford Hills.  Ela t agindo de
um jeito estranho a manh toda, at para os padres dela.
        Voc tambm no estaria se fosse se mandar daqui? 
disse a garota. S de olhar para o rosto de Lisa, ela viu que ti-
nha estragado tudo. Mas j era tarde demais.
        O que que voc disse?
        Nada. Eu s... No sei o que estou falando. So s uns
boatos malucos.
Lisa Halliday ficou com o rosto a poucos centmetros do da
garota.
        Diga.
        Por favor. Eu... eu no podia ter falado nada. Cora vai me
matar.
        Conta tudo agora ou vou dar um jeito de o diretor nunca
mais deixar voc ver seu filho.
        Por favor, Lisa.
        Acha que no consigo?
A garota pensou no filho, Tyrone. Ele tinha 3 anos, era
fofinho e gordinho como um urso de pelcia. Ele chegaria
em meia hora, aninhando-se nela, fazendo desenhos para ela
colocar na cela.
Comeou a falar.
As sobrancelhas de Hannah Denzel formavam uma nica e
furiosa linha de pelos enquanto guiava os VIPs pelo corredor
at o centro infantil.
        Por aqui, senhoras e senhores.
Denny no gostava de mostrar Bedford Hills para as
"delegaes". O grupo de polticos e policiais do importante
grupo de hoje era to ruim quanto todos os outros: os
benfeitores que vinham visitar a priso, os padres, os
assistentes sociais, os terapeutas, as freiras, todo o exrcito
de intrometidos que infestava seu territrio duas vezes por
ano com pranchetas e recomendaes. Nenhum deles
parecia perceber que essas mulheres eram nocivas. Que
estavam em Bedford Hills para serem punidas, no salvas.
Isso enojava Denny.
O grupo aplaudiu o centro infantil, se espalhando pelos
locais de trabalho arrumadssimos e as reas de brincadeira.
O diretor McIntosh ficou observando-os como um pai
orgulhoso. Ento, seu rosto mudou. Grace Brookstein estava
vagando por uma das estaes de trabalho, muito plida e
com cara de doente. Droga. Tinha se esquecido
completamente de Grace. A ltima coisa de que precisava
era que sua detenta mais ilustre distrasse a ateno do grupo
da jia da coroa de Bedford Hills.
Ele sussurrou no ouvido de Hannah Denzel:
        Tire-a daqui. Sem chamar a ateno. Ela  uma distrao.
Os olhos cruis da agente se iluminaram.
        Sim, senhor.  Era disso que ela gostava. Ao se
aproximar de Grace, agarrou-a pelo brao com fora. 
Vamos, Brookstein, para a sua cela.
        Minha cela? Mas eu... eu no posso  gaguejou Grace,
estou trabalhando.
        No est mais. Vamos.
Grace abriu a boca para protestar mas nenhum som saiu. O
pnico subiu pela sua garganta como vmito.
        Algum problema?  a irm Agnes se intrometeu. 
Posso ajudar?
        No  respondeu Denny, empurrando Grace para a
porta. Ela no aprovava a presena das freiras em Bedford
Hills. A irm Agnes devia voltar para o convento, rezar
seu rosrio e deixar as presidirias para os profissionais.  O
diretor quer que esta aqui fique trancada na cela. E ela no
quer uma cena.
Grace lanou um olhar que implorava: Me ajude! A freira
sorriu com ternura para a amiga.
        No fique triste, Grace. Acho que descansar vai lhe fazer
bem. Aproveite sua tarde de folga. Ainda estaremos aqui
amanh.
Eu sei, e agora eu tambm, pensou Grace. Teve vontade de
chorar.
Lisa Halliday s conseguiu sair do centro infantil s 15h45.
A feitora irm Theresa lhe dera uma lista de afazeres to
comprida quanto seu histrico policial. Correndo para o
escritrio do diretor, ela se aproximou da mesa da recepo.
        Preciso ver o diretor  disse ela, ofegante.   urgente.
A recepcionista olhou para a mulher grosseira na sua frente,
com trejeitos masculinos e ficou tensa.
        O diretor McIntosh no pode receber ningum hoje. Ele
est com uma delegao...
        Eu j disse,  urgente.
        Sinto muito  disse a garota.  Ele no est aqui.
        Bem, cad ele?
O tom de voz da recepcionista ficou mais gelado.
        Fora. Ele tem reunies o dia inteiro. Algo em que eu
possa ajudar?
        No  disse Lisa, grosseiramente.  Preciso falar com o
rei e no com o bobo da corte.  Precisava falar com o
diretor, e precisava fazer isso sozinha. Se a notcia de que ela
fora a dedo-duro de Grace Brookstein se espalhasse, estaria
acabada em Bedford Hills.
        Ento, no h nada que eu possa fazer.
Lisa sentou o traseiro enorme em uma das cadeiras duras
que ficavam encostadas na parede.
        Tudo bem. Eu espero.
Cora Budds saiu da cozinha, onde trabalhava, s 16h10 e
correu para o centro infantil como combinado. Duas mes
estavam se despedindo de seus filhos enquanto um agente
entediado tomava conta.
Cora perguntou a uma das mes:
        Cad a Grace?
 Na cela. Denny a tirou daqui horas atrs. Ela no parecia
nada bem.
Cora pensou: Aposto que no parecia mesmo.  isso, ento.
Se Grace est na cela, o plano todo foi por gua abaixo.
Foi sozinha para o almoxarifado. Talvez seja melhor assim.
GRACE estava sentada em seu beliche, olhando para o nada.
Estava exausta demais para chorar. Era o fim. S Deus sabia
quando teria outra chance. Talvez demorasse anos para isso
acontecer. Anos nos quais quem matou Lenny ficaria solto,
livre, FELIZ, impune. Esse pensamento era insuportvel.
Desatentamente, olhava para o relgio na parede: 15h55...
16 horas... 16h05... O caminho j devia estar l. Cora devia
estar carregando-o, sozinha, imaginando o que tinha
acontecido.
s 16h08, Grace escutou o barulho de chave no cadeado. O
turno de Karen devia ter acabado mais cedo. Pelo menos, ela
ficaria feliz pelo plano de fuga ter dado errado. A porta se
abriu.
        Levante-se.  Os olhos de Denny brilhavam de dio.
Passara a tarde toda ruminando as palavras da Irm Agnes
para Grace: Aproveite sua tarde de folga. Como se isso aqui
fosse algum tipo de acampamento de vero! No havia
nenhuma tarde de folga em Bedford Hills.
        Voc perdeu quatro horas de trabalho esta tarde, sua
VADIA ordinria. Achou que estava de frias, no foi? Um
passe livre?
Grace disse baixinho:
        No, senhora.
        Bom. Porque no existem frias na Ala A. No enquanto
eu estiver no comando. Voc pode compensar essas horas
de trabalho, comeando agora mesmo. V para o centro
infantil e comece a esfregar o cho.
        Sim, senhora.
        Quando terminar, esfregue de novo. E pode esquecer de
comer hoje  noite. Vai ficar esfregando aquele cho at que
eu v buscar voc, entendeu?
        Sim, senhora.
        V!
Grace saiu da cela e comeou a correr pelo corredor. Denny
observou-a se afastar com um sorriso de satisfao no rosto.
No fazia a menor idia de que Grace estava correndo por
sua vida.
Cora Budds J tinha quase terminado de carregar o caminho
com as caixas.
O motorista reclamou:
        Achei que fosse ter duas. Se eu soubesse, tinha trazido
algum.
Cora deu de ombros.
        A vida  uma merda, n?  J estava quase escuro no
ptio mido atrs do almoxarifado do centro infantil. A
temperatura estava abaixo de zero, mas o vento tornava
ainda mais frio. As caixas eram pequenas, mediam um metro
por um. Olhando para elas, Cora no conseguia imaginar
como Grace ia se apertar dentro de uma. Elas tambm eram
pesadas. O peso, combinado com o frio de gelar os dedos,
tornava o trabalho ainda mais lento.
        Desculpe o atraso.
Grace estava tremendo de frio sob a luz do poste. Ainda de
saia e uma fina blusa de algodo, suas roupas eram ridculas
para a noite de inverno. O vento cortava a sua pele como
lminas. Cora Budds arregalou os olhos, surpresa, mas no
disse nada.
O motorista parecia irritado.
        T brincando comigo? Essa  a nmero dois? Ela no
consegue nem levantar uma xcara de caf, muito menos
uma caixa de argila.
        Claro que consegue  disse Cora.  Deixa isso com a
gente.
        Por mim, t bom.  O motorista voltou para o gostoso
calor da cabine do caminho.   s me avisar quando
acabarem.
De volta ao almoxarifado, Cora e Grace trabalharam rpido.
A irm Agnes ou um dos guardas podia voltar a qualquer
minuto. Cora tirou os documentos de Grace do bolso de seu
UNIFORME, enfiando-os no suti de Grace. Havia quatro
identidades falsas com cartes de crdito com os mesmos
nomes, um pedacinho de papel com um e-mail annimo
escrito e um PEQUENO rolo de dinheiro.
- Karen tem uma amiga do lado de fora que vai mandar mais
dinheiro pra voc quando precisar.  s mandar um e-mail
DIZENDO quanto precisa, o cdigo postal de onde est e as
iniciais da identidade falsa que estiver usando, e essa pessoa
far o resto. Leve isso tambm.  Ela entregou um estilete
prateado a Grace.  Nunca se sabe.
Grace fitou a lmina sobre a palma de sua mo por um
segundo, hesitando, ento, escondeu-a no sapato. Cora abriu
a tampa de uma das caixas, esvaziando-a em velocidade
recorde. De alguma forma, a caixa parecia ainda menor
quando estava vazia.
- Acho que  impossvel, Grace. No ia caber um gato a
dentro  falou Cora.
Grace sorriu.
-         possvel. Eu era ginasta quando era mais nova. Olhe.
Cora observou admirada enquanto Grace entrava na caixa, o
traseiro primeiro, dobrando seus pequenos membros em
volta de si como uma aranha.
        Menina, isso deve doer.  Ela recuou.  Est bem?
        No  exatamente uma viagem de primeira classe, mas
vou sobreviver. Coloque a tampa. Estou totalmente dentro?
Cora colocou a tampa. Fcil. Com uns 3 centmetros de so-
bra. Abriu de novo.
        T toda dentro. Vou carregar as outras caixas agora. Vou
colocar voc trs filas atrs da porta, para que ningum te
veja no porto, mas vou deixar a tampa solta pra entrar ar.
        Obrigada.
        Fique bem quietinha at passar pelo porto. Quando es-
tiver l fora, assim que o caminho parar, pule.
        Entendido. Obrigada, Cora. Por tudo.
Boa sorte, Amazing Grace.
Cora Budds recolocou a tampa e carregou Grace para a
escurido.
O DIRETOR McINTOSH olhou Lisa Halliday com
desconfiana.
         melhor voc no estar enganada.
        No t.
        Grace Brookstein est na cela dela desde a hora do al-
moo. Alm disso, as detentas da Ala A no tm permisso
para trabalhar em entregas. A irm Agnes conhece as regras.
        A irm Agnes no sabe a diferena entre a boceta dela e o
pai-nosso.
        Basta!  mandou o diretor.  No vou admitir que
desrespeite uma voluntria.
        Olha. Num quer checar o caminho? Tudo bem. Depois,
num diz que num avisei.
O diretor McIntosh no queria checar o caminho. O dia
tinha sido longo. Queria acabar com a papelada e ir para casa
ficar com sua esposa. Mas sabia que no tinha escolha.
 Tudo bem, Lisa. Deixe comigo.
A escurido era desorientadora. Grace escutou as portas de
trs do caminho se fecharem. Por um momento, o medo
tomou conta dela. Estou presa! Mas, ento, relaxou,
forando-se a respirar fundo. Era desconfortvel ficar
encolhida dentro da caixa como uma marionete, mas podia
aguentar. O frio, por outro lado, era debilitante. Membro a
membro, Grace sentiu seu corpo ficar dormente. Sua cabea
doa muito, como se a TIVESSE enfiado em gua gelada.
O motor ganhou vida. Estamos nos movendo. Logo, o nico
som que Grace conseguia escutar era o de seu prprio
corao batendo. Rezou silenciosamente:
Por favor, Deus, faa com que eles no verifiquem todas as
caixas.
O BARULHO FOI to alto que o motorista escutou apesar
do SOM alto de seu CD do Bruce Springsteen. Uma das caixas
deve ter cado.
        Que diabo?  Freando, ele saiu da cabine. Malditas
sapates imbecis. Qual  a dificuldade de empilhar um
monte de caixas? S precisavam colocar uma em cima da
outra.
Grace escutou as portas de trs se abrirem. Feixes de uma
lanterna entraram pela brecha que Cora deixara aberta acima
de sua cabea. Prendeu a respirao.
        Droga.
Caixas arrastavam pelo cho de metal do caminho. Depois
disso, Grace viu que sua prpria caixa estava se movendo.
Ah, Deus, no! Ele vai me ver. Mas o motorista no a viu.
Em vez disso, ao puxar sua caixa para a frente, notou a tampa
aberta e fechou-a com um soco. Ento, pegou outra caixa e
colocou por cima da de Grace. As portas se fecharam. Ela
sentiu quando o caminho comeou a andar.
Grace comeou a suar frio.
No tinha ar.
Vou sufocar.
Captulo 14
O DIRETOR MCINTOSH ENTROU no centro infantil,
irritado. Todas as crianas j tinham ido para casa. Uma
nica interna estava guardando os ltimos brinquedos.
 Voc est sozinha?
- Sim, senhor. Estou esperando a irm Agnes voltar para
trancar tudo.
- Havia uma entrega marcada para s 16 horas. Ela
aconteceu?
-        Acho que sim. Cora Budds estava no almoxarifado.
-        E Grace Brookstein? Voc a viu esta tarde?
-        No, senhor. Cora me disse que ela estava na cela.
O diretor McIntosh relaxou. Lisa Halliday tinha entendido
errado. No se podia confiar nos boatos de Bedford Hills.
Ainda assim, os protocolos tinham de ser seguidos. Tirou do
gancho o telefone da mesa da irm Agnes.
Vou morrer!
Grace j estava hiper ventilando. Quando sentiu o caminho
parando, suas esperanas aumentaram. Deviam estar no
porto. Tentou gritar.
        Socorro! Algum me ajude!
Durante semanas, aquele momento a aterrorizara, com me-
do de que os guardas a descobrissem. Agora tinha medo do
contrrio. Sem ar, ela morreria naquela caixa muito antes de
o caminho chegar ao depsito.
        Socorro!  Ela estava gritando o mais alto que podia, mas
seus pulmes pareciam no estar funcionando
adequadamente. As palavras saam baixinhas e sopradas,
abafadas pelas caixas acima e em volta dela. Os guardas no
escutaram nada.
        O que temos a?
O motorista entregou a papelada.
        Argila para modelar. Umas 2 toneladas.
        Tudo bem, vamos dar uma olhada.
Os dois guardas comearam a abrir a primeira fila de caixas.
Por favor! Estou aqui!
Naquele momento, Grace soube que no queria morrer.
Ainda no. No daquela forma.
Preciso encontrar o assassino de Lenny primeiro. Preciso
faz-lo pagar.
Ela comeou a ficar tonta. Percebendo que estava come-
ando a perder a conscincia, gritou de novo. Um dos
guardas parou.
        Escutou alguma coisa?
Seu companheiro balanou a cabea.
        S os meus dentes rangendo. Est congelando aqui fora,
cara. Vamos acabar logo com isso.  Puxou outra caixa,
jogou-a no cho, abriu e olhou dentro. Fez o mesmo com
outra. Depois outra. Quando ia abrir a quarta, o motorista
implorou:
        Vamos l, caras! Sabem quanto tempo levou pra colocar
toda essa merda a dentro? Ainda tenho seis horas de estrada
pela frente e estou congelando.
Os guardas se olharam. Escutaram o telefone tocando a
distncia, no calor da confortvel torre de vigilncia.
 OK, pode ir.  Eles assinaram os papis do motorista e
entregaram a ele.  Dirija com cuidado.
Sessenta segundos depois, o caminho estava cruzando os
portes de Bedford Hills.
Grace Brookstein ainda estava l dentro.
Grace acordou com o som do motor ganhando velocidade.
O alvio tomou conta dela.
Estou respirando! Estou viva!
Um dos guardas devia ter soltado a tampa de sua caixa! Por
que eles no me encontraram?  um milagre. Algum l em
cima deve estar olhando por mim. Talvez seja Lenny, ou
ser o meu anjo da guarda?
Por alguns segundos, Grace ficou eufrica. Consegui sair de
Bedford Hills. Consegui! Mas a realidade logo se imps.
Ainda faltava muito para estar em casa e livre. Desdobrando-
se devagar e dolorosamente, Grace levantou a tampa e saiu
de seu esconderijo. O caminho estava gelado e um breu.
Levou um MINUTO para a circulao voltar para as suas
pernas. Assim que se sentiu forte o suficiente, comeou a
andar aos tropeos na direo da porta, com os braos
esticados para a frente como um zumbi, procurando a sada.
Depois do que pareceu uma eternidade, seus dedos
encontraram um trinco. Estava duro. No conseguia mov-
lo. Bem quando ela comeou a se perguntar se o motorista
tinha trancado por fora de forma que no conseguiria abrir
por dentro, o trinco se mexeu.
Tudo aconteceu em um instante. A porta de trs se abriu
com tanta fora que Grace foi puxada junto. De repente,
estava do lado de fora, segurando-se como  prpria vida,
suas pernas batendo no para-choque dolorosamente
enquanto ela estava pendurada por apenas uma das mos um
pouco acima do solo. Estavam em uma estrada vazia e sem
iluminao, movendo-se a uma velocidade incrvel. Qual era
a velocidade? 100 quilmetros por hora? Cento e vinte?
Grace tentou calcular suas chances de sobreviver se casse.
Antes que encontrasse uma resposta, a estrada se bifurcou.
O motorista virou para a esquerda. Grace sentiu o trinco
escorregar de sua mo, como se algum tivesse passado
manteiga. Quando se deu conta, estava voando pelo ar como
uma boneca de pano, indo na direo das rvores. A ltima
coisa que escutou foi sua cabea batendo no cho.
Depois, nada.
O diretor McINTOSH gritou com Hannah Denzel.
        Por que diabos voc a mandou de volta para o centro?
Quem lhe deu essa autoridade?
Denny ficou furiosa. Se Grace Brookstein realmente tinha
escapado, no ia levar a culpa mesmo. Isso era problema do
diretor.
        Eu tenho essa autoridade, senhor. O trabalho das deten-
tas da Ala A  responsabilidade minha. A delegao j tinha
ido embora e Grace tinha trabalho para terminar. Quem deu
autoridade s freiras para deixar detentas da Ala A
supervisionarem entregas?
Os dois guardas do porto norte tambm estavam no gabi-
nete. O diretor McIntosh os interrogou:
        Tm certeza de que Grace Brookstein no estava naquele
caminho? Olharam todas as caixas?
Pela expresso no rosto de McIntosh, os guardas perceberam
que a honestidade certamente no era o melhor caminho.
 Todas as caixas. O caminho estava limpo.
A cabea do diretor McIntosh estava latejando. Ento, onde
est? Ele se virou para Hannah Denzel.  Quero Cora
Budds e Karen Williams aqui agora. Enquanto isso, alerte
todas as unidades policiais. Quero que encontrem o
caminho, faam-no parar e o revistem.  Ele olhou de
forma ameaadora para os dois guardas.  Se vocs dois
fizeram besteira, vou querer a cabea dos dois em uma
bandeja.
- Sim, senhor.  Mas todo mundo na sala sabia que a
primeira cabea a rolar seria a do diretor.
Grace abriu os olhos devagar. Embaixo dela, havia um
cobertor de mato. Flexvel e espinhoso como um colcho
velho de palha, deve ter amortecido sua queda. Ouvia um
zumbido alto em sua cabea.
No. No  a minha cabea.  l em cima. So helicpteros.
Esto me procurando.
No fazia idia de quanto tempo ficara inconsciente.
Minutos? Horas? O que sabia  que estava congelando, mal
conseguia se mover de tanto frio. Sabia tambm que estava
correndo srio
perigo. Durante o curto perodo em que ficara dentro do
caminho, no podiam ter se afastado mais do que alguns
quilmetros de Bedford Hills. Precisava se distanciar mais do
presdio.
Cuidadosamente, se levantou. Por algum milagre, parecia
que nada estava quebrado. Lentamente, seus olhos se
acostumaram com a escurido e ela conseguiu ver as
sombras  sua volta. Estava em uma floresta a poucos metros
de uma tranquila estrada rural. Tranquila no. Silenciosa.
Pisar em um simples galho soava como um trovo.
Preciso sair daqui.
Seu lado esquerdo estava machucado e rgido, mas ela
percebeu que conseguia andar sem muito problema.  sua
direita, o caminho das rvores levava a uma subida ngreme.
Vindo do topo do monte, Grace escutou o fraco barulho do
trfego.
A polcia vai patrulhar a estrada principal. Se eu subir at l,
triplico as minhas chances de ser pega.
Se no subir, nunca vou conseguir uma carona para sair
daqui.
Ela comeou a escalar.
NO TOPO, algum plantara uma fileira de lamos,
provavelmente para isolar o som. Grace agachou-se atrs
dela, tentando recuperar o flego. A escalada a deixara
exausta. A estrada estava movimentada, quase tanto quanto
na hora do rush. Mais uma vez, Grace imaginou que horas
seriam, mas no tinha tempo para ficar pensando nisso.
Tirando as folhas congeladas de sua saia, ela foi para a beira
da estrada e levantou o polegar, como vira as pessoas
fazendo na TV.
Quanto tempo ser que vai levar at algum parar? Se eu no
entrar em um carro logo, vou morrer de hipotermia.
Um carro de polcia soou na escurido, luzes azuis piscando,
sirenes tocando. Instintivamente, Grace voltou para trs das
rvores, torcendo o tornozelo no solo duro e gelado. Doeu
muito mas ela no ousou gritar, prendendo a respirao na
escurido, esperando o carro da polcia diminuir a
velocidade e parar. No parou. Aps alguns segundos, o som
das sirenes enfraqueceu at que ela no conseguiu mais
escut-lo. Grace voltou para a beira da estrada.
Parada ali, com o polegar estendido, batendo o p para se
aquecer da temperatura abaixo de zero, Grace comeou a se
balanar. Ela mal tinha comido o dia todo e a queda do
caminho a deixara fraca e tonta. As luzes dos faris dos
carros comearam a se juntar at formar um nico feixe
laranja. No estado confuso e congelado de Grace, pareceu
quente e acolhedor. Semi-consciente, ela se dirigiu
tropeando at ele. O som ensurdecedor da buzina de um
caminho a despertou.
        Voc ficou maluca, moa?
Um homem tinha parado. Com um ombro para fora, ele
estava falando com Grace pela janela do lado do motorista.
Um homem de meia-idade, com bigode grosso e preto e
olhos escuros quase enterrados no rosto, ele parecia ser
parte asitico, mas era difcil ter certeza na escurido. Dirigia
um caminho em que estava escrito Servios Gerais Tommy
com letras pretas na lateral.
        Voc no tem casaco?
Grace balanou a cabea. Logo seu corpo inteiro estava
tremendo, em resposta ao frio e  exausto. O homem
estendeu o bruo e abriu a porta do carona.
        Entre.
LIVRO DOIS
Captulo 15
O DETETIVE MITCH CONNORS voltou para sua mesa
pensativo.
Isso  bom ou ruim?
Alto, louro, atltico e grande demais para seu escritrio de
paredes envidraadas, Mitch Connors parecia mais um
jogador de futebol americano profissional do que um
policial. Mergulhando na desconfortvel cadeira (Helen
comprara a maldita cadeira para ele dois anos antes, por
causa de sua dor nas costas. Aparentemente ganhara vrios
prmios de design e custara uma pequena fortuna, por isso
no podia jog-la fora, mas Mitch sempre a detestara), ele
esticou as pernas e tentou pensar.
Eu realmente quero este caso?
Por um lado, seu chefe acabara de lhe dar o que se tornaria,
em algumas horas, a maior e mais famosa investigao do
pas. Na noite anterior, Grace Brookstein conseguira fugir de
uma penitenciria de segurana mxima. O trabalho de
Mitch seria encontr-la, prend-la e lev-la de volta para a
cadeia.
O chefe dele dissera:
- Voc  o melhor, Mitch. No o colocaria neste caso se no
fosse.
E Mitch sentira uma agradvel sensao de orgulho. Mas
sentira outra coisa tambm. Algo ruim. Mas Mitch no
conseguia discernir o que era.
Culpou a cadeira. Era uma tortura to grande ficar sentado
nela que no conseguia se concentrar. Ergonmica, at
parece. Acho que Helen comprou essa cadeira para me
atormentar. Para se vingar de tudo que a fiz passar. Ento,
pensou:  besteira, Connors, e voc sabe disso.
Helen no era desse tipo. Ela era um anjo. Santa Helena de
Pittsburgh, santa padroeira da tolerncia.
E voc a deixou ir embora.
MITCH Connors crescera em Pittsburgh. Nascera no
prspero subrbio de Monroeville, onde sua me era
considerada a mulher mais bonita do local. Ela se casou com
o pai de Mitch, um inventor, quando tinha 19 anos. Mitch
chegou um ano depois e a felicidade do casal ficou completa.
Por uns seis meses.
O pai de Mitch era um inventor brilhante...  noite. Durante
o dia, ele era um vendedor ambulante de enciclopdia.
Mitch costumava acompanhar o pai nas viagens. O
garotinho assistia admirado enquanto o pai enganava uma
dona de casa atrs da outra.
 A senhora sabe quanto custa, em mdia, uma faculdade,
madame?
Pete Connors estava de p na porta da frente de uma casa
deteriorada em Genette, Pensilvnia, usando terno, gravata e
sapatos pretos brilhantes, o chapu de feltro respeitosamente
na mo. Ele era um homem bonito. Mitch achava que se
parecia com Frank Sinatra. A mulher parada na porta,
usando um penhoar manchado, era gorda, parecia deprimida
e derrotada. Crianas famintas corriam  sua volta como
ratos.
        No. No sei dizer, senhor.
A porta estava fechando. Peter Connors deu um passo 
frente.
        Deixe-me lhe falar. Mil e quinhentos dlares. Pode
imaginar isso?
Ela no podia.
        Mas e se eu lhe dissesse que por 1 dlar por semana, isso
mesmo, 1 dlar, a senhora pode dar aos seus filhos o
presente dessa mesma educao bem aqui na sua casa?
        Eu nunca pensei nisso...
        Claro que no! A senhora est sempre ocupada. Tem
contas a pagar, responsabilidades. No tem tempo para
sentar e ler livros como este.  A um determinado sinal,
Mitch corria at o pai e lhe entregava um livreto com as
palavras Pesquisa Educacional na frente.  Livros que
provam que crianas que tm uma enciclopdia em casa tm
seis vezes mais chances de conseguir empregos de
colarinho-branco.
        Bem, eu...
        O que a senhora acha de ver esse pequenininho aqui
crescer e se tornar um advogado, hein?  Pete Connors deu
uma bala para a criana com o rosto sujo.  Por apenas um
dlar por dia a senhora pode tornar isso realidade, madame.
Ele era como um furaco. Uma fora da natureza. Algumas
mulheres, ele intimidava. Outras, ele seduzia. E outras ainda,
ele levava para o andar de cima para aplicar algumas tcnicas
"secretas" de venda que Mitch nunca podia ver. Sempre
levava uns 15 minutos, e sempre funcionava.
        Essas mulheres da Pensilvnia!  exclamava o pai de
Mitch depois.  Elas so sedentas por conhecimento.
Nunca vi uma com tanta sede por conhecimento como esta,
Mitchy!
Depois de toda venda, eles iam at a cidadezinha mais
prxima ou posto de gasolina, e Pete Connors comprava um
enorme sorvete para o filho. Mitch voltava para a me cheio
de excitao, admirao e calda de chocolate por todo o
rosto. "O papai foi incrvel. Devia ter visto o que o papai fez!
Adivinhe quantas vendemos, me. Adivinhe!"
Mitch no entendia por que a me nunca queria adivinhar.
Por que olhava para o pai com tanta amargura e decepo.
Mais tarde  tarde demais  ele entendeu. Ela podia
aguentar a infidelidade. Mas no podia perdoar a negligncia.
Pete Connors era um vendedor natural, mas tambm era um
sonhador que costumava torrar todo o seu dinheiro
investindo em uma inveno aps a outra. Mitch se
lembrava de algumas delas. Houve o aspirador de p que no
precisava empurrar. Ia render milhes. Depois o frigobar
para o carro. Os sapatos de corrida que massageavam a sola
do p. O cabide de roupas que tirava os vincos. Mitch
observava o pai trabalhar em cada novo projeto por semanas
at tarde da noite. Sempre que terminava um prottipo, ele
o "revelava" na sala de estar na frente da me de Mitch.
        E a, Lucy?  perguntava, esperanoso, o rosto iluminado
de orgulho e expectativa, como um menininho. A tragdia
era que Peter Connors amava a esposa. Precisava tanto de
sua aprovao. Se ela tivesse lhe dado essa aprovao, pelo
menos uma vez, talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Mas a resposta dela era sempre a mesma:
        Quanto voc torrou dessa vez?
        Jesus, Lucy, me d um tempo, t bom? Sou um homem de
ideias. Voc sabia disso quando se casou comigo.
        Mesmo? Bem, vou te dar uma ideia. Que tal pagar a nossa
hipoteca este ms?
A me de Mitch costumava dizer que a nica coisa que o pai
conseguia economizar era verdade.
No sexto aniversrio de Mitch, eles j tinham se mudado da
casa em Monroeville. O novo lugar era um apartamento em
Murraysville. Depois, foi Millvale, uma rea cheia de casas
velhas de moleiros. Quando Mitch tinha 12 anos, ele
estavam morando em Hill District, o Harlem de Pittsburgh,
um antro de drogas que cercava o prspero centro da
cidade. Pobres demais para se divorciar, os pais de Mitch se
"separaram". Um ms depois, a me estava com um novo
namorado. Eles acabaram se mudando para a Flrida, para
uma bonita casa com palmeiras no jardim. Mitch decidiu
ficar com o pai.
Pete Connors ficou animado.
        Isso  timo, Mitchy! Vai ser como nos velhos tempos,
s ns dois. Vamos jogar pquer  noite. Dormir tarde aos
domingos. Trazer umas garotas bonitas para c, hein?
Animar um pouco as coisas!
Havia garotas. Algumas at bonitas, mas essas eram pagas. Os
dias de Frank Sinatra de Pete Connors tinham se acabado
havia muito tempo. Ele parecia exatamente o que era: um
trapaceiro cansado com a data de validade vencida. Partia o
corao de Mitch. Conforme o garoto foi crescendo, o pai
comeou a ficar com cimes da beleza do filho. Aos 17 anos,
Mitch tinha o cabelo louro e os olhos azuis da me e as
pernas compridas e os traos fortes e masculinos do pai.
Tambm dele herdou a lbia.
        S estou passando o vero em casa, ajudando meu velho.
Volto para a faculdade de administrao no outono...
        Meu carro? Ah, eu vendi. Minha priminha ficou doente.
Leucemia. Ela s tem 6 anos, pobrezinha. Eu quis ajudar
com as despesas mdicas.
As mulheres acreditavam em tudo.
Helen Brunner era diferente. Tinha 25 anos, uma deusa rui-
va de olhos verdes, e trabalhava para uma instituio de cari-
dade de veteranos de guerra que ajudava os ex-militares
pobres oferecendo refeies e os ajudando em casa. Mitch
nunca soube como o pai convenceu a instituio de caridade
de Helen de que ele fora da Marinha. Pete Connors no
sabia nem nadar. Fotos de barcos o deixavam enjoado. De
qualquer forma, Helen comeou a aparecer no apartamento
trs vezes por semana. Pete ficou louco por ela.
        Aposto que  virgem. D pra notar. S de pensar naque-
les pentelhos ruivos, j fico com teso.
Mitch detestava quando o pai falava assim. A respeito de
qualquer mulher, mas principalmente de Helen. Era
constrangedor.
        Vinte pratas como eu como ela antes de voc.
        Pai! No seja ridculo. Nenhum de ns dois vai comer ela.
        Fale por voc, garoto. Ela quer. Acredite em quem sabe
das coisas. Todas querem.
Helen Brunner no queria. Pelo menos no com um bbado
que dizia ser ex-suboficial da Marinha com idade para ser pai
dela. Mitch, por outro lado... Bem, ele era outra histria.
Helen fora criada como crist. Acreditava na abstinncia.
Mas Mitch Connors estava testando sua f at o limite.
No me deixe cair em tentao. Ao observar Mitch
enquanto ele andava pelo apartamento apertado, sentir os
olhos dele discretamente a fitarem de cima a baixo enquanto
lavava a loua ou arrumava a cama, parecia que Deus a tinha
colocado bem diante da tentao. Mitch se sentia da mesma
forma. Comeou a fazer listas.
Razes para no transar com Helen:
1.        Ela  uma garota legal.
2.        Vou ser atingido por um raio divino durante o ato.
3.        Se Deus no acabar comigo, papai vai.
At que um dia, Helen entrou na lavanderia e encontrou
Mitch s de cueca.
Ela fez uma orao silenciosa. Afaste-me do mal.
Mitch fez a mesma coisa. Pai, me perdoe, pois estou prestes
a pecar.
O sexo foi incrvel. Fizeram em cima da mquina de lavar,
no chuveiro, no cho da sala de estar e, finalmente, na cama
de Pete Connors. Depois, Mitch caiu sobre os travesseiros,
tomado por felicidade. Tentou se sentir culpado, mas no
conseguiu, estava apaixonado.
Helen se sentou de repente.
        No me diga que voc quer de novo?  resmungou
Mitch.
        No. Escutei alguma coisa, acho que  o seu pai!
Helen se vestiu em um segundo. Correndo para a cozinha,
ela comeou a lavar panelas. Mitch, cujas pernas pareciam
ter desenvolvido Parkinson repentinamente, tropeou pelo
quarto, cego de pnico. A porta da frente se abriu.
        Mitch?
Merda. No havia mais nada a fazer. Completamente nu,
Mitch entrou no armrio embutido, fechando a porta. No
fundo do armrio, havia um alapo que levava a uma
pequena rea no telhado. Mitch mal conseguiria passar seu
corpo de 1,80m pelo alapo quando escutou os passos de
Pete no quarto.
        MITCH!  Era um rugido. O velho no era burro. A
combinao do rosto corado e culpado de Helen e lenis
amassados deve t-los denunciado. Mitch escutou a porta da
frente abrir e fechar. Inteligentemente, Helen fora embora.
Como Mitch gostaria de estar com ela!
A porta do armrio se abriu. A luz penetrou pelo alapo.
Mitch prendeu a respirao. Houve uma pausa. Camisas
sendo empurradas nos cabides. Ento, a porta do armrio
fechou.
Graas a Deus. Juro que nunca mais vou transar com nin-
gum na cama do meu pai.
Os passos de Pete Connors voltaram. Ento, de repente,
pararam. O corao de Mitch tambm. Ah, Deus! Por favor!
Ns tnhamos um acordo!
A porta do armrio abriu de novo. Ento, o alapo. Quando
Peter fitou o corpo nu do filho, sentiu na mesma hora o
cheiro de sexo.
        Oi, pai. Voc sabe onde encontro uma toalha?
Dois minutos depois, Mitch estava na rua. Nunca mais viu
seu pai vivo.
 Quero me casar, Mitch.
Helen e Mitch estavam morando juntos havia trs anos.
Com quase 21 anos, Mitch estava ganhando um bom
dinheiro trabalhando em um bar. Helen largara seu trabalho
voluntrio para trabalhar como trainee de bibliotecria trs
vezes por semana, mas no era o que queria. J tinha quase
30 anos e sua vontade era ter um filho.
        Por qu?
        Por qu? Voc est falando srio? Porque estamos viven-
do em pecado, por isso.
Mitch sorriu.
        Eu sei. Mas no tem sido divertido at agora?
        Mitchell! Eu no estou brincando. Quero ter um filho.
Quero fazer um juramento, comear uma famlia, fazer as
coisas de maneira careta. No  isso que voc quer tambm?
        Claro que sim, amor.
Mas a verdade era que Mitch no sabia o que queria. Crescer
vendo os pais brigando o deixara desacreditado no casa-
mento para a vida toda. Amava Helen, esse no era o
problema.
Ou talvez esse fosse o problema. Estar com algum to boa,
to perfeita, o deixava desconfortvel. Mitch tinha muito de
seu pai. Um mentiroso por natureza, flertar estava em seu
sangue. Mais cedo ou mais tarde, eu vou decepcion-la. Ela
vai me odiar, me desprezar pela minha fraqueza. Helen era o
navio, mas Mitch precisava de botes salva-vidas: outras
garotas que podia ter como estepe caso Helen enxergasse a
realidade e percebesse que podia conseguir algum muito
melhor do que um bartender de Pittsburgh.
        Ano que vem  disse ele. Assim que meu pai aceitar a
ideia.  Ele disse a mesma coisa no ano seguinte, e no
outro, ento, em um espao de um ms, aconteceram dois
eventos ssmicos que mudariam sua vida para sempre.
Primeiro, Helen o largou.
Depois, seu pai morreu.
Duas semanas depois de Helen Brunner largar Mitch, Pete
Connors morreu esfaqueado do lado de fora de seu
apartamento. Ele perdeu a vida por causa de um Rolex falso,
uma aliana de casamento barata e 23 dlares em dinheiro.
A me de Mitch, Lucy Connors, compareceu ao funeral.
Estava glamorosa e bronzeada e nem um pouco triste. E por
que estaria? Ela deu um abrao apertado em Mitch.
        Voc est bem, querido? Sem querer ofender, mas voc
est horrvel.
        Estou bem.
Eu no estou bem. Eu devia estar l. Eu o abandonei e agora
ele est morto e eu nunca vou poder me desculpar, nunca
vou poder dizer o quanto o amava.
        Tente no ficar to chateado. Sei que parece cruel, mas
se isso no tivesse acontecido, logo a bebida teria acabado
com ele.
         cruel.
        Eu vi o relatrio da necropsia, Mitch. Sei do que estou
falando. O fgado do seu pai estava igual a nozes em
conserva.
        Cruzes, me!
        Sinto muito querido, mas  a verdade. Seu pai no queria
mais viver.
        Talvez no. Mas certamente tambm no queria que um
drogado enfiasse uma faca em seu corao. Ele no queria
isso. No merecia isso!  A me de Mitch ergueu uma
sobrancelha como se para dizer: h controvrsias, mas ela o
deixou terminar:  E a polcia? O que eles esto fazendo?
Deixaram quem matou meu pai solto por a. Como se a vida
dele no valesse nada.
        Tenho certeza de que fizeram tudo o que podiam, Mitch.
        Papo furado.
Era papo furado mesmo. A polcia de Pittsburgh fizera o
mnimo, que era preencher a papelada sobre o assassinato de
Peter Connors sem fazer o menor esforo para tentar
encontrar o assassino. Mitch prestou um monte de queixas,
todas educadamente ignoradas. Foi quando ele percebeu:
Pessoas como o meu pai no tm a menor importncia. No
final, ele no era diferente daquelas donas de casa que ele
enganava com promessas de uma vida melhor e bons
empregos. Essas pessoas no recebem justia. Os pobres.
Ningum se importa com o que acontece com eles.
Duas semanas depois do enterro do pai, Mitch ligou para
Helen.
        Tomei uma deciso.
        Hm?  A voz dela parecia cansada.
        Vou ser policial. Detetive.
No era o que ela estava esperando.
        Ah!
        Mas no aqui. Preciso ir embora de Pittsburgh. Comear
do zero. Pensei em, talvez, Nova York.
        Que timo, Mitch. Boa sorte.  Helen desligou.
Dez segundos depois, Mitch telefonou de novo.
        Estava pensando se voc no gostaria de vir comigo. A
gente se casaria primeiro, claro. Achei que poderamos...
        Quando? Quando a gente se casaria?
        Assim que voc quiser. Amanh?
Seis semanas depois, eles se mudaram para Nova York como
marido e mulher.
Sete semanas depois, Helen estava grvida.
Deram o nome de Celeste para a filha, porque ela era um
presente dos cus. Helen se realizou na maternidade,
andando pelo minsculo apartamento deles no Queens com
a menina no colo por horas a fio. Mitch tambm amava o
beb, claro, com seu cabelo preto e olhos cinza inteligentes
e questionadores. Mas estava trabalhando muitas horas,
primeiro treinando, depois nas ruas. Geralmente, quando ele
chegava em casa, Celeste estava dormindo no bero e
Helen, apagada no sof, exausta. Imperceptivelmente,
conforme os meses foram passando, Mitch achava cada vez
mais difcil penetrar o casulo de amor que envolvia sua
esposa e filha.
Ele foi promovido e pde alugar um lugar maior para eles
morarem, esperando que isso fosse deixar Helen feliz. Mas
no DEIXOU.
        Ns nunca vemos voc, Mitch.
        Claro que vem. Poxa, meu amor, no exagere.
- No estou exagerando. Outro dia, escutei Sally-Ann
perguntar a Celeste se ela tinha pai.
Furioso, Mitch disse:
        Isso  ridculo. E quem  Sally-Ann?
        Ela  a melhor amiga da nossa filha. Sally-Ann Meyer?
Ela e Celeste esto sempre juntas h dois anos, Mitch.
        Mesmo?
        Mesmo.
Mitch se sentiu mal. Queria passar mais tempo em casa. O
problema, como ele disse para Helen, era que os caras maus
nunca tiravam frias. Assaltantes, drogados, lderes de
gangue, estupradores, eles andavam pelas ruas da cidade
todos os dias, fazendo como vtimas os vulnerveis, pobres,
desprotegidos. Pegando pessoas como o meu pai. Ser
detetive era mais do que o emprego de Mitch. Era sua
vocao, da mesma forma que ser me era a de Helen. E ele
era timo no que fazia.
O divrcio veio do nada, de repente. Mitch chegou em casa
uma noite, esperando encontrar seu jantar na mesa. Em vez
disso, encontrou os papis do divrcio. Helen e Celeste no
estavam mais l. Em retrospecto, ele percebeu que as pistas
estavam claras havia muito tempo. Desde que a economia
implodira, o crime vinha crescendo continuamente. Depois
do colapso do Quorum, o desemprego em Nova York
aumentou e, da noite para o dia, uma situao ruim se
tornou vinte vezes pior. Mitch Connors estava na linha de
frente de uma guerra. No podia simplesmente guardar sua
arma e chegar em casa a tempo para o jantar.
Bem, talvez pudesse. Mas no fazia. Quando percebeu que
sua dedicao exigira em troca seu casamento, j era tarde
demais.
O Departamento de Polcia de Nova York era a vida de
Mitch. Mas isso no significa que ele o adorava. Homens
entravam para a polcia por diferente razes, nem todas
louvveis. Uns curtiam a autoridade que o distintivo lhes
dava. Viciados em poder. Esses eram os piores. Outros
procuravam um senso de camaradagem. Para esses caras, o
departamento era como uma equipe de softball ou uma
fraternidade. Preenchia um vazio na vida deles que
casamento, famlia e amizades civis no conseguiam. Mitch
Connors compreendia esses caras, mas no se inclua entre
eles. Ele no se tornara policial para fazer amigos nem para
se impor sobre seus colegas cidados. Ele entrara para a
polcia como uma forma de reparao pela morte de seu pai.
E porque ainda acreditava que podia fazer a diferena.
Quem quer que tenha matado seu pai tinha sado impune.
Isso no era certo. Culpados mereciam ser punidos. Quanto
a pessoas culpadas ricas, educadas, como Grace e Lenny
Brookstein, esses eram os piores de todos.
Mitch se levantou, chutando a cadeira da tortura de Helen
para longe de seu caminho. Havia algum problema em pegar
case caso. Um lado negativo. Mas qual era?
De repente, percebeu. Claro. O FBI estaria envolvido.
Fazia dois anos desde que a audaciosa fraude dos Brookstein
viera  tona, mas como todos os Estados Unidos sabiam, os
bilhes roubados do Quorum ainda estavam desaparecidos.
Harry Bain, o simptico diretor assistente do FBI em Nova
York, comandava a fora-tarefa para encontrar o dinheiro
desaparecido do Quorum, e at agora no tinha encontrado
nada. Os agentes de Bain interrogaram Grace inmeras vezes
na priso, mas ela se mantivera fiel  sua histria. Ela dizia
que no sabia de nada sobre o dinheiro, e seu falecido
marido tambm no.
Como a maioria dos homens do Departamento de Polcia de
Nova York, Mitch desconfiava do FBI. Com Grace
Brookstein solta, era inevitvel que Harry Bain comeasse a
intrometer o nariz formado em Harvard dele no caso de
Mitch, fazendo perguntas, interferindo com testemunhas,
valendo-se de sua superioridade hierrquica. Como o chefe
de Mitch, de forma to eloquente, colocaria:
 Bain vai ficar grudado no seu rabo como um caso grave
de herpes.  melhor se preparar para se livrar dele.
Mitch estava preparado.
O dinheiro  problema de Harry Bain. Grace Brookstein 
meu. Talvez, se ele capturasse Grace e se tornasse um heri
nacional, Helen o aceitasse de volta. Era isso que realmente
queria? No sabia mais. Talvez ele no tivesse sido feito para
o casamento.
Estava na hora de comear a trabalhar.
Captulo 16
Quando entrou no caminho, o calor atingiu Grace como
um soco.
Seus dedos dos ps e das mos latejavam enquanto a
circulao comeava a voltar. Era bom estar fora da estrada,
mas sabia que no podia confiar em ningum. Quanto tempo
levaria at que sua fuga se tornasse notcia? Horas? Um dia,
no mximo. Talvez j estivesse nas rdios? Logo
distribuiriam sua foto atualizada...
        Para onde voc vai?
Boa pergunta. Para onde ela ia?
Grace olhou para a bssola no painel.
        Para o norte.
O "plano" dela, se  que podia ser chamado de plano, era
encontrar Davey Buccola em trs semanas. Tinham um
encontro marcado em Manhattan: Times Square. Foi Davey
quem convenceu Grace a no ir atrs de John Merrivale
assim que fugisse.
        No arrisque estragar o seu disfarce at que a gente saiba
tudo o que h para saber.  Davey estava convencido de
que estava perto de provar quem tinha matado Lenny.  S
mais algumas semanas. Confie em mim.  A proposta do
lugar e da hora do encontro fora dele. A teoria dele era que a
Times Square era to pblico, to bvio, que ningum
pensaria em procurar Grace l.  Mesmo que algum a
reconhea, achar que  um engano. E se Deus quiser, at l,
ningum vai reconhecer voc. Voc j vai ter tido tempo
para mudar sua aparncia.
Grace preferia encontrar Davey antes, mas ele foi inflexvel.
        S quando eu tiver mais coisa para contar. At eu ter
certeza. Todo encontro  um risco. Precisamos que valha a
pena.
Enquanto isso, Grace encontraria um lugar seguro para ficar,
colocaria a cabea no lugar e, claro, comearia a desenvolver
um disfarce decente. J estava completamente diferente da
mulher que os Estados Unidos conheceram em seu
julgamento. Ningum que conviveu com Grace em seus dias
de glria como a rainha de Wall Street a reconheceria agora.
O nariz quebrado, a pele plida, o cabelo curto e escorrido,
os olhos sofridos e sem brilho; tudo isso a ajudaria a se
proteger nas primeiras horas e dias. Mas Grace sabia que
logo isso no seria o bastante. Precisaria mudar sempre, todo
dia, toda semana, como um camaleo.
No era s a aparncia que precisava mudar. Preciso mudar
por dentro tambm. Mestres do disfarce, assim como atores
bem-sucedidos, aprendiam como se tornar outra pessoa. Eles
projetavam uma autoconfiana, uma credibilidade, que
funcionava mais do que qualquer mscara ou peruca ou tinta
no cabelo. Grace repetira o mantra sem parar nos dias que
precederam sua fuga.
Grace Brookstein est morta.
Meu nome  Lizzie Woolley.
Sou uma arquiteta de 28 anos de Wisconsin.
        Norte, ?
A voz do motorista trouxe Grace de volta  realidade.
        Onde no norte?
Grace hesitou.
        S estou perguntando porque voc no est carregando
nenhuma mala nem nada. E parece que se vestiu para ir para
a Flrida.  Ele riu. Grace notou a forma como ele olhou
para suas pernas descobertas. Instintivamente, ela as cruzou,
puxando a saia para baixo.
        Sa correndo. Minha... irm ficou doente.
Era uma mentira to bvia que Grace corou. O motorista
pareceu no notar.
        Qual  seu nome, doura?
        Lizzie.
        Bonito nome. Voc  realmente bonita, Lizzie. Mas j
deve saber disso, n?
Grace puxou a gola da blusa para cima, procurando mais
algum boto para fechar, mas no tinha mais nenhum.
Aquele cara estava lhe dando arrepios.
Sem avisar, ele desviou para o acostamento, parando de
repente. Grace deu um pulo.
        Desculpe. Preciso mijar.  Soltando o cinto de segu-
rana, ele saiu.
Grace observou enquanto ele desaparecia atrs do caminho.
Sua mente estava a mil.
Devo sair? Correr? No, isso era loucura. Precisava de uma
carona e conseguira uma. Seguiria com ele por uns 80
quilmetros, mais ou menos, depois desceria perto de
alguma cidadezinha. No posso me dar ao luxo de ficar com
medo de qualquer cara que se aproximar de mim.  isso o
que os homens fazem, no ? Ele  legal.
Dois minutos depois, o motorista voltou. Estava carregando
uma garrafa trmica e um pote de plstico cheio de
sanduches. Ele deve ter pegado na traseira do caminho.
 Com fome?
O estmago de Grace roncou alto.
        Estou.
Ele virou a chave e voltou para a estrada.
        Bem, ento sirva-se, Lizzie. Eu j comi, mas a minha
esposa sempre faz a mais.
Ento, ele  casado. Na mesma hora, Grace relaxou.
        Obrigada. Muito obrigada mesmo.
Ela comeou a comer.
Grace acordou na traseira do caminho com o rosto no
cho. Sua saia de l tinha sido puxada at os quadris e sua
calcinha, at os tornozelos. O motorista estava em cima dela,
com as mos entre suas pernas.
        Tudo bem, Lizzie. Boazinha e abertinha. Agora abre pro
papai aqui.
Grace gemeu. Tentou se mexer, mas seu corpo estava pesado
como chumbo. E com o peso extra do motorista em cima
dela, era impossvel. Com a mo livre, ele forou o pnis
para dentro dela.
        No!  Grace no sabia se tinha dito isso alto ou apenas
em sua cabea. No fazia diferena. O homem continuava
entrando, cada vez mais fundo e mais forte. Mas no havia
nada de frentico nos movimentos dele. Ele estava indo
devagar. Satisfazendo-se. Grace sentiu as mos dele subirem,
entrarem por baixo de seu suti at encontrar seus seios.
        E esses peitinhos?  ele estava sussurrando no ouvido
dela, provocando-a. Grace podia sentir os pelos do bigode
dele em seu rosto.
        Est acordada agora, no est, Lizzie? Estou sentindo voc
se mexer l embaixo.  Mais uma penetrao.  Qual  a
sensao, doura?  bom ser comida? Aposto que . Bem,
no se preocupa, Lizzie, a gente tem a noite inteira.
Ele continuou estuprando-a. Incapaz de se mexer, Grace
tentou pensar. Ele deve ter me drogado. A garrafa trmica.
Ele deve ter colocado alguma coisa no ch. Ela imaginou que
horas deviam ser e onde eles estavam agora. No estava
escutando o som de trfego.
Provavelmente estamos em algum lugar escondido. Floresta.
Algum lugar em que ningum vai me escutar gritar.
O que ele faria quando terminasse: a jogaria na floresta, a
mataria? Devagar, a nvoa que tomara conta de sua mente
comeou a clarear. Ansioso para penetr-la, o motorista no
tirara suas roupas, nem os sapatos.
Meus sapatos...
Ao se aproximar do clmax, os movimentos dele estavam
ficando mais rpidos. Grace cerrou os dentes, esperando-o
gozar, mas, de repente, ele parou, saindo de dentro dela e
virando-a para cima como uma boneca de pano. Ao olhar
para o rosto dele, para aqueles olhos asiticos danando com
um prazer sdico, Grace soube: Ele vai me matar.
O estupro era apenas a preliminar.
        Abre a boca  mandou ele.
Grace levantou as pernas, abrindo-as bem e depois
fechando-as em torno das costas dele, puxando-o de volta
para dentro dela.
        Me obrigue.  Ela fitou os olhos dele, as pupilas
dilatando de excitao.
Ele sorriu.
        Ento, quer dizer que voc gosta disso, Lizzie? Melhor
ainda. Vai ser uma noite e tanto.
Ele comeou a transar com ela de novo, mais rpido agora.
Grace apertou suas pernas em volta da cintura dele. Dentro
de seu sapato esquerdo, ela comeou a mexer os dedos at
sentir o estilete de Cora.
 Isso! Isso mesmo, doura!
Grace sentiu os msculos se contrarem nos ombros e nas
costas dele. Ele comeou a ejacular, e ento, de repente, saiu
de dentro dela. Segurando o grotesco pnis com uma das
mos, ele ajoelhou, abrindo a boca dela com a outra mo.
Grace sentiu o jato quente de smen na sua lngua, depois
descendo por sua garganta. Ela engasgou. Ele estava rindo,
com os olhos fechados, perdido no prazer sexual.  agora.
Essa  minha chance. Arqueando as costas, com um nico e
fluido movimento, Grace arrancou seu sapato, agarrou o
estilete, abriu-o e enfiou no meio das costas dele.
Por uma frao de segundo, o motorista continuou ajoe-
lhado, um olhar de choque e perplexidade no rosto. Ento,
ele caiu para a frente, em silncio, a lmina ainda cravada
em suas costas como a corda de um brinquedo. Grace
precisou de toda a sua fora para sair de baixo dele e tirar a
faca. Sangue espirrou do ferimento como gua da torneira.
Grace o empurrou para o lado. Ele estava tentando falar,
mexendo a boca, mas ela s conseguia escutar o sangue
borbulhando. Ela deu um chute forte na virilha dele. Ele j
parecia incapacitado, mas  sempre bom ter mais certeza.
Aps revirar os bolsos dele  procura de dinheiro ou
qualquer outra coisa de valor, ela rapidamente puxou a
calcinha, endireitou suas roupas, se certificando de que o
"kit de sobrevivncia" de Karen com os documentos ainda
estava com ela. Ento, foi para a frente do caminho e pegou
as chaves e o casaco grosso que ele estava usando quando
lhe dera carona.
Pronto.
Indo de novo para a traseira do caminho, Grace abriu a
porta. O motorista ainda estava vivo, mas por pouco tempo.
Embaixo dele, a poa de sangue estava ficando maior, como
uma poa de chuva vermelha. Quando ele viu o estilete na
mo de Grace, arregalou os olhos.
 No!  murmurou ele.  Por favor...
Sua inteno era terminar o trabalho. Cravar a faca no
corao dele, bem fundo, como o pnis doentio de
estuprador dele, at que estivesse morto. Mas ao v-lo
implorar por misericrdia, escutando-o suplicar pela vida de
forma pattica, Grace mudou de ideia.
Por que permitir que ele morra rapidamente? Ele no
merece.
Vou deixar o cretino onde est. E deix-lo sangrar at mor-
rer, devagar e sozinho.
Grace fechou o estilete, virou-se e saiu correndo.
GRACE levou duas horas at chegar aos arredores da
cidadezinha mais prxima. As placas na estrada diziam que
se chamava Richardsville, no condado de Putnam. O dia
estava amanhecendo. Uma faixa de luz laranja abrindo
passagem pelo cu negro da noite. De tempos em tempos,
durante a longa caminhada, Grace escutara o inconfundvel
som de helicpteros no cu. J esto me procurando. Ser
que eles tinham encontrado o motorista do caminho? Se
eles estavam perto? A adrenalina corria pelo seu corpo
ferido, junto com uma torrente de sentimentos conflitantes:
nojo. Terror. Dor. Fria. Ela tinha sido estuprada. Ainda
podia sentir o homem repugnante dentro dela, ferindo-a,
violando-a. Ela tambm tinha matado um homem. Pensando
no medo que ele iria sentir enquanto a vida se esvasse dele,
sozinho naquela assustadora floresta, Grace reconheceu um
outro sentimento que no lhe era familiar: dio. No se
arrependia do que tinha feito. Mas todos os seus sentimento
e pensamentos estavam sendo eclipsados por uma sensao
dominante: exausto. Precisava dormir.
O Up All Night, um hotel de beira de estrada, parecia sado
de um filme de terror. Na frente, um letreiro de neon que-
brado piscava prometendo luxuosos banheiros individuais e
televiso colorida em todos os quartos! Dentro, o homem
mais velho que Grace j vira na vida roncava tranquilamente
na mesa da recepo. O rosto retorcido dele era coberto de
rugas e seu corpo parecia uma relquia encolhida. Ele fez
Grace se lembrar de algum: Yoda.
        Com licena.
Ele acordou com um pulo.
        Posso ajudar?
        Quero um quarto, por favor.
Yoda olhou Grace de cima a baixo. Ela sentiu seu estmago
derreter. Ele est me reconhecendo? Estava to nervosa que
seus dentes tremiam, mas podia justificar isso com o frio.
Tentara fazer sua voz soar autoritria e firme quando pediu o
quarto, mas o que saiu foi um suspiro amedrontado. Ser que
ele est percebendo que fui atacada? Ser que est sentindo o
cheiro do cretino em mim? Talvez eu no deva ficar aqui.
Devo seguir em frente? Mas sabia que estava exausta demais
para continuar.
O velho, porm, parecia mais irritado com a presena dela
do que interessado. Aps uma longa pausa, ele rosnou:
        Vem comigo  E levou-a por um corredor longo e sem
graa. No final, havia uma porta sem nmero.  T bom a?
Havia uma cama de solteiro, arrumada com lenis de
polister, cortinas de tecidos florais e um carpete cor de caf
coberto de manchas. Em um canto, havia uma minscula
televiso pendurada na parede. Ao lado, a porta do "luxuoso
banheiro individual" estava aberta, mostrando um luxuoso
vaso sanitrio individual sem assento ou tampa e um luxuoso
boxe individual com lodo entre os azulejos.
        Est bom. Quanto lhe devo?
        Quanto tempo vai ficar?
        No sei ainda.  De repente, se conscientizando de sua
aparncia desgrenhada e do fato de que no tinha bagagem,
Grace disse:  Briguei com meu namorado, sa correndo.
Yoda deu de ombros, entediado.
        Vinte dlares por esta noite.
Grace colocou uma nota na mo dele, e ele foi embora.
Trancou a porta e fechou as cortinas. Tirou toda a sua roupa
e foi para o banheiro. Ento caiu de joelhos, debruou-se no
vaso e vomitou. Quando seu estmago estava vazio,
levantou-se e foi para o chuveiro. Embaixo dos jatos fracos
de gua, ela se esfregou com o sabonete usado at sua pele
sangrar. Ainda podia sentir as mos imundas do motorista
em seus seios, o smen de estuprador dele em seu rosto, na
sua boca. Na traseira da van havia duas garrafas de gua
mineral que ela tinha usado para se lavar da melhor forma
que pde horas antes, para no levantar suspeitas. Na longa
caminhada at ali, se forara a se concentrar no banho que a
esperava, em ficar limpa. Mas ela sabia que nunca mais
ficaria limpa de novo.
Ao se secar, Grace teve nsia de vmito de novo, mas no
havia mais nada dentro dela para colocar para fora. Ela foi
para o quarto e mergulhou na cama. Era um quarto quente.
Recostando-se no travesseiro barato de espuma, ligou a
televiso e viu seu rosto estampado l. Ou melhor, seu rosto
como ele j fora, havia muito, muito tempo.
Ento j se tornou pblico. Pelo menos, eles esto usando
uma foto antiga. A primeira coisa que vou precisar fazer
amanh de manh  providenciar um disfarce antes que
divulguem uma foto nova.
O ncora estava falando.
        Notcia de ltima hora: Grace Brookstein fugiu de uma
penitenciria de segurana mxima do estado de Nova York.
Brookstein, viva do bilionrio Lenny...
A reportagem continuou, mas Grace no escutou. Nunca se
sentira to cansada em toda a sua vida. O sono a envolveu
como cobertores de cashmere. Fechou os olhos e deixou
que ele a levasse.
GAVIN WILLIAMS estava gritando:
        Vocs esto cegos?  isso!  a brecha de que estvamos
precisando. Grace vai nos levar diretamente para o dinheiro!
Gavin Williams, Harry Bain e John Merrivale estavam
tomando caf da manh no antigo prdio do Quorum. Era a
manh seguinte  fuga de Grace e a notcia estava em todos
os jornais.
Harry Bain balanou a cabea.
        Duvido. Mesmo se ela soubesse...
        Ela sabe onde est.
        Mesmo se soubesse, no chegaria to longe. A polcia de
Nova York inteira est atrs dela. Aposto que ela vai estar
atrs das grades no final do dia de hoje. Ou isso ou algum
policial com o dedo pesado vai atirar nela.
        No! No podemos deixar isso acontecer!  No era
comum Gavin Williams se descontrolar, mas ele parecia
prestes a chorar.  Grace Brookstein continua sendo a
chave para o nosso caso. Precisamos assumir o controle.
Temos que insistir para que a polcia de Nova York entregue
a investigao para o FBI.
Harry Bain riu.
        Ah, claro. Vou insistir. Tenho certeza de que o chefe de
polcia vai adorar isso.
Gavin Williams olhou para John Merrivale em busca de
apoio. Mas,  claro que John s fitou os sapatos, como o
covarde que era. Furioso, Gavin Williams se levantou e saiu.
John Merrivale disse:
        Sei que no  meu pa-papel dizer isso. Mas acho que
talvez o estresse desse caso esteja sendo pesado demais para
o agente Williams.
Harry Bain concordou.
        Voc est certo. Vou transferi-lo. Grace Brookstein se
tornou uma obsesso. Isso est atrapalhando o julgamento
dele. A fuga dela  uma distrao e no podemos nos dar a
esse luxo.
        Exatamente.
John Merrivale respirou aliviado.
No descansaria em paz at que Grace fosse capturada. Ou
melhor, levasse um tiro. A notcia da fuga dela o abalara
demais. Mas a reunio de hoje fora tranquilizadora. Com
Gavin Williams fora de cena, seria ainda mais fcil levar Bain
e sua equipe para a direo errada. Eles acabariam ficando
sem energia, ou dinheiro, ou ambos, e cancelariam a
investigao. Ento, finalmente, ele estaria livre. Livre para
ir embora de Nova York, para largar Caroline. Uma vida sem
correntes! No final, tudo teria valido a pena.
        Vo-voc acha que vo encontr-la rpido?
Harry Bain disse:
        Tenho certeza. Ela  Grace Brookstein, pelo amor de
Deus. Onde vai se esconder?
EM SEUS SONHOS, Grace escutou algum batendo na porta, de
maneira fraca, mas rpida e insistentemente, como um pica-
pau a distncia. O barulho ficou mais alto, mais prximo. Ela
acordou.
Tem algum na porta!
Levantando da cama de um pulo, ela pegou seu estilete e se
enrolou no lenol, tropeando na escurido at a porta.
        Quem ?
         eu.
Yoda. Grace abaixou o estilete e abriu um pouco a porta.
        Vai ficar mais uma noite?
A luz do corredor a deixou cega. Grace piscou.
        Como?
        Perguntei se vai ficar mais uma noite. J  meio-dia. O
check-out  daqui a meia hora. Se no for ficar, tem que sair
do quarto at l.
        Ah. No. Vou ficar.
        Vinte dlares.
Grace pegou mais uma nota do rolo que Karen lhe dera e a
entregou para o velho. Ele pegou sem dar nenhuma palavra,
voltando para sua mesa na recepo como um besouro
decrpito.
Meio-dia! Meu Deus! Eu devia estar apagada mesmo. Grace
abriu a cortina, depois fechou de novo. Claro demais. Jogou
gua gelada no rosto, vestiu suas roupas  fediam ao
cretino, mas era tudo o que tinha. Compraria roupas novas
naquele dia. A televiso estava ligada desde a noite anterior.
Grace aumentou o volume. Daquela vez, a matria era sobre
economia. Mas poucos momentos depois, seu rosto estava
de volta  tela, agora, a foto que tiraram no dia em que
entrou em Bedford Hills. Ainda no se parece nada comigo.
A ncora estava falando:
        Grace Brookstein est desaparecida h 17 horas e at
agora a polcia no tem nenhuma pista. O detetive Mitch
Connors, que est conduzindo as investigaes sobre a fuga
de Grace Brookstein, est aqui comigo. Detetive, as pessoas
j esto dizendo por a que o senhor e sua equipe esto
perdidos. Acha que  uma declarao justa?
Um policial louro e atraente respondeu:
        No, Nancy, no acho justa. Estamos seguindo diversos
caminhos. Essa investigao comeou apenas h algumas
horas. Acreditamos que a presidiria ser capturada
rapidamente e estamos trabalhando para conseguir isso.
Grace analisou o rosto do policial. O detetive Mitch Connors
parecia ter sido desenhado por um cartunista da Marvel
Comics, maxilar bem quadrado e firme, olhos azuis.
Fisicamente, ele a lembrava de uma verso mais rstica de
Jack Warner. Mas a expresso dele no parecia nem um
pouco com a de Jack. Talvez parecesse mais com a de
Lenny. So os olhos dele. Ele tem olhos generosos.
Ele ainda estava falando.
        Grace Brookstein e o marido trouxeram um enorme
sofrimento a milhares de pessoas, principalmente aqui em
Nova York. Acredite em mim, Nancy, ningum quer ver
essa mulher condenada de volta  cadeia mais do que eu.
No se engane. Ns a encontraremos.
Grace desligou a televiso.
O detetive Connors pode ter olhos generosos, mas ele  meu
inimigo.
No podia se esquecer disso.
NAQUELA TARDE Grace caminhou at a cidade. Era tudo o
que podia fazer para que seus dentes parassem de tremer,
considerando que seu rosto estava em todos os noticirios e
que a qualquer momento algum poderia reconhec-la e
entreg-la para as autoridades. Mas no podia se esconder no
hotel barato para sempre. Precisava de algumas coisas, e
tinha de sair de Richardsville. Karen e Cora tinham lhe
prevenido sobre os perigos de ficar muito tempo em um
lugar s.
Escondida dentro da jaqueta do motorista, Grace andou
pelos corredores do Walmart com a cabea abaixada. No
caixa, seu corao batia to forte que ela achou que fosse
desmaiar. Felizmente, a adolescente mal-humorada que
trabalhava ali parecia mais interessada na lasca que sara de
uma de suas unhas de acrlico do que na cliente nervosa ou
nas suas compras.
        Oitenta e oito dlares; dinheiro ou carto?
        Dinheiro.
        Obrigada, bom-dia.
A garota nem levantou os olhos. Quando Grace voltou para
seu quarto no Up All Night, j eram quase 16 horas. Trancou
a porta e esvaziou as sacolas do Walmart em cima da cama:
tinta de cabelo, tesoura, maquiagem, desinfetante, calcinha,
suti, um pacote com trs camisetas, jeans, um gorro e uma
bolsa de ginstica cinza.
Ps mos  obra.
O VELHO DA RECEPO analisou a foto no jornal. Seus
olhos no eram mais os mesmos.
Podia ser?
O nariz da garota era diferente. E o cabelo. Ainda assim,
definitivamente, elas eram parecidas. Ela tinha chegado no
meio da madrugada, sem nenhuma mala. Ele olhou o jornal
de novo. O policial na televiso disse para notificar qualquer
coisa suspeita, por mais trivial que parecesse.
O velho pegou o telefone.
Grace olhou-se no espelho quebrado do banheiro. Mas no
era ela. Era outra pessoa, a primeira de suas quatro
identidades. Lizzie Wooley.
Ol, Lizzie.
Cuidadosamente, Grace limpou todos os rastros de tinta e
mechas de cabelo que tinham cado no cho, jogou-os em
uma sacola vazia do Walmart junto com uma caixa da tinta e
suas roupas velhas, amarrou-a pelas alas e enfiou dentro de
sua bolsa. Vestiu-se rapidamente. As roupas limpas lhe
causaram uma sensao maravilhosa. Por um momento,
Grace pensou em sua antiga vida e sorriu. Naquela poca, ela
nunca poderia imaginar que, algum dia em sua vida, uma
cala jeans do Walmart lhe pareceria um luxo! J gastara dois
teros do dinheiro que Cora e Karen tinham lhe dado. Logo,
teria de entrar em contato por e-mail com o "amigo"
misterioso de Karen e pedir mais. Cora lhe assegurara que
receber dinheiro pelo correio era annimo e fcil. S
precisava ir a um dos vrios postos, apresentar a identidade
falsa e pegar o dinheiro.
         como todos os imigrantes ilegais deste pas pagam o
aluguel, querida. O trabalho deles  no fazer perguntas.
Mesmo assim, Grace esperava no precisar ter de fazer isso
com muita frequncia.
Ela vira os horrios dos nibus mais cedo. O nibus seguinte
para a cidade saa s 18h15.
Tempo suficiente.
O velho bateu  porta.
Ningum respondeu. O oficial McInley, o melhor e nico
de Richardsville, parecia irritado.
        Achei que voc tinha dito que ela estava aqui com
certeza.
McInley soube no momento em que o Velho Murdoch
ligou que isso no daria em nada. Grace Brookstein,
hospedada no Up All Night? At parece. Ela provavelmente
estava dividindo um quarto com Caco, o sapo, e o coelhinho
da Pscoa. Todo mundo em Richardsville sabia que
Murdoch j estava senil havia anos.
        Ela t aqui, ora. Eu vi ela entrar com meus prprios
olhos, e ela num saiu mais. Deve t dormindo.
Pegando a chave-mestra no cinto, o homem destrancou a
porta.
        Senhorita?
O quarto estava vazio. No apenas vazio, mas impecvel. A
cama estava feita, as superfcies limpas. Parecia que ningum
se hospedava ali fazia semanas.
O oficial McInley revirou os olhos.
        Ela tava aqui, t te dizendo. Duas noites. Juro por Deus.
Deve ter fugido pela janela.
        A-h.  Em um macaco voador.  Bem, se voc vir a
mulher outra vez, primeiro tenha certeza, depois nos avise.
Captulo 17
Maria Preston entrou como que flutuando no restaurante
Caprice, no sexto andar do hotel Four Seasons de Hong
Kong. Usando uma tnica de chiffon e as prolas recm-
compradas no distrito de jias da cidade de Canto, ela
sacudiu o jornal para o marido.
        Voc viu isso, Andy?
        Vi o qu, meu amor?
        Grace Brookstein fugiu da priso!
Andrew Preston ficou branco.
        Fugiu? Como assim, fugiu? No  possvel.  Pegando o
jornal, ele leu a matria da primeira pgina.
Uma enorme operao policial foi armada ontem  noite em
Nova York depois que a golpista condenada Grace
Brookstein aparentemente fugiu de uma penitenciria de
segurana mxima no Condado de Westchester. Acredita-se
que Brookstein, uma das mulheres mais famosas dos Estados
Unidos, tenha roubado mais de 70 bilhes de dlares em
uma conspirao comandada por seu marido, Leonard...
        D para acreditar?  Maria riu enquanto se servia de um
grande copo de suco de laranja.  Fugiu da priso. Parece
coisa de Desperate Housewives. Daqui a pouco, vo encon-
tr-la desmaiada no banheiro com amnsia e os vinte lti-
mos anos nunca aconteceram! Voc acha que vo conseguir
peg-la?
Andrew estava perplexo demais para falar. Isso era um
desastre. Uma catstrofe. Justo agora que achava que o
pesadelo tinha ficado para trs, Grace tinha de reaparecer
assim e reabrir velhas feridas. Maria parecia achar que isso
era algum tipo de piada. Mas por que no acharia? Ela no
fazia a menor idia do estresse pelo qual ele vinha passando.
Contanto que tivesse dinheiro para gastar  a viagem para
Hong Kong j custara mais de 40 mil dlares, no incluindo
a quantia astronmica que Maria "investira" em prolas ,
ela estava feliz. O que importava se Andrew no dormia
bem havia um ano? Se ele deitava na cama deles, na sute
presidencial de 12 mil dlares por noite com vista para
Victoria Harbour e Kowloon Bay, se contorcendo com
dores no estmago e enxaquecas terrveis, assombrado por
pesadelos envolvendo Lenny Brookstein e o rosto terrvel e
cheio de cicatrizes de um homem chamado Donald
Anthony Le Bron? Se no fosse por Maria, nunca teria feito
o que fez. Nunca teria trado um amigo, nunca teria se
tornado um ladro, nunca teria se associado a tipos como Le
Bron. E, ainda assim, no podia contar para ela.
Simplesmente no podia.
O mais angustiante de tudo era a perda de cabelo. No ltimo
Natal, o cabelo de Andrew comeara a cair em tufos, como
um cachorro sarnento. Ele entrou em pnico. Estou me
desfazendo. Literalmente.  o comeo do fim.
Graas a Deus foi John Merrivale quem precisou ficar com o
FBI, e no ele. O estresse teria acabado com ele. Andrew
ainda podia ouvir a voz de John Merrivale em sua cabea,
repetindo seu mantra:
        Mantenha a nossa histria e voc vai fi-ficar bem. Ns
dois vamos.
At agora, tinha dado certo. Mas a fuga de Grace mudava
tudo.
        Andy, voc est me escutando? Eu perguntei se voc acha
que eles vo conseguir captur-la?
        Tenho certeza que sim.  Eles tm que captur-la.
        O que que voc acha que vai acontecer com ela, depois?
        No sei. Acho que devem lev-la de volta para a priso.
Andrew pensou em Grace Brookstein, a menina doce e
ingnua com quem convivera por tantos anos. Pobre Grace.
Ela era a nica vtima inocente de toda essa histria.
Infelizmente, isso era o que acontecia com carneirinhos
inocentes. Eram levados para o abate.
Maria bebericou seu suco de laranja contente.
        No fique com essa cara horrvel, Andy. At parece que
a polcia est atrs de voc, e no dela. Agora, me d o
jornal. Tem um lindo vestido Balenciaga no caderno de
moda. Acho que vou mandar copiar,
JACK WARNER VIU a notcia na televiso. Estava em um bar
com Fred Farrel, seu gerente de campanha, discutindo sua
estratgia de reeleio. Quando viu o rosto de Grace na tela
da televiso, engasgou com o pistache.
        Minha me do cu! D para acreditar nisso?
Fred no podia. As pessoas no fugiam de lugares como
Bedford Hills assim. No na vida real. Muito menos, esposas
"TROFU" louras e lindas como Grace Brookstein.
        Voc vai ter de fazer uma declarao.
A brilhante mente poltica de Fred Farrel j estava a mil.
Aquele no era um bom momento para o escndalo do
Quorum voltar  tona para assombr-los. Grace
provavelmente seria capturada em poucas horas, mas isso
renovava o interesse da mdia no caso Brookstein, o que
poderia levar meses. Jack no podia ser arrastado para dentro
disso.
        Vou escrever alguma coisa. Enquanto isso, v para casa e
fique l.
Jack Warner foi para casa. Durante a viagem de uma hora
at Westchester, ele colocou os pensamentos em ordem.
Fred Farrel no sabia nem da metade. Sabia sobre as dvidas
de jogo e da recusa de Lenny Brookstein em pag-las. Mas
Jack Warner tinha alguns outros esqueletos em seu armrio
alm do jogo. Segredos explosivos que podiam destru-lo e
dar um fim s suas esperanas polticas.
Lenny sabia a verdade. Mas Lenny est morto, queimando
no inferno, que  onde ele merece estar.
A questo era se ele tinha levado o que sabia com ele para o
tmulo? Ou se tinha contado para a sua amada esposa?
Enquanto Grace estava trancada na priso, isso no
importava. Mas agora ela estava solta, correndo pela prpria
vida. Descontrolada, com nada a perder.
No posso deixar aquela vadia me destruir. E no vou.
Honor correu para a entrada para encontr-lo. Os olhos dela
estavam vermelhos e inchados. Era bvio que ela tinha
chorado.
        Ah, Jack! Voc viu os jornais?
        Claro que vi.  Ele a empurrou para dentro. A imprensa
poderia chegar a qualquer momento.  Pelo amor de Deus,
se controle. Por que est chorando?
Honor no sabia. Sempre invejara Grace, se ressentira com
ela, chegara at a odi-la. Ao mesmo tempo, a condenao
de sua irmzinha a perturbava. Grace era to capaz de
participar de uma fraude sofisticada quanto de trocar um
pneu ou preencher uma declarao de imposto de renda.
Honor sabia disso melhor do que ningum. Eu devia ter
deposto a favor dela no julgamento. Ou, pelo menos, ter ido
visit-la na priso. Mas no fui. Eu fiz o que Jack me mandou
fazer. Eu sempre fao o que Jack manda.
        Disseram na televiso que ela pode at levar um tiro. Que
o pblico em geral  um risco maior para ela do que a
polcia.
        E da?  Jack no estava interessado nos problemas de
Grace. Estava interessado nos seus.  Fred est escrevendo
um pronunciamento para mim. At l, quero que voc e as
crianas fiquem em casa. No fale com ningum sobre
Grace. Entendeu?
Honor assentiu.
        Se ela tentar entrar em contato com voc, deve me avi-
sar imediatamente. No  polcia, mas a mim.
        Sim, Jack.
Ele comeou a subir as escadas. Ela chamou:
        Jack? Por que voc acha que ela fez isso?
        Como assim?
        Por que ela fugiu? Ela devia saber do risco em que estava
se colocando. Sem mencionar que assim ela acaba com
qualquer chance para uma apelao. Apenas me parece to...
imprudente. To pouco caracterstico dela.
Jack Warner deu de ombros.
        Talvez ela tenha mudado. A priso muda as pessoas,
sabia?
Assim como a poltica, pensou Honor. Olhou-se no espelho
do corredor e estremeceu. No reconheceu a pessoa que se
TORNARA.
- FUGIU? Meu Deus!
Michael Gray tinha passado o dia em seu novo barco, um
presente de aniversrio de casamento de Connie. No
soube da notcia at se sentar  mesa para jantar.
        Eu sei. Nunca diria que ela faria algo assim. Escondida
em um caminho de entrega, d para acreditar? E dizem que
 "segurana mxima".
Michael pareceu triste.
        Voc acha que ns devamos... no sei, tentar ajud-la de
alguma forma?
Connie arregalou os olhos.
        Ajud-la? O que voc est querendo dizer? Como
poderamos ajud-la? Sendo mais especfica, por que
deveramos ajud-la depois do que ela fez?
Michael Gray amava a esposa e cedia s opinies dela sobre a
irm. Mas nunca se sentira  vontade com todo mundo
lavando as mos e virando as costas para Grace depois do
julgamento. Na poca, no lhe pareceu certo. Agora, de
alguma forma, parecia menos certo ainda.
Tanta coisa tinha acontecido desde a maldita viagem para
Nantucket um ano e meio atrs. Naquela poca, Grace e
Lenny tinham tudo: um casamento perfeito, fortuna, e ele e
Connie no tinham nada. Michael Gray no tinha se
esquecido daqueles dias sombrios. Perder seu emprego na
Lehman foi como perder o pai ou a me. A Lehman
Brothers era muito mais do que um empregador. Dera a
Michael sua identidade, seu valor. Quando a empresa faliu,
foi como a morte. Mas Michael no teve tempo para ficar de
luto. Foi atingido por uma crise aps a outra, vendo suas
economias desaparecerem, depois a casa. O pior de tudo foi
a distncia crescente entre ele e Connie. Michael Gray
sentia que seria capaz de enfrentar qualquer coisa com o
apoio da esposa. Mas a cada golpe, Connie se afastava mais
dele. At a forma como ela olhava para ele naquela poca,
to decepcionada, to enojada, quase como se o que tinha
acontecido fosse culpa dele, como se ela o culpasse pelo
sofrimento deles... S de lembrar j comeava a suar frio.
Tudo isso fora h apenas 18 meses, mas parecia em outra
vida. Desde ento, passaram pelo colapso do Quorum, a
morte de Lenny, a priso de Grace, o julgamento... E agora
isso. Era surreal. Conforme a sorte de Grace comeou a ir
embora, alguma corda invisvel pareceu comear a levantar
a vida de Michael e Connie, para fora da lama e de volta para
o calor do sol. Michael conseguiu um emprego em um
pequeno escritrio de consultoria. O salrio no era timo,
mas ele tinha participao acionria. Mais importante, ele
tinha uma razo para se levantar da cama todos os dias. Isso
no tinha preo. Connie se tornou menos distante e mais
carinhosa. A decepo sumiu. Em seu lugar, apareceu o
velho olhar de amor, aquela combinao nica de confiana,
desejo e respeito que fazia Michael achar que podia mover
montanhas. Ele a amava tanto.
Ela  a minha fora e a minha fraqueza. Eu morreria por ela
e mataria por ela. E ela sabe disso.
Mas o melhor ainda estava por vir. Alguns meses depois que
Grace comeou a cumprir sua pena em Bedford Hills, o
advogado de Connie a chamou para uma reunio.
Aparentemente, algum parente idoso e distante tinha
deixado para ela alguma coisa no testamento. Michael
esperara algumas aes ou talvez uma jia.
Na verdade, sua esposa recebera 15 milhes de dlares.
Naquela noite, ela fez amor com ele com uma paixo que
Michael no via desde que tinham se casado. Ele at
brincou:
        Acho que ser uma mulher rica combina com voc,
amor. Connie sorriu.
        Acho que sim. Vamos comprar uma casa nova, Mike. Esta
casa tem muitas recordaes dolorosas.
        Ei, mas tambm tem muitas recordaes boas, no tem?
Foi aqui que as crianas nasceram. Voc realmente quer sair
daqui?
Connie no hesitou:
        Quero sim. Quero um recomeo. Para todos ns. Sem
olhar para trs.
Eles venderam a casa.
 No posso acreditar que voc realmente queira ajudar
Grace. De onde tirou essa idia?
Eles estavam na sala de estar da casa nova. Connie fizera
todo o possvel naquele Natal, decorando toda a casa em
branco e prata. Sendo uma mulher tradicionalista, se
recusava a tirar qualquer enfeite antes da noite de Reis. Ao
voltar para casa, Michael sentia como se estivesse entrando
na gruta do Papai Noel.
        No sei. De nenhum lugar especfico. Ns temos tanto, s
isso.
        E Grace no tem?  Connie riu amargamente. Sempre
que conversavam sobre Grace ou Lenny, o dio dela parecia
ressurgir, como um demnio enjaulado quando era solto. 
Aquele dinheiro do Quorum est em algum lugar, Mike. O
FBI tem certeza de que a pobre Grace sabe onde ele est.
Quem somos ns para dizer o contrrio?
Mike queria dizer a famlia dela, mas no disse. Tinha medo.
Ao ver o medo nos olhos dele, Connie se acalmou.
Bom. Ele no vai forar esse assunto. Ele me ama demais.
Connie estava estarrecida com a fuga da irm. A Grace que
ela conhecia nunca teria a audcia para planejar nada to
ousado, muito menos passar a perna na polcia. Bem no
fundo, Connie sabia que Grace no tinha nada a ver com o
roubo dos bilhes do Quorum.
Ela no est atrs do dinheiro.  alguma outra coisa.
Da verdade, talvez?
Mike ainda no fazia ideia do envolvimento de Connie com
Lenny Brookstein. Nem questionara a herana misteriosa.
Ele  to crdulo. Como Grace. Connie queria que as coisas
continuassem assim.
Passando os braos em volta do pescoo de Michael, ela
sussurrou:
        Quero que sejamos felizes, querido. Deixar o passado para
trs. Voc no quer?
        Claro que quero, meu amor.  Ele a abraou com fora.
        Ento, no vamos mais falar sobre ajudar Grace. Esse
caplulo das nossas vidas est encerrado.
Captulo 18
Estar em Nova York de novo, revisitando os locais e
sentindo os cheiros, no era bem como estar de volta
 sua casa. Ela se sentia mais segura na cidade. Sua
nova aparncia tambm ajudava: cabelo bem curto,
cor de chocolate, maquiagem escura, roupas largas e
masculinas. Uma garota em Bedford Hills lhe dissera
que mudar a maneira de andar alterava drasticamente
a percepo das pessoas. Grace passara horas aper-
feioando um modo de andar menos feminino, com
passos longos. Ainda ficava nervosa ao ver seu "antigo
rosto" em todas as televises e bancas de jornal. Mas
conforme os dias foram passando, ela ficou mais
confiante com a combinao do seu disfarce e do
anonimato que a multido da cidade lhe oferecia, pelo
menos.
No seu segundo dia na cidade, ela se aventurou em
um pequeno cibercaf e mandou um e-mail para o
endereo que Karen lhe dera usando o cdigo
especificado: 200011209LW. Grace esperava que isso
significasse, "por favor, mande 2 mil dlares para o
CEP 11209 em Nova York no nome de Lizzie
Wooley", mas ainda tinha medo que alguma coisa
desse errado. Dois mil era muito para pedir ou pouco?
Um pouco tarde demais ela percebeu que no fazia
idia se o amigo de Karen tinha muito dinheiro ou
no, ou quanto estava disposto a mandar para ela. Por
outro lado, no queria se arriscar a precisar fazer isso
toda semana, no com metade da polcia do pas atrs
dela.
Na verdade, pegar o dinheiro foi to tranquilo quanto
Cora dissera que seria. Havia um balco dos correios
na farmcia da esquina. Um homem gordo e
deprimido de mais ou menos 40 anos olhou a
identidade de Grace e, sem nem mesmo fazer contato
visual com ela, muito menos examinar seus traos,
entregou a ela um envelope cheio de dinheiro e um
recibo.
 Aqui est, Srta. Wooley. Tenha um bom dia.
Grace comeou a pensar menos em ser capturada e
mais em seu iminente encontro com Davey Buccola.
Davey vinha pesquisando os libis de todo mundo que
ela e Lenny convidaram para Nantucket naquele
maldito final de semana. Ainda no parecia muito real
para Grace a idia de que os Preston ou os Merrivale
ou mesmo uma de suas irms tivessem feito algo to
terrvel: roubado todo o dinheiro, matado Lenny,
causado a sua priso e sado impune. Mas que outra
explicao havia? Esperava que quando visse o
resultado concreto da pesquisa de Davey Buccola,
tudo ficasse mais claro. Tudo dependia desse
encontro.
Sozinha no minsculo estdio, Grace pegou vrios
recortes de jornais e os arrumou em cima da cama.
Ali estavam todos: Honor e Jack, Connie e Mike,
Andrew e Maria, e, claro, John e Caroline. Entre eles,
esses oito rostos continham a chave para a verdade.
Ao lado deles, um pouco afastado, Grace colocou uma
nona foto: a do detetive Mitch Connors, o homem
cujo dever era captur-la. Definitivamente, ele era
atraente. Grace se pegou perguntando se ele era
casado e se amava a esposa tanto quanto ela amara
Lenny.
 claro que ele acabaria conseguindo captur-la. A
sorte dela no duraria para sempre. Mas isso no
importava para Grace. O que importava era fazer o
que tinha de fazer.
Fechando os olhos, ela falou com Lenny, suas
palavras meio promessa, meio orao:
CONSEGUIREI FAZER ISSO, MEU AMOR. FAREI POR NS DOIS.
VOU DESCOBRIR QUEM O TIROU DE MIM E FAZ-LO PAGAR.
PROMETO.
Ela dormiu e se sentiu mais forte.
- Mais ch, detetive? Meu marido deve chegar a
qualquer momento.
Honor Warner estava visivelmente nervosa. Mitch
percebeu como as mos dela tremiam ao levantar o
bule de prata da bandeja. Lquido marrom e quente
respingou por toda a toalha branca que cobria a
mesinha.
        No, obrigado, Sra. Warner. Foi a senhora mesma
quem eu vim ver. Sua irm tentou entrar em contato
com a senhora depois da fuga?
        Entrar em contato comigo? No, de forma alguma.
Se Grace tivesse ligado, eu teria avisado a polcia
imediatamente.
Mitch virou a cabea para o lado e sorriu de forma
simptica.
        Teria mesmo? Por qu?
Aquela mulher o deixava intrigado. Ela era irm de
Grace Brookstein. Em determinada poca, para todos
os fins, haviam sido prximas. Elas at se pareciam.
Mas quando Grace perdeu tudo, Honor Warner
desapareceu.
        Como assim? No entendi.
        S estou querendo dizer que Grace  sua irm 
explicou Mitch.  Seria compreensvel se a senhora
quisesse ajud-la. No seria errado.
Isso pareceu abalar Honor. Ela olhou em volta, como
se procurasse uma forma de fugir. Ou talvez estivesse
procurando microfones ou cmeras escondidos? Ser
que ela achava que estava sendo observada? Ela
acabou dizendo:
        Grace fez muitos inimigos, detetive. Ela est
correndo mais perigo fora da priso do que dentro.
Estou pensando na segurana dela.
Mitch se esforou para no rir. AT PARECE.
        A senhora no foi ao julgamento.
        No.
        Pelo que estou sabendo, a senhora nunca visitou
sua irm em Bedford Hills.
        No.
        Por qu?
        Eu... meu marido... ns achamos que seria melhor
assim. Jack trabalhou tanto para chegar onde ele est
hoje. Se os eleitores o associarem ao Quorum... bem.
O senhor entende.
Mitch no fez o menor esforo para esconder seu
nojo. Entendia perfeitamente.
Lendo os pensamentos dele, Honor disse, na
defensiva:
        Meu marido fez muita coisa boa para seus
eleitores, detetive. MUITA coisa boa.  certo que a
imagem dele fique manchada por causa da ganncia
de Lenny Brookstein? Grace fez as escolhas dela.
Estou preocupada com ela, mas...  Ela deixou o final
da frase no ar.
Mitch se levantou.
        Obrigado, Sra. Warner. Sei o caminho da porta.
Foi a mesma histria com Connie Gray.
        Minha irm mais nova nunca aprendeu a se
responsabilizar pelos prprios atos, detetive Connors.
Grace acredita que tem DIREITO  riqueza,  beleza, 
felicidade,  liberdade. No importa o quanto isso
custar aos outros. Ento, respondendo  sua
pergunta, no, no sinto pena dela. E certamente no
tive notcias dela. E nem espero ter.
COM AMIGOS COMO OS DE GRACE BROOKSTEIN, QUEM PRECISA
DE INIMIGOS?
Falando com a amarga e fria irm de Grace, Mitch
quase sentiu pena da mulher cuja ganncia deixara
Nova York de joelhos. A raiva de Connie era como
uma presena fsica na sala, emanando do corpo dela
como calor de um radiador. O ambiente estava
pesado.
        Tem mais algum de quem voc se lembre?
Algum para quem Grace poderia ligar ou com quem
poderia contar? Uma amiga de escola talvez? Um
namoradinho de infncia?
Connie balanou a cabea.
        Ningum. Quando Grace se casou com Lenny, ela
foi completamente envolvida pelo mundo dele.
        Voc parece no aprovar.
        Eu e Lenny... Digamos que ns no ramos
prximos. Sempre achei que ele e Grace no
combinavam. De qualquer forma, ela no tem velhos
amigos. John Merrivale apoiou Grace por um tempo,
at que Caroline conseguiu colocar juzo na cabea
dele. Coitado do John.
        Por que coitado do John?
        Ah, detetive. Voc o conheceu. Ele adorava Lenny.
Foi cachorrinho de Lenny durante anos.
        Ele certamente era mais do que isso, no?
        John? No. Nunca.  Connie riu de forma cruel. 
A mdia faz com que ele parea um mago das
finanas, UMA PESSOA ESSENCIAL DO QUORUM.  uma farsa!
Ele no era nem scio, mesmo depois de vinte anos.
Lenny o usou. Grace tambm. E ele est at agora
limpando a sujeira do Quorum. No  de admirar que
seus colegas do FBI ainda no tenham encontrado o
dinheiro.  como um cego guiando outros.
O clima da coletiva de imprensa foi hostil. O povo
queria respostas e Mitch Connors no as tinha.
J fazia quase uma semana desde a dramtica fuga de
Grace Brookstein de Bedford Hills e a presso estava
cada vez maior em cima de Mitch e sua equipe para
mostrar algum progresso. A mdia parecia ter
colocado na cabea que a polcia estava escondendo
informaes. Mitch sorriu. QUEM DERA! A verdade era
que ele no tinha nada. Grace Brookstein fugira da
cadeia e sumira. Ela no entrara em contato com
ningum, nem com a famlia nem com os amigos. No
dia anterior, em uma ao que foi interpretada
corretamente como desesperada, a polcia de Nova
York ofereceu uma recompensa de 200 mil dlares
para quem desse alguma informao que os levasse a
capturar Grace. Foi um erro. Em duas horas, a equipe
de Mitch recebeu mais de oitocentas ligaes.
Aparentemente, Grace Brookstein fora vista em todos
os lugares de Nova York  Nova Esccia. Duas pistas
pareciam poder levar a algum lugar, mas acabaram em
nada. Mitch se sentia como uma criana tentando
pegar bolhas de sabo, sem saber para que lado se
virar e destruindo tudo que tocava. E pensar que ele
tinha achado que este caso seria fcil.
 S isso por hoje, pessoal. Obrigado.
O grupo de jornalistas dispersou. Mitch voltou para
seu escritrio para se esconder, mas parecia que
naquele dia no teria trgua. O tenente-detetive
Henry Dubray no era fcil na maior parte do tempo.
Sentado na cadeira de tortura de Mitch como um sapo
gigante, ele parecia ainda pior do que de costume. Sua
pele estava manchada e destruda pela bebida, e o
branco de seus olhos estava amarelo como girassol. A
presso do caso Brookstein estava cobrando tributo de
todos eles.
        Mitch, me d uma boa notcia.
        Os Knicks ganharam ontem  noite.
        Estou falando srio.
        Eu tambm. Foi um jogo timo. Voc no viu?
Mitch sorriu. Dubray no.
        Desculpe, chefe. No sei o que dizer. No temos
nada.
        O tempo est acabando, Mitch.
        Eu sei.
Dubray saiu. No havia mais nada a dizer. Ambos
sabiam da realidade. Se Mitch no conseguisse alguma
pista concreta nas prximas 24 horas, ele seria
afastado do caso. Rabaixado, certamente. Talvez at
demitido. Mitch tentou no pensar em Celeste e na
cara escola particular em que Helen queria matricul-
la. No momento, odiava Grace Brookstein.
Olhou para o quadro branco na parede de seu
gabinete. A foto de Grace estava no meio. Em volta
dela, como as pontas de uma estrela, havia vrios
grupos de fotos: funcionrios e presidirias de
Bedford Hills; famlia e amigos de Grace; conexes no
Quorum; pessoas do pblico em geral que tinham
dado as pistas mais significativas. COMO TANTAS FONTES
PODIAM LEVAR A LUGAR NENHUM?
O telefone tocou.
        Ligao para o senhor na linha um, detetive
Connors.
        Quem ?
        Grace Brookstein.
Mitch deu uma gargalhada.
        Ah, obrigado, Stella. No estou no clima para
trotes. Ele desligou. Trinta segundos depois, o
telefone tocou de novo.
        Stella, j disse, tenho problemas o suficiente sem...
        Bom-dia, detetive Connors. Aqui  Grace
Brookstein.
Mitch congelou. Aps escutar a horas de gravao do
testemunho de Grace no julgamento, ele teria
reconhecido sua voz em qualquer lugar. Ele acenou
freneticamente para seus colegas do lado de fora do
gabinete.
         ela  disse ele, apenas com os lbios. 
Rastreiem a ligao.
Ele fez um esforo consciente para falar devagar. No
podia demonstrar sua excitao. Mais importante
ainda, precisava faz-la falar por tempo suficiente
para conseguir rastrear.
        Ol, Sra. Brookstein. O que posso fazer pela
senhora?
        Pode me escutar.
A voz era a mesma das gravaes do julgamento, mas
o tom era diferente. Mais duro, mais determinado.
        Estou escutando.
        Algum incriminou meu marido e a mim. Eu nunca
roubei dinheiro nenhum, nem Lenny.
Mitch fez uma pausa, tentando mant-la na linha.
        Por que est me dizendo isso, Srta. Brookstein?
No sou do jri. Sua condenao no teve nada a ver
comigo.
         SRA. Brookstein, sou viva e no divorciada,
detetive.
VOC  UMA TOLA. NUNCA DEVIA TER FEITO ESTA LIGAO.
APENAS CONTINUE FALANDO.
        Estou falando isso porque eu o vi na televiso e o
senhor parece um homem bom. Honesto.
O elogio surpreendeu Mitch.
        Obrigado.
        O senhor parece um homem que gostaria de saber
da verdade. No ?
NA VERDADE, EU SOU UM HOMEM QUE QUER MANTER VOC NA
LINHA PELOS PRXIMOS DEZ SEGUNDOS, NOVE... OITO.
        Sabe, Sra. Brookstein, a melhor coisa que a
senhora poderia fazer neste momento  se entregar.
 SEIS... CINCO...
Grace riu.
        Por favor, detetive. No insulte a minha
inteligncia. Preciso ir agora.
        No. Espere! Posso ajud-la. Se a senhora for
inocente, como diz, existem canais legais...
DESLIGOU.
A linha ficou muda. Mitch olhou, cheio de esperana,
para os colegas do outro lado do vidro, mas a forma
como balanaram a cabea mostrou a ele o que j
sabia.
        Mais dois segundos e ns teramos conseguido.
Mitch afundou em sua cadeira e apoiou a cabea nas
mos.
Na mesma hora, o telefone tocou de novo. Mitch
atendeu como um amante esperando o telefone tocar,
na esperana de que fosse ela.
        Grace?
Uma voz de homem respondeu.
        Detetive Connors?
Mitch sentiu a esperana se esvair dele como sangue
de uma veia aberta.
         ele.
        Detetive, meu nome  John Rodville. Sou o chefe
de internaes do Centro Mdico Putnam.
        Sim  disse Mitch, exausto. O nome no dizia nada
para ele.
        Temos um paciente aqui que foi trazido na semana
passada com uma facada nas costas. Ele estava em
coma at esta manh. No achamos que ele iria
sobreviver, mas conseguiu.
        Que timo, Sr. Rodville. Fico feliz por ele.
Mitch estava prestes a desligar quando o homem
disse, contente:
        Realmente achei que fosse ficar. Principalmente
porque ele identificou Grace Brookstein como a
pessoa que o atacou.
Captulo 19
Mitch entrou no centro de terapia intensiva.
        Detetive Connors. Estou aqui para ver Tommy
Burns.  Ele mostrou o distintivo para a enfermeira
de planto.
        Por aqui, detetive.
O chefe da internao contara toda a histria do
motorista do caminho para Mitch. Segundo Tommy
Burns, ele era um jardineiro autnomo que, por
acaso, dera carona para uma moa a poucos
quilmetros de Bedford Hills na tera-feira  noite. A
mulher usava o nome de Lizzie. Eles j tinham per-
corrido uns 60 quilmetros para o norte quando ela,
de repente, puxou uma faca, forou-o a entrar na
floresta, o esfaqueou, roubou seu dinheiro e o deixou
ali para morrer.
        Umas crianas locais o encontraram. Estavam
caando. Mais umas horas e ele teria sangrado at
morrer.
        Ele acredita que essa Lizzie que o atacou, na
verdade,  Grace Brookstein?
        Ele parece certo disso. Algumas horas depois que
ele acordou, pediu para ligar a televiso. O rosto de
Grace Brookstein apareceu no jornal e ele ficou
louco. Tivemos que sed-lo. Ele quer falar com o
senhor, mas ainda est muito fraco, ento, pegue
leve. A mulher e os filhos dele ainda no o viram.
Mitch pensou: ESPOSA E FILHOS. O COITADO  PAI DE
FAMLIA. MAS  CLARO QUE GRACE BROOKSTEIN NO LIGAVA
PARA ISSO. ELA PEGOU UMA CARONA, USOU-O PARA O QUE
QUERIA, DEPOIS DEIXOU-O PARA MORRER NA FLORESTA,
SOZINHO. Lembranas dolorosas sobre a morte de seu
pai voltaram. O assassino de Pete Connors nunca seria
preso. Mas Grace Brookstein com certeza seria.
Homens como Tommy Burns mereciam justia.
Mereciam ser protegidos.
Mitch se aproximou da cama de Tommy Burns cheio
de compaixo.
Quando deixou o hospital 15 minutos depois, se viu
desejando que Grace Brookstein tivesse acabado com
o servio. Tommy Burns era to agradvel quanto um
caso grave de hemorrida. E tambm era um
mentiroso safado.
        Jesus, detetive, eu j falei. Eu fui o bom
samaritano, T bem? Vi uma moa em apuros e fiz a
coisa certa. Um minuto, ns estvamos seguindo pela
estrada, ouvindo rdio, tudo tranquilo. No minuto
seguinte, HAM! A vadia estava com uma faca no meu
pescoo. Eu no tive a menor chance.
Mitch queria acreditar nele. Muito. Naquele
momento, Tommy Burns era a nica testemunha que
tinha. Mas no acreditava. Alguma coisa no cara no
estava certa.
        Vamos voltar para quando voc a pegou. Certo, Sr.
Burns? Voc disse que parecia que estava em apuros?
        Ela estava com pouca roupa. Estava muito frio,
nevando at. Ela estava apenas com uma blusa fina.
Dava para ver atravs da blusa.  Um meio sorriso
apareceu no rosto dele com a lembrana. Logo em
seguida uma enfermeira bonita entrou para colocar
mais gua na jarra. Mitch Connors observou enquanto
Tommy Burns a acompanhava com olhos lascivos
enquanto ela se virava e saa do quarto. Uma luz se
acendeu na cabea de Mitch.
        O senhor no pensou em perguntar por que ela
estava vestida daquela forma em uma noite fria de
inverno?
        No. Por que deveria? No era da minha conta.
        Acho que no. Ainda assim, nem por curiosidade...
        No sou uma pessoa curiosa.
        , d para perceber.
Tommy Burns estreitou os olhos. Alguma coisa no
tom de voz de Mitch o deixou com a impresso de
que estava zombando dele.
        O que o senhor est querendo dizer?
        No quis dizer nada. S estou concordando com o
senhor quando diz que no  curioso. Por exemplo, o
senhor parece no ter se perguntado por que, depois
de todo o esforo para tentar mat-lo, essa mulher
no terminou o servio.
Tommy Burns ficou agitado.
        Ei, no me venha agora com essa de "essa mulher".
Era Grace Brookstein. Eu a vi na televiso. Se o
senhor a pegar, vou cobrar meus 200 mil dlares de
recompensa.
        Est certo  disse Mitch.  Digamos que FOI Grace
Brookstein que o atacou.
        Foi ela.
        Se fosse comigo, eu ainda estaria me perguntando a
mesma coisa: por que ela me deixou viver? Por que
no terminou o trabalho? Mas eu sou uma pessoa
curiosa. Detetives costumam ser.
Tommy Burns pensou a respeito.
        Acho que ela achou que tinha me matado.
Estvamos no meio do nada. Ela provavelmente
achou que eu morreria devagar.
Mitch partiu para o ataque:
        Mesmo? Por que o senhor acha que ela ia querer
que morresse devagar?
        Como?
        De acordo com o senhor, ela fez isso para roub-lo.
Ela precisava de uma carona e precisava de dinheiro.
Sendo esse o caso, consigo entender que ela o
quisesse morto. Ela no ia querer testemunhas, certo?
        Certo.
        Mas qual razo ela teria para faz-lo sofrer? Para
prolongar sua agonia?
        Qual razo? Que diabos, eu no sei. Ela  mulher,
no ? Elas so todas umas vadias safadas.
Mitch assentiu devagar.
        Voc est certo. Quer dizer, se um HOMEM tivesse
feito isso, ele teria levado o caminho. No?
        Como?
        Depois que ele tivesse se livrado do SENHOR, ele
poderia ter usado o seu veculo para se afastar uns 60,
70 quilmetros da cena do crime antes de larg-lo em
algum lugar. Isso seria o mais inteligente a fazer, no
acha?
        Acho que sim.
        Mas as mulheres no so to inteligentes quanto
ns, so?
        No mesmo!
Mitch se inclinou de forma conspiratria.
        Ns dois sabemos no que as mulheres so boas,
no , Tommy? E no  em pensar!
Tommy Burns sorriu estupidamente. AGORA, o policial
estava falando a lngua dele...
        Tommy, me diga, voc costuma dar carona sempre?
        s vezes.
        Elas costumam ser to atraentes quanto Grace
Brookstein?
        No, senhor, no muitas.
        Ou to boas de cama?
        No, senhor!  Tommy Burns sorriu.  Ela era
bem diferente.
Demorou uns cinco segundos at que ele percebesse
seu erro. O sorriso sumiu.
        Ei, no coloque palavras na minha boca! Eu no...
Quero dizer... Eu sou a vtima aqui  gaguejou ele.
 Eu sou a maldita vtima!
J era tarde quando Mitch chegou em casa naquela
noite. Se  que se podia chamar de "casa" a porcaria
do apartamento de dois quartos que era s o que ele
podia pagar desde que Helen o abandonara. Helen
ficara com tudo na separao: Celeste, a casa deles,
at o cachorro, Snoopy. MEU CACHORRO. Mitch
conseguia entender os motivos que levavam homens
a odiarem mulheres. Homens como Tommy Burns.
Era fcil seguir por esse caminho. s vezes, precisava
tomar cuidado.
Aquele tinha sido um dia e tanto. A coletiva de
imprensa, o telefonema da prpria Grace Brookstein
e, finalmente, Tommy Burns. Burns era a primeira
pista concreta, real, de Mitch. Sabia que deveria estar
feliz. Mas, em vez disso, se sentia desconfortvel.
Depois do ato falho de Tommy Burns naquela tarde,
eles tinham chegado a um acordo: Mitch no
investigaria mais a respeito de um possvel estupro.
Por sua vez, Tommy Burns esqueceria a recompensa
de 200 mil dlares e diria a Mitch tudo de que
conseguisse se lembrar daquela noite: as roupas de
Grace, seu comportamento, qualquer coisa que ela
possa ter feito ou dito que pudesse dar alguma pista
dos planos dela. O caminho de Tommy tinha sido
levado para percia. Quando Mitch falara com eles
horas antes, estavam esperanosos. Poderia ser um
achado de novas evidncias.
ENTO, POR QUE EU ME SINTO UM MERDA?
Mitch fora para aquele hospital  tarde cheio de dio
e raiva. Grace Brookstein era uma criminosa, uma
ladra sem corao e possvel assassina que tinha
atacado violentamente um homem de famlia
inocente. Exceto que, se Tommy Burns era um
homem de famlia, Mitch Connors era o Papai Noel.
Finalmente, o e-mail chegou, depois da meia-noite.
Mitch tinha mandado checar a ficha policial de
Tommy Burns.  claro que ele tinha um histrico de
acusaes de crimes sexuais de quase vinte anos. Duas
queixas de estupro tinham sido retiradas por falta de
provas. BOM SAMARITANO SIM.
Alguma coisa tinha acontecido naquele caminho.
Burns era um predador sexual e Grace tinha se
defendido. Nesse caso pelo menos, ela era a vtima.
Mitch de repente percebeu: EU NO QUERO QUE ELA SEJA
A VTIMA. QUERO QUE ELA SEJA O VILO DA HISTRIA. Ele
geralmente no se equivocava em relao a seus casos
e s pessoas que entregava  justia. Para Mitch, todos
eram verses mais plidas de quem quer que tivesse
matado seu pai: homens maus, que mereciam ser
presos. Mas aquele caso j parecia diferente. Parte
dele odiava Grace por seus crimes. Sua ganncia e
falta de remorso estavam bem documentadas. Mas
outra parte dele sentia pena dela. Pena por ela
precisar lidar com tipos como Tommy Burns. Pena
por ela ter duas irms sem corao.
Mitch fechou os olhos e tentou imaginar como Grace
Brookstein teria se sentido no caminho de Tommy
Burns. Sozinha, fugindo, desesperada, e o primeiro
homem em quem confiou se revelou um pervertido
psictico. Tommy Burns no era um homem grande,
mas era forte e, presumivelmente, determinado.
Grace devia ter sido muito corajosa para lutar com ele
daquela forma.
Qual seria o passo seguinte dela?
ELA NO PEGARIA OUTRA CARONA. NO SE BURNS A ESTUPROU.
ELA SEGUIU A P. O QUE SIGNIFICA QUE NO PODE TER IDO
MUITO LONGE NAQUELA NOITE. UNS 5 QUILMETROS. OITO NO
MXIMO.
Pegando um mapa, Mitch colocou um alfinete no
ponto onde o caminho de Burns ficara abandonado.
Com uma caneta vermelha, fez um crculo de 8
quilmetros de raio.
S havia uma cidade no crculo.
O velho agitou os braos com empolgao. Mitch
Connors esforou-se para no rir. ELE PARECE O YODA
TENDO CONVULSES.
        Eu disse pra eles! Eu disse que ela TEVE aqui
naquela noite, mas ningum acreditou. Acharam que
um velho que nem eu no sabe o que v. Ela apareceu
no meio da noite, NO MEIO DA NOITE. Sem mala! Eu disse
pra eles! Eu disse que ela NUM tinha mala. Isso NUM 
certo. Mas algum me ESCUT? No, senhor.
Mitch acabou descobrindo que a cidade de
Richardsville s tinha um hotel. Quando ele ligou e
mencionou o nome de Grace Brookstein, o
proprietrio do Up All Night ficou louco. SIM, GRACE
BROOKSTEIN ESTEVE AQUI, EU J FALEI COM A POLCIA. VOCS
NO SE FALAM, SEUS IMBECIS?
        Espero que aquele oficial seja despedido. McInley.
Arrogante de merda. Desculpa a lngua, detetive. Mas
eu falei pra eles.
Mitch chamou um tcnico para procurar impresses
digitais no quarto. O tcnico balanou a cabea.
        Limpssimo, chefe. Desculpe. Se ela esteve aqui,
fez um timo trabalho e no deixou pistas.
O velho parecia que ia explodir:
        SE ela TEVE aqui? NUM tem "se". Ela TEVE aqui!
Quantas vezes mais vou ter que repetir? Grace
Brookstein esteve aqui.
        Tenho certeza que sim  disse Mitch. MAS ELA NO
EST AQUI AGORA. Outro beco sem sada.
        E a minha recompensa? O moo na televiso disse
200 mil dlares.
        Entraremos em contato.
Havia recados esperando por Mitch na delegacia.
        Sua mulher ligou  disse a sargento para ele.
        Ex-mulher  corrigiu ele.
        Que seja. Ela estava gritando alguma coisa sobre a
apresentao no colgio da sua filha. No estava nada
feliz.
Mitch resmungou. DROGA. A PEA DA ESCOLA DE CELESTE.
ERA HOJE? Mitch jurara que estaria l, mas, com toda a
agitao das ultimas 48 horas, esquecera totalmente.
SOU O PIOR PAI DO MUNDO e O PIOR POLICIAL. ALGUM
DEVERIA ME DAR UMA MEDALHA. Sentindo-se culpado, ele
comeou a discar o nmero de sua antiga casa quando
a sargento o interrompeu:
        Mais uma coisa, senhor. Um homem esteve aqui
mais cedo. Ele disse que tinha informaes sobre
Grace Brookstein; disse que a conhecia. Queria falar
com o senhor, mas no podia esperar.
        Bem, voc pegou as informaes dele?
Ela balanou a cabea.
        Ele no quis me dizer nada. Mas disse que o
esperaria nesse bar at as 18 horas.  Ela entregou
para Mitch um pedao de papel sujo com um
endereo rabiscado ali.
Mitch suspirou. Provavelmente, era outro louco. Por
outro lado, o bar s ficava a dois quarteires dali. E
qualquer coisa era prefervel a ter de enfrentar a ira
de Helen, ou escutar a decepo na voz de Celeste.
s 18 horas em ponto, Mitch entrou no bar, exatamente
quando um homem de boa aparncia, de cabelo escuro e na-
riz aquilino, estava saindo. Quando Mitch viu que no havia
mais nenhum outro cliente, correu para a rua e o alcanou.
        Ei. Era voc que queria me ver? Sou o detetive Mitch
Connors.
O homem de cabelo escuro olhou para o relgio.
        Voc est atrasado.
Mitch ficou irritado. QUEM ESSE IMBECIL ACHA QUE ?
        Olhe, cara, no tenho tempo para joguetes, est bem?
Voc tem informaes para mim, ou no?
        Sabe, se eu fosse voc, seria um pouco mais educado
comigo. Seu traseiro est na reta, Connors, e eu posso salv-
lo. Por um preo, claro. Sei onde Grace Brookstein vai estar
amanh ao meio-dia. Se voc for legal comigo, legal mesmo,
eu te levo at ela.
Celeste Connors chorou at dormir naquela noite.
Seu pai no ligou.
Captulo 20
Davey Buccola andava de um lado para o outro em seu
quarto de hotel como um tigre enjaulado. Sua sute
no Paramount, na Times Square, era luxuosa. Lenis
de linho, mveis modernos, cobertores de cashmere
de 500 dlares colocados casualmente sobre o
encosto da poltrona. Davey pensou: ESTE SERIA UM
TIMO LUGAR PARA IMPRESSIONAR UMA MULHER.
Infelizmente, no estava com uma mulher. E sim com
um bando de policiais. E eles estavam comeando a
deix-lo nervoso.
        Fique parado, Sr. Buccola. Precisamos verificar seu
microfone.
Davey acendeu um cigarro, o terceiro em poucos
minutos.
        De novo?
        Sim, de novo.  Mitch Connors estava de mau
humor.  Se quer ver os 200 mil, Sr. Buccola, sugiro
que coopere.
Davey pensou: ELE PROVAVELMENTE TAMBM EST
NERVOSO. NO qUER QUE NADA D ERRADO.
Davey se sentia mal, fazendo essa sujeira com Grace
Brookstein. Gostava dela. Mais que isso, estava
convencido de que ela era inocente dos crimes pelos
quais fora condenada. Mas 200 mil dlares... DUZENTOS
MIL... Tentou se convencer de sua deciso. Estava
protegendo Grace. Assim, ela poderia ser capturada
sem se machucar. No contara para Mitch Connors
nem para nenhum outro policial o que tinha
descoberto. Mais tarde, quando Grace estivesse a
salvo, ele usaria essas informaes para entrar com
um recurso contra a condenao dela e reabrir a
investigao sobre a morte de Lenny. OU ISSO OU
VENDER A INFORMAO. QUANTO A Vanity Fair NO
PAGARIA POR UM FURO DESSE? Se tivesse sorte, poderia
dobrar o dinheiro da recompensa!
Claro que, bem no fundo, Davey Buccola sabia a
verdade. Estava traindo uma mulher inocente por
dinheiro, da mesma forma que todas as outras pessoas
a traram. No eram 200 mil dlares. Eram as trinta
moedas de prata de Judas.
        Sr. Buccola, est ouvindo?
Davey levantou o olhar, assustado. Mitch Connors
estava gritando com ele de novo.
        S temos mais uma hora. Vamos rever o plano
mais uma vez.
Grace mergulhou o donut no caf puro e quente e deu
uma mordida generosa.
DELICIOSO.
Ela e Lenny costumavam ter os melhores chefs nas
cozinhas de suas casas, prontos para preparar uma
lagosta Thermidor ou um sufl de gruyre a qualquer
hora do dia ou da noite. Mas at aquela semana, Grace
nunca tinha experimentado um Dunkin' Donut. No
conseguia imaginar como vivera tanto tempo sem
eles.
A semana tinha sido cheia de novas experincias. A
familiaridade que sentira assim que chegara em Nova
York fora substituda por um tipo de espanto
prazeroso. Era a mesma cidade em que morara, indo e
vindo, por toda a sua vida. Mas, mesmo assim,
completamente diferente. ESTA Nova York, a Nova
York das pessoas comuns, dos pobres, era como um
outro planeta para Grace, com seus metrs, seus
nibus sujos, suas lojas de donuts, seus prdios sem
elevador, com banheiros compartilhados e aparelhos
de televiso com palha de ao na ponta da antena.
Lenny sempre dissera a Grace que era horrvel ser
pobre. "A pobreza  o estado mais degradante e
destruidor de alma a que um ser humano pode
chegar." Grace discordava. Verdade, nunca tinha sido
pobre, mas Lenny nunca tinha estado na cadeia.
Grace tinha. Sabia o que significava "alma destruda".
Sabia o que era ser degradada, privada de toda a sua
dignidade. A pobreza no chegava nem perto.
Em todos os padres objetivos, o hotel no Queens
onde Grace estava hospedada era uma espelunca: sujo,
minsculo, com paredes deprimentes cor de mostarda
e piso de linleo. Mas ela passara a gostar do cheiro
de cebola frita que vinha da barraca de cachorro-
quente do lado de fora do hotel, e das discusses
ridculas de um casal que vinham do outro lado da pa-
rede. Fazia com que se sentisse menos sozinha. Como
se fosse parte de alguma coisa.
Ao se vestir naquela manh para se encontrar com
Davey Buccola, ela chegou a pensar: VOU FICAR COM
PENA DE SAIR DAQUI. Mas sabia que no podia ficar.
Primeiro porque no era seguro. Precisava se mudar
sempre. E segundo, e mais importante, porque
chegara a hora de comear sua misso. Munida das in-
formaes de Davey, ela poderia, finalmente,
comear sua jornada. Sua vingana levantaria vo.
Estava usando uma roupa simples para o encontro.
Cala jeans, tnis, um suter com gola plo e um
casaco, o gorro puxado por cima de seu cabelo recm-
escurecido. A cala jeans j estava um pouco mais
apertada na cintura do que em Richardsville. Grace
estava engordando, um efeito colateral de seu novo
vcio por donut. Tomando o resto de seu caf, ela
olhou o relgio. ONZE HORAS. E se dirigiu para o metr.
MITCH CONNORS no tinha dormido. O plano era
simples. Davey tinha um encontro marcado com
Grace exatamente ao meio-dia, na frente da Toys "R"
Us da Times Square. quela hora do dia, o marco de
Nova York devia estar cheio de compradores
procurando uma barganha da liquidao de inverno,
alm das hordas de turistas carregados de sacolas.
Mitch colocara dois homens atrs de Davey, dentro
da loja, outros dois na entrada da estao de metr e
outros seis espalhados pela multido. Todos os dez
estariam  paisana, com escutas e armados. Mitch no
esperava nenhum problema, mas depois da forma
como Grace lidara com o cretino do Tommy Burns,
no queria correr nenhum risco. Assim que Davey
visse Grace na multido, ele usaria um microfone
escondido para avisar os policiais, que a cercariam.
Quando ela se aproximasse de Davey e apertasse a
mo dele, seria o sinal para todos se moverem e
pegarem-na. FCIL.
Mitch ficaria no hotel Paramount observando a
operao. Seu rosto vinha aparecendo em todos os
jornais fazia semanas. Se Grace o visse, saberia que
algo estava para acontecer.
Davey Buccola acendeu outro cigarro. Eram 11h45.
Hora de descer. Olhou alarmado quando um dos
policiais checou sua arma antes de coloc-la no coldre
embaixo de seu palet.
 Para qu isso? Vocs no vo machuc-la, vo?
O policial olhou para Davey como se ele tivesse
pisado no seu p. Ele tinha dado uma boa informao
para eles, mas era um dedo-duro.
        Tenho certeza de que a Sra. Brookstein ficaria
comovida com a sua preocupao. Est pronto?
Davey assentiu. DUZENTOS MIL DLARES. MINHA CASA
PRPRIA.
        Estou pronto. Vamos.
11H50.
        Voc j a viu?
Davey Buccola batia os ps no cho frio. Resistindo 
vontade de colocar a mo na orelha  detestava
microfones e escutas , ele murmurou:
        Negativo. Ainda no.
A Times Square estava ainda mais cheia do que
esperara. A Toys "R" Us estava lotada. Metade de
Nova York estava desempregada, mas as pessoas
preferiam morrer de fome a ver seus filhos sem a
ltima boneca da Hannah Montana ou a lanterna do
agente especial Oso. TRISTE ISSO, refletiu Davey.
A MULHER SENTADA na frente de Grace estava
encarando-a. GRACE sentiu seu estmago revirar.
        Ei.
O trem estava lotado, mas ningum falava. A voz da
mulher soou como uma buzina.
        Ei! Estou falando com voc.
Grace levantou o olhar. O sangue subiu todo para seu
rosto. ELA ME RECONHECEU. MEU DEUS. ELA VAI DIZER
ALGUMA COISA. TODOS VO VIR PARA CIMA DE MIM. O TREM
INTEIRO VAI VIR PARA CIMA DE MIM, ELES VO ACABAR
COMIGO!
        Acabou de ler o jornal?
JORNAL? Grace abaixou a cabea. Havia um NEW YORK
POST no seu colo. No fazia idia de como tinha ido
parar ali. Sem falar nada, entregou para a mulher.
        Obrigada.
De repente, o trem parou. As luzes piscaram, depois
apagaram. Todo mundo reclamou. As luzes
acenderam de novo. Grace olhou para o relgio.
11h55.
        Esquea  disse o homem ao seu lado
cordialmente.  Aonde quer que voc v, vai chegar
atrasada.
Uma voz saiu dos alto-falantes:
        Pedimos desculpas pelo inconveniente. Devido a
problemas eltricos, teremos um pequeno atraso.
NO! HOJE NO. POR QUE HOJE?
Grace respirou fundo. No podia chamar ateno para
si mesma parecendo nervosa. Alm disso, tudo bem.
Eles disseram um pequeno atraso. Davey iria esperar.
Enquanto olhava pela janela, o corao de Mitch
estava disparado. ELA NO VEM.
Tivera tanta certeza de que daria certo. Estava to
certo. O relgio na parede zombava dele. Meio-dia e
dez. O que poderia ter dado errado? Ser que Davey
Buccola ficara com a conscincia pesada e a avisara?
Ser que Grace percebera que no podia confiar nele?
Ou talvez fosse pior do que isso. Talvez tivesse
acontecido alguma coisa com ela. Um acidente.
Algum a reconhecera e resolvera fazer justia com
as prprias mos.
        Acho que estou vendo Grace.
A voz de Buccola soava crepitante na escuta de
Mitch.
        Voc ACHA? No tem certeza?
Buccola no respondeu.
        Bem, onde?  Mitch no conseguia esconder sua
agitao.
        Ela acabou de sair do metr. No consegui olhar
bem para o rosto. Pode no ser ela.
        Danny, Luca. Vocs viram alguma coisa?
Dois dos homens de Mitch estavam bem na sada da
estao do metr, observando toda mulher que saa.
        No.
        Nada. MEU DEUS.
        O que ela estava vestindo, Davey?
        Jeans. Casaco escuro. Um chapu... acho. Merda.
        O qu?
        Eu a perdi.
        Voc a PERDEU7. Bom, ela estava indo na sua
direo? Ela viu voc?
        Esquece. No era ela.
Grace saiu da estao do metr para a rua. Estava
atrasada. Muito atrasada. Ser que Davey havia
esperado por ela muito tempo? Deus, esperava que
sim. Ele estava correndo um grande risco ao aceitar se
encontrar com ela.
Ela penetrou na multido, com a cabea baixa. O
letreiro colorido da Toys "R" Us chamou sua ateno
do outro lado da rua. Grace foi na sua direo,
procurando na multido o rosto familiar de seu amigo.
O policial Luca Bonnetti estava decepcionado. Fizera
tanto para participar do grande show. Mas era bvio
que Grace Brookstein tinha outros planos.
De qualquer forma, ser pago para olhar mulheres no
era a pior forma de passar uma manh. Uma morena
bonitinha passou correndo por ele.
        Ei, benzinho. Como vai?
Ele deu um tapinha no bumbum dela, mas ela no
parou.
        Qual  o seu problema, Bonnett?  O parceiro dele
estava aborrecido.  Ns estamos aqui para encontrar
a mulher mais procurada dos Estados Unidos e no
para molestar mulheres comuns.
        Ah, relaxa, Danny. Ela era gostosinha. E se voc
ainda no percebeu, a Sra. Brookstein no vem.
O corao de Grace estava disparado. IDIOTA.
Depois do que aquele cretino do motorista de
caminho fizera a ela, s de pensar em um homem a
tocando ou mesmo a olhando com intenes sexuais
lhe dava vontade de gritar o mais alto que podia. Mas
no podia gritar. No podia parar e berrar para o cara
tirar as mos fedorentas de cima dela. Precisava ser
invisvel, se misturar  multido.
CAD O DAVEY?
Assim que as palavras vieram  sua cabea, ela o viu.
Estava parado a poucos metros da entrada da loja. Foi
na direo dele, sorrindo. Percebendo o sorriso dela,
Davey levantou o olhar. Foi quando Grace notou.
         ela! Estou vendo. Est vindo para c. Jeans,
casaco escuro. Gorro.
Mitch perguntou aos policiais na rua:
        Vocs esto vendo?
        Sim, senhor, estamos vendo. Vamos nos aproximar.
A cabea de Grace estava a mil.
ELE DISSE QUE TERIA UM ARQUIVO COM ELE. AS PROVAS. POR
QUE NO TROUXE?
Tinha alguma coisa errada. E no era apenas o
arquivo. Era a expresso de Davey. Estava com cara
de culpado. Foi quando dois homens passaram
correndo por Grace, indo na direo da Toys "R" Us.
Seu sexto sentido fez com que diminusse o passo.
POLICIAIS.  UMA ARMADILHA.
No tinha tempo para pensar. Agindo por instinto, ela
arrancou o gorro e o enfiou no bolso do casaco. Um
grupo de crianas estrangeiras estava indo na direo
oposta, de volta  estao de metr. Grace entrou no
meio deles, como um peixe em busca da segurana do
cardume.
Os homens colocavam a mo em suas escutas. L em
cima no quarto do hotel, Mitch Connors gritava como
um louco:
        Cad ela? cad ela?
        No sei.  Davey Buccola estava confuso.  Ela
estava vindo bem na minha direo, mas a... sumiu.
Mitch teve vontade de chorar.
        Espalhem-se, todos vocs. Continuem procurando.
Ela est na multido.
Ele no conseguiu mais se conter. Saiu correndo do
quarto do hotel e foi para as escadas.
Do sexto andar do Paramount, Mitch tinha uma viso
privilegiada da rua abaixo. Agora, correndo na rua,
mal conseguia ver alguns centmetros  sua frente.
Havia pessoas por todos os lados, carregando suas
inchadas sacolas de compras, empurrando carrinhos
de beb pelo caminho.
JEANS, CASACO ESCURO. GORRO. ELA EST AQUI. TEM QUE
ESTAR.
Ele saiu empurrando para conseguir entrar na
multido de corpos.
Grace estava quase na estao do metr. Os degraus
de pedra a chamavam, prometendo segurana, fuga.
APENAS MAIS ALGUNS SEGUNDOS. ALGUNS POUCOS PASSOS.
Olhou para a direita. Um homem com bon dos
Yankees estava olhando  sua volta freneticamente,
resmungando para si mesmo. UM DOS POLICIAIS. QUANTOS
ESTO ESPALHADOS POR AQUI? Um homem vinha
diretamente na direo do grupo de Grace. Agora
estava perguntando alguma coisa ao guia de turismo.
PRECISO ESCAPAR.
De repente, Grace viu o canalha que tinha passado a
mo na bunda dela pouco antes. Ele ainda estava na
entrada do metr. Olhando melhor, viu que era um
jovem e atraente italiano, para quem gostava de
babacas. No que ela ligasse se ele parecesse com o
Quasmodo. Foi na direo dele.
MITCH prendeu a respirao. L EST ELA! A multido
se movia quase imperceptivelmente e ele a viu, a
menos de 50 metros de onde ele estava. Era pequena,
media l,50m talvez, usando jeans e casaco escuro, e j
estava quase na estao de metr. Mitch saiu
correndo.
        Ei, cara! Olhe por onde anda!
        Devagar, babaca.
Mitch corria s cegas, empurrando os pedestres para
sarem de seu caminho. Quando Grace chegou 
escada, Mitch se arremessou para cima dela, jogando-
a no cho, com o rosto para baixo. Ela gritou, mas era
tarde demais. Sangue jorrou do nariz dela. Mitch a
algemou. Estava acabado.
        Grace Brookstein, voc est presa. Tem o direito
de permanecer calada. Tem direito a um advogado. 
Virando-a, ele tirou o gorro para ver melhor seu
rosto.
 Ah, meu Deus.
Uma loura assustada o encarava.
Mitch nunca a vira na vida.
Luca Bonnetti no podia acreditar na sua sorte.
        Ei, gostosa. Voc voltou.
        Voltei.  A morena bonita ficou na ponta dos ps,
passou os braos em volta do pescoo dele e comeou
a beij-lo apaixonadamente. Luca retribuiu o agrado.
Agora com as duas mos na bunda dela.
Pelo canto do olho, Grace viu o policial com o bon
dos Yankees, ainda falando com o guia de turismo.
ELE PROVAVELMENTE EST ME DESCREVENDO. Se parecesse
que eles eram um casal, ela conseguiria despist-los.
Esse idiota seria seu disfarce at que chegasse em
segurana ao trem. Ento, na estao seguinte sairia e
o deixaria para trs.
Ela interrompeu o beijo e sorriu para ele.
        Quer dar uma volta comigo?
Luca sorriu.
        Se quero!
        Ele est ocupado.  Outro homem, mais velho,
com bigode grisalho e grosso, tinha aparecido do nada
e olhou furioso para Grace.  Ele est ocupado.
Luca Bonnetti protestou:
        No estou no, me d um tempo, Danny.
        VOC me d um tempo.  O homem se virou para
Grace.  Olhe, moa, ns somos da polcia de Nova
York e estamos aqui a servio. Ento, saia daqui antes
que eu a acuse de obstruo.
Grace sentiu a bile subir pela garganta. ELE  UM DELES.
Suas pernas comearam a tremer. Ela saiu correndo.
MITCH levou alguns momentos para reagir.
Estava se desculpando com a moa cujo nariz ele
tinha quebrado quando uma garota passou correndo
por ele, descendo dois degraus por vez. Virando a
moa de costas, Mitch comeou a tirar as algemas,
quando viu um gorro cinza saindo do bolso da garota.
        Pare!  gritou ele.  Polcia!
Grace estava na plataforma. Atrs dela, podia escutar a
gritaria.
        Polcia! Me deixem passar!
O carro estava lotado. Grace tentou forar sua
entrada, mas um homem a empurrou.
        No est vendo, moa? No tem mais lugar aqui.
Saia.
        Polcia!
Os gritos estavam cada vez mais altos. Grace olhou
para trs. Detetive Connors. Ela reconheceu o rosto
dele das reportagens na televiso.
O carro seguinte tambm estava cheio. As pessoas
estavam se afastando, para esperar pelo trem seguinte.
No havia lugar naquele tambm. As portas eltricas
se fecharam. Era tarde demais. O trem comeou a se
mover.
        Grace Brookstein! Fique onde est. Voc est
presa.
Grace escutou seu nome. Assim como todo mundo.
De repente, centenas de pares de olhos estavam
olhando em volta, procurando pela plataforma. GRACE
BROOKSTEIN? ONDE? ELA EST AQUI?
Mitch Connors estava correndo pela plataforma mais
rpido que o trem. Passou pelo primeiro carro. Pelo
segundo. Quando chegou ao terceiro, a multido se
afastou. Mitch e Grace estavam cara a cara.
Grace olhou nos olhos de Mitch e ele olhou nos dela.
O caador e a presa. Por um momento, alguma coisa
ocorreu entre eles. Respeito mtuo. Afeto, talvez.
Mas s por um momento.
O trem estava ganhando velocidade. Segura no calor
do carro, Grace se afastou da janela.
Mitch Connors estava na plataforma, vendo-a
desaparecer no tnel escuro.
De volta  estao, o tenente Dubray perdeu a
pacincia.
        Que diabos? Como voc pde perd-la assim?
COMO?
        No sei, senhor.  Mitch suspirou.
Tentou ver o lado bom. Agora sabiam mais do que 48
horas antes. Sabiam que Grace ainda estava em Nova
York. Sabiam que agora ela estava morena e ganhara
peso. Amanh, lanaria uma nova foto dela na mdia.
E, graas a Luca Bonnetti, a equipe da polcia de Nova
York tinha conseguido outra informao nova.
A mulher mais procurada dos Estados Unidos beijava
muito bem.
Captulo 21
DURANTE TRS DIAS, Grace se escondeu. Encontrou
um novo lugar para ficar, outro estdio, dessa vez no
Brooklyn. Enquanto o outro lugar era feio mas
aconchegante, o novo s podia ser descrito como
nojento. Ela no se importava. Fechou as Cortinas,
trancou a porta e ficou na cama. A depresso tomava
conta dela em ondas lentas.
ISTO  PIOR QUE A PRISO.  UM INFERNO. Na priso, Grace
tinha Karen e Cora. Tinha a irm Agnes e as crianas
do centro. Visitas de Davey Buccola. DAVEY. Grace j
deveria estar acostumada  traio, mas o que Davey
fizera a chocou. Realmente acreditara que ele estava
do seu lado. Mais importante, ele tinha a chave para
todas as suas esperanas de encontrar o assassino de
Lenny. Grace colocara toda a sua f em outro ser
humano pela ltima vez. A NICA PESSOA EM QUEM
CONFIEI SE FOI PARA SEMPRE, TRADO E ASSASSINADO POR
CAUSA DE SEU DINHEIRO.
Como estava agora, Grace no confiava mais nem na
prpria sombra.
Ela chorou. Quando no conseguia mais chorar, se
vestiu.
Pela primeira vez em trs dias, ela saiu. Era um risco
maluco. Insano. Mas Grace no se importava.
O cemitrio Cypress Hills, no Brooklyn, tinha vista
para a Jamaica Bay. No tinha ligao com nenhuma
religio, mas a maior parte das reformas dos ltimos
anos tinha sido feita por instituies de caridade
judaicas. Grace se lembrava dos gritos quando os
restos mortais de Lenny foram enterrados ali.
        Esse filho da puta traiu a comunidade judaica. Ns
confiamos nele porque ele era um de ns. Agora ele
quer descansar entre ns? De jeito nenhum.
Eli Silfen, presidente da fundao beneficente Beth
Olom, era o que falava mais alto.
        Um memorial para Lenny Brookstein? Em Cypress
Hills? S por cima do meu cadver.
Mas o rabino Geller se mantivera firme. Um homem
de fala mansa, profundamente espiritualizado. O
rabino Geller conhecia Lenny havia muito tempo.
        Na verdade, Eli, vai ser sobre o cadver dele. A
nossa religio ensina o perdo. A misericrdia. 
Deus quem deve julgar, no o homem.
Grace nunca se esquecera da compaixo do rabino.
Gostaria que estivesse ali agora, enquanto caminhava
entre os tmulos e esttuas de anjos, sua respirao se
tornando fumaa no gelado ar do inverno. O
cemitrio era enorme. Dezenas de milhares de
tmulos, talvez mais, se estendendo at onde os olhos
conseguiam ver. EU NUNCA VOU ENCONTRAR. NO SEM
AJUDA.
Um coveiro idoso estava cuidando de um tmulo a
poucos metros. Grace se aproximou dele.
        Com licena. Eu gostaria de saber se... Tem alguma
pessoa famosa enterrada aqui?  Parecia mais seguro
do que perguntar diretamente.
O senhor riu, revelando uma boca cheia de dentes
podres.
        Alguma? Quantas voc quiser. Aqui at parece a
revista PEOPLE.  Ele bateu na terra congelada com a
enxada, rindo da prpria piada.  Temos Mae West.
Jackie Robinson. Temos uns caras maus tambm. Bill
Lovett. Sabe quem ?
Grace no sabia.
        Ele era um gngster. Um assassino. Lder da Gangue
da Mo Branca.
        Desculpe, no sei muito sobre criminosos  disse
Grace, esquecendo que, pelo menos oficialmente, ela
era uma.
        Temos um criminoso aqui que eu aposto que voc
conhece. Leonard Brookstein. Sr. Quorum. J ouviu
falar dele, no ouviu?
Grace corou.
        J, j sim. O senhor sabe onde ele est enterrado?
        Claro que sei.
Ele comeou a andar. Grace o acompanhou por quase
dez minutos, como se fossem dois sargentos
inspecionando um desfile silencioso de mortos, as
lpides chamando ateno como se fossem soldados.
Acabaram chegando ao topo da colina. Grace estava
congelando. Uns 200 metros  frente, dois policiais
armados bocejavam ao lado de uma nica pedra bran-
ca. Ou pelo menos tinha sido uma pedra branca.
Mesmo de onde estava, Grace podia ver que estava
coberta de pichaes, mensagens vermelhas de dio
que ningum se importara de apagar.  CLARO QUE H
POLICIAIS AQUI. PROVAVELMENTE ESTO ESPERANDO QUE EU
COMETA UM DESLIZE. COMO ESTE.
        Qual  o problema?  perguntou o senhor.  No
chegamos ainda, sabe?
        Sei, eu... eu mudei de idia.  O corao de Grace
estava disparado.  No estou me sentindo bem.
Obrigada pela ajuda.
Ele a fitou de forma estranha, examinando seus traos
como se fosse a primeira vez. Na esperana de distra-
lo, Grace colocou uma nota de 20 dlares na mo
dele, rgida pela artrite, depois se virou e desceu
correndo a colina.
No parou de correr at chegar  estao de metr,
entrando em um caf para recuperar o flego e se
acalmar. Como as pessoas podiam pichar o tmulo de
um homem? Que tipo de pessoa fazia isso? Ela no
chegara perto o suficiente para ler o grafite, mas
podia imaginar as coisas horrveis que estavam
escritas. Seus olhos se encheram de lgrimas.
Nenhuma dessas pessoas conhecia Lenny. O homem
decente, generoso, carinhoso que ele era. s vezes,
at Grace achava que esse homem estava se afastando
dela. Que a realidade de quem Lenny fora realmente
estava perdida, esmagada embaixo de uma montanha
de mentiras, inveja e dio. As pessoas diziam que ele
era mau, mas isso era mentira.
VOC NO ERA MAU, MEU AMOR. ESTE MUNDO  QUE  MAU.
MAU, GANANCIOSO E CORRUPTO.
Naquele momento, Grace percebeu que tinha uma
opo. Podia desistir, se entregar, aceitar sua sorte
desgraada. Ou podia lutar.
Lembrou-se das palavras do rabino Geller:  DEUS
QUEM DEVE JULGAR, NO O HOMEM. Talvez Grace devesse
deixar que Deus cuidasse de seus inimigos. Deixar que
ele endireitasse as coisas erradas que o mundo fizera
com ela e com seu querido Lenny. Ser?
TALVEZ NO.
Grace sabia exatamente qual deveria ser seu prximo
passo.
Davey Buccola estava atrapalhado com a chave do seu
quarto de hotel. Estava muito, muito bbado.
Quando Grace escapou por entre seus dedos, o
dinheiro foi com ela. Ele a tinha trado, e ela sabia
disso, e tudo isso por nada. Deprimido demais para
voltar para a casa de sua me, Davey ficara andando
pela cidade, gastando o que restava de suas economias
com bebidas e strippers.
        Seu estpido.  Ele tentou a chave mais duas
vezes, antes de perceber: ESTOU NO ANDAR ERRADO.
Enquanto cambaleava pelo corredor at o elevador, as
paredes vinham em sua direo, e o cho fazia ondas,
como se ele estivesse em um barco em alto-mar.
Davey lembrou-se do parque de diverses em
Atlantic City onde seu pai costumava lev-lo quando
era criana. Estava enjoado. Foi um alvio entrar no
elevador.
        Qual andar?
A mulher estava de costas para ele. Mesmo em seu
estado etlico, o investigador em Davey percebeu o
longo cabelo castanho-avermelhado e o brilhante
casaco preto comprido. Ou seriam dois casacos?
        Qual andar?  perguntou ela de novo. Davey no
conseguia se lembrar.
        Terceiro  chutou ele. A mulher apertou o boto.
Depois pressionou uma arma nas costas de Davey.
        Qualquer movimento e eu mato voc.
EM SEU QUARTO no hotel, Davey estava sentado na
beira da cama, bem sbrio.
        Sei o que parece, mas posso explicar.
Grace levantou a arma e apontou bem para a cabea
dele.
        Estou escutando.
Conseguir uma arma fora bem mais fcil do que Grace
imaginava que seria. Ela achava que seria um processo
complicado, perigoso, mas descobriu que podia
comprar uma na rua. Como amendoim. Tinha notado
um homem vadiando na rua, trocando dinheiro com
meninos da vizinhana, e imaginara que fosse um
traficante de drogas. Na tarde anterior, se aproximara
dele.
        Preciso de uma arma. Conhece algum que possa
me ajudar?
O cara havia olhado Grace de cima a baixo. Com o
cabelo bem curto e roupas largas e masculinas, ele
achou que ela fosse sapato, que provavelmente
acabara de sair da cadeia. No gostava de lsbicas, de
uma forma geral. Por outro lado, ela certamente no
era policial, e ele poderia usar o dinheiro.
        Isso depende. Quanto voc est pagando?
Eles combinaram um preo que era o dobro do valor
da pistola. Na mesma hora, ele se arrependeu de no
ter pedido mais.
Enquanto Grace se afastava, ele perguntou:
        Voc sabe usar isso?
Grace parou, pensou e balanou a cabea.
        Cinquenta paus e eu te dou uma aula particular.
Dou at a munio.
        Vinte  Grace se surpreendeu dizendo.
        Trinta e cinco. Minha ltima oferta.
        Fechado.
 Ah, meu Deus, Grace, no atire!
Davey Buccola estava soluando. Grace se sentia
estranhamente imparcial. Era quase desagradvel
escut-lo implorar pela prpria vida; rios de lgrimas
e muco escorriam pelo rosto distorcido e assustado.
Como se qualquer palavra dele pudesse faz-la mudar
de ideia.
        Eu quero o arquivo.
        Arquivo?
        As informaes que voc me prometeu. As
informaes que voc ia me dar na Times Square,
lembra? Antes de a ganncia subir  sua cabea e voc
decidir me entregar por 200 mil dlares.
        No foi bem assim, Grace. Eu estava tentando
proteger voc.
Grace colocou o indicador no gatilho.
        Mais uma mentira e eu juro por Deus que estouro
seus miolos.
Davey chorou de medo. Ela estava falando srio.
Aquela no era a Grace Brookstein que conhecera em
Bedford Hills. Era uma pessoa totalmente diferente.
Fria. Cruel. Impulsiva.
        Existe um arquivo, no existe, Davey? Espero, pelo
seu prprio bem, que voc no tenha mentido sobre
isso tambm.
        No, no, est aqui. Eu tenho.
Perdera a recompensa, mas Davey ainda tinha
esperana de encontrar algum disposto a pagar pelo
seu mapa da mina. At agora, nenhum editor tinha
retornado suas ligaes, mas estava tentando. Colocou
a mo embaixo da cama.
        Pare!  mandou Grace.
Davey congelou.
        Fique com as mos onde eu possa v-las. Na cabea.
Davey fez o que ela mandou.
        Bom. Agora, v at o meio do quarto e se ajoelhe
no cho.
Davey sentiu um n no estmago. AH, MEU DEUS. A
CLSSICA POSE DE EXECUO. ELA VAI ATIRAR NA MINHA NUCA.
        Por favor, Grace...
        Fique quieto!  Com cuidado, mantendo a arma
apontada para Davey, Grace se abaixou e procurou
embaixo da cama. Tirou um envelope pardo.
         isso?
Davey assentiu.
        Assim que voc estivesse a salvo, eu ia levar isso
para um advogado. Juro por Deus. Eu teria ajudado
voc a entrar com uma apelao.
Grace colocou o envelope sobre o peito como uma
pessoa apaixonada.
        Voc mostrou isso para algum? Para a polcia,
para a imprensa?
Davey balanou a cabea veementemente.
        Ningum. As nicas pessoas que sabem da
existncia desse arquivo somos eu e voc.
Era a resposta certa. Grace sorriu. Davey ficou
aliviado. ELA VAI ME DEIXAR VIVER.
Grace pegou um travesseiro na cama. Colocando-o na
frente da arma, ela disse friamente:
        Voc me traiu. Sabe qual  o castigo para traidores,
no sabe, Davey?
Antes que ele pudesse responder, escutou o som
abafado do tiro, seguido por uma sensao quente em
seu corpo.
Depois disso, mais nada.
MITCH Connors analisou a cena. A camareira do hotel
que fizera a ligao tinha um ingls to ruim e estava
to assustada e histrica que ele no sabia exatamente
o que esperar. Mas, definitivamente, no era aquilo.
Sem querer, ele caiu na gargalhada.
        Isso no  engraado.
Davey Buccola estava no meio do quarto, nu e
amarrado como uma galinha com a corda da persiana.
LITERALMENTE, como uma galinha. Depois que ele
desmaiou, algum  Grace  tinha coberto ele de
penas. Penas do travesseiro do hotel estavam coladas
em seu corpo com gel de cabelo, e a palavra TRAIDOR
estava escrita na sua testa com marcador permanente.
O mesmo marcador, Mitch presumia, que agora estava
enfiado no traseiro de Davey como um termmetro.
        De onde eu estou, cara,  um pouco engraado. 
Mitch estava comeando a gostar cada vez mais de
Grace.
Uma nica bala estava presa na parede ao lado da
janela. Embaixo dela, estavam as roupas molhadas de
Davey. Buccola devia ter ficado to assustado quando
Grace atirara no travesseiro, que perdera o controle
intestinal.
        Ela  psicopata!  soluou Davey.  Ela podia ter
me matado. Quero proteo da polcia.
        , e eu quero que a Gisele Bndchen passe
chantilly em mim e depois lamba, mas isso no vai
acontecer  disse Mitch ironicamente.  Algum
poderia desamarr-lo? Se eu tiver que olhar para esse
traseiro mais uma vez, vou precisar de terapia. Talvez
eu nunca mais coma galinha.
        No devemos tirar algumas fotos primeiro, chefe?
Para documentar a cena do crime?
        Para quem?  Mitch riu ainda mais.  O coronel
Sanders?
        Voc no est levando isso a srio!  Davey
Buccola fez um enorme esforo para parecer
indignado, o que no era fcil com uma coisa enfiada
no traseiro.  Grace Brookstein me ameaou com
uma arma. Isso  assalto a mo armada! Voc no se
importa?
        Com voc, Buccola? No, eu no me importo. E o
que voc quer dizer com "assalto a mo armada"? Ela
roubou alguma coisa?
Davey hesitou.
        Ou voc me conta ou vou deix-lo aqui assim.
        Se eu contar, voc me d proteo policial?
Mitch foi para a porta.
        Espere!gritou Davey.  Tudo bem, eu conto.
Havia um arquivo. Informaes sobre a morte do
marido dela. Ns achamos... ns acreditamos que
Lenny Brookstein foi assassinado.
        O QU?
        Eu estava trabalhando para Grace. Investigando o
caso. Foi por isso que ela fugiu de Bedford Hills. Ela
no d a mnima para o dinheiro. S quer descobrir
quem matou o marido. Quem armou para ela. Ela quer
vingana.
Mitch entendia o fato de ela querer vingana. Pensou
no dia em que Grace telefonara para ele. "EU NO
ROUBEI DINHEIRO NENHUM, DETETIVE. ALGUM COLOCOU A
CULPA EM MIM E NO MEU MARIDO'' ISSO ERA POSSVEL?
        Por que voc no me disse isso antes?  gritou
ele. Mas assim que fez a pergunta, soube a resposta.
 Voc ia vender as informaes, no ia, seu merda
ganancioso?
Davey Buccola ficou em silncio.
        Ento, voc deu o arquivo para ela?
        Eu tive que dar! Ela estava com uma arma apontada
pra minha cabea...
        Voc tem uma cpia, no tem? Diga que voc tem
uma cpia.
A menos de 5 quilmetros dali, Grace estava deitada
em uma banheira, relendo as informaes de Davey
pela centsima vez.
De repente, ela sentou. Estava ali, preto no branco.
SEI QUEM MATOU LENNY.
Finalmente, a caada tinha comeado.
Captulo 22
Andrew Preston estava andando por Wall Street com
um familiar aperto no peito. Maria estava s voltas
com um novo amante. J conhecia os sinais. A gaveta
da mesinha de cabeceira cheia de recibos da La Perla.
A depilao que ela marcara depois que eles voltaram
de Hong Kong, no antes. Naquela manh, at a
escutara cantando LA TRAVIATA no chuveiro.
SE PELO MENOS EU NO A AMASSE TANTO. NADA DISSO TERIA
ACONTECIDO.
Eram 17h30, e a rua j estava cheia de corretores e
funcionrios indo para casa. Desde que comeara no
seu novo emprego no departamento de fuses e
aquisies do Lazard, Andrew costumava trabalhar
at as 21 ou 22 horas. Mas hoje era quinta-feira, noite
em que fazia ginstica. O mdico de Andrew fora
bem enftico sobre como era vital para ele se
exercitar regularmente.
 Nada combate melhor o estresse do que uma boa
partida de raquetebol. No adianta nada ser um
poderoso em Wall Street se seu corao para aos 45,
entende o que estou dizendo?
Andrew entendia o que seu mdico estava falando.
Embora no pudesse deixar de se questionar se
algum via Andrew Preston como um "poderoso de
Wall Street". Maria certamente no via.
Independentemente do que conseguisse, por mais
dinheiro que ganhasse, nunca era suficiente. O Aston
Martin DB5 de Andrew estava estacionado em uma
garagem quatro prdios depois do seu escritrio. Os
preos eram altssimos, mas ir dirigindo para o
trabalho era um dos poucos luxos a que ainda se
permitia. Preocupado com o corao, pegou as
escadas para o G4 em vez do elevador, apertou o
boto para destrancar o carro em seu controle remoto
e sentou no banco do motorista.
        Ol, Andrew.
Ele levou um susto to grande que quase gritou. Grace
Brookstein estava abaixada no banco de trs do carro.
Tinha uma arma na mo e um sorriso no rosto.
        Quanto tempo.
MITCH Connors no podia acreditar no que estava
ouvindo.
        Senhor, com o devido respeito, isso  bobagem.
Ns TEMOS que reabrir a investigao sobre a morte de
Leonard Brookstein. Se no fizermos isso e depois
vier  tona que escondemos provas...
Quando Mitch finalmente desamarrara Davey
Buccola, o detetive particular lhe entregara um pen
drive. O contedo que havia ali era to explosivo que
Mitch imprimira e levara direto para seu chefe.
        Ningum est escondendo nada.  O tenente
Dudray fechou o arquivo.  Francamente, Mitch,
no consigo entender por que voc est to afobado
para comear uma investigao quando ainda no
conseguiu resolver essa em que est trabalhando
agora. Grace Brookstein fez voc de bobo. Ela fez o
departamento inteiro de bobo.
        Eu sei disso, senhor. Mas se o marido dela foi
assassinado, e o inqurito no foi bem conduzido,
houve um erro judicial grave.
Dubray zombou dele.
        Justia? D um tempo, Mitch. Lenny Brookstein
era um canalha, est bem? Um canalha rico e
ganancioso que deu um golpe na cidade toda. Se
algum acabou com o cara, fez um favor para a
humanidade. Ningum se importa, muito menos eu.
Mitch ficou em silncio. Dubray estava falando srio?
Toda a investigao sobre a morte de Lenny
Brookstein tinha sido uma simulao. O mdico-
legista atestara suicdio porque os Estados Unidos j
tinham julgado seu antes to amado filho. Lenny
Brookstein era um ladro, um mentiroso ganancioso
que tirara dos pobres e roubara do seu prprio fundo.
Mas e se os Estados Unidos estivessem errados? Sobre
Lenny e Grace.
Desde o comecinho da investigao, Mitch tinha
sentimentos conflitantes por Grace Brookstein. O
dio inicial que ele compartilhava com o restante do
pas tinha sido rapidamente substitudo por uma
combinao de pena e, precisava admitir, respeito.
Grace era corajosa, determinada e astuta, qualidades
que Mitch sempre vira como predominantemente
masculinas. Ainda assim, quando finalmente vira
Grace Brookstein em carne e osso, fugindo, no dia em
que o trem se afastara levando-a para longe da Times
Square, o rosto que o fitara era totalmente feminino:
vulnervel, misericordioso, generoso. Em outras
circunstncias, em outra vida, Mitch poderia se
apaixonar por ela. EU PODERIA SALV-LA. NS PODERAMOS
NOS SALVAR. Ele se forou a voltar para a realidade.
        Suponha que Leonard Brookstein fosse inocente.
Dubray arregalou os olhos.
        Como?
        Eu disse suponha que ele fosse inocente. Suponha
que outra pessoa tenha ficado com aquele dinheiro.
        Quem, por exemplo? A fada do dente?
        Que tal Andrew Presten? Com todo o respeito,
senhor, mas leu o arquivo de Buccola? Presten vinha
roubando o fundo havia anos.
Dubray fez um gesto com a mo, sem dar
importncia.
        Mixaria. Alm disso, todos esses caras do Quorum
foram interrogados na poca. Sei que os federais nem
sempre so os mais rpidos no gatilho, mas voc
realmente acha que Harry Bain j no teria
descoberto se um deles tivesse ficado com o
dinheiro? Seu detetive particular est latindo para a
rvore errada.
        Talvez  admitiu Mitch.  Mas ns no
deveramos, pelo menos, seguir as pistas de Buccola?
Quanto mais olho para o caso do Quorum, mais ele
fede.
        Ento pare de pensar nisso. Faa o seu trabalho.
Encontre Grace Brookstein e a coloque atrs das
grades, que  o lugar dela.
De volta  sua sala, Mitch desligou o telefone e
fechou as portas. O lugar de Grace Brookstein era
atrs das grades? No tinha mais tanta certeza. Tentou
parar de pensar nisso, esquecer o assunto. Mas essa
idia no parava de crescer, se intrometendo em sua
conscincia como uma erva daninha.
FOI UM NEGCIO ARMADO. O INQURITO, O JULGAMENTO, A
COISA TODA. FOI TUDO ENCENADO, COMO UM REALITY SHOW
COM SCRIPT.
Dubray no estava interessado na verdade. Nem os
policias de Massachusetts que investigaram a morte
de Lenny Brookstein, nem o mdico-legista, nem a
mdia, nem mesmo o FBI. A fraude do Quorum era
como um filme, e os Estados Unidos j tinham
escolhido os viles: Grace e Lenny Brookstein.
Ningum queria um final alternativo. No agora que
j estavam bem sentados comendo suas pipocas.
Dubray tinha lhe dito para esquecer o arquivo de
Buccola: "Apague, rasgue, queime. Eu no ligo. Lenny
Brookstein est morto e enterrado." Mas Mitch sabia
que no podia fazer isso.
O arquivo o levaria at a verdade.
Com um pouco de sorte, tambm o levaria a Grace
Brookstein.
Andrew Preston trincou os dentes. Se estava na sua
hora de morrer, tentaria enfrentar isso com coragem.
        Tudo que eu fiz foi por Maria. Voc tem que
acreditar em mim, Grace.
Ela apertou mais a corda em volta dos pulsos dele.
Ordenou que ele dirigisse at Nova Jersey; estavam
em um galpo abandonado na Freeway 2.87. Do lado
de fora, estava escuro e comeando a chover. Uma
garoa fina entrava pelos buracos do telhado e molhava
a camisa de Andrew. O poste ao qual estava amarrado
machucava suas costas.
        No me diga em que eu tenho que acreditar.
Apenas responda s minhas perguntas. Quanto voc
roubou de Lenny?
        Eu no roubei de Lenny.
O cabo de metal da arma atingiu o nariz de Andrew.
Ele gritou de dor.
        No minta para mim! Eu tenho provas. Mais uma
mentira e eu dou um tiro na sua cabea. Acredita em
mim?
Andrew Preston assentiu. Acreditava nela. Se aquela
fosse a antiga Grace, ele apelaria para a compaixo
dela. Mas estava claro que a antiga Grace no existia
mais. Andrew Preston no tinha a menor dvida de
que a mulher na sua frente enfiaria uma bala na sua
cabea sem nem hesitar.
        Quanto?
        No total, uns 3 milhes. Durante muitos anos. Mas
eu no estava mentindo. Eu no roubei dinheiro do
Lenny, roubei do Quorum. Minha inteno sempre
foi a de devolver.
        Mas voc no devolveu.
        No, no devolvi. As dvidas de Maria...  Ele
comeou a chorar.  Ela gastava tanto que comeou
a pegar emprstimos com agiotas.  uma doena que
ela tem, Grace. Um vcio. Ela no consegue evitar. Eu
no fazia idia da gravidade da situao. A, um dia,
umas pessoas foram na nossa casa. Pessoas violentas.
Assassinos. Eu no me importava comigo, mas eles
ameaaram machucar Maria. Eles me mostraram
fotos.  Ele estremeceu.  Nunca vou me esquecer
daquelas fotos.
Grace pensou no corpo inchado e sem cabea de
Lenny deitado em uma maca no necrotrio.
        Ento, voc roubou do fundo e Lenny descobriu?
Andrew balanou a cabea.
        Sim, eu achei que tivesse apagado meu rastro. A
Comisso de Valores Mobilirios estava nos
investigando, mas no descobriram. Acho que Lenny
era mais esperto que todos eles.
        E foi por isso que voc o matou? Para poder
continuar roubando e pagando esses bandidos?
Andrew a fitou realmente surpreso.
        MATAR? Eu no o matei, Grace. Eu roubei do
Quorum, isso foi errado. Mas eu nunca teria
machucado Lenny. Ele era meu amigo.
        Por favor!  Grace deu uma gargalhada amarga. 
Lenny sabia o que voc tinha feito. Ele e John
estavam discutindo isso em Nantucket. Voc estava
com medo que ele o demitisse ou o entregasse para as
autoridades, ento voc o matou.  Ela soltou a trava
de segurana da arma. Sua mo estava tremendo. 
Eu no acredito que voc s tenha roubado 3
milhes. Voc pegou tudo. Roubou todos aqueles
bilhes e fez parecer que foi Lenny.
        Isso no  verdade.
        Voc o matou! Eu sei que foi voc!  Grace estava
histrica.
Andrew Preston fechou os olhos. Pelo menos seria
uma morte rpida.
SER QUE MARIA VAI SENTIR SAUDADES DE MIM?
MITCH Connors estava deitado em sua cama, lendo.
Davey Buccola era um oportunista, mas era um
oportunista meticuloso. O relatrio dele era fruto de
uma investigao perfeita.  claro que muita
informao tinha sido obtida na base do "ouvi dizer"
em conversas no oficiais corn membros da equipe do
mdico-legista ou da guarda costeira de Nantucket.
Menos da metade do arquivo serviria em um
julgamento. Mas o quadro geral que pintava, de um
homem rico cercado por amigos falsos, parasitas e
puxa-sacos, parecia terrivelmente verdadeiro.
Mitch imaginou Grace lendo o relatrio. Se estava
deixando-o enojado, como ela se sentiria, vendo a
teia de meias verdades, ganncia e farsa tecida  sua
volta pelas pessoas mais prximas e mais queridas?
No era de admirar o fato de ela nao ter procurado
nenhum deles quando fugira de Bedford Hills. Com
amigos como os que os Brookstein tinham, quem
precisava de inimigos?
O maior problema com o relatrio era que tinha
informaes demais. Muitas pessoas tinham motivo e
tiveram oportunidade de se livrar de Lenny
Brookstein. Mitch pensou: GRACE EST SEGUINDO ESSAS
PISTAS, ASSIM COMO EU. PARA ONDE ELA IRIA PRIMEIRO?
Andrew Preston abriu os olhos. Estava esperando
Grace atirar nele, mas at aquele momento a bala no
tinha vindo. Ficou surpreso ao ver que o rosto dela
estava molhado de lgrimas.
        Quero que voc admita  soluou ela.  Quero
que diga que se arrependeu.
        Grace, eu me ARREPENDI do que fiz. Mas eu no
matei Lenny.  verdade. Eu estava em Nova York no
dia em que ele morreu. Lembra?
        Eu sei que voc estava. E sei o que voc estava
fazendo na cidade. Estava pagando um matador de
aluguel.  Grace tirou de sua mochila uma fotografia.
 Donald Anthony Le Dron. Imagino que v me
dizer que no reconhece este homem.
A cor do rosto de Andrew se esvaiu.
        No. Eu o reconheo. E voc est certa. Ele  um
matador de aluguel. Ele trabalha para a gangue
dominicana conhecida como DNB, que significa
Dominicanos No Brincam, o que descobri que  um
eufemismo.  Ele riu nervosamente.  E sim, eu
contratei Le Bron. Mas no para matar Lenny.
Grace hesitou.
        Continue.
        Eles se dizem cobradores de dvidas. "Homens de
negcios legtimos",  assim que se descrevem. Foram
at a minha casa e me mostraram fotos de mulheres
sendo estupradas e mutiladas. Disseram que Maria
seria a prxima. Ento, um ms antes do Baile do
Quorum, um deles apareceu no escritrio. Levou um
dedo arrancado enrolado em um pano de prato. 
Andrew fechou os olhos ao se lembrar.  Eu j tinha
pagado tudo que Maria devia para eles, mas eles
continuavam voltando e pedindo mais. Eles queriam
aes, centenas de milhares. Nunca acabaria. Eu no
podia procurar a polcia pois poderiam descobrir
sobre o dinheiro que tinha roubado do Quorum.
Ento, entrei em contato com Le Bron. Ele e o
pessoal dele resolveram o problema.
Grace tentou compreender o que ele estava dizendo.
Quando lera no arquivo sobre a fraude de Andrew e
sobre seus contatos com a gangue de Nova York,
tivera certeza de que tinha encontrado quem estava
procurando. Tudo fazia sentido: os roubos que Lenny
descobrira eram a ponta do iceberg. Na realidade,
Andrew devia estar desviando bilhes dos cofres do
Quorum e registrando nos livros de forma a parecer
que Lenny era o ladro. Ento, contratara um matador
de aluguel para matar Lenny, e ficara quieto,
deixando Grace levar a culpa. Mas ao escutar Andrew
contar o que acontecera, ao ver o horror em seu rosto
ao se lembrar das ameaas a Maria, ela ficou con-
vencida de que ele estava falando a verdade.
Andrew Preston no era o assassino de Lenny.
Isso era uma verdade esmagadora.
        Lenny era como um pai para mim, Grace, e eu o
tra. Vou carregar essa culpa comigo enquanto eu
viver. Mas nunca quis v-lo morto. No como Jack
Warner.
Grace tambm lera as informaes sobre Jack no
relatrio. Sabia sobre as dvidas de jogo dele e da
recusa de Lenny em pagar. Mas no lhe parecia um
motivo para assassinato. Alm disso, o libi de Jack
era slido. A guarda costeira o tinha resgatado a
quilmetros de onde o barco de Lenny fora
encontrado.
        Eu sei que Jack estava com raiva de Lenny.
        Raiva?  Andrew pareceu surpreso.  Ele o
ODIAVA. Lenny controlava Warner. Ele sabia de todos
os segredinhos sujos dele. Todo mundo no Senado
sabia que Jack Warner era a marionete do Quorum,
que ele votava de acordo com o que Lenny mandava.
Lenny fazia gato e sapato de Jack. O cara no tinha
sossego.
Grace parecia no acreditar.
        Tenho certeza de que no era assim. Lenny nunca
faria chantagem com Jack. Ele nunca faria isso com
ningum.
Andrew Preston sorriu. Agora, parecia a antiga Grace.
Que nunca questionava, que adorava e tinha certeza
de que Lenny no fazia nada de errado. No que ele a
culpasse. Andrew sabia melhor do que ningum o que
era amar tanto algum e defender essa pessoa acima
de qualquer razo.
        Grace  disse ele, gentilmente , o que quer que
tenha acontecido com Lenny, aconteceu no mar no
dia da tempestade. Jack tambm estava no mar
naquele dia, lembra?
Grace se lembrava. Assim como Michael Gray, Jack
Warner era um excelente velejador. BOM O SUFICIENTE
PARA ENTRAR NO BARCO DE LENNY E O MATAR? PARA JOG-LO
PARA FORA E FAZER PARECER UM ACIDENTE? Era possvel.
        Tente encontrar uma mulher chamada Jasmine 
disse Andrew.   o melhor conselho que posso lhe
dar. Talvez ela lhe mostre as coisas por um ngulo
diferente.
MITCH FORA AO apartamento dos Preston em um
impulso. Queria interrogar Andrew sobre o suposto
dinheiro que ele roubara do Quorum, mas, em vez
disso, encontrou uma Maria histrica. J era quase
meia-noite e Andrew no tinha ligado. Ningum o
tinha visto desde que sara do escritrio, s 17 horas.
J ligara para a polcia, mas ningum a levava a srio.
Mitch levou.
        Deixe-me servir-lhe um conhaque, Sra. Preston.
Ser que Grace fizera justia com as prprias mos?
quela altura, ela j sabia que Andrew roubara de
Lenny. E se ela o tivesse sequestrado? Ou pior? Se
Grace colocara na cabea que Andrew estava por trs
da morte de Lenny, no dava nem para prever o que
ela seria capaz de fazer.
Quando a porta do apartamento abriu e Andrew
Preston entrou, Mitch ficou to aliviado quanto
Maria. A camisa dele estava suja de sangue e o nariz
muito machucado, mas ele parecia calmo. Bem
diferente de sua esposa, que se jogou em seus braos
em uma cena melodramtica.
        Ah, Andy, Andy! O que aconteceu? Eu estava
morrendo de preocupao. Onde voc estava?
        No hospital. Estou bem, Maria. Tive um acidente,
s isso.
        Que tipo de acidente?
        Um acidente ridculo. Escorreguei na calada
molhada de chuva e ca de cara no cho. Eu teria
ligado, mas fiquei retido no pronto-socorro durante
horas. Voc sabe como so esses lugares. Eu no
queria deix-la preocupada, querida.
        Bem, voc me deixou preocupada. A polcia est
aqui.
Maria apontou para Mitch Connors. Andrew Preston
o reconheceu das reportagens na televiso como o
policial que estava atrs de Grace. Fez o melhor que
pde para parecer indiferente.
- Meu Deus. Um marido atrasado causa tanto
transtorno assim hoje em dia? Desculpe pelo
inconveniente, detetive.
        De forma alguma, Sr. Preston. Na verdade, eu vim
conversar com o senhor sobre outro assunto, mas isso
pode esperar. Fico feliz em ver que est bem. Olhe,
sei que talvez parea uma pergunta ridcula, mas
Grace Brookstein no tentou entrar em contato com o
senhor de alguma forma? Nas ltimas 48 horas?
Andrew pareceu confuso.
        GRACE? ME procurar? Por que ela faria isso?
        Por nada  disse Mitch.  Conheo o caminho da
porta.
Mais tarde, na cama, Andrew observava a esposa
dormir. EU TE AMO TANTO, MEU ANJO. Ele ficara
emocionado com a preocupao de Maria quando
chegara em casa. Talvez as coisas fossem ficar bem
entre eles, afinal?
Pensou em contar ao detetive Connors a verdade
sobre Grace e o que tinha acontecido naquela tarde.
Mas apenas por um momento. Grace poupara sua vida
e perdoara seus pecados. O mnimo que podia fazer
era retribuir o favor.
Se Lenny realmente tinha sido assassinado, Andrew
desejava que Grace tivesse sorte em sua busca pelo
assassino. Independentemente do que o mundo
pudesse achar, Lenny Brookstein tinha sido um bom
homem. Esticando a mo at o outro lado da cama,
Andrew puxou Maria mais para perto, sentindo o
cheiro inebriante do corpo dela. O leve aroma de
loo ps-barba que tambm detectou trouxe lgrimas
aos seus olhos.
Andrew Prestou nunca usava loo ps-barba.
Captulo 23
Jasmine Delevigne admirou seu corpo nu no espelho.
Tinha 24 anos, pele cor de caf com leite, pernas
longas e esbeltas e um lindo e perfeito par de seios de
silicone novo em folha, presente de aniversrio de
um cliente poderoso. Segurando-os com carinho nas
mos, Jasmine pensou: NO. ELE  MAIS DO QUE UM
CLIENTE.  MEU AMANTE. EU O ADORO.
No era comum Jasmine se afeioar aos homens que
pagavam para compartilhar sua cama. Filha de um
executivo francs com uma princesa persa, Jasmine
Delevigne no precisava do dinheiro que ganhava
como garota de programa. Fazia isso por prazer. O
simples fato de saber que homens ricos e poderosos,
homens que tinham esposas bonitas e amantes ainda
mais bonitas, achavam-na irresistvel, a ponto de
pagarem pelo privilgio de irem para a cama com ela,
dava um prazer incrvel a Jasmine. Fazia anos que no
tocava em seu fundo fiducirio. O apartamento na
Quinta Avenida, o conversvel vintage MG, o armrio
cheio de vestidos de alta-costura e de sapatos que
custavam mil dlares o par; tudo pago pelo seu corpo
perfeito. Muitas pessoas podiam cham-la de
prostituta. Pessoas como seu pai, que desperdiara
toda a sua ateno na me de Jasmine sem nunca
perceber os esforos da filha para agrad-lo. Mas
Jasmine no se importava com a opinio deles.
SOU FEMINISTA. TRANSO COM QUEM EU QUERO, QUANDO EU
QUERO E PORQUE GOSTO. NO DEVO EXPLICAES A NINGUM.
Andou por seu quarto de vestir e escolheu a lingerie
que usaria. Calcinha de seda cor de chocolate da La
Perla e camisola combinando. SOFISTICADO E FEMININO.
EXATAMENTE COMO ELE GOSTA. Fazia semanas que
Jasmine no o via, e estava excitada. Havia outros,
claro. Todos os seus clientes eram homens bonitos e
bem-sucedidos, e todos eram bons de cama. Jasmine
Delevigne era a melhor e s trabalhava com os
melhores. Mas nenhum dos outros homens a
conquistara como ele.
A campainha tocou.
ELE CHEGOU MAIS CEDO. ELE QUER TANTO QUANTO EU.
Jasmine abriu a porta impassvel, como a princesa que
era.
        Ol, querido.
Ele a agarrou pelo pescoo.
        Tire a porra da roupa agora. J.
As pupilas de Jasmine dilataram de excitao. COMO
SENTI SAUDADES DE VOC.
 Por favor! No!
Gavin Williams apertou os ns em volta dos pulsos de
Grace Brookstein. Ento levantou o chicote e deu um
golpe na parte de trs das pernas dela. Dois sulcos
vermelhos vivos se juntaram a outros. Gavin sorriu.
 Vou perguntar de novo, Grace. Cad o dinheiro?
Ela estava chorando. Implorando. A esposa de Lenny
Brookstein, seu bem mais precioso, estava implorando
para ele, Gavin Williams, por misericrdia. Mas Gavin
Williams no seria misericordioso.
DESAPAREAM DA TERRA OS PECADORES, E J NO SUBSISTAM
OS PERVERSOS.
Ele sentiu o incio de uma ereo. Levantou o chicote
novamente.
        Com licena, o senhor est bem?
A fantasia desapareceu. Estava de volta  sua mesa na
Biblioteca de Cincias, Indstria e Negcios, na
Madison Avenue. A bibliotecria estava parada ao seu
lado. QUE VADIA ESTPIDA. POR QUE NO CUIDA DA PRPRIA
VIDA?
        Estou bem.
        Tem certeza? O senhor est muito vermelho. Quer
que eu abra uma janela ou alguma coisa?
        No  respondeu Gavin. A senhora entendeu o
recado e voltou para a sua mesa.
Era ridculo ser forado a trabalhar em uma biblioteca
pblica. Depois que Harry Bain o afastara
sumariamente da fora-tarefa do Quorum, o chefe de
Gavin no FBI insistira que ele tirasse uma licena
remunerada.
        Voc est muito estressado, agente Williams.
Precisa de um tempo para relaxar. Acontece com todo
mundo.
VOC QUER DIZER QUE ACONTECE COM IMBECIS FRACOS COMO
VOC. NO COMIGO.
        Eu estou bem. Pronto para trabalhar.
        Tire as frias, Gavin, est bem? Ns o chamaremos
de volta daqui a uns dois meses.
DOIS MESES? Gavin sabia o que estava acontecendo.
John Merrivale estava conspirando contra ele.
Envenenando o poo. ToDOS ACHAM QUE SOU MALUCO.
OBSESSIVO. MAS VOU MOSTRAR A ELES. QUANDO GRACE
BROOKSTEIN ME LEVAR AT AQUELE DINHEIRO, ELES VO
ENGOLIR ESSAS PALAVRAS. ESTOU PERTO. POSSO SENTIR.
Gavin Williams tirou um leno antissptico da pasta e
comeou a limpar o lugar em que a bibliotecria tinha
tocado a mesa. Ento, fechou os olhos e tentou
resgatar sua fantasia: Grace Brookstein amarrada como
um animal,  sua merc. No adiantava mais. Ela j se
fora.
 Senhor, d uma olhada nisso.
Mitch se debruou sobre a tela do computador de um
jovem detetive.
        O senhor me pediu para fazer umas pesquisas
sobre o senador Warner. Este e-mail acabou de
chegar da Delegacia de Costumes.
Mitch leu o e-mail.
        Ningum investigou isso?
        Parece que no, senhor. O senador Warner apia
as causas da polcia de Nova York.
APOSTO QUE SIM.
        Isso tudo  extra-oficial. Meu amigo na Delegacia
de Costumes est me fazendo um favor. Eu prometi
que seria cuidadoso.
        Voc tem o endereo da garota?
        Sim, senhor.  um endereo bem chique tambm.
 O detetive clicou em outra janela.  O senhor no
acha que seria melhor mandarmos primeiramente
uma policial mulher? No queremos assust-la.
Jack Warner recostou-se em sua limusine, sentindo a
adrenalina correndo em suas veias. Estar com
Jasmine, toc-la, transar com ela, satisfazer-se em seu
corpo... Era a melhor sensao do mundo. Saber que
todo o pas o idolatrava como um cristo
conservador, um smbolo vivo da moral e dos valores
de famlia, s aumentava o prazer. Jack lembrou-se do
conselho que Fred Farrel lhe dera sobre o vcio em
jogo.
        Eu entendo.  excitante. Todo aquele risco. Mas 
to excitante quanto ser o prximo presidente dos
Estados Unidos?  isso que voc tem que se
perguntar, Jack. Voc poderia perder tudo.
Ah, sim. Mas era isso que trazia a emoo, no era?
Saber que podia perder tudo. Fred Farrel sabia do
vcio em jogo e dos casos extraconjugais. Mas no
sabia sobre Jasmine. S uma pessoa sabia sobre
Jasmine.
E essa pessoa estava apodrecendo embaixo da terra e
respondia pelo nome de Lenny Brookstein.
Jasmine Delevigne serviu ch de seu bule de prata em
duas xcaras de porcelana. Entregou uma delas 
policial.
A jovem plida, meio nerd, de cabelos pretos e curtos
e culos grossos com armao de plstico, olhou o
apartamento suntuoso e pensou: ESTOU NA PROFISSO
ERRADA.
        Acar?
        Ah. No, obrigada. Voc tem um lindo
apartamento.
        Obrigada. Trabalhei muito por ele.  Jasmine
recostou-se no sof de camura Ralph Lauren e
cruzou as pernas discretamente.  Ento, voc quer
saber sobre o senador Warner?
Quando a policial aparecera sem avisar, fazendo
perguntas sobre Jack e o relacionamento dele com
Leonard Brookstein, a primeira reao de Jasmine
tinha sido entrar em pnico. A segunda, lealdade.
Jasmine amava Jack. No podia tra-lo. Mas fora a sua
terceira reao, o interesse prprio, que ganhara a
batalha. Aquela poderia ser sua chance de afastar Jack
da esposa para sempre. Ele s ficava com Honor
porque ela era necessria para suas ambies polticas.
Isso a levava a concluir que se as ambies polticas
dele morressem, seu casamento teria o mesmo
destino.
        H quanto tempo vocs dois se conhecem?
Jasmine tomou um gole de ch.
        Socialmente, h cinco anos. Somos amantes h
trs. Biscoitos?
ESTA MOA  UMA OBRA DE ARTE.
        No, obrigada. Voc disse "amantes".
        Certo. Acho que devo esclarecer. O senador
Warner  meu cliente. Ele paga pelos meus servios.
 Ela falou sem o menor resqucio de vergonha. 
No entanto, eu caracterizaria o nosso relacionamento
como romntico. A gente se adora.
        Entendo. Ento, o senador Warner faz confidncias
a voc?
        Com certeza.
        E alguma vez ele falou com voc sobre Lenny
Brookstein?
        Falou. Lenny sabia sobre ns. Ele era a nica pessoa
que sabia.
        Jack contou a ele?
        No. Deus, no. Ele descobriu de alguma forma.
Lenny Brookstein estava chantageando Jack. Era um
homem mau, violento, e infernizava a vida de Jack.
Quando soube que ele tinha se matado, fiquei feliz.
No poderia ter acontecido com algum melhor.
A policial se endireitou no sof, surpresa pela
sinceridade da moa. Jasmine percebeu sua reao.
        Sinto muito.  Ela deu de ombros.  Eu poderia
mentir, mas no vejo por qu. Eu odiava Lenny
Brookstein. Eu e Jack o odivamos. Ele era
manipulador e falso.
        Srta. Delevigne, na sua opinio, o senador Warner
odiava Lenny Brookstein a ponto de mandar mat-lo?
Ou de mat-lo ele mesmo?
Jasmine sorriu. A policial pensou: AT OS DENTES DELA
SO PERFEITOS.
        Se ele o odiava o suficiente para isso? Certamente.
Lenny estava ameaando destruir tudo o que Jack
trabalhara para construir. Ele forou Jack a conseguir
votos a favor do Quorum quando estavam
reescrevendo a legislao de fundos de hedge,
lembra?  A policial assentiu.  Lenny sempre dizia
para Jack: " isso. Mais um voto e voc est livre."
Mas ele sempre voltava pedindo mais, sugando cada
vez mais.  Jasmine balanou a cabea com raiva. 
Jack odiava Lenny Brookstein e tinha bons motivos
para isso. Mas ele no o matou.
        Voc parece ter certeza disso.
        Eu tenho certeza. Jack disse que estava velejando
naquele dia. No dia da tempestade em que Lenny
Brookstein desapareceu.
A policial olhou nas suas anotaes.
        Isso mesmo. Ele saiu para velejar. A guarda costeira
de Nantucket o resgatou a 10 quilmetros de Sankaty
Head. Ele chegou  casa dos Brookstein por volta
das... 18 horas naquela noite.
        A guarda costeira no resgatou Jack. Pelo menos,
no da forma que voc acha.
        Como assim?  A policial franziu a testa.  No
entendi.
        Jack no saiu de barco naquele dia. Ele passou o dia
todo comigo, em um chal  beira da praia em
Siasconset. A guarda costeira apenas forjou o resgate.
        Voc est dizendo que a guarda costeira ajudou o
senador Warner a dar um falso libi? Eles MENTIRAM?
Jasmine riu, tmida e sensualmente, trazendo vida a
todo o seu corpo.
        No fique to chocada. Isso acontece o tempo
todo. O senador Warner  um homem poderoso. As
pessoas passam a mo na cabea dele para que um dia
ele retribua na mesma moeda. Eu achava que, na sua
profisso, voc j estaria habituada a esse tipo de
coisa. Eu certamente j estou na minha.
Educadamente, Jasmine levou a policial at a porta.
Ao sair, Jasmine perguntou a ela:
        Ento a polcia acha que Lenny Brookstein pode
ter sido assassinado? Tenho acompanhado o caso, mas
ainda no escutei nada sobre homicdio.
         uma possibilidade que estamos considerando.
        Voc acha que isso significa que as coisas viro 
tona agora? Sobre mim e Jack?  Jasmine inclinou a
cabea para um lado, esperanosa. A policial pensou:
ENTO  ISSO. ELA QUER QUE AS PESSOAS SAIBAM. ELA EST
QUERENDO FAZER COM QUE O SENADOR LARGUE A ESPOSA.
        No sei, Srta. Delevigne. Isso no  da minha
alada.
Jasmine se inclinou para a frente de forma
conspiratria.
        Aposto na amante dele. A mulher no  fcil.
A policial sorriu.
        Acho que est errada. O Sr. Brookstein no tinha
amante.
        Claro que tinha. Connie Gray, a cunhada dele. Eles
eram amantes, at que Lenny a abandonou e voltou
de joelhos para a esposa. Voc no sabia?
Captulo 24
Polcia! Abra a porta, Srta. Jasmine Delevigne!
Jasmine suspirou. DE NOVO? O QUE ELES QUEREM DESTA
VEZ?
Ela abriu a porta.
 Ei, eu conheo voc, no conheo?
No saguo, Grace trancou a porta do banheiro
feminino. Tirou a peruca preta e os culos, depois o
uniforme de polcia, dobrou-o e colocou-o na
cisterna do vaso sanitrio. S depois que colocou a
tampa da cisterna no lugar e endireitou as roupas,
caiu no cho e comeou a chorar.
NO. LENNY NO. NO O MEU LENNY.
COM A MINHA PRPRIA IRM?
ELE NO PODERIA.
Comeou a se lembrar. Lenny e Connie sempre
tinham se dado muito bem. Eram espritos afins em
alguns aspectos, ambos eram ambiciosos. O CONTRRIO
DE MIM. Lembrou-se dos dois danando no Baile do
Quorum, envolvidos em uma conversa. Connie
brigando com Lenny na praia em Nantucket, depois
se desfazendo em lgrimas. EU ACHEI QUE ELE A ESTIVESSE
CONFORTANDO POR CAUSA DE MICHAEL. POR CAUSA DE TODO O
DINHEIRO QUE TINHAM PERDIDO. COMO POSSO TER SIDO TO
CEGA?
Grace no se importava com Connie. Fazia muito
tempo que suas irms estavam mortas para ela. Mas
Lenny! As lembranas de Grace do dia de seu
casamento, do amor de Lenny por ela, eram a nica
coisa verdadeira que tinha sobrado em seu mundo.
Sem isso, no havia esperana, nada tinha significado,
no tinha razo para nada disso. Sem aquele amor, a
angstia era insuportvel. Ela perguntou aos cus em
voz alta:
        Ah, Lenny, me diga que no  verdade!
Mas Grace no escutou nada, apenas o eco de suas
prprias palavras no silncio.
JASMINE SORRIU para o policial louro e atraente.
Geralmente, s se interessava por homens ricos. Mas
no caso do detetive Mitch Connors, ela poderia
perfeitamente abrir uma exceo.
        Gostaria de conversar sobre o seu relacionamento
com o senador Warner.
        Certamente. Mas no sei em que mais posso lhe
ajudar. J contei  sua colega tudo o que eu sabia.
Mitch franziu a testa.
        Minha colega?
        Isso. Ela acabou de sair.
ELA?
        Ela me perguntou sobre Jack e sobre o que
aconteceu em Nantucket no final de semana em que
Lenny Brookstein desapareceu. No foi voc quem a
mandou?
A boca de Mitch ficou seca. Saiu correndo para o
elevador, apertando o boto impacientemente.
Pareceu levar uma eternidade.
DEVO ESPERAR OU PEGAR AS ESCADAS?
FODA-SE.
Ele abriu a porta da sada de emergncia e desceu as
escadas, trs degraus de cada vez. Chegando ao
saguo, olhou em volta. VAZIO. Correu para a rua,
olhando para os dois lados freneticamente. A Quinta
Avenida estava movimentada. A rua estava cheia de
carros, e as caladas, lotadas de pessoas. Mitch se
meteu entre a multido, mostrando seu distintivo
como um talism, segurando todas as mulheres
pequenas por quem passava, analisando os traos de
todas elas.
No adiantou.
Grace Brookstein j tinha ido embora.
Captulo 25
ASSIM QUE PERCEBEU que Grace tinha conseguido
fugir, Mitch voltou ao apartamento de Jasmine.
 O que voc disse a ela? Quero saber tudo, cada
palavra. Foi uma conversa e tanto. Mitch estava
acostumado a ouvir falar de Lenny Brookstein como
um fraudador e covarde. Mas em todos os perfis
traados pela mdia, nunca escutara nenhuma meno
a amantes. Muito menos a um caso com a irm da
esposa. Parecia to estranho.
No era de se admirar que "a policial" tivesse sado
com tanta pressa.
Mitch tentou imaginar qual seria o passo seguinte de
Grace. Aps tantas semanas naquele caso, ele estava
comeando a sentir como se estivesse na cabea dela,
quase como se eles fossem fisicamente conectados de
alguma forma. Era estranho. Tecnicamente, eles mal
se conheciam. NO se conheciam. Ainda assim, havia
vezes em que Mitch se sentia mais prximo de Grace
do que de muitas de suas ex-namoradas, at mesmo
Helen.
O primeiro instinto dela, ele tinha certeza, seria ir
direto para a casa de Connie para confront-la. Mas, e
depois? O bom-senso a tomaria? Aparecer na casa da
irm seria um risco insano. Por outro lado, Grace
tinha mantido Davey Buccola na mira de uma arma. O
apetite dela por risco parecia estar crescendo a cada
dia.
Mitch tinha interrogado as duas irms de Grace assim
que ela fugira de Bedford Hills. Era um procedimento
de rotina entrar em contato com a famlia, no caso de
o suspeito procurar algum. Lembrava-se da forma
como Honor e Connie tinham lavado as mos no caso
de Grace, como duas Lady Macbeths, abandonando-a
completamente quando ela mais precisava. Amigos
por interesse j eram ruins o suficiente. Mas Grace ti-
nha sido amaldioada com uma famlia movida a
interesse.
Se Lenny realmente havia trocado uma mulher linda
como Grace pela mulher de gelo que era Connie
Gray, ele devia ser louco. Mitch se lembrou de seu
encontro com Grace na estao de metr da Times
Square. Tinha chegado to perto de peg-la naquele
dia, mas no foi de sua decepo que se lembrou. E
sim da expresso de Grace, da assombrosa combinao
de vulnerabilidade e fora. Apesar do seu cansao e
das roupas largas e masculinas que estava usando, ela
possua um poder de atrao singular. Em alguns
aspectos, fazia com que Mitch se lembrasse de Helen,
no feliz incio de seu casamento. Ambas tinham uma
beleza interior, uma feminilidade inata que atraa os
homens para elas como abelhas para o mel. Connie
Gray era exatamente o oposto. As feies de Connie
podiam ser regulares e seu corpo podia ser esbelto e
estar em forma, mas ela era to feminina quanto um
lutador de sumo. TALVEZ FOSSE ISSO QUE LENNY QUERIA.
UMA VERSO TRANSEXUAL DA PRPRIA ESPOSA? Isso
realmente seria doentio.
MICHAEL GRAY atendeu a porta.
        Detetive. Que surpresa.
Mitch pensou a mesma coisa que todo mundo pensava
quando via Michael. VOC  UM HOMEM DECENTE,
NTEGRO,  MODA MITIGA.  BOM DEMAIS PARA ESSA GENTE.
        Alguma novidade sobre Grace?
        Nada de concreto. Estamos seguindo novas linhas
de investigao. Ser que eu poderia falar com de sua
esposa de novo?
        Claro. Vou ver se ela est.
 Tudo bem, Mike. Estou aqui.
Connie apareceu no vestbulo. Mitch pensou: TALVEZ
EU TENHA EXAGERADO. Com um bonito vestido floral, o
cabelo louro sob um arco, ela estava bem mais
atraente do que ele se lembrava. Atrs dela, um
adorvel menino louro empurrava um trem de
madeira pelo cho. Pelas portas duplas  direita de
MITCH, um menino mais velho e mais moreno tocava
piano. A cena toda parecia um comercial de televiso.
BOM DEMAIS PARA SER VERDADE?
Connie acompanhou Mitch at um escritrio onde
pudessem ficar sozinhos. Ele viu duas primeiras
edies de livros de Steinbeck na estante e o que
parecia um Kandinsky do perodo inicial na parede de
madeira. Era evidente que os problemas financeiros
dos Gray tinham ficado para trs.
Connie o viu admirando o quadro.
        Foi um presente.
        Um presente muito generoso.
        Verdade.  Connie abriu um sorriso doce, mas
no continuou o assunto.  Em que posso ajud-lo,
detetive?
Mitch decidiu ir direto ao assunto.
        Por quanto tempo voc e Lenny Brookstein foram
amantes?
O sangue foi todo para o rosto de Connie, depois
sumiu. Ela chegou a considerar a possibilidade de
negar o caso, mas pensou melhor.  BVIO QUE ELE SABE.
MENTIR AGORA S VAI DEIX-LO COM MAIS RAIVA.
        No por muito tempo. Poucos meses. Acabou antes
de Nantucket. Antes de ele morrer.
        Quem terminou?
Connie pegou uma almofada de seda e cravou as
unhas no tecido.
        Foi ele.
        Isso a deixou chateada?
Uma veia latejava visivelmente na tmpora de
Connie.
        Um pouco. Na poca. Como pode imaginar,
detetive, esse  um captulo da minha vida do qual
no tenho muito orgulho. Michael no faz a menor
idia. Nem Grace.
AGORA ELA FAZ.
        Voc mentiu para a polcia sobre o relacionamento
de vocs.
        Eu no menti. Eu omiti. No vi nenhuma razo para
desenterrar tudo isso. Ainda no vejo.
Mitch pensou no corpo de Lenny, ou no que sobrara
dele, tirado do fundo do mar. Ser que Connie tinha
alguma participao na morte dele? A mulher
desprezada? Ela tinha um libi incontestvel para o
dia da tempestade. Vrias pessoas viram as trs irms
Knowles almoando juntas no Cliffside Beach Club.
Mas ela poderia ter orquestrado tudo.
        De que a senhora no tem tanto orgulho,
exatamente? Do caso? Ou do fato de Lenny ter lhe
dado um fora e voltado correndo para Grace? 
Mitch estava tentando achar um ponto fraco em
Connie. Se conseguisse fazer com que ela perdesse
seu majestoso auto-controle, talvez ela deixasse
escapulir alguma coisa.  Deve ter sido humilhante
ser rejeitada em troca da caula.
        Vou lhe dizer o que era humilhante, detetive. A
obsesso ridcula de Lenny por Grace. Isso era
humilhante. Um homem inteligente e dinmico como
ele se deixar dominar por uma esposa que mais
parecia uma criana tola? Era absurdo. Pattico.  A
lngua de Connie jorrava veneno.  Todo mundo
achava isso, no era s eu. E todo mundo fingia
admirar o casal apaixonado. Mas aquele casamento era
uma piada contnua.
        A senhora o amava, no amava?
        No.
        A senhora o amava, mas ELE amava sua irm.
        Ele era obcecado pela minha irm.  bem diferente.
        Besteira. Grace foi o amor da vida dele. Voc no
conseguiu perdoar nenhum dos dois por isso, no foi,
Connie?
Pegando sua bolsa, Connie tirou um cigarro e o
acendeu. Deu uma tragada profunda e disse:
        Deixe-me lhe dizer uma coisa, detetive. O nico
amor da vida de Lenny Brookstein foi Lenny
Brookstein. Se o senhor no sabe disso, ento no o
conhece mesmo.
        Mas a senhora o conhecia. A senhora se humilhou,
se prostituiu para dar prazer a ele, depois foi jogada
fora como um trapo.
        Isso no  verdade.
        Admita. A senhora se jogava aos ps dele.
O maxilar de Connie se contraiu visivelmente. Por
um momento, Mitch achou que ela finalmente fosse
perder o controle. Mas conseguiu se controlar.
Apagando o cigarro, ela disse calmamente:
        O senhor est muito errado. Se quer saber, eu
odiava Lenny Brookstein. Eu o odiava.
        Foi por isso que a senhora o matou?
Connie caiu na gargalhada.
        Ah, meu Deus! Toda essa encenao para chegar a
isso, detetive?  Ela enxugou as lgrimas causadas
pelo riso.  O senhor descobriu sobre meu caso com
Lenny e, de repente, me transformei na amante
rejeitada que mata em um acesso de dio?  um
pouco simplista demais, no acha?
Mitch ficou furioso.
        Vou lhe dizer o que eu acho. Acho que estava l
naquele final de semana porque queria vingana.
         verdade. E eu consegui a minha vingana. 
Levantando-se, Connie foi at o quadro que Mitch
admirara mais cedo, tirou-o da parede e o entregou a
ele.  Um presente de meu querido falecido
cunhado. Falso, como descobri depois. Como ele. Mas
d um toque especial  sala. Tenho certeza de que
concorda. Eu queria o quadro, ento fiz com que
Lenny me desse. Fiz com que Lenny me desse muitas
coisas.
        A senhora o estava chantageando? Ameaando
contar a Grace sobre vocs dois?
        Chantageando? De forma alguma.  A idia
pareceu surpreend-la.  Simplesmente exigi o que
me pertencia.  Andando pela sala, admirando suas
estantes de livros raros e obras de arte, Connie sorriu,
orgulhosa de si prpria.  Graas a Deus, Michael
acha que comprei esta casa com o dinheiro de uma
herana. Ele realmente acha que uma tia rica e velha
me deixou 15 milhes de dlares.
        Lenny lhe deu esse dinheiro?
        Quem mais me daria? Ele fez o cheque em
Nantucket, dois dias antes de morrer. Graas a Deus,
eu depositei logo. Mais duas semanas e o dinheiro
teria desaparecido juntamente com os bilhes do
Quorum. Mas do jeito que foi...  Ela sorriu de forma
presunosa, deixando a frase inacabada no ar. 
Posso lhe dizer de todo corao, detetive, que a
morte de Lenny Brookstein foi um golpe terrvel para
mim. Mas no porque eu o ADORAVA. No sou
nenhuma vtima. Deixo esse papel para a minha irm.
Ela  muito boa nisso.
Mais tarde naquela noite, Mitch no conseguia
dormir, pensando em Connie e Grace, e no homem
que as duas amaram. Lenny Brookstein era um
enigma. Ele no era a caricatura do mau que a
imprensa fizera, disso Mitch tinha certeza. Mas
tambm no era o santo que a esposa imaginava.
Parecia ser uma miscelnea de contradies.
Generoso e mau. Leal e vingativo. Dedicado e infiel.
Brilhante nos negcios mas incapaz de distinguir um
amigo de um inimigo.
Ser que Lenny Brookstein havia realmente roubado
todo aquele dinheiro?
Ele era bem capaz disso. Mas ser que o fizera?
Se sim, o cretino no tivera oportunidade de
aproveitar. Algum acabara com sua festa usando uma
faca de aougueiro. Algum que Lenny Brookstein
conhecia e em quem confiava.
Buccola conseguira algumas pistas atormentadoras,
mas nenhuma delas dera em nada: Andrew Preston,
Jack Warner e Connie Gray. Estava na hora de voltar
para John Merrivale.
Mitch pegou no sono com imagens de um mar
tempestuoso, quadros de Kandinsky e o rosto de
Grace Brookstein.
Captulo 26
O enjo vinha em ondas.
No incio, Grace tentou ignorar. Estava muito
estressada. No comia adequadamente. Depois que
Jasmine Delevigne lhe contara sobre Connie e Lenny,
ela voltara correndo para seu quarto miservel, se
jogara na cama e ali ficara por dois dias. Isso era pior
do que a traio de Davey Buccola, pior do que ser
mandada para Bedford Hills, pior do que ser
estuprada. Ela s saa da cama para ir ao banheiro e
vomitar. Os vmitos estavam piorando, ficando cada
vez mais frequentes e mais violentos. Ela estava
doente.
ISSO PROVAVELMENTE  UM VRUS. ESTOU DEPRIMIDA. MINHA
IMUNIDADE EST BAIXA.
Aps 48 horas de enjos insuportveis, Grace
finalmente se arrastou at uma farmcia na esquina.
Com um bon de beisebol quase cobrindo seus olhos
e um cachecol sobre metade de seu rosto, ela contou
seus sintomas para o farmacutico.
        Sei. Quando foi a sua ltima menstruao?
A pergunta pegou Grace de surpresa.
        Minha menstruao?
        Existe alguma chance de voc estar grvida,
docinho?
Grace tentou bloquear todos os sons e imagens, mas
eles continuavam aparecendo: o rosto do motorista do
caminho, seus olhos pretos e cruis, a voz que a
atormentava. NO SE PREOCUPA, LIZZIE, TEMOS A NOITE
TODA.
        No.
        Tem certeza absoluta?
        Tenho. No tem a menor chance.
Grace comprou um teste de gravidez.
Dez minutos depois, sentada em um vaso sanitrio
quebrado que dividia com outros trs inquilinos, fez
xixi no palito por cinco segundos, como mandavam as
instrues, mentalmente se ridicularizando por
desperdiar 15 dlares.
ISSO  RIDCULO. MINHA MENSTRUAO S EST ATRASADA
PORQUE ESTOU ESGOTADA.
Duas linhas cor-de-rosa apareceram na janela do
resultado. As palmas de suas mos comearam a suar.
DEVE SER UM FALSO POSITIVO. Correu de volta para a
farmcia e comprou outro teste. Depois outro. Todas
as vezes, o palito de plstico zombava dela com suas
duas linhas cor-de-rosa danando bem debaixo de seu
nariz como os elefantes em DUMBO.
POSITIVO. POSITIVO. POSITIVO.
PARABNS! VOC EST GRVIDA.
Grace ficou tonta. Jogou-se na cama e fechou os
olhos. De alguma forma, naquelas ltimas trs
semanas, ela conseguira bloquear o estupro. Como se,
instintivamente, soubesse que, se pensasse a respeito,
isso a destruiria. Mas agora no tinha mais como
esconder. Estava ali, dentro dela, crescendo, vivo
como um aliengena indesejado, um parasita que a
consumia de dentro para fora.
PRECISO ME LIVRAR DISSO. AGORA.
Um mdico estava fora de questo. Grace j estava
usando a terceira carteira de motorista falsa que
Karen fizera para ela em Bedford Hills. Naquela
semana, Grace era Linda Reynolds, uma garonete de
Illinois. Os cartes de crdito eram bons o suficiente
para enganar vendedores e recepcionistas de hotel,
que no olhavam para o carto por mais de um
segundo. Mas ela no podia se arriscar a usar um deles
em um consultrio mdico, onde poderiam olhar com
mais ateno. VOU TER QUE RESOLVER ISSO SOZINHA.
Ouvira algumas das garotas em Bedford Hills falarem
sobre clnicas clandestinas de aborto, histrias
terrveis que envolviam cabides e hemorragias. Ao
lembrar-se delas, Grace comeou a tremer.
NO POSSO. NO POSSO FAZER ISSO.
TEM QUE HAVER OUTRO JEITO.
EM uma biblioteca pblica tranquila em uma esquina
no Queens, Grace se sentou  frente de um
computador. Uma rpida pesquisa no Google lhe
mostrou o que precisava fazer.
... A INGESTO PODE CAUSAR PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS,
ABORTO ESPONTNEO, ATAQUES DE EPILEPSIA, COMA, COGULO
INTRAVASCULAR, INSUFICINCIA RENAL E HEPTICA E MORTE.
ABORTO ESPONTNEO...
Havia uma loja de produtos naturais que vendia ervas
a poucas quadras dali.
Grace foi para l
- Os romanos costumavam usar isso, sabe.  A
vendedora da loja estava a fim de papo.  Era uma
erva comum para cozinhar. Claro, o que voc tem
aqui  um leo essencial.  Ela entregou a Grace um
frasco do tamanho de um polegar.  Voc no pode
usar isso para cozinhar. A no ser que seja uma poo
para a sua sogra e voc esteja tentando mat-la! 
Grace forou um sorriso.  Mas algumas gotas na
banheira? Fantstico. Os seus problemas vo
desaparecer.
TOMARA.
        Quanto ?
        So 15 dlares e 22 centavos.  A vendedora
colocou o frasco em um saco de papel e o entregou a
Grace. De repente, a expresso dela mudou.  Eu
conheo voc de algum lugar? Seu rosto me parece
familiar.
Grace deu uma nota de 20 dlares para a vendedora.
        Acho que no.
        No, conheo sim. Tenho certeza. Nunca esqueo
um rosto.
        Fique com o troco.
Grace pegou o saco de papel e saiu apressada da loja.
A vendedora a observou saindo. Era terrvel a forma
como as pessoas dessa cidade viviam correndo. Ela
parecia uma boa moa. Esperava que o leo a ajudasse
a relaxar.
TENHO CERTEZA DE QUE A CONHEO DE ALGUM LUGAR.
Mitch CONNORS encontrou John Merrivale para um
almoo em Manhattan.
        Obrigado por vir me encontrar.
John Merrivale se levantou e sorriu educadamente.
Mitch ficou surpreso em como ele era sem graa.
Tudo nele parecia apagado, desde sua pele sem cor e
seus olhos cinza aguados, at a voz aguda e o aperto
de mo fraco. ELE PARECE MAIS UM FANTASMA DO QUE UM
HOMEM.
        De-de forma alguma, detetive. Fico feliz em
ajudar, se puder. Suponho que seja sobre Gr-Grace?
        Na verdade,  sobre Lenny.
O sorriso simptico desapareceu.
        Ah?
        Eu gostaria de compreender melhor seu
relacionamento com ele.
        Meu relacionamento? No entendo como o meu
relacionamento com ele pode ter alguma relevncia.
Mitch pensou: ISSO TOCOU EM ALGUMA FERIDA. Em voz
alta, ele disse:
        Estamos tentando construir um cenrio o mais
completo possvel da vida dos Brookstein antes de
Grace ser presa. Esperamos, assim, conseguir prever
seus passos.
        Entendo.  John se sentou com cuidado.
        Podemos pedir?
Mitch escolheu bife e salada. John analisou o cardpio
por um tempo exagerado antes de se decidir por uma
quiche. FRACO E INSPIDO, COMO ELE, pensou Mitch. Mas
John Merrivale tinha de ser mais do que isso. No se
chega ao topo de uma instituio como o Quorum sem
possuir um lado severo. Ou, pelo menos, sem uma
inteligncia excepcional.
        O senhor conhecia os Brookstein melhor do que
qualquer outra pessoa  comeou Mitch.  Grace
at ficou hospedada em sua casa durante o
julgamento, no?
        Est correto.
        E o senhor pagou pela defesa dela.
John Merrivale no parecia  vontade.
        Paguei. Lenny era meu me-melhor amigo. Ele teria
gostado que eu fizesse isso.
        Mas o senhor nunca a visitou na cadeia. Na
verdade, nunca mais entrou em contato com ela. Por
qu?
        Tente entender, detetive. Acreditei em Grace
enquanto eu pu-pude. Assim como acreditei em Le-
Lenny. Mas em certo momento, tive que encarar a
verdade. Os dois me pa-passaram para trs. Perdi tudo
com a falncia do Quorum. O meu no-nome, minhas
economias, o tr-trabalho da minha vida toda. Sei que
outras pessoas sofreram mais do que eu. E estou de-
dedicando todo o meu tempo agora para tentar ajud-
las.
        O senhor est falando sobre a investigao do FBI?
        Estou  disse John seriamente.  Estou tentando
en-entender o que aconteceu.
Mitch pensou: TUDO QUE ELE FALA FAZ SENTIDO. ENTO,
POR QUE NO CONSIGO ACREDITAR NELE?
A comida chegou. Mitch devorou seu bife
vorazmente. Observou John ciscar em volta da quiche
Lorraine, comendo pequenos pedaos, como um
passarinho. Quando terminaram de comer, Mitch
mudou de ttica.
        Se o senhor tivesse que dar um palpite, para onde
acha que Grace iria?
        No fao a menor idia.
        Talvez Lenny tenha falado de algum lugar a que
costumava lev-la...
        No. Nunca.
        Algum lugar romntico, que fosse significativo para
eles como casal...
        J disse  respondeu John, de forma concisa. 
Lenny no conversava comigo sobre essas coisas.
        Mesmo?  Mitch fingiu surpresa.  Eu achei que
o senhor tivesse dito que ele era seu melhor amigo.
        E era.
        Seu melhor amigo nunca conversava com voc
sobre o casamento dele? A coisa mais importante na
vida dele?
        Grace no era a coisa mais importante da vida de
Lenny  respondeu John.  EU era.  Vendo a
expresso no rosto de Mitch, ele ficou vermelho e
tentou voltar atrs:  Bem, no eu pe-pessoalmente.
O Quorum. Nosso trabalho ju-juntos. Era para isso
que Lenny vivia.
Tarde demais. O estrago estava feito. Mitch pensou:
ELE PARECE CONNIE GRAY. UMA AMANTE CIUMENTA. Ficou
arrepiado.
 Poderia fazer o favor de me lembrar, Sr. Merrivale,
onde o senhor estava no dia da tempestade em
Nantucket? No dia em que Lenny Brookstein
desapareceu.
John piscou duas vezes.
- Eu estava em Boston a trabalho. Uma viagem que j
estava programada. Peguei um vo cedo e passei o dia
todo fora. Todos os meus depoimentos esto nos
arquivos, se quiser chec-los.
- Obrigado  disse Mitch.  Farei isso.
Foi s mais tarde, depois de pagar a conta e John
Merrivale ter voltado para o trabalho, que Mitch
percebeu.
ELE NO GAGUEJOU.
QUANDO PERGUNTEI SOBRE O LIBI DELE NAQUELE DIA, ELE
FALOU PERFEITAMENTE.
GRACE DEITOU na cama, o pequeno frasco de leo na
mo. O cheiro era inebriante e reconfortante, como
alecrim trazido em uma brisa de vero.
O rtulo dizia: CUIDADO: TXICO. NO INGERIR.
Ela pensou no cretino que a estuprara.
Pensou na vida inocente dentro dela.
Pensou em Lenny. Quando fechou os olhos,
conseguiu escutar sua voz:
E FILHOS? IMAGINO QUE VOC VAI QUERER SER ME EM ALGUM
MOMENTO.
E a resposta dela. NO MUITO. ESTOU TO FELIZ COMO
ESTAMOS! No H NADA FALTANDO.
Deitada na cama, Grace percebeu que sacrificara a
maternidade por Lenny. Sacrificara tudo por ele, pelo
amor deles, e ainda estava sacrificando. Como ele
podia t-la trado com Connie? COMO? Sentia-se
furiosa e humilhada. Tentava odi-lo, esquecer as
lembranas dele, mas no conseguia.
NO ADIANTA. EU AINDA O AMO. SEMPRE O AMAREI.
Ela abriu o frasco e tomou o lquido amargo.
QUANTO TEMPO SER QUE VAI LEVAR?
 VOC EST bem a dentro, moa?
O zelador estava batendo na porta do quarto de
Grace.
        Precisa de um mdico?
Grace no conseguia escut-lo. A dor rasgava seu
corpo como uma lmina gigante, cortando sua carne,
seus nervos. Ela gritava. Sangue jorrava dela. Suas
pernas comearam a tremer e danar enquanto uma
convulso tomava conta de seu corpo, contorcendo
seus braos e pernas como um fantoche sdico.
O zelador destrancou a porta.
        Jesus Cristo. Vou chamar uma ambulncia!
Grace no o escutou. Estava ensurdecida pelo som dos
prprios gritos.
Captulo 27
ELA ESCUTOU VOZES.
        Linda? Linda!
        Ainda sem resposta. Ela est com parada cardaca.
        D mais um choque.
Grace se perguntou: QUEM  LINDA? Sentiu um peso
sobre as suas costelas, ento uma dor indescritvel,
como um espeto de carne sendo enfiado em seu
corao.
Desmaiou.
ELA ESTAVA EM um quarto verde-claro com teto cinza.
Havia agulhas em seus braos. Algum falava com ela.
Uma enfermeira.
        Linda?
Grace se lembrou. Tivera de abandonar Lizzie
Woolley e usar outra identidade falsa. Sou LINDA
REYNOLDS. TENHO 33 ANOS e SOU GARONETE EM CHICAGO.
        Bem-vinda de volta.  A enfermeira sorriu. 
Voc sabe onde est, Linda?
        Hospital.  A garganta de Grace estava to seca e
dolorida que a palavra era quase inaudvel.  gua.
        Claro.  A enfermeira apertou um boto de
emergncia.  Espere s mais uns minutinhos. O
mdico vai dizer se voc pode ou no beber gua
agora. Ele j est vindo. Tem algum que voc queira
que eu avise? Um parente ou amigo?
Grace balanou a cabea. NINGUM.
Voltou a dormir.
Ela estava em East Hampton na festa de 4 de julho.
Tinha 6 anos. Seu pai a levantara nos braos e a
colocara nos ombros. Ela se sentia como uma princesa
em seu vestido de festa azul com pregas, com fitas
vermelhas, brancas e azuis no cabelo louro. Um dos
amigos de seu pai os chamou:
        Ei, Cooper. Quem  esta linda menininha que est
com voc?
        A menina mais linda de Nova York.  Cooper
Knowles sorriu.  Quando voc se casar, Grace, ser
com um rei. Voc ter o mundo aos seus ps, meu
anjo. O mundo aos seus ps!  Ele puxou os sapatos
novos de festa dela, e Grace riu.
O riso se transformou no riso de Lenny. Eles estavam
na varanda de casa, em Palm Beach. Lenny lia o
jornal.
        Olhe isto, Grace.  Ele deu uma gargalhada. 
Olhe do que eles esto me chamando: "Leonard
Brookstein, o rei de Wall Street". Como  ser casada
com um rei?
         maravilhoso, meu amor. Eu amo voc.
        Eu tambm amo voc.
        Linda. Linda.
O feitio se quebrou.
        Este  o Dr. Brewer, da nossa equipe de
psiquiatria. Ele s quer conversar um pouquinho com
voc, est bem?
OS DIAS FORAM passando. Mdicos e psiquiatras iam
e vinham. Mulheres que abortavam sozinhas existia
aos montes, infelizmente, mas o caso de Linda
Reynolds era raro o suficiente para chamar ateno.
        Envenenamento por poejo? O que  isso?
        Alguma erva maluca. As mulheres a usavam para
abortar na Idade Mdia. Mas  pavoroso. Ingerir o
leo essencial pode causar insuficincia renal,
hemorragia uterina grave. Convulses.
Os mdicos disseram a Grace que era um milagre ela
estar viva. O poejo fora eficiente em fazer seu
trabalho de matar o beb, mas o fgado dela ficaria
danificado para sempre. Grace no ligava. Tentou
chorar pelo filho, sentir-se triste, mas nem isso
conseguia. Sabia que se olhasse para trs ia
desmoronar, tudo o que importava era estar viva, se
recuperando, se fortalecendo. Sentia isso em seu
corpo. Logo poderia sair dali. Seu trabalho ainda no
estava terminado.
No CORREDOR do hospital, Juan Benitez sussurrou
para seu amigo Jos Gallo:
        ES ELLA. ESTOY SEGURO.
Jos enfiou a cabea para dentro do quarto de Grace.
        No  mesmo.
Juan e Jos eram zeladores. Nada muito empolgante
costumava acontecer no trabalho, limpando os
corredores do hospital. Mas isso no era motivo para
Juan comear a inventar coisas.
        ELLA ES HORRIBLE. Feia  disse Jos.  Grace
Brookstein era HERMOSA.
Juan insistiu:
-        LES DIGO QUE ES ELLA. QUIERES LA RECOMPESA O NO?
Jos pensou. QUERIA a recompensa. Muito. Mas ele e
sua famlia estavam ilegalmente nos Estados Unidos.
No queria ligar para a polcia de Nova York e dar a
pista nessa perseguio.
Olhou para a paciente de novo. Com seu cabelo muito
curto, louro quase branco, o rosto marcado pela dor e
os olhos frios e apagados, ela no tinha o brilho da
jovem que vira na televiso. Ainda assim, havia uma
semelhana...
Os MDICOS tinham dito a Grace que ela podia andar
pelo quarto caso se sentisse disposta. No estava mais
com agulhas no brao. Cuidadosamente, ela colocou
os ps no cho. Aps uma semana na cama, suas
pernas pareciam gelatina. O poejo lhe causara
convulses, e uma delas distendera um msculo na
sua panturrilha. Mancou at a janela.
No estacionamento abaixo, um jovem casal levava seu
beb recm-nascido para casa. O pai tentava encaixar
a cadeirinha de beb no banco de trs do carro, com
uma expresso no rosto que misturava ansiedade e
pavor, enquanto a esposa calmamente balanava o
beb nos braos. Grace deu um sorriso triste.
QUE FAMLIA ADORVEL, FELIZ E NORMAL. NUNCA TEREI ISSO.
No tinha tempo para ficar pensando em seus anseios.
Um carro de polcia parou no estacionamento, depois
outro, depois outro. De repente, havia policiais por
todo lado, invadindo o prdio como cupins. Grace
sentiu seu corao disparar. ESTO PROCURANDO POR
MIM?
Uma cabea loura saiu de um dos carros da polcia.
Mesmo antes de ele olhar para cima, Grace
reconheceu o fsico forte de jogador de futebol
americano. MITCH CONNORS. ENTO, ELES ESTO AQUI ATRS
DE MIM.
A adrenalina tomou conta de seu corpo.
PENSE! TEM QUE HAVER UMA SADA!
MITCH CONNORS entrou no elevador. Estava to
tenso que mal conseguia respirar. Como se a
perspectiva de finalmente pegar Grace j no fosse
opressora demais, ele passara os ltimos trs dias
investigando o libi de John Merrivale para o dia em
que Lenny Brookstein desaparecera. Tinha tanta coisa
para contar a ela. Tanta coisa ainda por fazer.
        Fechem todas as sadas e entradas. Quero policiais
nas escadas de emergncia, nas cozinhas, lavanderias,
em todos os lugares.
        Com licena!  Uma chefe dos residentes furiosa
colocou a mo entre as portas do elevador exatamente
na hora que estavam se fechando. Com uns 50 anos,
cabelo grisalho curto e uma expresso severa de "no
brinque comigo", passou um sermo em Mitch:  O
que est acontecendo aqui? Isto  um hospital. Quem
lhe deu permisso para invadir dessa forma?
Mitch mostrou seu distintivo e ao mesmo tempo
apertou o        boto para o sexto andar. Deveria ter
alertado as autoridades hospitalares, mas, com uma
pista boa como essa, no havia tido tempo para as
amenidades.
        Desculpe, senhora. Temos uma informao de que
Grace Brookstein est no prdio. Se me d licena...
        No dou licena! No me importo se lvis Presley
est no prdio. Meu trabalho  salvar vidas. O senhor
no tem autoridade... Ei! Saiam da! Virando-se, a
mdica viu quatro policiais abrindo as portas do
centro cirrgico. Aproveitando a chance, Mitch
empurrou-a para fora do elevador. A ltima coisa que
viu antes de as portas do elevador se fecharem foi a
medica furiosa correndo em sua direo, sacudindo o
punho como um vilo de histrias em quadrinho.
Era melhor Grace estar ali. Seno, estaria encrencado.
 Linda Reynolds. Em que quarto ela est?
A enfermeira  mesa hesitou.
        No podemos dar o nmero do quarto dos nossos
pacientes. O senhor  da famlia?
Mitch mostrou o distintivo.
        Sou sim. Tio Mitchell. Onde ela est?
        Quarto 605  disse a enfermeira.  No final do
corredor  sua direita.
Mitch j estava correndo. Entrou no quarto, arma em
punho.
        Polcia! Voc est presa!
Um faxineiro apavorado levantou as mos.
        Meu Deus! O que eu fiz?
        Cad ela? Grace.  O senhor no entendeu nada.
 Quer dizer, Linda. A paciente. Para onde ela foi,
droga?
        Ao banheiro  gaguejou o faxineiro.  Trs portas
depois. Ela j volta.
Grace olhou para a grade da ventilao. Tinha 60
centmetros de cada lado. O MESMO TAMANHO DA CAIXA
EM QUE FUGI DA CADEIA.
Quando subiu no vaso sanitrio, depois na cisterna,
lgrimas de dor encheram seus olhos. Sua panturrilha
esquerda estava latejando. Mordeu o lbio inferior
com fora para no gritar e levantou os dois braos.
Tirar a grade foi fcil. Ao empurr-la para o lado, uma
nuvem de poeira caiu em seus olhos, cegando-a
temporariamente, mas no tinha tempo de parar e se
recuperar. Enfiando as unhas no teto, Grace puxou
seu corpo minsculo para cima, espremendo-se no
tubo de ventilao como massa em uma mquina de
fazer macarro. Com cuidado, recolocou a grade
depois de entrar.  sua frente, no havia nada alm
de escurido. Centmetro a centmetro, ela se
arrastou pelo nada.
MITCH entrou no banheiro feminino. Havia trs
cubculos, todos vazios.
Ele se virou para sair, depois parou. Indo at o
cubculo do meio, passou o dedo pela tampa do vaso.
A poeira era to grossa quanto acar cristal. Mitch
desenhou uma letra G e olhou para cima. PODE UM SER
HUMANO CABER ALI?
De volta ao corredor, ele gritou em seu rdio:
 Preciso ver plantas do sistema de ventilao.
Projetos. Para onde esses tneis vo?
A chefe dos residentes saiu do elevador e apontou
para Mitch.
- Ali! De camisa azul.  Trs seguranas fortes
correram na direo dele. Segundos depois, Mitch
estava sendo levado pela escada de emergncia
enquanto a mdica observava, de braos cruzados,
sorrindo de satisfao. MAS QUE VADIA.
- Pelo amor de Deus. Sou um oficial da polcia. Vocs
tm idia do que eu poderia fazer com vocs por
causa disso? Deixem-me ir.
O maior dos guardas murmurou:
Est brincando, n? Tem idia do que ELA pode fazer
com a gente se voc escapar? Pode acreditar,
detetive, voc no faz idia.
A viso de Grace estava clareando. Viu luz, raios
fracos primeiramente, mas estavam gradualmente
ficando mais fortes. O tnel se dividia para a direita e
para a esquerda. A luz vinha da esquerda.
Foi em sua direo.
 Juro por Deus que se a perdermos por causa dessa
palhaada, eu mesmo vou providenciar para que voc
nunca mais chegue perto de um paciente com mais do
que um Band-Aid.
Levou 15 minutos para o chefe de Mitch, tenente
Dubray, enviar os faxes com os mandados e
consentimentos necessrios para o hospital. S
quando estava com todos em mos a chefe dos
residentes permitiu que seus seguranas deixassem
Mitch sair de seu escritrio.
        No tente me amedrontar, detetive.  Ela riu. 
J no causou constrangimentos demais para um dia?
Mitch ia responder quando um de seus subordinados
apareceu.
        As plantas  disse ele, ofegante, desenrolando o
papel em cima da mesa.
Grace olhou para baixo pela grade. A sala estava vazia.
Dessa vez, foi mais difcil tirar a grade. Apertada no
tubo de ventilao como uma salsicha em uma lata,
era complicado criar uma alavanca. Finalmente, com
suor escorrendo pelas costas e pelo peito, ela
conseguiu tirar a grade e sair pelo buraco. A luz era
to forte que ela levou alguns segundos para se adap-
tar. Olhou em volta.
ESTOU EM UMA SALA DE RAIOS X.
Perguntou-se quanto tempo levaria at que o tcnico
aparecesse com o prximo paciente. SER QUE ELES
SEMPRE DEIXAM AS LUZES ACESAS OU ALGUM APENAS SAIU E J
EST VOLTANDO? Vozes do lado de fora responderam 
sua pergunta. Dois homens estavam conversando.
Grace viu suas sombras ficarem maiores. ELES ESTO
ENTRANDO!
MITCH EXAMINOU as plantas. O tubo de ventilao
tinha nove grades no sexto andar, todas
representando uma sada em potencial. Mitch
mandou homens para cada uma delas. A m notcia 
que tinha perdido 15 minutos. A boa notcia era que
no havia como sair do prdio e nem tinha como
rastejar de um andar para o outro. Era um caso de
"tudo que sobe, tem que descer".
        Qual  a sada mais prxima do banheiro feminino?
O        oficial traou o tnel com o dedo.
        Seria... bem aqui. A sala de raios X e ressonncia
magntica.
Mitch saiu correndo.
A GRADE DA SALA de raios X ainda estava pendurada.
Grace nem tinha se preocupado em apagar seu rastro.
ELA SABE QUE SEU TEMPO EST SE ESGOTANDO.
        No entendo  disse o tcnico.  Fiquei aqui o
tempo todo. Sa por uns trinta segundos. Mas se ela
entrou aqui enquanto eu estava fora, teria que ter
passado pela recepo, Liza a teria visto com certeza.
- Hum. Meus homens tambm  disse Mitch. Ele
coou a cabea.  Tem alguma outra forma de sair
daqui?
        No.
        Algum elevador de servio? Escada de incndio?
Janela?
        No. Olhe  sua volta, detetive.  s isso.
Mitch olhou em volta. O tcnico estava certo. A sala
era uma caixa vazia, exceto pelo aparelho de raios X e
o tubo circular da ressonncia magntica. NENHUM
LUGAR PARA FUGIR, NENHUM lugar para SE esconder. Ento,
de repente ele viu. No canto. Um cesto de roupa suja,
cheio de panos usados.
Com o corao acelerado, Mitch mergulhou ali,
tirando todos os panos como um homem faminto em
busca de restos de comida no lixo. Em segundos, o
cho estava literalmente coberto por camisolas
hospitalares e mscaras. Mas nenhum sinal de Grace.
Ele tentou no deixar transparecer a decepo em seu
rosto.  Certo. Ento, ela deve ter voltado para o
tubo de ventilao. Onde  a prxima sada?
Grace esperou at que eles sassem. Ento, relaxando
os msculos dos braos e das pernas, contrados nos
pontos em que se prendera no topo da mquina de
ressonncia magntica, ela caiu dentro do aparelho,
machucando as costelas. Conseguira despistar Mitch
Connors por enquanto. Mas quanto tempo ganhara
com isso? Um minuto? Trs? Cinco? O desespero
tomou conta dela.
O HOSPITAL INTEIRO EST CERCADO. NUNCA VOU CONSEGUIR
SAIR DAQUI.
Pensou em desistir. Antes de saber sobre a traio de
Connie e Lenny, nunca teria se perguntado por que
estava fugindo, por que continuar lutando. Era tudo
por Lenny. Precisava limpar o nome dele, honrar a
memria dele. Agora, pela primeira vez, Grace
percebeu que isso no era mais suficiente. Precisava
de um motivo melhor. Precisava lutar por si mesma.
Precisava salvar a prpria vida.
Saindo do aparelho, ela ficou de p.
NO POSSO DESISTIR. NO VOU DESISTIR.
Pegou algumas roupas da pilha no cho e vestiu.
Grace foi andando devagar at a escada de incndio,
tentando no mancar. PRECISO SAIR DESTE ANDAR. CHEGAR
AO TRREO E TENTAR DAR UM JEITO DE SAIR DAQUI.
A recepcionista do departamento de raios X viu
quando ela passou, mas no disse nada. Com sua touca
de papel azul e a mscara cirrgica cobrindo o rosto,
poderia ser qualquer pessoa. Depois da recepo,
havia dois policiais na porta. Grace esperou, com o
corao na mo, que um deles pedisse uma
identificao sua, mas eles a deixaram passar. Estava
quase na porta da sada de emergncia. S mais
alguns passos.
        Ei. Ei, voc! De azul!
Grace continuou andando.
        EI!  A voz ficou mais alta.  Pare!
CONTINUE ANDANDO. NO OLHE PARA TRS.
-        Voc no pode sair por a. O alarme...
Grace abriu a porta.
... est ativado.
Sirenes soaram. Sinos, agudos e ensurdecedores,
tocaram nos ouvidos de Grace. Por um momento, ela
entrou em pnico, congelou. Em poucos segundos, o
vo da escada estaria apinhado de policiais. NO VOU
CONSEGUIR DESCER SEIS ANDARES. NO D TEMPO.
Ela levantou a cabea e comeou a correr.
O rdio de Mitch tocou.
Ela est na escada de incndio a leste. Sexto andar.
O corao dele disparou.
- Fechem todas as sadas.
- J esto fechadas, senhor.
- Diga para todas as unidades, vocs podem sacar as
armas, mas NO ATIREM. Entendido? Nada de tiros.
        Sim, senhor.
No havia como sair do prdio. Do lado de fora do
hospital, a mdia j comeara a chegar. Mitch sabia
que nenhum de seus homens vazaria a notcia para a
imprensa, mas era difcil mandar cem policiais para
um grande hospital de Nova York sem despertar
curiosidade. Equipes de televiso montavam seus
equipamentos, ansiosas para conseguir imagens do
drama em andamento. Mitch pensou: ELES
PROVAVELMENTE ESTO ESPERANDO UM TIROTEIO. QUANTO
VALERIAM AS PRIMEIRAS FOTOS DE GRACE BROOKSTEIN MORTA?
Esperava poder proteg-la. Poder impedir que ela
fugisse. Mant-la a salvo. Com ele.
Correu para o telhado.
Grace olhou  sua volta.  ISSO. FIM DA LINHA.
Se pelo menos os arranha-cus de Nova York fossem
como no filme do Homem-Aranha, em que o edifcio
seguinte ficava a apenas um pulo de distncia... Na
vida real, o hospital de oito andares ficava espremido
entre duas torres de vinte andares. A nica forma de
descer do telhado era pelas escadas de incndio que
Grace acabara de usar para subir, ou pelas escadas
idnticas que havia do outro lado do prdio.
A no ser, claro, que voc pulasse.
Deixando as escadas para trs, Grace engatinhou pelo
permetro do telhado. Olhou para baixo. Em um
filme, haveria uma rede para amortecer sua queda. Ou
um caminho cheio de travesseiros de pena
simplesmente estaria parado no sinal vermelho. No
tinha essa sorte.
Ouviu um barulho na porta das escadas a leste.
Poucos segundos depois, escutou na outra porta
tambm. ELES ESTO VINDO.
Os olhos de Grace se encheram de lgrimas. Eles a
pegariam, a mandariam de volta para a cadeia. Ela
nunca saberia a verdade.
Naquele momento, enquanto as portas se abriam,
ficou claro. Ela no tinha mais por que viver.
A PORTA SE ABRIU, fazendo o metal bater na parede.
Mitch se arremessou sobre o telhado de concreto
como uma bala de caNHO. Levantou a cabea na hora
que alguma coisa azul desaparecia na beirada do
telhado.
 Grace! No!
Tinha chegado tarde demais.
LIVRO TRS
Captulo 28
Mitch colocou a mo na boca. Escutou o pblico
embaixo prender a respirao, depois gritos.
EU ACABEI DE PERSEGUIR UMA MULHER INOCENTE AT A
MORTE.
Por que Grace no tinha esperado? Se ele pelo menos
tivesse tido a chance de conversar com ela. De dizer
que acreditava nela. Que sabia que Lenny no tinha
se matado. Que sabia que ela era inocente. Que estava
comeando a se apaixonar por ela.
No podia suportar olhar, mas sabia que precisava.
Atrs dele, uma horda de policiais tinha se espalhado
pelo telhado, todos com armas nas mos. Mitch
caminhou lentamente at o local em que o ponto azul
desaparecera. Ajoelhando-se, ele respirou fundo para
criar coragem e olhou para baixo, se preparando para
ver o corpo de Grace ensanguentado e quebrado.
A calada estava vazia.
 Mas que...
O telhado se projetava uns 60 centmetros alm das
paredes externas do hospital, como cobertura
escorrendo pelas bordas de um bolo de casamento.
Deitando-se de bruos, Mitch apalpou a salincia.
Seus dedos no encontraram nada. Foi um pouco mais
para a frente, como uma cobra, at que seu torso se
projetasse perigosamente para fora do prdio. A
multido gritou novamente. De repente, Mitch sentiu
a mo fria na sua.
Encolhida na salincia de uma janela que no tinha
mais do que 20 centmetros, Grace olhou nos olhos
de Mitch e abriu um sorriso triste, derrotado.
 Detetive Connors, temos que parar de nos
encontrar assim.
A sensacional imagem da captura de Grace Brookstein
foi exibida no mundo todo. Da noite para o dia, Mitch
Connors, da polcia de Nova York, passou de policial
trapalho para heri nacional. Havia muita
especulao sobre onde a fugitiva mais procurada dos
Estados Unidos estava presa. Mandariam Grace
Brookstein de volta para Bedford Hills? Ou para um
local diferente, mais secreto e seguro? Haveria outro
julgamento? A caada por Grace Brookstein custara
aos contribuintes americanos milhes de dlares.
Certamente, aumentariam a pena original dela, no?
Nos bastidores, uma batalha entre as agncias pegava
fogo. Todo mundo queria acesso a Grace. Do ponto de
vista de Mitch, o princpio da posse estava  seu
favor.
        Ns a pegamos e no vamos entreg-la ao FBI ou a
ningum mais at que ns encerremos os
interrogatrios.
Mas Harry Bain, do FBI, no era o nico na cola de
Mitch. Seus prprios superiores do departamento de
polcia pareciam ansiosos para se livrarem de Grace o
mais rpido possvel. Seu chefe, tenente Dubray,
concordava.
        Ela no  mais problema nosso.
Mitch se manteve firme.
        Eu tenho o direito de interrog-la por 48 horas.
        No venha me ensinar quais so os seus "direitos",
Connors. E no seja to ingnuo. Este caso  uma
dinamite poltica e voc sabe disso. Grace Brookstein
 a encarnao viva de tudo que este pas est
tentando esquecer. Isso se aplica at o topo. O
prprio presidente disse para seus conselheiros que o
rosto de Grace nos jornais  ruim para os negcios,
para os empregos,  ruim para a marca Estados
Unidos.
 "Marca Estados Unidos"? Qual , senhor?
Mitch lutou pelo seu espao, mas sabia que o tempo
estava passando. Logo Grace seria tirada dele, junto
com sua chance de ajud-la. Quaisquer sentimentos
que tivesse por ela, ou achava que pudesse ter,
precisavam ser deixados de lado. Tudo o que
importava agora era a verdade. PRECISO FAZER COM QUE
ELA CONFIE EM MIM.
GRACE ANALISOU os traos de Mitch com ateno.
ELE PARECE SINCERO. MAS O MEU HISTRICO COMO JULGADORA
DE CARTER NO  NEM UM POUCO EXEMPLAR.
-        Ento, voc est dizendo que quer me ajudar?
-        Isso. Eu quero ajud-la. Sou a nica pessoa que pode
ajud-la, Grace. Mas no vou poder fazer isso se no
falar comigo.
Grace o fitou, ctica.
- Eu li o arquivo de Buccola  disse Mitch. 
Acredito que Lenny foi assassinado. Acredito que
armaram para vocs dois. Mas preciso que me ajude a
provar isso.
- Se voc acredita que Lenny foi assassinado, por que
ainda no reabriu a investigao sobre a morte dele?
- Eu tentei. Mas me bloquearam. Meus superiores
estavam mais interessados em capturar voc do que
em descobrir a        verdade sobre o Quorum ou o que
pode ter acontecido naquele barco.
        Mas voc  diferente.  nisso que voc quer que eu
acredite, certo? Que voc  um guerreiro solitrio em
busca da verdade.
        Olhe, eu no culpo voc por no confiar em mim.
Mas no tenho tempo para convenc-la. Em poucas
horas, vo tirar voc daqui. Talvez nunca mais
tenhamos outra oportunidade de conversar. Esta  a
nossa ltima chance, a SUA ltima chance. Grace, me
conte o que voc sabe.
        O que eu sei?  Grace riu com amargura.  Eu no
sei de mais nada. Tudo que eu achava que sabia se
provou mentira. Eu achava que era rica, mas no
tenho nada. Achava que os tribunais iam proteger os
inocentes, mas me mandaram para a cadeia. Achava
que meus amigos e minha famlia me amavam, mas
no passam de um bando de urubus. Achava que
Lenny tinha morrido em um acidente. Achava que
ele fosse um marido fiel. Achava... Achava que ele
me amava.
Lgrimas escorreram pelo rosto dela. Sem pensar,
Mitch deu a volta na mesa de interrogatrio e
abraou-a. Ela era to pequena, to vulnervel. Sentiu
uma necessidade enorme de proteg-la, resgat-la.
        Tenho certeza de que Lenny amava voc 
sussurrou ele, fazendo carinho no cabelo bem curto e
bem louro dela.  Pessoas tm casos. So fracas.
Cometem erros.
Ele contou a ela como esteve perto de peg-la no
apartamento de Jasmine Delevigne.
        Foi por isso que voc tentou se matar? Por causa de
Lenny e Connie?
        No!  disse Grace, furiosa.  E eu no tentei me
matar. Eu...  Ela desmoronou. Queria contar a ele
sobre o aborto, sobre o estupro, sobre tudo, mas no
encontrava as palavras.
Mitch disse:
        Ele terminou com Connie, sabia? Antes de morrer. Sua
irm estava chantageando Lenny, ameaando contar para
voc sobre o caso deles. Ele j tinha transferido para ela 15
milhes de dlares para uma conta no exterior, mas Connie
queria ainda mais.
        Queria? Como voc sabe?
        Ela mesma me disse. E com muito orgulho, se quer
saber. O que eu quero dizer : Lenny estava desesperado
para no magoar voc, Grace. Para no perder voc. Estava
arrependido do que tinha acontecido. Tenho certeza disso.
Grace fechou os olhos e se entregou ao conforto que os
braos de Mitch lhe ofereciam. Fazia tanto tempo que no
tinha um contato ntimo com outro ser humano. Tanto
tempo desde a ltima vez que sentira gentileza, carinho,
afeto.  S O QUE ISTO . Lembrou-se ela. AFETO. UMA PAUSA
NA BATALHA. Em outra vida, em outro mundo, as coisas
poderiam ter sido diferentes Mas como eram...
Bateram na porta.
- Desculpe, chefe.  O oficial estava hesitante. Gostava de
Mitch e odiava ter de trazer notcias ruins.  Dubray disse
que voc s tem mais cinco minutos. Temos ordens diretas
de Washington. A detenta vai ser transferida para outro
estado.
Quando ele saiu, Mitch apertou a mo de Grace. Havia uma
conexo entre eles. Podia ver que ela tambm sentia.
        Fale comigo.
Grace contou a ele tudo o que sabia. Quando ela terminou,
Mitch disse:
- Voc sabe quem sobrou, no ? Se Andrew Preston, Jack
Wainer e sua irm Connie so inocentes?
Grace suspirou.
- John Merrivale. Mas no foi ele.
- Voc parece ter muita certeza.
        Eu desconfiei de John desde o comeo. Sei que ele
armou para mim no julgamento e, quem sabe, at
ficou com o dinheiro. Mas ele no pode ter matado
Lenny.
        Por que no?
        Ele estava em Boston no dia em que Lenny saiu de
barco. Davey verificou o libi dele meses atrs.
        Eu tambm.  Mitch ficou pensativo. Lembrou-se
do dia em que almoara com John Merrivale, e na
forma como, em um passe de mgica, a gagueira dele
desaparecera quando falara do dia em que Lenny
Brookstein desaparecera.  Ainda assim. Tem alguma
coisa errada com aquele cara.
Grace fitou a porta. Mitch pensou: ELA NO LIGA MAIS.
ELA DESISTIU. Quando ela falou, no havia nem medo
nem curiosidade na sua voz:
        Voc sabe para onde vo me levar?
        No. Mas vou descobrir.  Mais uma vez, Mitch
sentiu a necessidade de proteg-la. O que essa mulher
tinha que despertava o cavaleiro de armadura que
existia dentro dele?  Farei o mximo possvel para
ajud-la, Grace. Consiga um advogado decente,
comece um recurso.
        No quero nada disso.
        Mas voc precisa...
Ela o encarou.
        Se quer me ajudar, descubra quem matou meu
marido. Acho que voc nunca vai conseguir limpar o
nome dele da fraude do Quorum. Mas gostaria que as
pessoas soubessem que Lenny no era um covarde.
Que no se matou.
        Vou tentar. Mas mesmo que eu consiga, Grace,
Lenny est morto. Voc est viva. Tem a sua vida
toda pela frente. Voc PRECISA arranjar um novo
advogado. Precisa entrar com um recurso.
O oficial voltou, junto com outros policiais armados e
um homem austero de terno e gravata. CIA? FBI?
        Hora de ir embora.
Grace se levantou e, em um impulso, deu um beijo no
rosto de Mitch.
        Detetive, me esquea.
Mitch observou os homens levarem-na. Depois que
ela se foi, ele continuou na sala de interrogatrio por
um longo tempo.
ESQUECER VOC.
COMO SE EU CONSEGUISSE.
Captulo 29
MARIA PRESTON JOGOU seu longo cabelo
castanho para trs e admirou sua imagem no espelho
retrovisor. Sua pele era de uma mulher dez anos mais
jovem, e ela sabia disso. Naquela larde, sua pele cor
de creme estava corada e brilhante, resultado das trs
horas que acabara de passar na cama com seu amante.
Como era prazeroso estar com um homem que
realmente a apreciava! Maria j fora para a cama com
muitos homens, vrios deles mais habilidosos na arte
do amor do que seu atual amante, e a maioria deles
mais atraente fisicamente. Mas uma mulher no vivia
apenas de abdmens definidos. Chega um ponto em
que ela precisa de mais. PODER. O amante de Maria
Preston era um homem poderoso, um homem
influente. Diferente de Andrew.
Pobre Andy. Ele no era um marido ruim. Nos
ltimos dois a nos, ele finalmente comeara a ganhar
a quantidade de dinheiro que poderia dar a Maria a
vida que ela merecia. Durante lodos esses anos,
achara que queria riqueza. Mas agora que finalmente
tinha, isso a entediava. ELE a entediava, sexual e inte-
lectualmente, e em todos os outros aspectos. Agora
ela percebia que, independentemente do dinheiro que
Andrew ganhasse, ele sempre seria um contador. E
enquanto ficasse com ele, ela seria esposa de um contador.
MARIA CARMINE! ESPOSA DE UM CONTADOR! A simples idia
era absurda, uma afronta  natureza. S se espantava em ter
demorado tanto tempo para perceber. Um esprito livre
como Maria no podia ficar preso a um casamento banal,
como os meros mortais. Era como tentar congelar um
vulco ou causar uma enchente no deserto.
Retocando seu batom Dior vermelho, Maria refletiu sobre
seu destino. EU NASCI PARA SER A ESPOSA DE UM GRANDE
HOMEM. SUA MUSA.
Agora seria.
Finalmente, tinha um plano: um jeito de seu amante deixar a
esposa, para ficar livre de todas as presses que pesavam
sobre seus ombros e fugir com ela. Maria, com seu brilhan-
tismo, resolvera todos os problemas deles. Largaria Andrew
e recomearia do zero. Seu amante ficara extasiado ao ouvir
o plano na semana anterior. Ele ainda estava entusiasmado
com a idia quando se encontraram naquele dia, fez amor
com ela com uma paixo rara at para ele.
Maria sorriu para sua imagem no espelho retrovisor e
gargalhou.
 Voc no  apenas um rostinho bonito!
Ela estava voltando de Sag Habor para a cidade. Era
complicado chegar l, duas horas em um dia bom, trs na
hora do rush, mas o amante de Maria no podia arriscar ser
visto com ela em Manhattan e, alm disso, o American
Hotel, na Main Street, era to singular e charmoso com sua
varanda branca e seu toldo listrado, que valia a viagem.
Virando-se para a Scuttle Hole Road, Maria viu a confeitaria
Nancy's logo  frente, uma de suas favoritas, com a vitrine
cheia de bolos tentadores de todas as cores e sabores. Todo
esse sexo a deixara com uma fome e tanto. POR QUE NO?
Ela parou e desligou o carro, cantarolando feliz para si
mesma enquanto abria a porta do motorista.
Nancy Robertson estava na cozinha nos fundos
quando escutou a exploso. Com o corao disparado,
correu para a loja. Graas a Deus ningum estava L! A
loja estava destruda. Todas as janelas quebradas,
cacos de vidro misturados com creme grudados nas
paredes. Do lado fora, na rua, tudo o que restou do
Bentley de Maria Preston foi metal queimado e
retorcido.
MITCH CONNORS estava em um parque com a filha.
Era o primeiro sbado que no trabalhava em meses.
Helen relutara em DEIX-lo ficar com Celeste:
        Voc no pode simplesmente entrar e sair da vida
dela quando bem entende, Mitch. Voc faz idia do
quanto ela ficou decepcionada porque voc no
assistiu  pea da escola? Voc nem ao menos ligou
para se explicar.
A culpa fez Mitch contra-atacar:
        Explicar o qu? Estou trabalhando, Helen. Sou eu
que pago pelo teto sobre as cabeas de vocs. Alm
disso, no estou pedindo permisso para v-la.  o
meu final de semana.
Agora, ao observar Celeste esticando as perninhas
finas enquanto ele a empurrava no balano, ele se
arrependeu de ter perdido a cabea. No amava mais
Helen. Mas no havia como negar que ela era uma
me maravilhosa. Ele, por outro lado, era um pssimo
pai. Gostava de pensar que aproveitava bem o tempo
com a filha, mas sabia que era uma enganao. Mitch
amava Celeste, mas mal a conhecia. Mesmo agora,
depois de semanas sem v-la, no conseguia se
desligar do trabalho. Seus pensamentos voltavam para
Grace Brookstein: onde ela estava presa e como ele
cumpriria a promessa que fizera a ela? Ningum
queria saber de suas teorias de que a morte de Lenny
Brookstein tinha sido assassinato. Dois dias antes,
Dubray deixara tudo bem claro para ele.
        Esquea isso, Mitch. Voc  um bom detetive, mas
se envolveu demais nesse caso. Alm disso, tenho um
novo caso para voc. Homicdio de adolescente,
drogado, nenhuma pista. Bem a sua rea.
        Pode dar para outra pessoa? Preciso de mais tempo
para investigar melhor essas coisas, no mximo
algumas semanas.
        No, eu no posso DAR PARA UMA OUTRA PESSOA. Voc
no pode escolher os seus casos, Mitch. Voc est no
caso do homicdio de Brady desde j. E se eu pegar
voc desperdiando mais um minuto do tempo do
departamento no caso Brookstein, acredite em mim,
vou suspend-lo to rpido que voc nem vai
entender o que aconteceu. No vou falar de novo.
Esquea.
ESQUEA. ME ESQUEA.
Talvez da prxima vez algum o mandasse parar de
exalar gs carbnico ou de dormir com os olhos
fechados. O telefone tocou: era Carl, um colega de
trabalho.
        Voc est perto de alguma televiso, cara?
        No. Por qu?
        Um carro explodiu em Long Island. Parece trabalho
da mfia. A vtima  esposa de um daqueles caras do
Quorum de quem voc ficava falando. Preston.
Mitch parou de empurrar o balano.
        Maria Preston?
        Papai, mais alto!
        Ela est morta?
        Mortinha da silva. Parece que no sobrou nada
dela.
        Paiiiiiiiiii!
        Voc tem que ver isso, cara, est em todos os
canais.
Mitch desligou o celular e comeou a correr para seu
carro. Precisava encontrar uma televiso.
Uma mulher veio atrs dele:
 Senhor? Com licena. Senhor!
Mitch se virou.
A mulher apontou para Celeste, abandonada no
balano parado. Mitch se esquecera completamente
dela.
JOHN MERRIVALE estava atrasado. Detestava chegar
atrasado. Entrando apressado em seu escritrio, ele se
sentou e comeou a abrir gavetas, procurando uns
papis enquanto o computador ligava.
        Voc est bem, John?  Harry Bain colocou a
cabea na porta.
        B-bem, obrigado. Desculpe o atraso. A im-imprensa
fica nos importunando atrs de um depoimento sobre
Maria Preston.
        Coitada. Que coisa horrvel. Esperamos carros-
bomba em Beirute ou Gaza, mas no em Sag Harbor.
Ela era amiga sua, no era?
John parecia irritado.
        No, de forma alguma. O m-m-marido dela era um
colega de trabalho. Mas a mdia escuta a palavra
QUORUM e j comea a ligar para mim. Como eu
gostaria que eles me deixassem em paz.
Harry Bain franziu a testa. Parecia uma reao
estranhamente fria, imparcial, a uma tragdia to
terrvel. Mas nunca conseguira entender John
Merrivale. Deixou passar.
        Est tudo certo para Mustique?
        Claro.
A fora-tarefa tinha descoberto que um dos fundos de
famlia de Lenny tinha feito vrios pagamentos para
um financista chamado Jacob Rees. O FBI estava
interessado em saber o que tinha acontecido com o
dinheiro, mas at agora os administradores dos negcios do
Sr. Rees em Nova York no tinham cooperado muito. John
Merrivale estava planejando uma visita surpresa  casa do
homem em Mustique. A manso de Jake Rees na orla ficava
a menos de 2 quilmetros da agora confiscada manso de
Lenny, e os dois uma vez passaram as frias juntos.
        Acho que se voc precisar passar anos atrs de rastros de
dinheiro, existem lugares bem piores, no ?
John forou um sorriso.
        Acho que sim...
        Quanto tempo voc acha que vai ficar afastado?
        Um dia, mais ou menos, espero. Pode demorar um pouco
mais se Jake no resolver c-cooperar imediatamente.
        Bem, se precisar de ajuda, sabe onde me encontrar. 
Harry Bain voltou para seu escritrio. John Merrivale
respirou aliviado.
Voc EST NA RETA FINAL AGORA. O PIOR J PASSOU.
Finalmente, as coisas estavam se resolvendo. Grace estava de
volta  cadeia. Havia um boato correndo pelo escritrio de
que o FBI estava ficando cansado de gastar dinheiro para
encontrar o dinheiro desaparecido e que a fora-tarefa de
Harry Bain logo seria dispensada. John fora tomado pelo
pnico na semana anterior quando a possibilidade de
exposio surgira de um lado totalmente inesperado. Mas
agora isso tambm j estava resolvido.
Em poucos dias, ele estaria em um avio.
FINALMENTE.
O CASO DO ASSASSINATO de Maria Prestou foi dado a
um antigo rival de Mitch do prprio distrito, um
homem de famlia acima do peso, de uns 50 anos,
chamado Donald Falke. Com sua coroa de cabelo
branco, sua barriga redonda e sua barba cheia e
grisalha, o apelido do detetive Falke na delegacia era
Papai Noel. No que os casos dele pudessem ser
definidos como brincadeira. Depois de uma vida
inteira na polcia de Nova York, a especialidade de
Falke eram assassinatos cometidos pela mfia. Ele
disse para Mitch:
        A mdia est falando em terrorismo.  ridculo. Se
isso for um ataque terrorista, eu sou Dolly Parton.
Isso no faz o estilo al-Qaeda.  estilo Al Capone.
Est na cara que  coisa da mfia.
        O que faz com que tenha tanta certeza?
Don Falke estreitou os olhos.
        Experincia. Por que voc est to interessado?
Esse caso no  seu, Connors.
        Mas e se no foi a mfia? E se Maria Preston sabia
de alguma coisa? Alguma coisa do Quorum, talvez.
Alguma coisa importante o suficiente para quererem
v-la morta.
        J investigamos isso  disse Don, descartando a
idia. Isso no teve nada a ver com o Quorum, est
bem? Definitivamente. NINGUM matou essa mulher;
isso foi um sofisticado atentado  bomba, no com
faca ou arma.  o clssico MODUS OPERANDI Cosa
Nostra.
        Voc sabe quem inventou o carro-bomba, Don?
Falke revirou os olhos.
-        No tenho tempo para aula de histria, Connors.
Tenho um assassinato para resolver. Agora me d
licena...
-        Foi um cara chamado Buda. Mario Buda. Era um
anarquista italiano na dcada de 1920.
        O que eu disse? Italiano.
        Era um dia quente de setembro...
        Caramba, Mitch.
... esse cara, Buda, parou o cavalo dele e a charrete
na esquina da Wall Street com a Broad, em frente ao
escritrio de J. P. Morgan. Ele saiu e se misturou s
pessoas que estavam andando na rua. Meio-dia, todos
os bancrios esto saindo para o almoo, certo? Os
sinos de Trinity Church tocavam.
        Muito potico.
        Ento, BUM, o cavalo e a charrete explodiram. Foi
um caos, corpos espalhados por todos os lados,
escombros, estilhaos. Bem em Wall Street. 1920.
Duzentas pessoas ficaram feridas. Quarenta
morreram. MENOS o velho J.P., devo acrescentar. Ele
era o alvo, mas estava na Esccia na poca.
Don Falke j tinha escutado demais.
        Aonde voc est querendo chegar com isso,
Mitch?
        O carro-bomba foi inventado por um imigrante
solitrio e ignorante que no gostava dos banqueiros
ricos de Wall Street.
        E da?
        E da que isso foi quase cem anos atrs, mas o
princpio  o mesmo. Por que tem que ser a mfia?
Qualquer idiota ressentido pode ter colado um
explosivo naquele carro. Algum maluco pode ter
associado Maria ao Quorum ou a Lenny Brookstein.
Don Falke riu.
        Dubray est certo. Voc EST obcecado. Isso no
tem nada a ver com Lenny Brookstein, est bem?
Acho que voc est precisando descansar.
        Quero interrogar Andrew Preston.
Donald Falke finalmente perdeu a pacincia:
        S sobre o meu cadver. Agora, me escute,
Connors. Fique longe do meu caso. Estou falando
srio.
        Por qu, Don? Est preocupado que eu descubra
alguma coisa inconveniente?
        Se eu ficar sabendo que chegou a menos de 15
quilmetros de Andrew Preston, vou falar com
Dubray e ele vai te demitir. Esquea.
ESQUEA. Mitch estava comeando a se sentir como
um labrador desobediente pegando o osso de outro
cachorro. Saiu do escritrio de Donald Falke e foi
direto para seu carro.
Fazia um ms desde a ltima visita de Mitch ao
apartamento dos Preston. Lembrava-se do
apartamento como um imvel caro, um bloco de
cinco quartos em um prdio da moda. Mas o que mais
lhe chamara a ateno fora o fato de como o apar-
tamento chamara pouca ateno. Tudo na casa de
Andrew e Maria era insosso, desde a rua sem graa
at a decorao creme e marrom, devidamente de
bom gosto. Mitch no conseguia nem imaginar ter
tanto dinheiro para gastar e desperdiar com algo to
seguro. Maria Preston era uma mulher irritante.
Mitch detestava mulheres dramticas. Mas, pelo
menos, ela tinha cor. Tinha vida. Ela devia se sentir
dentro de um caixo naquele apartamento. Como se
tivesse sido recortada de um catlogo da B&B Itlia e
colada em um sof creme da Pottery Barn e deixada
ali pela eternidade para apodrecer.
Ao entrar na rua dos Preston, Mitch diminuiu a
velocidade. Policiais uniformizados estavam cercando
a rua. Mitch parou ao mesmo tempo que duas
ambulncias e vrios carros.
        Qual  o circo? O que est acontecendo?  Ele
mostrou seu distintivo.
         o marido de Maria Preston, senhor.
        O que tem ele?
        Parece que se enforcou, senhor. Cerca de uma
hora atrs. Esto tirando o corpo agora.
Captulo 30
L em cima, paramdicos se inclinavam sobre o corpo
de Andrew Preston, massageando o corao. Na
mesma hora, Milch percebeu que seria intil. S
estavam seguindo os procedimentos.
        A percia j chegou?
Um dos mdicos balanou a cabea.
        Voc  o primeiro. O detetive Falke est 
caminho.
        Ele deixou algum bilhete?
        Deixou sim. Ali.
O mdico apontou para a sala de estar. A janela estava
aberta. Em cima da bonita mesinha de carvalho
escuro, entre duas belas poltronas de camura bege,
um pedao de papel oscilava sob a brisa, preso por um
pesado cinzeiro de cristal. Sem nem se incomodar em
colocar luvas, Mitch levantou o cinzeiro e pegou o
bilhete. Com uma caligrafia cursiva e perfeita,
Andrew Preston escrevera sete palavras.
A CULPA FOI MINHA. MARIA, ME DESCULPE.
        Que merda voc est fazendo?
Mitch deu um pulo, deixando o bilhete cair. A voz do
tenente detetive Dubray ecoou pelas paredes como a
de um gigante.
        Voc perdeu o juzo?
Mitch abriu a boca para se explicar, depois fechou de
novo. O que poderia dizer? Sabia que no podia estar
ali. E muito menos violar a cena do crime de outro
detetive. Dubray estava vermelho de raiva.
        Isso  violao de evidncias! Voc sabe como isso
 srio? Eu poderia expuls-lo da polcia. Eu deveria
expuls-lo da polcia.
        Desculpe. Eu precisava falar com Andrew Preston.
        Chegou um pouco tarde.
        , estou vendo. Olhe, senhor, eu teria esperado
Falke, mas eu sabia que ele no me deixaria entrar.
Provavelmente nem me mostraria o bilhete.
        Claro que no! E por que ele deveria? Este caso NO
 SEU, Mitch.
        Mas, senhor, ele nem est fazendo as perguntas
bvias. Como o que Maria Preston estava fazendo em
Sag Harbor. E quem sabia que ela estaria l?
        Don me ligou meia hora atrs. Disse que voc
estava se intrometendo, falando sobre o maldito
Lenny Brookstein. Ele acha que voc perdeu...
        Ah, senhor. Ele sempre teve uma cisma comigo.
        Eu tambm acho que voc perdeu o juzo. Sinto
muito, Mitch. Mas voc foi longe demais desta vez.
Est suspenso at segunda ordem.
        Senhor!
        Considere-se de licena por tempo indeterminado
at uma segunda ordem minha. E no fique to
surpreso. Voc tem sorte de no ser despedido. Se eu
no soubesse o quanto Helen e Celeste precisam do
seu salrio, no pensaria duas vezes. Agora, saia daqui
antes que eu mude de idia.
A CAMINHO DE CASA, Mitch passou pelo bar
onde se encontrara com Davey Buccola pela primeira
vez. Entrou e pediu um usque.
        Continue trazendo  disse para o barman.
        Dia ruim?
Mitch deu de ombros. ANO RUIM. VIDA RUIM. Parte dele
desejava nunca ter conhecido Davey Buccola. Se no
fosse pela investigao de Davey sobre a morte de
Lenny Brookstein, nada disso teria acontecido. Mitch
teria prendido Grace e pronto. Seguido em frente para
o caso seguinte, como todo mundo queria que ele
fizesse. Talvez at tivesse sido promovido a capito.
Em vez disso, ali estava ele, suspenso do trabalho,
tudo por causa do arquivo de Buccola e da promessa
que fizera a Grace. GRACE. Mitch se perguntou de
novo onde ela estava. Ningum lhe dizia nada.
Imaginava Grace sendo interrogada, trancada em uma
solitria, sem dormir. Pensou nos olhos tristes dela,
na coragem, no surpreendente senso de humor,
mesmo nas piores situaes, e torceu para sua alma
ainda no ter sido despedaada.
Entre a neblina do usque, lembrou-se das palavras de
Grace.
DETETIVE, ME ESQUEA.
Era tarde demais para isso. Mitch percebeu que nos
ltimos dois meses, mal tinha pensado em Helen.
Grace tomara seu lugar no subconsciente, em seus
sonhos. Daquela vez, estava decepcionando Grace,
falhando com ela. Da mesma forma que falhara com
Helen e Celeste. Da mesma forma que falhara com
seu pai. DECEPCIONEI TODAS AS PESSOAS QUE AMEI. FALHEI
COM TODOS ELES.
Foda-se a suspenso. No se importava em
desobedecer as ordens. No ia desistir.
No dia seguinte, Mitch pegaria um avio para a ilha de
Nantucket.
A verdade no podia esperar.
Captulo 31
Mitch no entendia.
Voc tem todo o dinheiro do mundo. Pode ir para o lugar
que quiser... Miami Beach, Barbados, Hava, Paris. Por que
diabos comprar uma casa neste lixo?
Estava claro que Lenny Brookstein no era uma pessoa com
muito bom-senso. Tinha uma esposa linda que o adorava,
mas preferia transar com uma amante feia que o detestava.
Seus ditos amigos eram to confiveis quanto um bando de
vendedores de carro. Mas essa superava todas. Na opinio de
Mitch, Nantucket no tinha nada de bom. Com suas casas
cinza revestidas de madeira e suas praias desertas e chuvosas,
era o tipo de lugar que deixaria qualquer um deprimido.
        O que as pessoas jazem aqui?  perguntou ele ao
atendente da farmcia Congdon, na Main Street, uma das
poucas lojas que ficavam com as portas abertas fora da
temporada.
        Algumas pessoas pintam. Escrevem.
Escrevem o qu? Bilhetes suicidas? Poemas lricos de
Leonard Cohen?
        Outras pescam.  bem tranquilo aqui em maro.
Nem precisava dizer. A pousada onde Mitch estava era
silenciosa como um tmulo. O nico som da noite era o
tique-taque do relgio do saguo. Duas semanas disso e
Mitch ficaria como o personagem de Jack Nicholson em O
iluminado.
Mas no levaria duas semanas. Depois de 24 horas, estava
espalhado o boato de que havia um estranho na cidade
fazendo perguntas sobre Lenny Brookstein. Instintiva e
coletivamente, os moradores da ilha se calaram. Felicia
Torrez, cozinheira de Grace e Lenny na casa, agora
trabalhava no Company of the Cauldron, o nico restaurante
elegante que servia os moradores locais fora dos meses de
vero. Mitch foi at l encontr-la.
        Estou tentando entender melhor os eventos do dia que
antecederam  tempestade, no vero de 2009. A senhora
estava morando na casa dos Brookstein na poca, no
estava?
Silncio.
        Havia quanto tempo trabalhava para eles? Mais silncio.
        Olhe, senhora, esta no  uma investigao oficial, est
bem? No precisa ficar nervosa. A senhora notou alguma
tenso entre os hspedes da casa naquele final de semana?
Primeiro, ele achou que ela no soubesse falar bem ingls.
Depois, imaginou se ela no seria surda ou muda, ou ambos.
O que quer que fosse, Felicia era to tagarela quanto um
molusco depois de engolir cola. Mitch tentou a empregada, a
faxineira, o jardineiro. Era sempre a mesma histria.
        No me lembro.
        No vi nada.
        Eu fazia meu trabalho e ia para casa.
No dia seguinte, ele iria ao cais para falar com os pescadores.
Alguns deles deviam estar na gua naquele dia. Mas no
tinha mais tanta esperana.  como se todos eles fizessem
parte de um clube do silncio. Mas no fazia sentido. Lenny
Brookstein j estava morto. Por que eles queriam proteg-lo?
Hanna Coffin chamou o marido.
        Tristram! Venha ver isso.
        Um minuto.
Os Coffin trabalhavam no hotel Wauwinet, uma pousada
cinco estrelas em uma das partes mais tranquilas e menos
populosas da ilha. Como todos os hotis grandes, eles
ficavam fechados nos meses de primavera, mas mantinham
um quadro de pessoal mnimo para trabalhar na manuteno
e em reparos. Hannah e o marido eram zeladores, su-
pervisionavam o pessoal que trabalhava na baixa temporada.
Era um emprego com muito tempo livre, o qual Tristram
Coffin preenchia consertando sua moto Ducati e Hannah,
vendo televiso.
        Tristram!
        Estou ocupado, querida.  Tristram Coffin suspirou.
Compre os malditos brincos ou o superdescascador de
batatas, ou o CD de Neil Diamond, ou o que quer que
estejam vendendo! Voc no precisa da minha opinio.
         importante. Venha aqui.
Com relutncia, ele largou o alicate e entrou na sala do
modesto apartamento no trreo. Como sempre, a televiso
estava ligada.
        Voc se lembra desse cara?
Hannah apontou para a tela. Um homem estava sendo
entrevistado sobre a morte de Maria Preston. A histria
estava fervendo. Agora parecia que o marido tinha feito isso,
contratado algum da mfia para matar sua esposa porque
desconfiava que ela estava tendo um caso. Hannah Coffin
estava particularmente interessada no assassinato de Maria
Preston porque ela j ficara hospedada no Wauwinet uma
vez.
Tristram analisou o rosto do homem.
        Ele parece familiar.
        Ele  familiar  disse Hannah, triunfante.  Onde
aquele policial est hospedado? Aquele que est fazendo
perguntas sobre Lenny Brookstein?
        Union Street. Por qu?
        Vou ligar para ele, por isso.
Tristram pareceu no aprovar.
        Ah, querida. Voc no quer se envolver.
        Ah, eu quero sim.  Levantando seus 90 quilos do sof,
Hannah foi para o telefone.  J sei onde eu vi aquele cara.
E quando.
Tem certeza?
Mitch teve vontade de se beliscar. Se no estivesse com me-
do de dar um jeito nas costas, teria pego Hannah Coffm nos
braos e lhe dado um beijo.
        Certeza absoluta. Eles fizeram o check-in juntos. Foi no
dia da tempestade. Ele e Maria Preston.
        E eles ficaram...
        A tarde toda, como eu disse. Se quiser, posso escrever
para voc. Dar uma declarao. Ele apareceu na televiso
agindo como se mal a conhecesse. Mas ele a conhecia muito
bem. Intimamente, se  que me entende.
Mitch entendia. Deveria estar no cais dali a meia hora, mas
aquela descoberta fez com que mudasse seus planos. Foi para
o aeroporto.
O aeroporto de Nantucket era um pouco maior do que um
galpo, uma estrutura nica em forma de L, com cobertura
inclinada de telhas, metade da rea designada para
"Embarque" e a outra para "Desembarque". Mono e
bimotores Cessna pousavam, passageiros saam e ajudavam o
piloto a descarregar as malas na prpria pista de decolagem.
No saguo de embarques, a "segurana" consistia de um
velho de barba grisalha chamado Joe que olhava as bolsas
dos moradores e deixava-os passar com um sorriso e um
"vejo voc no Improv na sexta  noite. Igreja Batista, no se
atrase".
Mitch se dirigiu para o balco da Cape Air.
        Gostaria de ver os registros de passageiros, por favor.
Estou interessado em todos os vos que chegaram e saram
no dia 12 de junho do ano passado.
A moa no balco revirou os olhos.
        E voc ...?
        Polcia.
        Darlene?  chamou ela por cima dos ombros.  Temos
mais um aqui. Ele quer os registros do dia 12 de junho. Pode
mostrar a ele?
Uma senhora com saia de tweed saiu do escritrio. O cabelo
branco estava preso em um coque muito arrumado e
pequenos culos de leitura pendiam de seu nariz; parecia a
vov da Chapeuzinho Vermelho.
Mitch pareceu confuso.
        Mais um? Mais algum esteve aqui pedindo para ver as
listas de passageiros daquele dia?
        J estiveram aqui sim. Darlene Winter.  Ela estendeu a
mo pequena e enrugada e apertou a mo cabeluda e grande
de Mitch.  Vocs policiais so como nibus. Nunca esto
l quando precisamos, e ento, de repente, todos aparecem
de uma s vez. Venha comigo.
Mitch seguiu Darlene para dentro de um escritrio que era
to organizado e limpo quanto ela. Havia um computador no
canto, mas ela o levou para uma mesa do outro lado da sala.
Um grande livro de couro marrom estava aberto. Parecia
uma Bblia antiga ou um enorme livro de visitas de algum
castelo escocs antigo.
        Todos os registros esto no computador tambm, claro
 disse Darlene para Mitch.  A lei manda. Mas gostamos
de fazer as coisas aqui  moda antiga. Mantemos um dirio
de bordo escrito a mo tambm. Acho que j sei o que est
procurando.
Ela apontou para um nome familiar, escrito com uma linda
caligrafia com tinta preta.
        Ele pegou o vo de 6h10 para Boston, juntamente com
outros cinco passageiros. Aterrissaram s 6h58. O que quer
que ele fosse fazer naquele dia, mudou de idia, porque s
7h25  ela virou a pgina  ele embarcou junto com
outros oito passageiros de volta para a ilha. Aqui est o
registro de chegada dele: 12 de junho, 8h05. Vo 27 de
Logan. John H. Merrivale.
Mitch passou o dedo pelo papel.
Ento Hannah Coffin no estava fantasiando. John Merrivale
realmente pode ter estado no Wauwinet naquele dia, junto
com Maria Preston.
Segundo Hannah, os dois chegaram ao hotel no incio da
tarde. Umas cinco horas depois de John ter voltado para a
ilha, depois de forjar um libi. Tempo mais do que suficiente
para ir atrs de Lenny Brookstein e assassin-lo em seu
barco.
        A senhora disse que mais algum pediu para ver isso.
Outro policial?
        Isso mesmo. Acho que ele disse que era do FBI, mas
parecia mais um militar. Muito rgido, diria at rude. O
cabelo dele era bem curto, como de militares, sabe? Curto
demais.
        A senhora no se lembra do nome dele?
Darlene franziu o cenho.
        William  acabou dizendo.  William alguma coisa.
Veio direto para a mesma pgina: 12 de junho, John
Merrivale. Esse Sr. Merrivale est com algum tipo de
problema?
Ainda no, pensou Mitch. Depois pensou: Quem  William?
O agente olhou para o sed respingado de lama e seu nico
ocupante. Esperava um veculo blindado ou mesmo um
comboio. No um homem de meia-idade em um carro sujo
de famlia. Esse cara parece ter vindo buscar a filha depois
de uma festa do pijama.
O acampamento nos arredores de Dillwyn, na zona rural da
Virgnia, era uma dependncia ultrassecreta OGA, que
significa "Other Government Agency", que costuma
significar CIA, embora o acampamento de Dillwyn fosse um
"lar" temporrio para vrios tipos de prisioneiros militares
considerados inconvenientes ou perigosos demais para
voltarem para uma priso comum. Alguns eram suspeitos de
terrorismo. Outros, de espionagem. Alguns eram
classificados como "presos polticos confidenciais". Mas
nenhum dos outros presidirios de Dillwyn era mais
"confidencial" do que o que aquele homem fora ver. O
prisioneiro seria transferido para uma priso do FBI em
Fairfax. Em um sed, aparentemente.
        Papis, por favor.
O homem com barba grisalha entregou suas credenciais.
Houve alguns momentos de tenso enquanto o guarda os
examinava. Mas estava tudo em ordem, como ele sabia que
estaria.
        Tudo bem, pode passar. Esto esperando por voc.
Grace estava no meio de uma cela de 2 metros quadrados,
abrindo as pernas e estendendo os braos para o lado, se
concentrando na respirao, enquanto se colocava na
posio do guerreiro 2.
Estava em Dillwyn havia quase duas semanas, trancada 22
horas por dia em uma caixa sem janelas. Sem ningum com
quem conversar, nenhum tipo de interao humana, a ioga
era sua salvao. Passava horas fazendo uma srie de poses,
energizando seu corpo e focando na mente e respirando,
afastando o desespero.
Estou viva. Estou forte. No vou ficar aqui para sempre.
Mas ser que ficaria? Horas, dias e noites j tinham se tor-
nado uma coisa s, uma extenso contnua do nada. As luzes
da cela de Grace ficavam acesas o tempo todo. As refeies
chegavam em bandejas a cada seis horas, mas nada distinguia
o caf da manh do almoo ou o almoo do jantar.
Eles esto tentando acabar comigo, me enlouquecer para
que possam me trancar em uma instituio mental e jogar a
chave fora.
No estava funcionando. Ainda. Entre as sesses de ioga,
Grace deitava em sua cama, fechava os olhos e tentava
invocar a imagem do rosto de Lenny. Ele era a razo que a
mantinha viva, afinal, a razo que fazia com que continuasse
lutando. Em Bedford Hills e, depois, quando estava fugindo,
costumava achar fcil lembrar-se do rosto bondoso e
carinhoso dele sempre que desejava. Grace conversava com
Lenny da mesma forma que outros rezavam para Deus. A
presena dele era um grande conforto para ela. Mas ali,
naquele lugar montono e horrvel, ficou angustiada ao
perceber que a imagem dele estava desaparecendo. De
repente, no conseguia mais se lembrar exatamente do som
de sua voz ou do olhar dele quando faziam amor. Ele estava
se esvaindo. Grace no conseguia afastar a sensao de que,
uma vez que Lenny desaparecesse completamente, sua
sanidade desapareceria junto.
O nico rosto que conseguia evocar, ironicamente, era o de
Mitch Connors. Algumas noites antes, pela primeira vez em
meses, tivera um sonho ertico, um no qual Mitch era o
protagonista. Acordou sentindo-se constrangida, culpada
at, mas se convenceu de que no tinha culpa. Voc no
pode controlar o que sente quando est inconsciente. Alm
disso, o sonho pelo menos prova que estou viva. Ainda sou
uma mulher, um ser humano.
A porta da cela se abriu. Grace levou um susto. No estava
na hora do seu exerccio dirio. O guarda disse rudemente:
        Venha comigo. Voc vai ser transferida.
Essas eram as primeiras palavras que algum lhe dirigia em
uma semana. Grace precisou de alguns segundos para
desenterrar a prpria voz.
        Para onde?
O guarda no respondeu. Em vez disso, algemou-a. Grace o
seguiu por um labirinto de corredores, sem falar nada,
tentando conter sua euforia.
 isso. Vou sair daqui. Sabia que eles no poderiam me
manter aqui para sempre.
Perguntou-se se Mitch Connors tinha algum dedo nisso e
estava curiosa para saber para onde iriam lev-la. Onde quer
que fosse, no podia ser pior do que aquele lugar. O guarda
digitou uma senha de sete dgitos para abrir uma pesada por-
ta de metal. Grace o seguiu para o ptio.
        Ol de novo, Grace.  Gavin Williams sorriu.  Temos
uma longa viagem pela frente. Podemos ir?
As estradas rurais eram ruins e esburacadas. Cada pulo ou
solavanco tinha o mesmo efeito de uma lmina nos nervos
de
Grace. Williams era louco. Lembrou-se das ltimas duas ve-
zes em que se encontraram: uma no necrotrio, quando ele
a segurara como um animal, e outra na enfermaria em
Bedford Hills. Na segunda vez, tivera certeza de que ele
pretendia feri-la. O olhar de dio selvagem... Ela nunca
esqueceria.  claro que estava muito sedada no dia.
        Para onde voc est me levando?
Sem tirar os olhos da estrada, Gavin Williams tirou a mo
direita do volante e deu um tapa no rosto de Grace.
        No fale, a no ser que eu mande.
Muda e chocada, Grace colocou a mo livre no rosto
latejante. Sua mo direita estava algemada  porta do
passageiro. As algemas roavam dolorosamente em seu
pulso. Permanecia o mais imvel possvel, tentando no
roar o pulso no metal. Gavin Williams comeou a falar,
murmurando para si mesmo como um drogado:
        Achei que as coisas pudessem ser diferentes no FBI. Mas
 claro que no foram. O cncer est em todos os lugares:
ignorncia, estupidez. Foi por isso que o Senhor me enviou.
Ele me abenoou com os dons da inteligncia e da
sabedoria. Ele me deu coragem para agir.
Grace sentiu sua frequncia cardaca acelerar. Preciso sair
daqui. Desde que haviam deixado Dillwyn, pareciam estar se
embrenhando cada vez mais na floresta. Era uma paisagem
sinistra. Dos dois lados da estrada destruda havia fileiras de
sumagus-da-virgnia fedorentos, interrompidas por algumas
nogueiras quebradas. A escurido estava aumentando.
         claro que Bain confiava nele. Todos confiavam. Ele foi
mais inteligente que Bain. Mais inteligente que Brookstein
tambm. Mas no foi mais inteligente do que eu.
Preciso fazer com que ele continue falando at que eu
descubra o que fazer.
        Quem no foi inteligente suficiente?  Grace se preparou
para mais um tapa, mas agora Williams queria falar.
        Merrivale, claro  disse ele, com desdm.  Ele tentou
me humilhar em Genebra. J estivera l com Lenny. Fez
com que Bain me tirasse da fora-tarefa. Mas o meu trabalho
ainda no estava terminado. Eu descobri o segredo dele. 
Gavin sorriu. Loucura brilhou em seus olhos.
        Qual era o segredo dele?
Gavin Williams deu uma gargalhada.
        Ele matou seu marido, minha querida. Voc no sabia?
Grace ficou sentada em silncio. Williams continuou
falando:
        John pegou um vo para Boston no dia da tempestade.
Mas, claro, a polcia foi preguiosa demais para verificar os
registros do aeroporto. Precisei fazer isso eu mesmo. Assim
que John Merrivale aterrissou, pegou o vo seguinte de
volta. Foi de helicptero at o barco de Lenny. Isso foi cedo,
sabe, antes de o tempo ficar ruim. Eles tomaram uns dois
drinques, seu marido foi drogado, claro, e ento o querido
John cumpriu sua misso. Lenny foi decapitado, alis. Mas
no de forma limpa. John Merrivale deve t-lo atacado
insistentemente. Seu amigo investigador no lhe disse isso?
 Ele estava zombando dela, deleitando-se em seu terror
como um gato brincando com um rato antes de mat-lo.
Grace ficou tonta.
        Foi John quem ficou com o dinheiro, desviando todos os
fundos do Quorum. Depois que ele despachou o seu senhor,
ele tirou voc do caminho, o que foi a parte mais fcil.
Depois ficou amiguinho daquele idiota do Harry Bain. 
Gavin imitou a voz grave de bartono de Harry Bain: 
"John  a chave da nossa investigao. Voc tem que parar
de se indispor com ele, Gavin!" Idiota! Todo esse tempo a
verdade estava bem debaixo do nariz dele. Fedendo, como o
cadver do seu marido. Mas Harry no conseguiu enxergar.
Grace tentou processar o que Gavin Williams acabara de lhe
dizer. Era claro que o homem estava doido. Mesmo assim,
ela sabia que ele estava falando a verdade sobre John. Ele
tinha verificado os registros dos vos. Fora John quem
roubara o dinheiro, John quem matara Lenny, John
orquestrara seu julgamento e sabotara a investigao. Seus
instintos estavam certos o tempo todo. Por que no confiara
neles?
A boa notcia era que, se Williams sabia da verdade sobre
John, ele sabia que ela era inocente. Que ela e Lenny no
tinham roubado nada. Que eles eram vtimas. Ele no est
me sequestrando. Est me resgatando!
Ela abriu a boca para agradecer, mas no teve nem chance.
Gavin Williams lhe deu um soco to forte que ela desmaiou.
ELA estava molhada. Encharcada. Gavin Williams despejava
uma garrafa de gua muito gelada na sua cabea. O ar-
condicionado estava no mximo. Grace tremia de frio.
Williams empurrou o banco dela o mais para trs possvel,
depois subiu nela. Grace gritou e lutou, esperando o
inevitvel, mas Williams no tentou estupr-la. Em vez
disso, ele segurou as pernas dela para que no pudesse se
mexer, fechou os olhos e comeou a recitar o que parecia
alguma forma de liturgia bizarra.
        Que o mal ranja seus dentes e desaparea... que o desejo
do mal perea... que mesmo na escurido, a luz ilumine e o
justo... Senhor, me afaste do mal...
        Eu sou inocente  suplicou Grace.  Voc sabe que eu
sou.
        Voc  culpada  rosnou Gavin, seu rosto grotesca-
mente retorcido por dio e loucura.  Todos vocs, voc,
seu marido nojento, John Merrivale. Vocs so farinha do
mesmo saco, seus parasitas ricos, banqueiros, se acham
melhores do que o resto de ns. Melhores que eu. Vocs so
uns vermes. Vermes depravados e doentes. Mas no se
desespere. Fui enviado para purificar voc.  Estendendo a
mo para o banco do motorista, ele pegou uma segunda
garrafa de gua, esvaziando-a sobre a cabea de Grace.  Eu
a batizo com a gua da penitncia.  O lquido estava
congelando. Grace fechou os olhos, tentando respirar.
Quando os abriu, viu Gavin abrindo uma garrafa de gasolina.
Lentamente, ele comeou a despejar uma trilha do lquido
viscoso sobre as roupas e o cabelo de Grace.  Mas um
segundo batismo est prestes a acontecer. O batismo de
fogo.  o Senhor quem separa o joio do trigo. Ele vai limpar
o solo impuro, reunindo o trigo em seu reino.  Gavin
comeou a falar mais alto, com mais entusiasmo. Saiu de
cima de Grace, abrindo a porta do passageiro e saindo para
um lugar seguro. O pulso de Grace ainda estava algemado 
porta. Quando ela se abriu, Grace gritou de dor, sentindo seu
ombro deslocar. Williams ainda estava recitando:  Ele vai
queimar o joio com fogo insacivel.  Gavin colocou a mo
no bolso e tirou uma caixa de fsforo.
Grace no pensou. Por puro instinto, se jogou para a frente,
dando um chute na virilha de Williams. Ele urrou de dor,
soltando a caixa de fsforos.
        Sua vadia!  Ele se jogou nela como um bfalo
enlouquecido, lanando-se para dentro do carro, as mos no
rosto dela, cravando as unhas, sulcos de sangue na pele.
Grace enterrou os dentes no brao dele. Gavin berrou e
soltou-a por um momento, mas a ira dele era mais forte do
que a dor. Preciso destru-la. Preciso livrar o pas do mal,
acabar com a calamidade da cobia antes que ela devore a
todos ns.
        Arrependa-se!  As mos dele seguravam o rosto de
Grace como um tomilho. Ele estava tentando pressionar
seus polegares nos olhos dela. Grace sentiu seu crnio se
encher de sangue. A dor em seu ombro era to forte que ela
estava surpresa por no ter desmaiado.  Arrependa-se,
pecadora filha de Eva!
        Arrependa-se voc, seu babaca!
Com toda a fora que ainda lhe restava, Grace bateu com o
brao livre no pescoo de Gavin, como um golpe de carat.
Ela escutou um estalo, como um galho se quebrando. As
mos de Williams ficaram fracas, um rob de brinquedo
cujas pilhas acabaram. Quando ele deslizou para o cho do
carro, sua cabea se afastou do torso em um ngulo absurdo,
como uma flor com um caule quebrado. Os olhos dele ainda
estavam abertos, congelados para a eternidade em uma
expresso no de dio, mas de intensa surpresa.
Com o brao livre, Grace segurou a lapela do palet dele e
puxou o corpo dele na sua direo. Foi um trabalho
demorado, at que ela conseguiu alcanar o bolso do palet.
Ali dentro, brilhando como pepitas de ouro em um riacho,
estavam as chaves de suas algemas.
As algemas se abriram facilmente, mas mexer o brao foi
doloroso. Grace gritava ao cambalear para fora do carro,
lgrimas de dor escorrendo de seu rosto, se misturando com
sangue dos arranhes que Gavin lhe fizera. Ela j vira garotas
deslocarem os ombros na sua poca de ginasta e sabia o que
tinha de fazer. Sentada na lama, encostada na lateral do
carro, ela cerrou os dentes.
Um. Dois... trs.
A dor foi indescritvel. Mas o alvio foi instantneo e doce.
Grace se deliciou com ele. Depois riu, a gargalhada profunda
e verdadeira de um sobrevivente. Quando sua fora voltou,
ela foi at o corpo de Williams, pegou a carteira dele e tudo
o que tinha de valor. Ento, se levantou, acendeu um
fsforo e jogou-o no sed. Assistiu s chamas envolverem o
corpo de Gavin Williams e ficou ali parada, se aquecendo no
calor delas. Foi uma sensao boa.
Estava viva.
Estava livre.
Mas sua misso no tinha acabado.
Captulo 32
Caroline Merrivale sentou-se  sua penteadeira, prendeu o
cabelo, espalhou o hidratante Creme de La Mer por todo o
rosto. Aos 40 anos, ainda tinha a pele de uma mulher com a
metade de sua idade, o que a deixava feliz. Nunca fora uma
mulher bonita, no sentido clssico da palavra, no como as
Grace Brookstein do mundo. Mas tinha estilo e presena,
vestia-se bem e sabia como se cuidar.
Perguntou-se o que faria no resto do dia. John sara cedo
para o aeroporto. Harry Bain tinha mandado seu marido para
Mustique em busca de uma pea do gigantesco quebra-
cabea do Quorum. Mas, antes disso, Caroline o forara a
fazer sexo com ela, fotografando-o em uma srie de poses
humilhantes. Dominar John era sempre um prazer, mas hoje
ela gostara mais do que de costume. Nas ltimas semanas,
Caroline notara uma mudana em seu marido pattico e
covarde  uma confiana crescente que estava deixando-a
desconfortvel. Ele praticamente saa saltitando de casa,
ansioso para ir trabalhar. At contava para ela coisas do seu
dia  como se ela estivesse interessada!  "Harry Bain disse
isso, disse aquilo" ou "o FBI est encantado com o meu
trabalho e bl-bl-bl".
Caroline esperara deliberadamente at aquela manh para
lhe ensinar uma lio. Ele estava animado com essa viagem
para Mustique a semana toda, e ela queria acabar com a ale-
gria dele com o mximo de impacto possvel. Quando
chegasse em casa ela falaria diretamente com ele: tinha sido
escravo do FBI por tempo suficiente. Estava na hora de
voltar ao trabalho, comear um fundo dele e ganhar mais
dinheiro. A propriedade de Billy Joel em East Hampton
estava  venda depois do terceiro divrcio dele. Caroline
desejava aquela casa havia anos.
        Sra. Caroline?  Cecilia, a empregada dos Merrivale,
bateu nervosamente na porta do quarto dos patres.  Tem
um cavalheiro l embaixo querendo falar com a senhora.
Caroline se virou e lanou um olhar amedrontador para a
empregada. Nua da cintura para cima, com uma camada
grossa de creme no rosto, parecia uma guerreira Maori sem
as tatuagens.
        Pareo algum que est pronta para receber visitas?
Cecilia tentou desviar o olhar dos mamilos nus, grandes,
escuros e nojentos, como dois champignons podres.
        Ele queria falar com o Sr. John.  da polcia. Ele disse
que vai esperar.
Enquanto isso, no andar de baixo, Mitch olhava a suntuosa
sala de estar dos Merrivale. O objeto mais surpreendente
provavelmente era um relgio de ouro Luis XV sobre a
lareira. A sala era vulgar e horrorosa, mas devia ter custado
uma fortuna. Tudo ali exalava dinheiro: as cortinas de seda
drapeada, os mveis franceses antigos, os tapetes persas, os
vasos chineses. Isso foi o que sobrou depois que a fraude do
Quorum acabou com eles? Quanto eles tinham antes?
No importava mais. Armado com o testemunho de Hannah
Coffin e uma cpia dos registros dos voos, alm das evidn-
cias que Buccola descobrira de violncia no corpo de Lenny,
Mitch tinha o suficiente para prender John Merrivale. 
claro que a confisso dele selaria o acordo. De um caso
circunstancial para uma condenao garantida. Mitch
imaginou a cara de Dubray quando lhe contasse. As
desculpas humilhantes. Sua restituio triunfante e a
promoo a capito. Melhor ainda seria o sorriso de Grace.
Como ele, Mitch Connors, a deixaria feliz, e como ela ficaria
agradecida. "Ah, Mitch, voc foi incrvel. Como posso
compens-lo?" Ele entraria com um recurso e...
         melhor que seja importante.
Em um quimono cinza, com o cabelo preto puxado para trs
e o rosto sem maquiagem, Caroline Merrivale parecia ainda
mais severa do que de costume. Fez com que ele se
lembrasse de uma carcereira. Uma mistura de Anna
Wintour com Cruela de Vil.
        No gosto de visitas inesperadas s 8h30 da manh.
        Preciso falar com seu marido.  urgente.
        Ele no est aqui.  s isso?
Cristo, como ela  insolente. Mitch endureceu:
        No, no  tudo. Preciso saber onde ele est. Como j
disse,  urgente.
Caroline Merrivale bocejou.
        No fao idia de onde ele esteja. Gretchen, a secretria
de John, fica com a agenda dele. Acho que ela chega s 10.
Ou seria s 11? Agora, me d licena.
        Mais um passo e est presa.  Mitch se levantou e se-
gurou Caroline pelo pulso. Ela se virou, rindo.
        Presa? Por qu? Me solte, seu idiota.
        S quando me disser onde est o seu marido.
Caroline tentou se soltar, mas Mitch segurou-a com mais
fora. Ao fazer isso, ele notou o queixo dela se levantar de
forma desafiadora e as pupilas dilatarem. Pensou: Isso a est
deixando excitada. Ela gosta de jogos de poder. Embora
fisicamente ela o empurrasse, ele puxou-a para mais perto,
falando em um sussurro:        
        No me faa machuc-la. Vou lhe dar uma ltima chan-
ce. Onde est John?
Caroline passou os olhos de forma lasciva pelo corpo
masculino e forte de Mitch. Ali estava um homem que podia
respeitar. Um homem para quem valia a pena ceder.
        No Aeroporto de Newark  disse ela, rouca.  Est
indo para Mustique.
MITCH DIRIGIU feito um louco. Saiu do carro, na entrada
da rea de embarque, deixando o motor ligado. Um oficial
gritou para ele:
        Ei! Ei! No pode deixar o carro a, cara.
Ignorando-o, Mitch continuou correndo e no parou at
chegar ao balco da Delta.
        Vo 64 para Santa Lcia  disse ele, ofegante.
        Sinto muito, senhor. O embarque est encerrado.
        Pois reinicie.  E colocou o distintivo em cima do
balco.
        Vou chamar a supervisora.
Uma mulher mais velha, com culos grossos em uma ar-
mao preta, saiu de um escritrio nos fundos.
        Como posso ajud-lo?
        Tem um passageiro no vo 64, John Merrivale. Preciso
falar com ele. Preciso dele fora daquele avio.
        Sinto muito, senhor. O vo 64 j saiu. Dois minutos atrs.
Mitch resmungou e colocou as mos na cabea.
        Mas vamos dar uma olhada. Qual era mesmo o nome do
passageiro?
        Merrivale, John.
A mulher digitou alguma coisa no computador.
        Se for necessrio, podemos alertar a tripulao e o
pessoal do aeroporto. Eles podem segur-lo l at que... 
Ela parou.
        O qu?  perguntou Mitch.
        Tem certeza de que ele estava nesse vo? No tem
nenhum John Merrivale na lista de passageiros.  Ela virou
o monitor para que ele pudesse ver.
Ele teve um mau pressentimento.
- Como assim ele est morto?
O diretor do FBI perdeu a pacincia.
        Como assim "como assim"? Ele est morto! Qual  a parte
de "morto" que voc no entendeu, Harry?
Harry Bain tirou o telefone do ouvido e esperou algum
apresentador de TV pular de trs da mesa e dizer que era
uma pegadinha. S podia ser.
        Mas, senhor, Gavin Williams est de licena h mais de
um ms.
        Bem, no foi isso que ele disse para o pessoal em Dillwyn.
Ele disse que tinha sido pessoalmente autorizado a transferir
Grace Brookstein para Fairfax. Eles me mandaram os
documentos por fax, Harry. Estou olhando para a sua
assinatura neste momento.
        Isso  loucura! Eu nunca autorizei nada. Williams estava
obcecado por Grace Brookstein. Tinha alguma coisa pessoal,
estranha, contra ela. Foi por isso que dei essa licena para
ele.
        Caramba!  berrou o diretor.  Voc faz idia da merda
que isso vai dar?
Harry Bain fazia idia. O pessoal da priso de OGA soltara
Grace Brookstein na noite anterior sob a custdia de Gavin
Williams. Os dois saram de Dillwyn por volta das 17 horas.
s 5, o que restava do carro queimado de Gavin Will tinha
sido descoberto em uma parte rural remota da Virgnia com
os restos mortais de Gavin Williams dentro. Ou como o
chefe de Harry Bain dissera, "o churrasquinho de Williams".
Grace Brookstein tinha desaparecido.
        E as buscas? Alguma coisa que a minha equipe possa fazer
para ajudar?
        J estamos vasculhando tudo. Colocamos helicpteros,
ces rastreadores, tudo. Eu podia dizer que ela no vai longe,
mas depois da ltima vez...
        A mdia ainda no sabe, certo?
        Ningum sabe. Vamos manter assim. Ningum sabia que
ela estava em Dillwyn, graas a Deus.
Harry Bain pensou: Exceto Gavin Williams. Quanto tempo
levaria para um reprter persistente descobrir a verdade?
Tempo suficiente para encontrarem Grace? Lembrou-se da
famosa fala de Lady Bracknell em A importncia de ser
prudente. Perder Grace Brookstein podia ser considerado
azar. Mas perd-la duas vezes era descuido.
Desligou se perguntando como conseguiria salvar sua car-
reira. Estava procurando uma aspirina em sua mesa quando
um homem louro desgrenhado entrou na sala. Harry pegou
a arma.
        Calma.  Mitch levantou as mos.  Estamos do mes-
mo lado, lembra?
Harry Bain no se lembrava. A polcia de Nova York
dificultara muito as coisas para seu pessoal quando Grace
fugira. Mesmo depois que a capturaram, Mitch Connors
fizera tudo para impedir o acesso deles a ela.
        O que voc quer, Connors?
Mitch foi direto ao assunto:
        John Merrivale no pegou o vo para Santa Lcia esta
manh.
        Como voc sabe?
        Fui ao aeroporto. Chequei a lista de passageiros. Tenho
feito muito isso ultimamente.
Harry Bain deu de ombros.
        Ele perdeu o vo.
        No. Voc no entendeu. Ele nunca teve a inteno de
pegar aquele vo. Ele no vai para Mustique.
        Por que voc acha isso?
        Porque eu acho que John Merrivale deixou o pas para
no ser processado por homicdio.
        Homicdio?  A conversa estava comeando a ficar
surreal.  De quem?
        Leonard Brookstein.
Harry Bain riu, depois parou. Connor estava falando srio.
        Acredito que John Merrivale foi o responsvel pelo rou-
bo dos bilhes do Fundo de Hedge Quorum. Acredito que
ele sempre soube onde o dinheiro estava. Acho que ele est
indo peg-lo neste momento.
Harry j escutara rumores de que o rapaz da polcia de Nova
York tinha enlouquecido. Havia noventa por cento de
chances de o garoto estar doido.
O que deixava dez por cento de chance de ele ter descober-
to alguma coisa.
Harry Bain apontou para a cadeira  sua frente.
        Sente-se. Voc tem 15 minutos para me convencer.
Mitch nem respirou. Comeando com as informaes de
Davey Buccola, ele contou a Harry Bain tudo o que sabia
sobre o que tinha acontecido no dia em que o barco de
Lenny Brookstein desaparecera. Falou sobre as evidncias de
violncia do cadver; sobre o caso de Lenny com a cunhada;
a relao conturbada com os supostos amigos e os vrios
motivos que eles tinham para querer v-lo morto. Falou
sobre as dvidas de Andrew Preston e o amor obsessivo pela
esposa adltera, sobre o romance de Jack Warner com uma
garota de programa e sobre as tentativas de chantagem de
Connie Gray. Finalmente, falou sobre John Merrivale: a
desconfiana de Grace de que ele sabotara seu julgamento de
propsito; as mentiras que John contara  polcia; o libi
forjado; o romance com Maria Preston, a quem ele dizia mal
conhecer.
Quinze minutos se passaram, vinte, trinta. Harry Bain
escutou e no disse nada. Quando Mitch terminou, ele fez
uma nica pergunta:
        Quanto Grace Brookstein sabe de tudo isso?
        At a parte de John Merrivale, ela sabe de tudo  disse
Mitch.  Eu s descobri nas ltimas 48 horas.
Contou para Harry Bain como Grace passara a perna nele e
em seus homens na Times Square, como ela havia
humilhado Buccola depois que ele a trara, falou sobre o
estupro e o aborto e a determinao dela em limpar o nome
do marido a qualquer custo.
        Vou lhe falar uma coisa sobre Grace Brookstein. Ela 
inteligente. Corajosa. E muito habilidosa.
        Parece que voc a admira  disse Bain.
        E admiro.
        Gosta dela?
        Sim, eu gosto dela.  Mitch sorriu. Gosto mais do que
deveria.  Da verdadeira Grace, no do monstro que
pintaram na televiso. Mas, neste momento, fico feliz que
esteja trancada em algum lugar, est mais segura assim.
Harry Bain pareceu desconfortvel. Mitch Connors arriscara
muito ao ir at uma agncia rival, uma agncia que
teoricamente apoiara John Merrivale, e colocara todas as
suas cartas na mesa. Por outro lado, ele era rebelde. J
quebrara todas as regras para conseguir as informaes que
tinha. O prprio departamento o suspendera. Posso
realmente me dar ao luxo de confiar nele?
Bain tomou uma deciso.
        Tem uma coisa que voc precisa saber.
Mitch escutou boquiaberto. Era possvel? Grace tinha
fugido? Tinha matado um homem? A primeira coisa que
pensou foi na segurana dela. Se esses helicpteros a
encontrassem, iam atirar primeiro para perguntar depois.
Tudo no caso de Grace Brookstein tinha sido mentira, ento
por que no sua morte? Mitch at podia imaginar as
manchetes. Grace escorregou no chuveiro. Contraiu um
vrus raro. Quem saberia? Quem se importaria?
        O cara morto, o que forjou a sua assinatura nos papis de
autorizao. Qual era mesmo o nome dele?
        Gavin Williams.
Um sino tocou na cabea de Mitch. Nantucket. A mulher do
aeroporto. William, ele disse que o nome dele era... Tinha o
cabelo bem curto, igual de militar... foi para a mesma pgina.
12 de junho. John Merrivale...
        Como era o cabelo dele?
Bain ficou confuso.
        Gavin Williams. Como era o cabelo dele? Comprido,
escuro, claro, careca?
        Ele estava grisalho. Sempre usava o cabelo bem curto.
Qual a importncia disso?
Mitch ficou de p.
        Ele sabia. Ele sabia sobre John Merrivale! Era ele que
estava em Nantucket um dia antes de mim fazendo
perguntas. Gavin Williams sabia que John tinha voltado para
a ilha, que mentira sobre o libi. Ele deve ter desconfiado do
envolvimento de John na morte de Lenny.
Bain finalmente entendeu o significado disso.
        Voc acha que ele contou para Grace?
        No fao idia  disse Mitch.   voc quem o conhe-
ce. Mas se ele contou, e os seus helicpteros no a encontra-
rem, pelo menos sabemos para onde ela vai.
        Sabemos?
        Claro. Encontre John Merrivale e encontrar Grace
Brookstein. Ela est atrs dele para mat-lo.
Captulo 33
John Merrivale no gostava de viajar de avio. Fechando a
cortina, tentou prestar ateno no luxuoso interior do jato, e
no no fato de que estava a 30 mil ps sobre o oceano Pac-
fico em uma caixa de metal com asas.
Fitando os confortveis sofs de couro com almofadas de
cashmere e a mesa de nogueira com um par de taas de
cristal em cima e um pote de prata de caviar, ele pensou:
Que desperdcio isso tudo para mim. Talvez aquela fosse a
maior ironia de todas. John Merrivale no ligava para
dinheiro. Nunca tinha ligado. John Merrivale no estava
interessado em coisas. A verdade era que as coisas o
entediavam. Ternos feitos sob medida, carros esportivos,
jatinhos particulares, iates, manses. Essas eram ambies
das mulheres, os smbolos de riqueza e status. Caroline
gostava de imveis. Maria j era mais deslumbrada, uma
prostituta barata, que dava pulos de alegria ao ver qualquer
coisa que brilhasse.
Pobre Maria. Mat-la no fazia parte de seus planos. Mas ela
o colocara em uma situao impossvel. Ao ameaar contar
para Andrew sobre o romance deles, ela arriscara tudo.
J fazia dois anos que o delicado equilbrio de dependncia
mtua entre John e Andrew Preston protegia os dois. Se
Lenny era o crebro e o sistema nervoso do Quorum,
Andrew e John eram as mos direita e esquerda do fundo.
John trazia o dinheiro. Andrew pagava os investidores.
Manter a Comisso de Valores Mobilirios e depois o FBI no
escuro tinha sido uma simples questo de um acobertar o
outro.
 claro que a escala dos respectivos crimes variava
enormemente. Sou como um hipoptamo ao lado de uma
formiga. Os roubos de Andrew  600 mil aqui, 1 milho ali
 eram pequenos. Quanto  engenharia reversa das
demonstraes financeiras  fazer com que as contas do
fundo parecessem mais lucrativas do que realmente eram ,
bem, todo fundo de hedge de Wall Street fazia isso.
Comparado com o que John tinha feito, os crimes de
Andrew eram insignificantemente engraados.
A verdade era que Andrew poderia ter procurado Harry
Bain a qualquer momento e exposto os crimes de ambos em
troca de um acordo judicial. John Merrivale entendia muito
bem disso. Mas Andrew no o fez. Estava to desesperado
em comprar quinquilharias para Maria a fim de mant-la em
sua cama que o medo de se expor o manteve quieto. O
coitado era at agradecido a John por t-lo acobertado para
Bain. "Nem sei como lhe agradecer", dizia ele, humilhado, e
John respondia gentilmente: "De-de nada, Andrew. Para
qu abrir velhas feridas?"
Era pattico, mesmo. Andrew Preston no fazia idia das
cartas que tinha na manga. Assim como no sabia do que
acontecia entre sua esposa melodramtica e vadia e seu
amigo John Merrivale. A ignorncia de Andrew tinha sido a
salvao de John. At Maria ameaar tudo.
 Vou contar ao Andrew sobre ns. Finalmente,
poderemos ficar juntos, querido. Se ele fizer um escarcu,
digo a ele que vou denunci-lo  polcia. Ele estava
roubando do Quorum havia anos, voc sabe.
Foi uma pena. Aps viver tanto de humilhao e inferno
com Caroline, Maria tinha salvado a sua vida. Ela havia feito
com que ele se sentisse homem de novo. Mais que isso,
havia feito com que se sentisse desejvel. Poderoso. Se ela
tivesse continuado com a boca fechada e as pernas abertas,
ele nunca teria sido obrigado a tomar uma medida to
drstica. Mas ela no lhe dera escolha. Se Andrew soubesse
que John o trara, contaria tudo ao FBI. Sem Maria, ele no
teria mais nada a perder.
Garota tola. Ser que ela realmente acreditou que eu queria
me casar com ela? Fugir com ela?
Em poucas horas, John Merrivale aterrissaria no paraso,
reencontraria o amor de sua vida. E no era Maria Preston.
Seus planos no incluam um final to apressado. O plano
original era esperar at que o interesse pblico no Quorum
diminusse, e ento fugir tranquilamente. Mas os eventos o
surpreenderam. Primeiramente veio a fuga de Grace e sua
captura, o que colocou o Quorum de volta s manchetes.
Depois, a situao com Maria saiu do controle. John no
estava preparado para o interesse da mdia no assassinato
dela. Ficava nervoso com a imprensa xeretando  sua volta,
e, quando Andrew se matou, as coisas pioraram. Como era
previsvel, a morte de Maria destruiu o pobre Andrew. Ele
ficou to tomado de tristeza que pareceu se culpar pelo que
acontecera, por no t-la protegido. Mais cedo ou mais
tarde, algum  algum calouro no FBI ou um jornalista
intrometido  comearia a juntar dois e dois. Aquele psi-
copata do Gavin Williams j tinha chegado perigosamente
perto de descobrir a verdade. Essa ameaa tinha sido
neutralizada, mas haveria outras. Estava na hora de sair de
cena.
John pegou um pouco de caviar com uma colher de prata,
colocou sobre uma torrada e engoliu.
Nojento.
S havia um luxo na vida: liberdade. Quando menino, John
era prisioneiro de sua feiura e da ambio dos pais. J
homem, foi subjugado por sua esposa cruel e sdica. Agora,
pela primeira vez na vida, John Merrivale iria experimentar
a liberdade, com seu amor ao seu lado.
Fechou os olhos, perdido no prazer que sentia por
antecipao.
Captulo 34
TRS SEMANAS DEPOIS
Grace se segurou na grade do barco pesqueiro se pergun-
tando se era fisicamente possvel vomitar pela stima vez.
As ondas da costa de Mombasa, no Qunia, eram enormes e
assustadoras. Ao longe, pareciam a boca de uma cobra
gigante, empinando-se com o maxilar aberto, pronta para
dar o bote. De perto, eram simplesmente muros de gua,
cinza, furiosas e destrutivas, sacudindo sem misericrdia a
frgil traineira de madeira. Nas primeiras horas, Grace teve
medo de morrer. Depois, quando o enjo realmente tomou
conta dela, teve medo de no morrer. Deitada exausta em
sua simples cama de madeira, perguntou-se o que fazia
pessoas entrarem em um barco por prazer.
O oceano acabou se acalmando. No deque, um sol escal-
dante africano brilhava em um cu to azul e sem nuvens
que parecia sado de um desenho animado. Grace observou
os trs jovens quenianos jogarem suas redes no mar. Havia
uma beleza simples na forma com que trabalhavam,
silenciosamente passando a rede pesada entre eles, os
msculos se contraindo com o esforo sob suas peles negras
lustrosas e suadas. Assim que zarparam, Grace os apressou.
Pagara 8 mil xelins por sua passagem, quase mil dlares, uma
fortuna para homens como esses, e esperara uma viagem
rpida. Agora, se no fosse por seus enjos, teria quase
aproveitado a viagem.
Sentia-se como se estivesse fugindo para sempre. Depois que
deixou Gavin Williams em sua pira funeral automobilstica,
conseguira uma carona at Portsmouth, Virgnia. Sabendo
que o dinheiro na carteira de Williams no duraria muito
tempo, assumira o risco de mandar um e-mail codificado
para o amigo de Karen, pedindo mais suprimentos, dinheiro
e uma identidade nova boa o suficiente para enganar o
pessoal do aeroporto local de Norfolk. Durante trs dias,
Grace ficou no hotel, rezando para o pacote chegar e
ansiosamente trocando os canais da televiso para ver
notcias de sua fuga ou da morte de Gavin Williams. Nada
foi divulgado. As autoridades deviam estar esperando
conseguir captur-la antes que ela causasse mais
constrangimentos a eles. No final do terceiro dia, j estava
comeando a se desesperar achando que o e-mail tinha sido
interceptado quando o dono do hotel lhe avisou que tinha
chegado um pacote por FedEx.
        Linda Reynolds.  voc, certo?
O corao de Grace acelerou. Um dia, quando tudo isso
acabasse, ela pagaria sua dvida com o amigo misterioso de
Karen, um estranho que se arriscava tanto para ajud-la.
Naquele momento, porm, tinha muito trabalho a fazer. Sua
primeira ligao foi para Mitch Connors.
        Grace! Graas a Deus voc est viva! Williams machucou
voc? Onde voc est?
O som da voz dele fez Grace sorrir.
        Desculpe, no posso dizer. Mas estou bem.
        Escute, Grace, sei tudo sobre John Merrivale.
         verdade, ento? John matou Lenny?
Mitch suspirou.
        Parece que sim. Achamos que ele est por trs da fraude
tambm. Ele enganou o FBI esse tempo todo. Mas, pelo
amor de Deus, no faa nenhuma besteira, certo? Todo
mundo j sabe... o FBI, a CIA. John vai ter o que merece
assim que conseguirem traz-lo de volta.
        Traz-lo de volta? Cad ele?
No silncio que se seguiu, Grace escutou Mitch se
penitenciando. Por que eu disse isso?
        Grace, querida, estou do seu lado. Voc sabe disso.
Grace ficou vermelha. Lenny costumava cham-la de
"querida". No sabia se gostava de ser chamada assim por
Mitch ou se se ressentia.
        Mas voc tem que deixar a Justia agir. Entregue-se. Dei-
xe os federais cuidarem de John Merrivale. Grace... Grace?
Depois que desligou, Grace ficou sentada na cama do hotel
por um longo tempo, pensando.
Ento, John est fugindo. Um fugitivo. Como eu.
Todo mundo estava atrs dele, era o que Mitch dissera. Mas
no porque ele matara Lenny. Ningum dava a mnima para
isso. Mas porque pensavam que ele estava com o dinheiro.
Esse dinheiro estpido era s o que importava ao FBI. Nem
certo nem errado. Nada de justia. Os Estados Unidos
tinham se esquecido do significado dessa palavra. Se  que
algum dia souberam.
Grace fechou os olhos. Tentou se colocar no lugar de John
Merrivale.
Para onde eu iria? Com o mundo inteiro atrs de mim? Onde
eu me esconderia?
Alguns minutos depois, ela abriu os olhos. Claro. Pegou o
telefone.
        Quero um txi, por favor. Para o aeroporto internacional
de Norfolk. Isso mesmo. O mais rpido possvel.
De volta ao barco pesqueiro, escutando o som das ondas
quebrando e sentindo o sol queimar seu rosto, Grace sorriu
para si mesma, pensando na revelao que tivera naquele
sombrio quarto de hotel na Virgnia e em como essa
revelao a levara at ali, depois de viajar meio mundo.
Talvez a palavra revelao fosse a palavra errada. Lembrana.
Foi uma lembrana que lhe mostrou para onde John
Merrivale fugiria, uma lembrana que lhe dava certeza do
lugar onde ele estava agora. A lembrana era to doce que
Grace fechou os olhos e a saboreou de novo...
FOI um ms antes de ela e Lenny se casarem. Estavam na
Frana, em uma charmosa bastide que Lenny tinha alugado
em uma cidade alta de Ramatuelle, a dez minutos de carro
de Saint-Tropez. Grace suspirou.
        No quero sair daqui nunca mais.  encantador. Estavam
jantando com Marie La Classe, a corretora de imveis
francesa de Lenny, e com John e Caroline Merrivale.
        Voc no acha tranquilo demais?  perguntou Caroline.
Desde o incio da viagem, vinha insistindo para se mudarem
para o Le Byblos, ou, melhor ainda, ir no iate de Lenny at a
Sardenha para que pudessem esnobar os barcos menores.
Qual era a graa de ir at Saint-Tropez e ficar a semana
inteira trancada em uma vila pequena e chata da qual
ningum nunca tinha ouvido falar?
        A-algumas pessoas gostam de tranquilidade  arriscou-se
John, timidamente. Caroline lanou um olhar letal para o
marido.
        Eu me sinto uma princesa na torre  exclamou Grace,
sorrindo para Lenny, que retribuiu o sorriso.  Como se eu
estivesse presa na mais linda das ilhas e ningum pudesse me
alcanar.
        Vocs j estiveram em Madagascar?
Todos se viraram para Marie.
        Toda a cultura da Frana combinada com a beleza natural
da frica, dentro de uma nica ilha intacta. Eu cresci l.
        Parece mgico  disse Grace.
        E . Voc ia amar. A vida selvagem, a paisagem, a vista do
forte Dauphin  uma das maravilhas do mundo. Je vous
assure.
        Vou lhes dizer mais uma coisa sobre Madagascar. 
Lenny abriu aquele seu sorriso maroto, de menino,
espetando um pedao de lagosta perfeitamente cozida com
seu garfo.   o paraso dos criminosos. O pas no tem
tratado de extradio com os Estados Unidos. Sabia disso,
Marie?
Marie sorriu, educadamente.
        No, eu no sabia.
Caroline disse:
        Bem, se John roubar um banco algum dia, podemos nos
mudar para l. Mas, por enquanto, eu estou vida por um
pouco de civilizao. Quem est a fim de um passeio at Les
Caves depois do jantar?
A propriedade ficava em Antananarivo, em uma rua ngre-
me de paraleleppedos que fora construda pedra a pedra
desde Ramatuelle. Com seus muros de pedra de 60
centmetros de espessura e pequenas mas imponentes
torres, parecia mais um pequeno castelo do que uma casa.
Um refgio, em todos os sentidos da palavra.
Lenny olhou para Grace.
         esta?
Eles estavam em Madagascar havia menos de dois dias, com
Marie Le Classe como guia turstica, e Grace j estava
apaixonada. Os dois estavam.
         esta.
Lenny pegou o talo de cheques, fez um cheque com dez
por cento a mais do que o preo pedido e o entregou a
Marie. Virou-se para Grace e sorriu.
        Feliz aniversrio de um ms, Gracie.
Grace ficou to feliz que danou na rua.
Eles deram  casa o nome de "Le Cocon", o casulo.
Planejavam morar ali quando ele parasse de trabalhar.
John Merrivale no estava bem. O mdico prescrevera
antidepressivos e um ms de paz total.
        Tome.  Lenny colocou as chaves de Le Cocon na mo
dele.  Fique por quanto tempo precisar. Tem uma
empregada na casa, madame Thomas, que fica l o tempo
todo. Ela pode lavar e cozinhar para voc, e, tirando ela,
voc estar sozinho.
John ficou comovido, mas a ideia no era prtica.
        N-no posso simplesmente desaparecer em Madagascar. E
o Quorum?
        Ficaremos bem.
        C-Caroline nunca concordaria.
        Deixe Caroline comigo.
Quando voltou para Nova York, seis semanas depois, John
era um novo homem. Mostrou fotografias para Lenny e
Grace. Ele passeando sozinho pelas ruas de paraleleppedo
de Antananarivo, relaxando na quente primavera de
Antsirabe, caminhando pela floresta tropical de
Ranomafana.
 claro que a felicidade dele no durou. Caroline fez questo
de impedir isso. Mas Grace nunca se esqueceria do olhar
maravilhado, como o de uma criana, no rosto de John
quando falava de Madagascar. Ele at procurou Lenny, em
particular, sondando se ele no queria lhe vender Le Cocon.
        D um preo.
Lenny sorriu.
        Desculpe, amigo. Qualquer casa, menos aquela. A sute
de hspedes sempre ser sua, mas ela no est  venda.
Grace chamou o pescador.
        Combien de temps encore?
        Environ deux heures. Trois peut-tre. Vous allez bien?
Grace no estava bem. Mas ficaria assim que chegassem l.
Pegando a mochila, da qual nunca tirava os olhos, passou o
dedo pela arma de Gavin Williams com carinho,
acariciando-a como uma criana faria com um urso de
pelcia. Perguntou-se quanto tempo demoraria para rastrear
John quando chegassem  ilha. Le Cocon tinha sido vendida
quando o Quorum fora liquidado. O comprador era um
empreendedor holands da internet chamado Jan Beerens.
Comearei com ele.
Captulo 35
Harry Bain se virou para Mitch Connors.
        Odeio esta pocilga.
        , todos odiamos.
Mombasa era uma pocilga. Quente, suja e sem identidade.
Tanto Mitch quanto Harry estavam cobertos de mordidas de
mosquito to grandes quanto beija-flores, e a combinao da
coceira e do calor tornava dormir impossvel. No era de se
admirar que um estivesse irritado com o outro. Tinham
conseguido rastrear os passos de John Merrivale at o
Qunia, mas depois que ele chegou ao pas, seus rastros
sumiram. Daquele jeito, poderiam ficar retidos ali por dias,
talvez at semanas.
Mitch pensou em Helen e Celeste, em Nova York. Era uma
vergonha o tempo h que no via sua filha. No sentia mais
saudades de Helen, mas Celeste era outra histria. Tentou
afastar a menina da cabea, concentrar toda a sua energia
mental no caso, mas era difcil.
Sc Mitch e Harry Bain no encontrassem John Merrivale
antes de Grace, ela mataria o ex-amigo. Era de se entender,
ela tinha perdido toda a f no sistema. A ideia de um recurso
lhe parecia ridcula. Pessoalmente, Mitch no podia se
importar menos se John Merrivale levasse uma bala entre os
olhos. Mas se Grace fosse acusada de homicdio, ningum
poderia ajud-la, nem ele.
Bateram na porta do quarto do hotel. Mitch olhou para
Harry com uma expresso que dizia: Quem pode ser? J 
mais de meia-noite. Ambos pegaram suas armas.
        Quem ?
        Sou eu, Jonas. Ns nos conhecemos hoje de manh no
aeroporto. Por favor, posso entrar?
Mitch riu. Os quenianos podem roubar voc, mas dizem
"por favor" e "obrigado" ao fazer isso. Como uma nao, no
se podia acus-los de falta de educao. Jonas Ndiaye era o
piloto que Mitch e Harry tinham interrogado mais cedo
naquele dia, depois de encontrarem uma pista indicando que
John Merrivale teria alugado um pequeno avio para ir para a
Tanznia. Mas a viagem foi outra pista que no deu em nada.
Nenhum dos pilotos reconheceu a foto de John.
Mitch abriu a porta.
Jonas Ndiaye tinha 30 anos, mas parecia mais jovem. Tinha
um rosto ainda de moleque, sem nenhuma sombra de barba,
e o cabelo era usado para cima, preso com algum tipo de gel
ou spray. Para Mitch, parecia um Bart Simpson negro.
        Desculpem pela hora.
        Tudo bem  disse Harry Bain.  No estvamos
dormindo. O que podemos fazer por voc, Jonas?
        A pergunta  o que eu posso fazer por vocs. Depois que
foram embora hoje, fiquei pensando na fotografia. Sim, acho
que vocs vo ficar felizes em me dar alguns dlares pelas
coisas que sei, sim, eu acho que sim.  Ele olhou para
Harry e abriu um grande sorriso ansioso. Como se pedir uma
propina assim abertamente fosse a coisa mais normal do
mundo.  Hoje vamos fazer negcios, ah, vamos sim!
Minha memria est muito boa.
Exausto, Harry Bain destrancou a gaveta de sua mesinha de
cabeceira. Pegou um mao de notas de 20 dlares preso com
um elstico. No se chegava a lugar nenhum no Qunia sem
subornar algum. Jonas Ndiaye arregalou os olhos. Estendeu
a mo para pegar o dinheiro, mas Bain balanou a cabea.
        O que voc sabe?
        O homem da fotografia viajou no meu avio. Sim, 
verdade! Foi duas semanas atrs.
        Voc o levou para a Tanznia?
        No.  Jonas estendeu a mo de novo.
Harry Bain pegou cinco notas do mao e entregou-as a ele.
        Para onde?
        O cavalheiro queria ir para Madagascar.
Harry olhou para Mitch. Sem tratado de extradio.
        Eu o levei para o aeroporto de Antananarivo. Ele falava
sobre a vida selvagem. Disse que ia para l fazer um safri,
tirar muitas fotos e mergulhar. Agora que estou me
lembrando, posso dizer que ele era um senhor muito
agradvel. Muito agradvel, o cavalheiro da fotografia.
Mitch perguntou:
        Ele disse onde ia se hospedar? Ou por quanto tempo
pretendia ficar na ilha?
Jonas abriu um sorriso ansioso para Harry. Ganhou mais
dinheiro.
        Ele no disse.
        Ei, me devolva essa nota de 100, seu filho da puta.
Jonas pareceu magoado.
        Por favor, senhor, no fique nervoso. O cavalheiro no
me contou seus planos. Mas me pediu dicas de locais para
visitar.
        E?
Outro sorriso. Harry Bain estava perdendo a pacincia.
        No force a barra, garoto.
Mitch olhou diretamente para sua arma na mesinha de
cabeceira. O piloto decidiu no forar a barra.
        Para mergulhar, s tem um lugar, e esse lugar  Nosy
Tanikely.
        Nosy o qu? O que  isso? Uma praia?
         uma ilha  explicou Jonas, educadamente.  Um
santurio de vida martima.
        Uma reserva marinha?
         para onde os mergulhadores vo. Seu amigo, o
cavalheiro, estava viajando com equipamento de mergulho.
Harry Bain olhou para Mitch e sorriu.
        Obrigado, Jonas. Voc ajudou muito.
        Sim, foi um prazer servi-los. Agora, poderia me dar mais
alguns dlares para a passagem e encerrar nosso negcio?
Grace ficou parada na frente de Le Cocon por um longo
tempo. No imaginou que ficaria emocionada. Depois de
tudo o que tinha acontecido, acreditava que no era mais
capaz disso. Mas ali de p na ladeira de paraleleppedos,
olhando para os grossos muros de pedra que em uma poca
fizeram com que se sentisse to protegida, lgrimas brotaram
de seus olhos.
Ficou surpresa ao saber que o Sr. Beerens estava na casa.
Acreditava que ele tivesse comprado a casa em um mpeto,
assim como Lenny, uma casa de frias dentre vrias outras
em que ele pensava de vez em quando, mas raramente
visitava. Ela disse que seu nome era Charlotte Le Clerc e
ficou ainda mais surpresa quando Beerens concordou em v-
la.
        Aceita um drinque, Sra. Le Clerc?
Jan Beerens era um homem de meia-idade, gordo e agra-
dvel, com cabelo louro-avermelhado escasso e olhos
castanhos que brilhavam quando sorria.
        Obrigada. Adoraria um copo d'gua.  Grace estava se
esforando para manter a compostura. Por dentro, a casa
no tinha mudado nada. No tinha se tocado de que Beerens
a comprara com tudo dentro, incluindo os mveis e objetos
de arte dela e de Lenny. Ela at reconheceu os copos de
cristal que mandara trazer especialmente de Paris.
O cabelo de Grace tinha crescido um pouco desde que sara
de Dillwyn e nas semanas que sucederam sua fuga. Em
Mombasa, cortara na altura do queixo e pintara de castanho.
Olhan-do-se no espelho da biblioteca, ela pensou: A nica
coisa que no reconheo na casa  a mim mesma.
        O que a traz a Le Cocon? Ou melhor, a Madagascar? Est
de frias?
        Mais ou menos. Estive aqui uma vez, com um amigo.
Anos atrs.
        Foi hspede dos Brookstein?
        Meu amigo foi. Na verdade,  um pouco estranho, esse
meu amigo est passando por um momento bem difcil.
Jen Beerens se mostrou solidrio.
        Sinto muito.
        Obrigada. Ele sumiu h algumas semanas e ningum sabe
dele. Sei que ele est aqui em Madagascar, ento me per-
guntei se, talvez, por nostalgia ou qualquer outra coisa, ele
no tenha passado por aqui.  Ela pegou uma foto.  O
senhor no o teria visto?
Beerens analisou a fotografia por um longo tempo. As
esperanas de Grace cresceram, mas depois desmoronaram
quando ele lhe devolveu a foto.
        Sinto muito. Acho que eu o conheo de algum lugar. Mas
ele no esteve aqui.
        Tem certeza?
        Infelizmente, tenho. Voc  a minha primeira visita em
um ano. Esse foi um dos motivos que me fizeram decidir
vender. Adoro a casa e a ilha, mas  muito isolado. S estou
aqui agora para assinar os papis e me despedir. Teve sorte
de me encontrar.
        Ah.  Sem saber por que, Grace ficou com pena de
aquele generoso e atencioso homem deixar Le Cocon. 
Desculpe perguntar, mas quem  o novo proprietrio?
        Na verdade,  um mistrio. Um advogado de Nova York
me procurou e foi ele quem cuidou de tudo, mas no divul-
gou o nome de seu cliente. Quem quer que seja conhece a
casa muito bem. O advogado fez vrias exigncias de mveis
em particular, tapetes, esse tipo de coisas. Acho que ele vai
se mudar na segunda-feira.
A respirao de Grace acelerou. Sentiu os pelos de seu brao
ficarem arrepiados. Quem quer que seja conhece a casa mui-
to bem.
Jan Beerens a acompanhou at a porta.
        Posso lhe dizer uma coisa sobre Lenny Brookstein: ele
podia ser um ladro, mas fez um trabalho e tanto nesta casa.
Vou sentir saudades daqui. Quanto ao seu amigo, uma pena
no ter podido ajudar mais.
Grace apertou a mo dele.
        Na verdade, o senhor ajudou muito. Adeus, Sr. Beerens.
Boa sorte.
Harry Bain e Mitch Connors decidiram se separar.
Madagascar era do tamanho do Texas, e como pista s
tinham o que Jonas Ndiaye falara. Harry disse:
        Vou ficar em Antananarivo. Posso interrogar o pessoal
do aeroporto, motoristas de txi, corretores de imveis.
Falarei com os gerentes dos bons hotis locais. Se ele esteve
aqui, algum vai se lembrar, principalmente da gagueira.
Mitch pegou um avio pequeno para o norte da ilha. Nosy
Tanikely era um pequenino atol em um extenso arquiplago
a noroeste da costa de Madagascar. Para ter um teto sobre
suas cabeas, mergulhadores e turistas tinham de ir para a
vizinha Nosy Be. Mitch achou curioso o fato de a capital de
Nosy Be se chamar "Hellville". Se existia algum lugar
parecido com o paraso, com praias de areia branca e guas
turquesa e calmas, era ali. Se algum quisesse passar o resto
da vida fugindo das autoridades americanas, aquele era o
lugar. John Merrivale no era nem um pouco bobo.
Mitch foi a todos os hotis cinco estrelas do lugar. Todos os
supermercados, bares e agncias de aluguel de carro.
        Viu este homem? Tem certeza? Olhe de novo, estamos
oferecendo uma recompensa substancial.
Em Mombasa, essa tcnica surtia algum efeito, mesmo que
no fosse a verdade. Ali, nada. Os habitantes no tinham
visto John Merrivale. Quanto aos mergulhadores, Mitch
ficou com a impresso de que eles se viam como uma co-
munidade e que protegeriam da polcia um dos seus mesmo
se soubessem de alguma coisa. De qualquer forma, depois de
trs dias, o bronzeado de Mitch j tinha ido do dourado para
o marrom, mas no estava nem um pouco mais perto de
encontrar John, nem Grace. Harry Bain ligou.
        Alguma coisa?
        No. E voc?
        Pouco. Jonas no estava mentindo. Duas testemunhas no
aeroporto confirmaram terem visto John. Parece que ele
passou duas noites no hotel Sakamanga, depois saiu. Falou
em ir mergulhar. E disse que ia "encontrar um amigo".
        Ficarei aqui at segunda  disse Mitch. Harry Bain no
fez a pergunta bvia: E depois?
Logo os dois teriam de voltar para Nova York. Era um mi-
lagre que nem a fuga de Grace nem o desaparecimento de
John Merrivale tivessem sido noticiados na mdia. Mas, em
algum momento, teriam de dar alguma declarao. Tinham a
realidade para enfrentar: enquanto Mitch tinha esperanas
de ser reincorporado  polcia de Nova York, Harry Bain
sabia que se voltasse para casa de mos vazias, seria o fim de
sua carreira.
        Mitch, me mantenha informado.  E desligou.
O corao de Grace parou.
Saindo do mercado, ela o viu do outro lado da rua. O cara do
FBI! O chefe de Gavin Williams, aquele que trabalhava com
John. Voltou para dentro do mercado.
        Vous avez oubli quelque chose, madame?
Ele est procurando por John ou por mim?
        Madame?
        Eu? Ah, non, j'ai toutes mes affaires. Estou bem, obrigada.
Ela olhou pela janela.
O homem tinha ido embora.
Preciso ficar escondida. S preciso sobreviver ao fim de
semana. Depois de segunda-feira, no me importo mais. Ele
pode me levar de volta para uma penitenciria de segurana
mxima acorrentada.
Harry Bain recebeu uma pista annima. Deixaram um re-
cado em seu hotel.
O homem por quem est procurando no est mais nesta
provncia. Ele est em Toliara. Fale com os guardas-florestais
no Parque Nacional Isalo.
Harry tentou falar com Mitch pelo celular, mas no
conseguiu.
Vou para l amanh.
Quando Mitch acordou na segunda-feira de manh achou
que sua cabea fosse explodir. No sabia se a culpa era do
usque ou do fato de algum, durante a noite, ter implantado
cirurgicamente um sino de igreja dentro de seu crnio e que
agora tocava a 100 decibis.
Levantou-se, foi tropeando at o banheiro, vomitou, se
sentiu melhor. Ao abrir um pouco a persiana de madeira do
quarto, encheu o ambiente de luz. Deve ser mais tarde do
que imaginei. Ele piscou, fechou a persiana e voltou para a
cama.
Aquele seria seu ltimo dia no arquiplago. Precisava ter
levantado cedo, procurado embaixo de todas as pedras na es-
perana de encontrar John Merrivale. Mas sabia que seria
intil.
Voltou a dormir, mas seus sonhos foram perturbadores e
entrecortados.
Sinos de igreja tocavam. Ele estava se casando com Helen.
        Voc aceita esta mulher?
        Aceito.
Ele levantava o vu de Helen, mas no era Helen; era Grace
Brookstein:
        Detetive, me esquea.
Ele estava em uma praia correndo atrs de John Merrivale.
John dobrava em uma esquina e desaparecia. Quando Mitch
chegava na esquina, o lugar se tornava a sala do detetive-
tenente Dubray A voz de Dubray:
        Este caso no  seu, Mitch. Se no fosse por Celeste e
por Helen...
Ento, Harry Bain entrava:
        Ele passou duas noites no Sakamanga. Disse que ia
encontrar um amigo.
Mitch acordou sobressaltado.
Ele disse que ia encontrar um amigo.
Seria possvel?
Pegou o telefone.
        Harry Bain, por favor. Quarto 16.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
        O Sr. Bain deixou o hotel esta manh. Volta na tera-
feira para o mesmo quarto. Deseja deixar um recado?
Os sinos ainda estavam tocando na cabea de Mitch, mas em
outro volume. No eram mais sinos de igreja. Era um
alarme.
Preciso voltar para a cidade.
Grace j estava acordada quando o despertador tocou.
Quatro da manh.
Abriu as cortinas do seu quarto de hotel barato e olhou para
a rua deserta. De acordo com o weather.com, o dia
amanheceria em menos de dez minutos. Naquele momento,
ainda estava escuro do lado de fora, os prdios brilhantes na
negritude da noite, como se tivessem sido cobertos de
piche.
Vestiu-se com pressa. A mochila estava leve, mas tinha tudo
de que precisava. Olhou-se no espelho.
Por voc, Lenny, meu amor.
Tem sido tudo por voc.
Em silncio, ela saiu do hotel e entrou nas sombras.
Captulo 36
As ruas estavam desertas. Antananarivo dormia. Em uma
semana, a estao seca comearia e ventos frios vindos das
montanhas tomariam a cidade. Naquela noite, porm, o ar
estava pesado, com a ameaa de troves. Grace se movia
como um fantasma na cidade vazia, to silenciosa e letal
quanto um vrus.
No dia anterior ela tinha entrado em pnico. E se ele no
estiver l? Se no for ele o comprador misterioso? E se no
for John?
Mas agora, enquanto subia a ladeira para Le Cocn e os
primeiros raios do dia atravessavam o cu cheio de nuvens
de abril, suas dvidas se dissiparam. Ele estava ali. John
Merrivale estava ali. Seu corpo todo sentia a presena dele,
como um xam pressentindo um esprito do mal.
Grace colocou a mo dentro do casaco. Sentiu a arma. Tinha
chegado a hora.
- Desculpe, senhor. O vo da manh para Antananarivo foi
cancelado.
A moa do balco deu de ombros, como se dissesse: O que
se pode fazer? Mitch se esforou para no se debruar por
cima do balco e estrangul-la. Com os dentes cerrados, ele
perguntou:
        Quando  o prximo?
Ela olhou na tela do computador.
        s 9 horas. Mas tudo vai depender do tempo. Se essas
tempestades continuarem, talvez o aeroporto seja fechado.
E voc precisa parecer to feliz com isso?
Por que John Merrivale tinha ido para Madagascar? Mitch e
Harry supunham que era porque a ilha no tinha tratado de
extradio com os Estados Unidos e, assim, ele no estaria ao
alcance dos compridos braos da lei federal. Mas e se essa
no fosse a nica razo? Ele dissera ao gerente do hotel que
ia encontrar um "amigo". Talvez John tivesse alguma ligao
pessoal com a ilha. E quem era esse amigo? A primeira coisa
que Mitch pensou  que poderia ser a prpria Grace. Ser
que ela entrara em contato com ele e o convencera a marcar
um encontro? Talvez, agora que os dois eram criminosos
procurados pela justia dos Estados Unidos, ela tivesse
convencido John de que estava pronta para esquecer tudo.
Se fosse isso, Mitch tinha certeza de que ela o estava
atraindo para uma armadilha mortal.
Mitch ligou para Caroline Merrivale. Acordou-a.
        John j esteve em Madagascar? Ele conhece algum na
ilha?
A resposta de Caroline transformou a dvida de Mitch em
certeza. Sabia onde John estava. Sabia para onde Grace
estava indo. Mas conseguiria chegar l a tempo de evitar o
inevitvel?
        Quero uma passagem para esse vo, o das 9 horas, por
favor.
Ela olhou para a tela de novo.
        Sinto muito, mas j est lotado. Quer entrar na fila caso
haja alguma desistncia?
Respire fundo. Conte at 5.
        Claro.
Depois tentou ligar para Harry de novo.
No cho, perto do saco de dormir de Harry Bain, seu celular
vibrava em silncio. Eram 5 horas no Parque Nacional Isalo.
Do lado de fora, andarilhos j estavam esquentando suas
canecas de caf na mesa do acampamento e verificando as
configuraes de suas cmeras. A atrao de Isalo eram os
pssaros. Nunca era cedo demais para observ-los.
Diferentemente de seus companheiros de acampamento,
Harry no estava interessado em encontrar uma ave extica
dando comida para o filhote. Fora at Toliara  procura de
John Merrivale, mas tinha sido outra pista sem fundamento.
Quem quer que tivesse deixado o bilhete para ele estava
querendo brincar ou mand-lo para o lugar errado. Os
guardas-florestais de Isalo, juntos, tinham o QI de um
besouro. Nenhum deles tinha visto John.
Harry Bain queria ter voltado para Antananarivo na noite
anterior, mas sara tarde demais. Com relutncia, montara
acampamento no parque.
O telefone dele vibrou umas cinco ou seis vezes, como uma
vespa morrendo, depois ficou em silncio. Graas aos
tampes no ouvido, Harry Bain continuou dormindo, sem
escutar nada.
Grace pegou sua mochila. Dentro havia uma corda, um
alicate, um pedao de giz, um pedao de pano preto e um
gravador.
Fazendo um n corredio simples em uma extremidade da
corda, ela arremessou-a na parte mais baixa do muro externo
de Le Cocon, mirando em uma haste de metal que ficava
embaixo de uma das janelas do banheiro. Acertar o lao era
mais difcil do que parecia. Grace levou mais de dez minutos
para acertar a haste, durante os quais olhava por cima dos
ombros ansiosa para ver se algum pedestre matinal estava se
aproximando. O dia comeara a amanhecer devagar
primeiro, mas agora a luz parecia iluminar toda a rua,
revelando Grace de forma to agressiva quanto a lanterna de
um policial. Passando giz na mo, ela segurou a corda e
comeou a se iar para cima. O muro era to liso quanto pele
recm-barbeada, alm de escorregadio, por causa da
umidade do ar. Mesmo com seus tnis para escalada, era
difcil se manter firme. Cada vez que escorregava, que pisava
em falso, a fora que colocava no trceps aumentava cinco
vezes, at seus braos comearem a tremer. No meio do
caminho, ela pensou, desesperada: No vou conseguir! No
consigo me segurar! Podia sentir a corda deslizando pelas
palmas das mos, o suor tirando o giz. Comeou a
escorregar, imperceptivelmente primeiro, depois mais
rpido, direto rua abaixo.
Vozes. Vozes de meninas ou moas. Elas estavam rindo,
cochichando umas com as outras em francs. Grace no
conseguia entender o que diziam, mas isso no importava. A
conversa ficou mais alta. Elas vo aparecer a qualquer
segundo! Vo me ver!
Grace olhou para cima. Tinha mais uns 4 metros at o topo
do muro. Suas mos ainda estavam escorregando, os ps
procuravam apoio. As vozes estavam ainda mais altas agora.
Agarrando a corda, Grace fez fora para subir. No tinha
mais energia, mas continuava tentando, buscando foras em
sua determinao. O que precisava no era se salvar. Era
destruir John Merrivale.
Do outro lado do muro est o homem que matou Lenny. O
homem que tirou tudo de voc. Ele est morando na SUA
casa, escondido no SEU santurio, gastando o SEU dinheiro.
O dio funcionou como combustvel no peito de Grace,
ajudando-a a subir, puxando-a para cima. Suas mos estavam
sangrando agora, o sangue se misturando ao suor nas palmas
das mos enquanto a corda dilacerava sua pele, mas Grace
no sentia nada. Conseguia ver o topo agora. Conseguia
toc-lo. Jogando as pernas para o outro lado do muro, puxou
a corda. As meninas estavam exatamente embaixo dela
agora, eram trs. Vestindo uniformes de um supermercado,
estavam indo para o trabalho. Grace ficou esperando que
elas parassem e apontassem. A corda estava a meio metro
delas. Mas elas continuaram andando, rindo e brincando.
Felizes. Grace sentiu uma pontada de inveja misturada com
alvio ao v-las desaparecendo.
Ento, acabou de puxar a corda, virou-se e desceu para o
jardim dos fundos de Le Cocon.
MITCH OLHOU pela janela do avio. No havia nada para
ver exceto nuvens, grossas, cinza e impenetrveis. Ao seu
lado, uma jovem chorava de medo enquanto a aeronave
sacudia como um bfalo enlouquecido, abrindo caminho
pelo cu turbulento.
Mitch tentou no pensar em Grace, nem em John
Merrivale, nem no que podia j ter acontecido em
Antananarivo. Se ali fosse Nova York, ele pediria reforos
pelo rdio, mandaria que fossem resolver o problema. Mas a
ltima coisa que queria era um bando de madasgascarenses
doidos para atirar em Le Cocon.
Onde estava Harry Bain quando mais precisava dele?
Grace deu a volta no jardim com as costas grudadas no
muro. Le Cocon era uma casa grande, um labirinto de
corredores e quartos e poucos jardins e varandas escondidos.
Comearia sua busca dentro da casa, mas primeiramente
precisava desarmar o alarme de segurana, as cmeras e a
linha de telefone.
Lenny costumava reclamar dos sistemas arcaicos de Le
Cocon. "J viu aqueles fios? Parece que foram tirados de um
filme de fico cientfica ruim da dcada de 1970." Mas
nunca mandara troc-los. Grace estava contando com que
Jan Beerens tambm no tivesse feito isso.
Ao se aproximar da porta dos fundos da cozinha, ficou
aliviada ao ver que ele realmente no o fizera. Uma cmera
de circuito interno artrtica apontava para a mesma caixa de
fusveis de sua poca. Aproximando-se da cmera por trs,
cobriu-a com o pano preto que trouxera. Ento, pegando o
alicate, dirigiu-se para a caixa de fusveis.
O avio de MITCH atingiu o solo violentamente. A mulher
ao seu lado fez o sinal da cruz e uma orao de
agradecimento.
Mitch no era um homem religioso, mas tambm j tinha
comeado a rezar.
No me deixe chegar tarde demais.
Harry Bain esfregou os olhos. Por um momento, se
esqueceu de onde se encontrava. Em seu sono, estava no
meio de um sonho maravilhoso. Estava em Nova York, no
Sweetiepie, um de seus restaurantes preferidos, na
Greenwich Avenue, salivando em cima de um sundae de
chocolate, quando algum idiota comeou a sacudi-lo pelos
ombros.
 Levantando acampamento. Se quer uma carona para o
aeroporto,  melhor levantar agora.
Madagascar. Isalo. Maldito John Merrivale.
De mau humor, pegou seu telefone celular. Uma luz
vermelha piscava, repreendendo-o. Abriu o aparelho e
apertou o boto de mensagem de voz.
 Voc tem... sete novas mensagens.
Sete?
Sentou-se e escutou.
Grace se apoiou na porta da cozinha, que abriu
imediatamente.
John deve se sentir seguro aqui. Assim como ns nos
sentamos.
S havia dois lugares no mundo onde ela e Lenny deixavam
as portas destrancadas: Madagascar e Nantucket. John tinha
arruinado a lembrana de ambos, como se ele envenenasse
tudo em que tocava.
Abraando-se ao seu dio como a um cobertor de segu-
rana, ela atravessou o cmodo escuro. Era sinistro. Sobre a
sua cabea, estavam penduradas panelas e frigideiras, im-
veis como um conjunto de fantoches que ningum queria.
 sua frente, brilhava o enorme fogo triplo, intacto. Ao
lado dele, em cima do balco, Grace viu que algum tinha
comprado um forno de micro-ondas. A caixa ainda estava
em cima da lata do lixo.
Tpico. Um homem solteiro se muda para uma casa com
uma cozinha gourmet totalmente equipada e a primeira
coisa que faz  comprar um micro-ondas.
Grace se pegou imaginando se John j o usara, e se usara, o
que havia preparado. Esperava que estivesse uma delcia, o
que quer que fosse. No era certo ter uma ltima refeio
horrvel.
A porta de dentro da cozinha abria para uma despensa que,
por sua vez, levava s escadas. Originalmente, essas eram as
escadas de servio que subiam do poro ao sto pelo lado
oeste da casa. Grace pegou sua arma  era a arma de Gavin
Williams, mas a via como sua agora  e comeou a subir.
A casa no estava apenas quieta. Estava silenciosa. Grace
podia ouvir a prpria respirao, o farfalhar de suas roupas
enquanto se movia, o estalo de um cano. Fazia apenas alguns
dias que tinha estado ali e se sentado na biblioteca com o
gentil Jan Beerens, mas alguma coisa ssmica parecia ter
acontecido nesse meio-tempo. Era mais do que apenas a
ausncia de mveis e pessoas. Os empregados de Beerens
tinham ido embora, e era bvio que John tinha se mudado
sozinho. Era como se a casa tivesse morrido. Como se a
presena de John tivesse tirado toda a vida e alegria dela,
como um ovo quebrado do qual s resta a casca.
De repente, uma porta bateu. O barulho foi to alto e
inesperado que Grace abriu a boca para gritar, mas conseguiu
se conter, abafando o som com as mos. Estava quase no
segundo andar, mas o barulho viera de baixo, do trreo. O
mais silenciosamente possvel, ela se virou.
No trreo, a porta de servio dava para um grande trio com
piso de mrmore. Tinha a forma de um pentgono, com
cinco arcos que iam do cho ao teto e abriam espao para
cinco cmodos. A biblioteca e o escritrio davam em um
pequeno jardim interno central, mas as portas francesas das
salas de estar e de jantar se abriam para o jardim principal.
Grace entrou com cuidado no trio, olhando  sua volta,
esperando escutar um segundo som, algum sinal para gui-la.
Sentiu uma leve brisa no rosto. As portas da sala de estar
estavam abertas para o jardim. Ela deu um passo naquela
direo, e ento parou.
L estava ele.
Ela o viu por trs, indo para o jardim ainda de pijama. Estava
com uma caneca de caf em uma das mos e um livro na
outra, como um turista de frias. O cabelo vermelho estava
despenteado, formando ngulos estranhos onde ele tinha se
deitado. Grace ficou surpresa em ver como ele parecia
pequeno. Fraco. Normal. Se algum quisesse formar uma
imagem mental de um assassino frio, no seria aquele
homem de meia-idade, cambaleante e inofensivo.
No via John em carne e osso desde o julgamento. Sua l-
tima lembrana era a expresso sofredora dele quando ela
fora levada do tribunal. No se preocupe, dissera ele. Grace
se lembrou daqueles primeiros dias presa, a viagem para
Bedford Hills, ser espancada quase at a morte por Cora
Budds. Naquela poca, ainda acreditava que John Merrivale a
salvaria. Ele era seu amigo, seu nico amigo.
Ela soltou a trava de segurana da arma.
        John.
Ele no escutou. Ela se aproximou mais, primeiro andando,
depois correndo.
        John!
Ele se virou. Ao ver a arma, perdeu a cor. A caneca de caf
caiu de sua mo, se estilhaando no piso de pedra da
varanda. Instintivamente, ele deu um passo para o lado e
cobriu a cabea com as mos. Ao fazer isso, Grace viu que
ele no estava sozinho.
Atrs dele, havia outro homem estendido em uma
espreguiadeira, que estava na diagonal, virada para o jardim,
no para a casa. Primeiro, ela s conseguia ver o topo de sua
cabea e os ps em chinelos na sua frente; ainda assim,
sentiu uma familiaridade. Alguma coisa na postura dele, na
linguagem corporal... Eu conheo voc.
Ela ficou parada, petrificada, enquanto o homem lentamente
se virava. Mesmo antes de ver seu rosto, j sabia. A forma
lnguida e despreocupada de se mexer, como se a comoo
atrs dele e o terror de John Merrivale no o perturbassem
nem um pouco. Grace s conhecera um homem com essa
autoconfiana. Com aquele sangue-frio total e inabalvel.
        Ol, Gracie.  Lenny Brookstein sorriu.  Eu estava
esperando por voc.
Captulo 37
Grace viu sua vida passar diante de seus olhos. Isso era um
sonho? Ou um pesadelo? Parte dela queria tocar Lenny,
passar as mos nele como So Tom para provar que era real.
Mas algo fez com que hesitasse.
        Eu vi voc! Vi seu corpo.  Ela estava tremendo.  Fui
ao necrotrio, pelo amor de Deus.
        Por que voc no abaixa a arma?  A voz de Lenny era
suave. Hipntica.  Podemos conversar.
Grace estava prestes a fazer o que ele tinha pedido quando
John deu um passo na sua direo. Instintivamente, ela
virou a arma na direo dele e deu um passo para trs, o
dedo sobre o gatilho.
        No se mexa!  gritou ela.
John deu um passo para trs.
        Sente-se naquela cadeira. Coloque as mos onde eu possa
v-las.
John fez o que ela mandou, sentando-se em uma
espreguiadeira ao lado de Lenny.
Grace olhou para Lenny.
        Voc tambm.
Lenny levantou uma sobrancelha, tanto de admirao quan-
to de surpresa. Tambm colocou as mos no colo. Mantendo
a arma apontada para os dois, Grace tirou a mochila das
costas e pegou o gravador. Apertou o boto de gravar e o
colocou no cho entre eles.
        Pode falar  mandou ela.
Lenny no conseguia tirar os olhos do rosto de Grace. To
linda. Mas ela mudou. Ela teve que mudar, eu imagino. Est
mais forte. Aquela menina doce e crdula no conseguiria
sobreviver.
        O que voc quer saber?
        Tudo. Quero saber tudo, Lenny. Quero saber a verdade.
Lenny Brookstein comeou a falar.
Captulo 38
 O que voc deve lembrar, Grace,  que isso tudo come-
ou muito tempo atrs. Voc era uma menininha quando
fundei o Quorum. Tinha talvez 5 anos. Eu tive alguns in-
vestimentos antes, fiz um pouco de dinheiro, mas sempre
soube que com o Quorum seria diferente. Eu queria dominar
o mundo e consegui.
Lenny olhou para John Merrivale e sorriu. John retribuiu o
sorriso, um olhar de adorao no rosto. Grace lembrou-se
desse olhar dos velhos tempos. Ele o ama. John sempre
amou Lenny. Como pude me esquecer disso?
Lenny continuou:
 No incio do fundo, foi uma luta. Era o comeo dos anos
1990, a economia estava mal, pessoas estavam perdendo
seus empregos e casas. Ningum queria investir. Lembra, eu
tinha investido cada centavo meu no Quorum; se ele
afundasse, me levaria junto. Pobre de novo, com mais de 40
anos. Sem um centavo.  O rosto de Lenny ficou sombrio.
 Voc no pode imaginar o medo que senti, Grace. Como
isso era assustador para uma pessoa que veio de onde eu
vim. A idia de voltar para a imundcie, para a violncia,
para a fome. No. Isso no ia acontecer comigo.  Ele disse
isso com fria, quase como se Grace tivesse tentado tirar
tudo dele.  E graas a John aqui isso no aconteceu.
John Merrivale corou de prazer, como uma adolescente que
recebe um elogio do garoto mais popular da escola. Grace
escutava em silncio.
        Eu tinha um grande modelo. Infalvel, na verdade. Mas
naquela poca, um cara como eu, sem educao formal, era
visto como um risco. Eu no conseguia vender 1 dlar por
90 centavos, mas este cara  ele apontou para John , este
cara conseguiu fazer com que todos os diretores daqueles
bancos suos comessem na sua mo, como carneirinhos.
Foi graas a esses investidores institucionais que
conseguimos atravessar a tempestade. Mas foram os
pequenos investidores que nos tornaram quem fomos. As
lojas de famlia, as pequenas instituies de caridade que nos
davam seu dinheiro. Sabe, Madoff e Sanford e todos aqueles
caras, eles eram um bando de esnobes. Se voc no fizesse
parte do clube de golfe certo ou viesse da famlia certa,
aqueles cretinos no aceitavam seu dinheiro. No aceitavam!
Isso me enojava. Quem eram eles para dizer para pessoas
simples que elas no podiam experimentar o lado bom da
vida? Que o Sonho Americano era exclusividade deles? O
Quorum no era assim. Ns adorvamos o cara simples, e
ns o deixamos rico, e ele nos deixou ricos, por muito,
muito tempo. As pessoas sempre esquecem essa parte.
A raiva de Lenny tinha voltado e estava aumentando. Grace
tinha escutado o suficiente de falsa moral.
        Aquelas pessoas, aqueles "caras simples".  Ela cuspiu as
palavras de volta, ainda sentindo como se estivesse falando
com um fantasma, mas no conseguindo se segurar mais. 
Eles perderam tudo por causa do Quorum. Tudo. Famlias
ficaram na misria por causa do que voc fez. Instituies de
caridade fecharam as portas. Pessoas, homens com famlias,
se mataram por causa...
        Covardes.  Lenny balanou a cabea, enojado. 
Imagine se matar porque perdeu dinheiro? Isso no 
trgico.  pattico. Sinto muito, Grace, mas . Quando voc
faz um investimento, assume um risco. Ningum forou
ningum a me dar aquele maldito dinheiro.
Grace estava assustada com o tamanho da sua vontade de
atirar nele. Era s puxar o gatilho, ele pararia de falar e
pronto. Acabaria com essa apario grosseira e cruel, com
esse fantasma que estava destruindo o Lenny de quem se
lembrava, o Lenny que amara, o Lenny em quem acreditara,
em quem precisara acreditar, durante toda a sua vida adulta.
Mas por mais que as palavras dele a ferissem, ela queria
escutar mais. Queria saber a verdade.
        De qualquer forma  continuou ele , durante anos,
foi bom. Todo mundo estava feliz. Ento, por volta do ano
2000, as coisas comearam a dar errado. Foi o boom da
tecnologia, a ascenso da internet, e foi uma poca louca.
Muito louca. Da noite para o dia, todos os modelos de
negcios, todas as estratgias de investimento conhecidas
viraram de cabea para baixo. Rapazes, alguns ainda na
faculdade, estavam fundando negcios que no faturavam
um centavo, recuperando-os e vendendo-os por bilhes de
dlares em 18 meses. Para onde se olhava, havia foguetes, e
todo mundo queria agarrar um. Todos os dinossauros velhos
como eu. Era s escolher o certo e segurar firme na subida.
 Os olhos de Lenny brilhavam de entusiasmo com a
lembrana.  Isso foi na poca que conheci voc, amor. A
poca mais feliz da minha vida. Sabe, eu sempre amei voc.
 Ele olhou para Grace, os olhos marejados de lgrimas.
Grace pensou: Ele est falando srio.  louco. Depois de
tudo que me fez, acha que pode falar de amor? Em voz alta,
ela disse:
        Continue.
Lenny deu de ombros.
        Depois disso foi bem simples. Fiz vrios investimentos na
internet, comprei um monte de negcios especulativos e
afundei. Entre 2001 e 2003, devo ter perdido...  ele olhou
para John Merrivale para que o amigo confirmasse  ... no
sei. Muito. Uns 10 bilhes.
        Pelo menos  disse John.
        Como isso  possvel?  interrompeu Grace.
        Como  possvel? Voc faz uma aposta e perde,  assim.
Mas as nossas apostas eram altas.
        Eu quero dizer... como ningum sabia disso?
        Porque eu no contei  disse Lenny.  O que voc acha
que sou, burro? Eu fui cauteloso, Grace. No deixei rastros.
ramos criativos em nossas demonstraes financeiras. Em
um negcio to complexo e diversificado como o Quorum, 
mais fcil do que parece fazer seus ativos parecerem maiores
do que so e esconder seus passivos. Paramos de contabilizar
os negcios, destrumos muitos papis e memrias de
computador. Mudvamos os fundos que tnhamos
constantemente, de uma jurisdio para outra. A Comisso
de Valores Mobilirios xeretou um pouco em 2003 e 2005,
mas nunca comeou uma investigao oficial.
        Ento voc mentiu. Mentiu para os investidores, para os
"caras simples" que confiavam em voc. Da mesma forma
que mentiu para mim.
        Eu estava protegendo todos eles! Voc tambm!  gritou
Lenny.
        Protegendo a mim?  Se no estivesse acontecendo tudo
aquilo com ela, Grace teria rido.
        Claro. Voc no v? Se ningum tivesse entrado em p-
nico, se todos tivessem ficado comigo, eu teria recuperado o
dinheiro. J tinha comeado a fazer isso, Grace. Essa  que 
a maldita ironia. Todas aquelas famlias miserveis das quais
voc quer que eu tenha pena, foram eles que nos colocaram
nessa enrascada, no eu! Se eles no tivessem tentado, todos
ao mesmo tempo, sacar o dinheiro, pegar o dinheiro de
volta como um bando de covardes, um atrs do outro se
jogando do penhasco...  Ele levantou as mos em
desespero.  Eu poderia ter consertado as coisas. Eu
poderia. Mas no tive a chance. Depois da falncia do Bear,
depois do Lehman, foi um caos. Aqueles cretinos destruram
tudo pelo que trabalhei a minha vida inteira. Eles afundaram
o meu navio e eu no podia fazer nada para impedir. A nica
coisa que eu podia fazer era garantir que no afundaria junto
com eles. Eu precisava sobreviver, Grace. Precisava
sobreviver.
"John teve a idia do barco. Faramos em Nantucket e teria
que parecer um suicdio. No incio, achamos que eu poderia
simplesmente desaparecer, e acabariam achando que eu
estava morto. Mas eu no podia dar chance ao azar. Sabendo
da tempestade que varreria o Quorum, eu no queria
ningum me procurando. Precisvamos de um corpo.
Grace comeou a tremer. O tronco no necrotrio. As fotos
de Davey Buccola. A cabea mutilada... Ele no podia ter
feito isso!
        Voc quer dizer que... matou algum?
        Ele era um ningum. Um vagabundo sem-teto da ilha,
um bbado preguioso. Acredite em mim, ele estaria morto
em poucos meses da forma como tratava o prprio fgado.
S apressei um pouco as coisas. Eu o levei para dar um
passeio de barco, dei uma garrafa de usque e o deixei l.
Quando desmaiou... eu fiz o que precisava ser feito.
Grace tampou a boca com as mos. Sentiu o vmito subir
por sua garganta.
        . No foi bonito.  Lenny fez uma careta.  Mas,
como eu disse, precisava ser feito. Os policiais teriam que
achar que o corpo era meu, ento, precisei... mud-lo. O
mais difcil foi enfiar a minha aliana no dedo dele. Ele j
estava muito duro e muito gordo. Alm disso, claro, houve a
tempestade. No tnhamos imaginado isso. Algumas vezes,
eu quase ca do barco. Vou lhe dizer uma coisa, eu nunca
fiquei to feliz de ver o Graydon na minha vida.
Graydon. Graydon Walker. Era um nome de outra vida. O
piloto de helicptero de Lenny e Grace, Graydon Walker,
era um homem quieto e taciturno. Grace nunca gostara
muito dele. Mas, como muitos dos empregados que
trabalhavam para Lenny havia muito tempo, ele era leal ao
patro.
        Graydon me levou para uma pista de pouso
tranquilamente no continente. Des estava me esperando
com o jatinho pronto e me trouxe direto para c. 
Desmond Montalbano era o piloto do G5 deles, um ex-
piloto ambicioso que gostava de manobras perigosas.  Eu
sabia que Graydon guardaria o segredo, mas no tinha tanta
certeza sobre Des.
Grace prendeu a respirao.
        Voc no matou Des, matou?
        Mat-lo? Claro que no.  Lenny pareceu ofendido pela
desconfiana.  Dei-lhe uma compensao para os
prximos trinta anos. Fiz com que valesse a pena manter a
boca fechada. Ele recebe de um fundo em Jersey. 
impossvel rastrear esse dinheiro  acrescentou, com uma
ponta de orgulho.
        Tudo  impossvel de rastrear  disse Grace, com
amargura.  Quem escondeu o resto do dinheiro? Voc?
John?
Lenny sorriu.
        Grace, querida. Voc ainda no entendeu? No existe
resto do dinheiro. Nunca existiu.
Grace olhou para ele como quem no entende.
        Como assim?
        Estou falando desses 70 bilhes imaginrios que todo
mundo est procurando. Eles no existem. Nunca existiram.
Grace esperou que ele explicasse.
        Ah, o Quorum estava fazendo dinheiro? Estvamos
fazendo negcios. At os prejuzos com a internet, tudo
estava indo bem, talvez 20 bilhes no nosso auge, mas
nunca 70. De qualquer forma, em 2004, no havia mais
nada.
        Mais nada?
        Restavam algumas centenas de milhes. Eu estava usan-
do isso para pagar dividendos e cobrir eventuais resgates. E
para bancar o nosso estilo de vida, claro. Sempre quis que
voc tivesse o melhor, Grace.
Grace pensou no pesadelo dos dois ltimos anos de sua vida.
        Voc queria que eu tivesse o melhor?  murmurou ela.
        Claro. As pessoas acham que o sucesso  medido em
riqueza, mas no . No em nosso pas. Nos Estados Unidos,
 medido em percepo de riqueza. Se as pessoas me vissem
como rico e bem-sucedido, continuariam investindo em
mim. E foi o que fizeram. At o colapso do Lehman. Depois
disso, todo mundo quis pular fora. As pessoas comearam a
fazer contas e perceberam que eu tinha que criar uma
estratgia de sada.
"Separei um pouco de dinheiro para mim e John. No
precisvamos de muito. Sempre planejamos viver com
simplicidade, no , John?  John assentiu.  Madagascar 
uma ilha simples, Grace, voc sabe disso. Era por isso que eu
e voc amvamos tanto este lugar. Estou to feliz por voc
estar aqui, querida.  Ele se levantou e abriu os braos,
como se esperando que ela o abraasse.  Ser como nos
velhos tempos, ns trs juntos de novo. Senti saudades de
voc, Gracie, mais do que imagina. Voc no vai abaixar a
arma? Deixar o passado para trs?
Grace riu, uma gargalhada alta mas sem alegria. Riu at seu
corpo tremer e lgrimas escorrerem de seus olhos. Ento se
recomps e apontou a arma entre os olhos de Lenny.
        Deixar o passado para trs? Voc perdeu o juzo? Voc
armou para mim! Voc roubou e matou e mentiu e traiu e
me deixou para pagar. Eu fui ao necrotrio, Lenny! Eu vi
aquele cadver, aquele monstro inchado do coitado do
homem que voc matou, e eu chorei. Chorei porque achei
que era voc. Eu amava voc!
        E eu amava voc, Grace.
        Pare com isso! Pare de dizer isso! Voc me deixou para
trs para morrer. Pior do que morrer. Voc mandou John
sabotar o meu julgamento! Eles me prenderam e jogaram a
chave fora, e voc deixou isso acontecer. Voc fez isso
acontecer. Meu Deus, eu acreditava em voc, Lenny. Eu
achava que voc era inocente.  Ela balanou a cabea com
amargura.  Todo esse tempo, tudo pelo que passei, tudo
foi por voc. Pela sua memria. A memria que eu achava
que voc tinha. Voc sabe por que vim aqui hoje?
Lenny balanou a cabea.
        Para matar John. Isso mesmo. Eu ia atirar nele porque
achei que ele tivesse matado voc. Achei que ele tivesse
roubado o dinheiro e colocado a culpa em voc.
        John? Me trair?  Lenny pareceu achar a idia engraada.
 Minha menina. O mundo inteiro me traiu, e voc es-
colhe o nico homem, o nico homem de quem nunca
duvidei? Isso  inestimvel.
        E a minha lealdade, Lenny? O meu amor? Eu teria dado
qualquer coisa por voc, arriscado qualquer coisa, sofrido
qualquer coisa. Por que no confiou em mim? Voc poderia
ter conversado comigo quando as coisas comearam a ir mal
no Quorum.
        Conversado com voc? Sobre negcios? At parece,
Grace. Voc nunca olhou o preo de nada na sua vida.
Era verdade. Grace se lembrou da pessoa ingnua e idiota
que fora e sentiu vergonha.
        Olhe, talvez eu devesse ter confiado em voc, Grace.
Talvez eu devesse.  Pela primeira vez, uma expresso que
poderia ser culpa passou rapidamente pelo olhar de Lenny.
 Eu amava voc. Mas como eu disse, eu precisava
sobreviver. As pessoas queriam um bode expiatrio para a
prpria burrice. Os investidores do Quorum, os Estados
Unidos, o mundo. Eles queriam sacrificar algum para
reparar a prpria ganncia. E foi voc, querida.  Ele deu de
ombros.
        E voc me escolheu.  Grace passou o dedo pelo gatilho.
 Seu filho da puta sem corao.
John Merrivale choramingou de medo.
        Po-por favor, Grace.
Lenny perguntou:
        O que voc quer que eu diga, Grace? Que me arrependo?
Grace pensou.
        . Eu gostaria que voc dissesse que se arrepende,
Lenny. Eu queria que dissesse que se arrepende por ter
esquartejado um homem. Que se arrepende por ter
destrudo milhares de vidas. Que se arrepende por mim, do
que fez comigo. Diga que voc se arrepende. Diga!
Ela estava gritando agora, histrica. Lenny olhou para ela
sem a menor piedade, como se olha para um animal no
zoolgico.
        No, eu no vou dizer. Por que deveria? Eu no me
arrependo, Grace. E se eu tivesse a chance, faria tudo de
novo, exatamente da mesma forma.
Grace procurou desesperadamente no rosto dele por algum
sinal do homem de quem se lembrava. Um pingo de
compaixo ou de remorso. Mas os olhos de Lenny
brilhavam de forma desafiadora.
        Sou um sobrevivente, Grace.  isso que eu sou. Meu pai
sobreviveu ao Holocausto. Foi para os Estados Unidos s
com a roupa do corpo. E sim, ele estragou a prpria vida,
mas isso s aconteceu porque ele era pobre. Ele sobreviveu,
essa  a questo. Ele tinha uma vida, e ele me deu a minha
vida, que eu dediquei a fugir da pobreza. Eu no ia cometer
os mesmos erros que ele. Eu no ia ser um cidado de
segunda categoria, outro menino judeu implorando para
entrar em algum maldito clube de golfe. Eu era dono no
meu prprio clube, OK? Eu era dono! Eu tinha todos aqueles
mauricinhos protestantes me implorando para serem aceitos.
Eu at casei com a filha de um deles.
Grace fez uma careta. Foi isso que eu sempre fui para voc?
A filha de Cooper Knowles? Um smbolo de status?
        Voc espera que eu me desculpe por sobreviver? Por
brigar at o fim? Nunca! Eu vim do nada, Grace, menos do
que nada. Eu constru o Quorum do nada.  Ele tremia de
raiva.  O que voc sabe sobre trabalho duro? Sobre
preconceito? Sobre pobreza? Sobre sofrimento?
Grace se lembrou dos dias de tortura em Bedford Hills. Da
vida precria de fugitiva da justia, sabendo que o mundo
inteiro tinha preconceito contra ela, que ningum no
mundo sabia a verdade. Lembrou-se da luta com
estupradores, de sangrar quase at a morte depois de induzir
um aborto, de cortar os pulsos com o alfinete de um broche.
O que eu sei sobre sofrimento? Voc ficaria surpreso.
Lenny continuou:
        Voc era a princesa dos Estados Unidos. A vida lhe deu
tudo de bandeja e voc aceitou como se fosse seu direito.
Voc nunca perguntou de onde vinha. Voc no se
importava! Ento no fique a tentando me dar lio de
moral. Sinto muito se voc sofreu, Grace. Mas algum tinha
que sofrer. Talvez fosse a sua vez.
Minha vez.
        Isso mesmo. E no fique to horrorizada, querida. Voc
conseguiu, no foi? Voc aprendeu a sobreviver, sozinha.
Estou orgulhoso de voc. Voc est aqui, est viva, est
livre. Todos estamos. Voc queria a verdade e agora
conseguiu. O que mais voc quer?
E foi quando Grace teve certeza.
        Vingana, Lenny. Quero vingana.
O tiro ecoou, soou nos muros altos de pedra. Lenny colocou
a mo no peito. Sangue escorreu por entre seus dedos,
encharcando a camisa branca de linho. Olhou para Grace,
surpreso. John Merrivale gritou:
        No!
Outro tiro. Depois outro.
        Grace!
Ela se virou. Mitch Connors estava correndo pela sala na
direo do jardim, o cabelo louro suado grudado na testa, a
arma na mo.
        Pare!
Mas ela no podia parar. John Merrivale tinha corrido para
dentro da casa. Grace se virou para encarar Lenny, mas ele
tambm tinha sumido. No! Ento ela o viu, engatinhando
para a casa de hspedes, deixando uma trilha de sangue para
trs. Grace levantou a arma. Apontou para atirar de novo,
mas Mitch passou correndo por ela, abriu os braos
formando uma parede humana entre ela e Lenny.
        Acabou, querida. Pare, por favor. Abaixe a arma.
        Grace gritou:
        Saia da minha frente, Mitch. SAIA!
        No, isso no  certo, Grace. Sei que voc quer justia,
mas no vai ser assim.
Lenny estava fugindo. Ela no podia suportar isso.
        Saia, Mitch. Juro por Deus, eu vou atirar.
Ela escutou uma comoo dentro da casa. Portas batendo.
Homens correndo. Por baixo das pernas de Mitch, viu que
Lenny estava quase na casa de hspedes. Pelo canto do olho,
viu John Merrivale correndo pela casa gritando, sacudindo
uma arma. Os passos atrs ficaram mais altos.
        Polcia! Soltem suas armas!
Era agora ou nunca.
Grace disparou sua arma pela ltima vez. Observou
horrorizada enquanto Mitch rolava pelo gramado, a bala
rasgando sua carne. Mitch! Ela gritou, mas no saiu nenhum
som. Sentia sua pele, seus braos, suas pernas tambm
alvejados, a dor como lminas a cortando. Ela estava na
grama, sangrando. O som sumiu. Grace abriu o olho e s viu
um bal silencioso de ps correndo. Mitch estava imvel,
cado na relva. Procurou Lenny, mas no conseguiu v-lo,
apenas a neblina vermelha de seu prprio sangue apagando o
sol, o cu e as rvores, caindo sobre ela como um veludo
pesado no palco de um teatro: sua ltima cortina.
Captulo 39
NOVA YORK, UM MS DEPOIS
A mulher na sala de espera do hospital sussurrou
para a filha:
         ela?
A filha balanou a cabea.
        Acho que no.  Normalmente no teria hesitado tanto.
Estava sempre atenta a todas as fofocas que saam nas re-
vistas e se orgulhava de conseguir detectar uma celebridade
a 50 metros de distncia. culos escuros e cachecis
cobrindo a cabea no a enganavam. Mas naquele caso... A
mulher se parecia um pouco com ela. Parecia muito com
ela, se olhasse cada trao. Os lbios de cupido, a covinha no
queixo, os olhos grandes e a delicada linha do nariz. Ainda
assim, de alguma forma, quando juntava tudo, o rosto
parecia... menos. Menos bonito. Menos impressionante.
Menos especial. Combinado a isso, havia as roupas
desmazeladas, a saia de l cinza e a camisa branca simples e...
no. No era ela.
        Sra. Richards?
A me da menina olhou.
        Pode entrar agora. Seu marido est acordado.
Me e filha saram da sala de espera. Ao passarem pela mu-
lher parecida, ambas olharam sorrateiramente. De perto, ela
parecia ainda menor. Era quase como se ela tivesse projetado
o anonimato, da mesma forma que outras pessoas, estrelas,
emitem carisma ou sensualidade.
        Pobrezinha  disse a me.  Parece um ratinho. Quem
ser que ela est visitando?
Grace ficou feliz quando as mulheres foram embora. Ainda
eram 7 horas. Tivera esperanas de encontrar a sala de
espera vazia. Estava cada vez mais difcil ficar perto de
outras pessoas. De qualquer pessoa. Logo deixaria os Estados
Unidos para sempre. Encontraria algum lugar tranquilo, um
refgio onde ningum a conhecesse nem se importasse com
seu passado. Um mosteiro, talvez, na Espanha ou na Grcia,
se a aceitassem. Eles vo me aceitar.  isso que fazem, no ?
Oferecem um santurio aos pecadores, aos criminosos e aos
pobres. Eu me qualifico nas trs opes. Segundo seu novo
advogado, ela logo teria direito a uma compensao federal.
        Ser uma boa quantia em dinheiro. No tanto quanto
voc estava acostumada, mas certamente na casa dos sete
dgitos.
Grace no estava interessada. O que quer que o governo lhe
desse, mandaria diretamente para Karen Willis e Cora
Budds. Devia a elas sua liberdade, uma dvida que no tinha
preo. Alm disso, Grace no tinha com que gastar o dinhei-
ro. Tudo que queria era ir embora. Mas no podia ainda. No
antes de saber se ele estava bem. No antes que tivesse uma
chance de se explicar.
Tocou a cicatriz em seu brao, onde a bala entrara. Ela mes-
ma tinha quatro cicatrizes parecidas, na perna, no quadril e
no ombro. Voc tem sorte de estar viva, o mdico dissera. E
Grace sorrira e se perguntara: Tenho sorte mesmo? Era
incrvel como o corpo conseguia se recuperar rpido. Mas o
esprito no era assim to resiliente.
Sem Lenny, Grace Brookstein no sabia mais qual era a
razo de sua vida.
A historia do tiroteio em Le Cocon, da morte sensacional de
John Merrivale e a priso de Lenny Brookstein tinha sido
noticiada no mundo inteiro. As autoridades de Madagascar
fizeram um esforo simblico para impedir que levassem
Lenny de volta para os Estados Unidos, mas uma ligao do
prprio presidente americano, alm de algumas promessas
de investimento substancial em vrios projetos de infra-
estrutura da ilha, logo fizeram com que mudassem de idia.
Harry Bain avisou a polcia local.
        O Sr. Brookstein est voltando para seu pas de livre e
espontnea vontade para receber tratamento mdico
urgente. Assim que se recuperar, se isso acontecer, o futuro
dele ser decidido pela Justia dos Estados Unidos.
Foi Bain quem conseguiu entrar em contato com a polcia
local e mandar reforos para Le Cocon naquele dia. Assim
que escutou as mensagens de Mitch, ligou na mesma hora
para o chefe de polcia de Antananarivo e o colocou a par de
tudo.
        Teria sido mais fcil se vocs tivessem sido honestos
conosco sobre sua presena em Madagascar  disse o chefe
de polcia, sendo rgido. Harry Bain precisara bajular o
homem at que ele concordasse em mandar reforos para a
manso. Mas, graas a Deus, ele mandara. Quando chegaram
l, Lenny Brookstein j tinha levado um tiro no estmago e
um na virilha. Se Grace tivesse apontado um pouco mais
para cima, teria atingido a artria coronria e poupado os
Estados Unidos de seu julgamento mais sensacionalista e
chocante desde... bem, desde o dela mesma. Aps uma cara
cirurgia, Lenny sobreviveu. Antes que ele soubesse onde
estava, o FBI mandou que o mantivessem fortemente sedado
e o levou de volta para o pas em um avio militar. Estava
tudo terminado antes que algum pudesse dizer "violao
dos direitos humanos", muito menos "denegao de justia".
Por duas semanas, ningum sabia se Mitch Connors teria a
mesma sorte. A vida dele estava por um fio. Grace ficou
aterrorizada quando soube que uma bala sua tinha se alojado
na espinha dele, mas os policiais lhe asseguraram que havia
sido John Merrivale quem quase o matara. Quando a polcia
apareceu, eles gritaram para John soltar a arma, mas ele
continuou atirando indiscriminadamente, em Grace e neles.
No tiveram alternativa a no ser atirar tambm.
Primeiro, Grace ficou feliz ao saber que John estava morto.
Mas conforme as semanas foram passando, sua felicidade foi
desaparecendo. O que isso importava? O que tudo isso
importava: a morte de John, o julgamento de Lenny (por
fraude e assassinato) e sentena de morte por injeo letal, e
o perdo presidencial a ela prpria? Nada disso lhe traria sua
antiga vida de volta, ou ajudaria as pessoas cujas vidas foram
arruinadas pelo Quorum. Nada disso faria Mitch Connors
ficar bom, ou traria Maria Preston, ou Andrew, ou aquela
alma infeliz de Nantucket de volta. Tudo era completamente
intil. Justia tinha se tornado uma mera palavra, letras em
uma pgina, destituda de significado. No haveria justia,
encerramento, nem final satisfatrio. A coisa toda era uma
farsa, um jogo. Grace mesmo tinha sido perdoada, no
porque fosse inocente, mas porque era um constrangimento
para as autoridades admitir que ela tinha fugido duas vezes e
que havia sido ela, no eles, que encontrara Lenny e
descobrira a verdade sobre a fraude do Quorum.
        Estou convencido de que Grace Brookstein foi uma
vtima da falsidade de seu marido tanto quanto s milhares
de outras pessoas que sofreram nas mos dele  disse o
presidente.
E o pas aplaudiu.
         claro que ela foi. Pobrezinha.
Agora, tinham o seu vilo, seu pedao de carne. Lenny
Brookstein seria mandado para a priso de segurana mxima
do Colorado, a mais rgida do continente, casa dos mais
perigosos terroristas islmicos e assassinos de crianas. A
pea estava em seu terceiro ato, e no havia uma herona
trgica convincente. Quem melhor para assumir o papel de
Grace? Afinal, o show tem de continuar.
Uma enfermeira bateu no ombro de Grace.
        Boas notcias. Ele est acordado. Gostaria de entrar?
MITCH ESTAVA plido e magro. Grace tentou no parecer
chocada. Ele deve ter perdido uns 20 quilos. Quando ele a
viu, sorriu.
        Ol, estranha.
        Ol.
Havia tanto para ser dito, mas, naquele momento, Grace no
conseguia pensar em uma nica palavra. Ento, pegou as
mos de Mitch e as acariciou.
        Fiquei sabendo que voc testemunhou contra Lenny no
julgamento.
        Verdade. No precisei ir pessoalmente. Deixaram que
fizesse uma declarao.
        Ele foi condenado  morte?
Ela assentiu.
        Ento, seu testemunho deve ter ajudado
        Duvido. Ele admitiu tudo. Depois que souberam do
assassinato, a farsa chegou ao fim. Mas acho que ele queria
que todos soubessem como tinha sido esperto. Ele no
parecia chateado no julgamento. Era quase como se estivesse
se divertindo.
Mitch balanou a cabea, incrdulo.
        Ele ainda no se considera culpado, no ?
        Nem um pouco.  Ela fez uma pausa.  Vai ser execu-
tado hoje. Abriu mo de entrar com qualquer apelao.
Por alguns minutos, ambos ficaram em silncio. Ento,
Mitch disse:
        Sei que vai parecer uma pergunta ridcula. Mas voc ainda
sente alguma coisa por ele? Saber que ele vai morrer. Isso
no a deixa triste?
        No.  Grace ficou pensativa.  No  que eu no tenha
sentimentos por ele. O mais certo seria dizer que no tenho
sentimentos, ponto. Estou entorpecida.
Mitch apertou a mo dela.
        Leva tempo, s isso. Voc passou por muita coisa.
        Para ser franca, eu no sei se quero voltar a sentir alguma
coisa. Quero paz.
Ela olhou pela janela. Era final de maio, e a primavera se
espalhava pelas rvores na calada, explodindo em flores, o
cu azul vivo com pssaros e alegria. Grace pensou: Fico
feliz que a vida continue, que seja linda. Mas no posso mais
fazer parte dela.
        Sabe quem me ligou um dia desses?
Mitch balanou a cabea.
        Quem?
        Honor. O FBI contou a ela sobre Jack e Jasmine. Ele
decidiu no concorrer de novo ao Senado. Eles vo se
divorciar.
        Ela ligou para voc para contar isso?
Grace riu.
        Eu sei. Como se ns pudssemos continuar de onde
paramos. Na verdade, foi exatamente o que ela disse: "No
podemos ser irms de novo?" Connie e Mike se mudaram
para a Europa, ento acho que ela est se sentindo sozinha.
Lenny disse algo parecido em Le Cocon. Ele achou que eu
fosse ficar l com ele e John. Que ns trs podamos ficar
escondidos em Madagascar juntos e viver felizes para
sempre. "Como nos velhos tempos", foi o que ele disse.
        Est brincando?  Mitch arregalou os olhos.  O que
voc disse?
        Eu no disse nada. Atirei nele.  Grace sorriu, e Mitch se
lembrou de tudo que amava nela. Ela acha que est morta
por dentro, mas no est. S est hibernando.
Grace se levantou e foi at a janela. Mitch observou-a, seus
passos graciosos e fluidos de bailarina. Enquanto ele era o
policial e ela a fugitiva, ele se forara a esconder seus
sentimentos. Agora que estava tudo terminado, no podia
mais se segurar. Sentiu o desejo atingir-lhe como um soco
no estmago.
Eu a amo.
Eu a desejo.
Eu posso faz-la feliz.
        O qu?  Grace se virou, como que o acusando.
Mitch corou. Ser que tinha falado em voz alta? Devia ter
falado. Ele se levantou um pouco nos travesseiros.
        Estou apaixonado por voc, Grace. Sinto muito se isso
complica as coisas. Mas eu estou.
O rosto de Grace amoleceu. Gostava de Mitch, no fim das
contas. E ele arriscara a prpria vida para tentar salvar a dela.
Nao havia motivo para ficar com raiva dele. Mas amor? No.
No poderia amar de novo. No depois de Lenny. Amor era
uma fantasia. No existia.
Mitch disse:
        Acho que podamos nos casar.
Grace soltou uma gargalhada.
        Casar?
        Isso. Por que no?
Por que no? Grace pensou em Lenny. Em seu lindo
casamento em Nantucket, sua felicidade como uma jovem
noiva, suas esperanas e sonhos. Eles no tinham sido
apenas destrudos, mas tambm incinerados, aniquilados,
virado cinzas junto com a garota feliz e crdula que ela fora
um dia.
Quando a noite casse, Lenny j estaria morto.
As chances de Grace se casar de novo eram as mesmas de ir
para a Lua.
        Nunca mais vou me casar, Mitch. Nunca.
Ao escut-la dizer as palavras, Mitch soube que ela falava
srio.
        Vou embora.
Mitch sentiu um aperto no peito. O pnico tomou conta
dele.
        Embora? Como assim? Para onde? Vai embora do
hospital?
        Vou embora do pas.
        No, no vai. Voc no pode!
        Eu preciso.
        Mas por qu? Para onde voc iria?
Inclinando-se, Grace lhe deu um beijo, somente um, na bo-
ca. Foi um beijo curto, no sexual, mas carinhoso, quase
maternal. Fez com que Mitch tivesse vontade de chorar.
        No sei para onde eu vou. Algum lugar tranquilo e
afastado. Algum lugar onde eu possa viver de forma simples
e em paz.
        Isso  ridculo. Voc pode viver de forma simples comi-
go.  Ele pegou o rosto dela nas mos, desejando que ela o
escutasse, o amasse, que acreditasse que ele a amava. 
Posso viver de forma simples. Voc quer uma coisa simples,
precisa ver meu apartamento.  to simples que confiscaram
meus mveis.
Apesar de tudo, Grace sorriu. Foi uma pequena fresta na
armadura dela. Mitch mergulhou nela.
        Gostou? Meu Deus, se voc quer simplicidade, eu sou a
pessoa certa. Posso at pedir falncia. Pizza fria para o caf
da manh? Tenho. Com um pouco mais de esforo, posso
at fazer com que cortem a eletricidade em meu
apartamento. Podemos ficar no escuro, embaixo das
cobertas e cantarolar.
        Pare.  Grace riu.
Mitch levou a mo dela at seus lbios, beijando um dedo de
cada vez.
        Vou lhe dizer uma coisa. Esqueo essa histria de
casamento se voc esquecer essa de ir embora. Apenas...
diga que vai jantar comigo quando me derem alta daqui.
Grace hesitou.
        Por favor! Um jantar apenas! Voc me deve pelo menos
isso.
Era verdade. Ela devia isso a ele.
        Tudo bem. Um jantar. Mas no posso prometer mais
nada.
Captulo 40
Lenny Brookstein olhou as correias na
cama e sentiu o medo tomar conta dele. Disse a si mesmo
que no era a morte que o assustava. Era morrer assim,
segundo a vontade de outra pessoa. Mas agora que estava ali,
percebeu que estava enganando a si mesmo. Eu no quero
morrer. Quero viver.
        No!  Ele entrou em pnico, tentando sair correndo do
quarto.  Eu... eu no posso! Algum me ajude!
Mos fortes e msculas o seguraram.
        Calma.
Esforou-se para se acalmar. O quarto era limpo, branco e
higienizado, como um hospital. Os trs homens que estavam
ali dentro pareciam mdicos, com seus uniformes azuis e
suas mscaras e luvas de plstico. Mas no estavam ali para
cuidar dele.
Aps todos os anos de luta, no final, tinha chegado a isso.
Teria entrado com um recurso se houvesse a mais remota
chance de sucesso, mas Lenny era inteligente o suficiente
para saber que no havia, e orgulhoso demais para jogar um
jogo que no podia vencer. Alm do mais, para que lhe
serviriam mais dez anos de vida na cadeia? J tinha perdido
uns 5 quilos e s estava ali fazia algumas semanas. Ele no
daria a comida da priso nem para um cachorro.
Dois dos mdicos se aproximaram para ajud-lo a subir na
maca, mas ele os afastou, furioso.
        Fao isso sozinho.
Ele se deitou na maca. Os mdicos amarraram as correias.
Lenny ficou constrangido ao perceber que suas pernas
estavam tremendo. Um dia, controlara um imprio que valia
mais do que o produto interno bruto de alguns pases. Agora
no conseguia nem controlar o prprio corpo.
Virou-se para o lado e viu o rabino da penitenciria de p
em um canto do quarto, constrangido.
        O que ele est fazendo aqui? Eu disse que no queria
ningum.
O rabino deu um passo  frente.
        Eles vo sed-lo logo, Lenny. Queria lhe dar a chance de
rezar comigo antes. Ou saber se h algo que voc gostaria de
dizer.
        No.
        No  tarde demais para se arrepender de seus pecados. A
misericrdia do Senhor  infinita.
Lenny fechou os olhos.
        No tenho nada a dizer.
Sentiu a agulha entrar em seu brao. Por um momento, o
terror tomou conta dele de novo. Queria vomitar, mas seu
estmago estava vazio. Seus intestinos tambm, graas a
Deus. Poucos segundos depois, os sedativos comearam a
fazer efeito. Lenny sentiu sua frequncia cardaca diminuir,
e uma sensao de sonolncia o envolveu.
Pensou na me. Ela estava usando um bonito vestido floral,
e danava pela cozinha, e seu pai estava bbado de novo e
gritando com ela:
        Rachel! Venha aqui!  E ento ele se aproximou dela,
cambaleante, e lhe deu um tapa, e Lenny quis mat-lo...
Pensou no Baile do Quorum. Era 1998 e ele era intocvel,
um deus, assistindo aos meros mortais de Wall Street
competirem para ver quem conseguiria chegar perto dele,
tocar sua roupa ou ouvi-lo falar. Gostaria que sua me tivesse
visto isso...
Pensou em Grace, no seu rosto inocente e crdulo, seu lindo
corpo nu, que j fora sua fonte de prazer. Ela estava falando
com ele, cantando com sua vozinha infantil. No quero
filhos, Lenny. Estou to feliz como estamos. No h nada
faltando, e ele abriu a boca para falar que a amava, que
tambm no lhe faltava nada, mas, ento, o rosto dela
mudou e ela ficou velha, triste e furiosa, e estava apontando
uma arma para ele, no apenas apontando, mas atirando,
uma vez, e outra e outra, bang, bang, bang, e John Merrivale
estava gritando, NO!, mas os tiros continuavam vindo.
Estava no barco, exausto, a machadinha ainda na sua mo.
Tentava se levantar, mas no conseguia; estava
escorregando. O deque estava escorregadio de sangue e gua
da tempestade, e o barco estava sacudindo, balanando
violentamente, e ele teve certeza de que seria jogado no
mar. Ento escutou o helicptero lutando contra o vento
como um inseto gigantesco, e Graydon abaixou a corda e ele
estava subindo, agarrando-se  prpria vida, subindo para o
cu, e Graydon desapareceu, e sua me apareceu de novo.
Venha, Lenny, querido. Voc pode fazer o que quiser... E
ele gritou:
        Estou indo, me! Estou indo. Espere por mim!  E os
braos dela o envolveram e ele nunca se sentiu mais feliz na
vida.
O Rabino olhou para os mdicos.
         isso?
         isso  disse um.  Ele morreu.
        Isso no  justo  disse outro.  Um aougueiro cruel
como ele morrer com um sorriso nos lbios. Ele deveria ter
sofrido.
O rabino no respondeu, apenas saiu, triste.
EPLOGO
Grace saiu do hospital e desceu a rua. Era um maravilhoso
dia de primavera em Nova York, o sol brilhando, mais
vibrante e vivo do que ela se lembrava. As ruas estavam
cheias de gente, correndo para resolver os problemas de suas
vidas como se fossem muito importantes. Era ao mesmo
tempo familiar e estranho, como andar em um sonho que j
tivera muitas vezes.
Estava viva. Estava livre. Sabia que essas coisas deveriam
deix-la feliz. Ser que algum dia se sentiria feliz de novo?
Olhando para trs, na direo do hospital, pensou com
carinho em Mitch Connors. Mitch era um bom homem.
Generoso. Grace sentira isso desde o incio. Em uma outra
vida, em um outro sonho, eu poderia t-lo amado. Mas a
chance tinha passado, como uma pena ao vento. Ela sabia
que nunca mais voltaria.
Ser que realmente sairia do pas? Provavelmente. Ou, tal-
vez, simplesmente sumiria nele, como j fizera antes,
desaparecendo no reconfortante anonimato da cidade.
Virando a esquina, Grace Brookstein foi na direo da es-
tao de metr. A multido se abriu para deix-la passar, de-
pois envolveu-a como um tero.
Ela desapareceu.

fim
